Do mesmo autor de O Último Unicórnio, ou We Never Talk About My Brother esta antologia pode ser dividida em três partes, duas de contos e uma de pequenas crónicas ou ensaios. A segunda secção é composta por alguns dos primeiros contos do autor, como Telephone Call, a primeira história pela qual terá sido pago; enquanto que a primeira parte possui histórias mais amadurecidas e mais características de Peter S. Beagle.

Ainda que os contos iniciais que compõe a segunda parte me tenham parecido algo desprovidos de sentido ou com falta de objectividade, as histórias das primeiras 120 páginas são excepcionais, relembrando alguma da originalidade que se pode ler em We Never Talk About My Brother.

Professor Gottesman and The Indian Rhinoceros é a história que abre o livro, sendo também aquela onde se origina o título da antologia. Gottesman é um professor de filosofia na Universidade, e visitado pela família, resolve conhecer o zoo com a sobrinha, fascinada por tigres. Mas à sobrinha apenas interessam esses felinos de grande porte, e é com espanto que Gottesman inicia conversa com um rinoceronte que se apresenta como unicórnio. O culto rinoceronte irá segui-lo até casa e com ele partilhar longos serões de debate.

Segue-se Come Lady Death, um conto em que uma aristocrata inglesa se aborrece com as sucessivas e esplendorosas festas, sempre semelhantes às anteriores, e resolve ter como convidada principal, a Morte. Mas esta não possui o aspecto fúnebre e tenebroso que se esperava, assemelhando-se antes a uma tímida e bela jovem que todos encanta.

Em Lila The Werewolf um rapaz descobre que a namorada é um lobisomem, quando, numa noite que esta passa fora de casa, um lobo aparece no quarto manchado de sangue e se transforma na rapariga que conhece. Ainda que tente esquecer esta estranha característica da namorada, é recordado todos os meses quando descobre que os cães da vizinhança morrem às dentadas de um lobo.

Julie’s Unicorn é o quarto conto, uma pequena história em que uma jovem liberta um unicórnio de um quadro medieval, um ser tão pequeno quanto um gato bebé, que busca incessantemente algo ou alguém e mais não sabe senão balir.  Esta é outra história com unicórnios, que parecem constituir uma obsessão do autor e aparecem sempre de forma diferente. O unicórnio ora é descrito como uma criatura indefesa, ora como um rinoceronte disfarçado, ou ainda como um cavalo branco, orgulhoso e imortal que habita o interior de densas florestas.

Estas foram, para mim, as histórias mais significativas da antologia – quatro belíssimas histórias que não são balanceadas pelas restantes páginas, mas que valem a aquisição do pequeno livro; bastante díspares em premissa, mas sempre com algo de fantástico ou surreal, com uma exploração original das comuns figuras míticas.

Há livros que desejamos ler assim que lemos a sinopse – este foi um desses casos. À semelhança de outras livros recentemente lançados (como o The City & The City de Mieville) The Other City fala de cidades dentro de outras cidades, outras realidades entrelaçadas com aquela em que vivemos, por vezes fascinantes pela sua beleza, outras vezes fascinantes pelos horrores que nelas habitam.

The Other City é uma obra checa que decorre em Praga, na qual existem indícios de uma outra cidade – descobrem-se livros repletos de outro dialecto, no fundo dos nossos quartos ignoram-se os monstros de infância, ou um carro verde rapta pessoas que nunca mais serão vistas, senão em reflexos de uma janela.

Alguns dos habitantes dessa outra cidade são-no também de Praga, protegendo as fronteiras ou escondendo as pistas de uma outra realidade, onde prevalecem os cultos, os monstros ou os peixes voadores. A cidade oculta esconde tanto maravilhas como feitos perversos e horripilantes, provindos de um raciocínio dispare ao que estamos habituados.

Ainda que se inicie lentamente, o leitor é sugado para o estranho mundo onde se sucedem os cenários surreais, desde um peixe voador às catacumbas de uma biblioteca que lentamente se transforma numa selva com seres que imitam as páginas de um livro ou as palavras de uma página – sendo esta, para mim, uma das melhores cenas do livro.

Na realidade, as primeiras páginas, compostas por longos e densos parágrafos, são difíceis de ultrapassar. Não possuem, no entanto, factos desnecessários, e com o desenrolar dos acontecimentos, a história ganha interesse e prossegue ao seu próprio ritmo, num tom surreal que rodeia toda a narrativa, tornando-se numa das melhores histórias que li nos últimos tempos.

Este mês, pela Gailivro, chega-nos mais um livro de Christopher Moore - Guia Prático Para Cuidar de Demónios; cujo títulos nos faz antever mais uma obra de humor peculiar:

Nesta engenhosa narrativa de Moore encontramos um dos pares mais dissonantes de que há memória nos anais da Literatura. O bem parecido é um exseminarista e académico «de estrada», de cem anos de idade, Travis OHearn. O verde é Catch, um demónio com o péssimo hábito de comer praticamente todas as pessoas que conhece. Por detrás da falsa fachada Tudor de Pine Cove, Catch vê um bufete de quatro estrelas. E Travis julga ter descoberto a forma de se livrar do seu companheiro de viagem, de dentes aguçados. Mas, entretanto, os bêbados, as neo-pagãs e os sedutores caloteiros de Pine Cove têm outros planos. E ninguém está minimamente preparado, quando o inferno estoira!

Pela Saída de Emergência, foi lançado, ontemCom a Cabeça na Lua, uma antologia comemorativa dos 40 anos da chegada à Lua:

Em 20 de Julho de 1969, Neil Armstrong tornava-se o primeiro homem a pisar o solo lunar e, consequentemente, o primeiro ser humano a visitar um outro mundo que não a Terra. O feito, desde então inigualado, permanece como o maior desafio tecnológico a que a Humanidade se propôs. Antes, porém, de o Programa Apollo ter proporcionado o célebre pequeno passo para o Homem, um salto de gigante para a Humanidade, inúmeros autores de Ficção Científica – até então considerada um género menor – tinham levado o Homem à Lua pelos mais variados meios e pelos mais diversos motivos.

Segundo o organizador, João Seixas, as histórias estarão organizadas em torno do trio do autor Robert A. Heinlein – O Homem que Vendeu a Lua, Umas Férias Na Lua e Requiem. Para além destes três podemos encontrar histórias de Vic Phillips, Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, Frank M. Robinson, Poul Anderson, H. B. Fyfe e Thomas M. Disch.

A Livros de Areia, por sua vez, lança Buracos Negros de Lázaro Covadlo,  o mesmo autor de Criatura da Noite, publicado em português pela mesma editora:

Após cortar a pata de um gafanhoto numa noite de Verão, um homem perde, ao longo da vida, todos os seus membros. Um outro crê que num sonho de infância, algures no País das Maravilhas, teria estado o acesso à fortuna que nunca veio. Outro ainda vê a sua vida desenrolar-se no ecrã de uma decadente sala de cinema das Caraíbas. E um outro acredita que o homem que o impediu de suicidar-se, certa noite em Mar del Plata, era o Diabo…

Também pela Saída de Emergência, continua a publicação da Série Sangue Fresco, com Dívida de Sangue. Para os interessados a editora tem, como já vem sendo habitual, um excerto disponível para leitura.

All the Windwracked Stars foi daqueles livros que me intrigou assim que saiu. A sinopse fala de uma Valquíria, a única sobrevivente de uma longa batalha, Muire, conjuntamente com uma montada alada, Kasimir. Muire não é uma guerreira verdadeira, antes uma estudiosa e historiadora que se terá acobardado e fugido da guerra.

Mingan é a terceira grande personagem desta história, filho de deuses e mais velho do que o Mundo onde vive, acompanha-o um sentimento de ódio e frustração, resultado dos anos vividos como espectador do ciclo de renovação do planeta.

Na última cidade de um Mundo decadente, onde reina a Tecnomancer, Muire descobre o rasto de Mingan, e resolver persegui-lo. Nesta busca incessante descobre velhos conhecidos, renascidos nesta época de transformação.

Apesar de pertencer a uma trilogia, All the Windwracked Stars é uma história isolada, um épico onde se conta uma batalha imortal num mundo que morre e renasce, palco do encontro e desencontro de deuses desgastados e figuras míticas. Como tal, a história não é feliz – as personagens estão desgastadas pela sua longa vivência, e carregam consigo recordações que as prendem, conhecimentos e receios alienígenas a qualquer mortal. Nesse sentido, All the Windwracked Stars recorda Viriconium, de Harrison.

All the Windwracked Stars não é excepcional, mas é uma boa e pausada leitura – o ritmo é lento, e é difícil entranhar a história nas primeiras páginas. Somos obrigados a prosseguir devagar, mas terminado o livro fica um buraco na mente causado pela sua ausência.

Fábulas do Tempo e da Eternidade é uma pequena colectânea de Cristina Lasaitis, que reune 12 contos de Ficção Científica e Fantasia. Publicada pela Tarja Livros, espero le-lo em breve.

O livro que se segue, The Palace of Dreams, é da autoria de Kadare (escritor albanês) – uma alegoria ao totalitarismo que decorre na capital do Império Otomano, escrito (conjuntamente com outras obras) como um ataque às doutrinas do regime comunista.

As cidades alternativas, fantásticas e duplas estão decididamente na moda no estilo fantástico. A par com The City & The City (de China Mieville), The Other City de Michal Ajvaz tem sido um dos livros mais referidos ultimamente.

No livro de Mieville, duas cidades co-existem espacialmente, mantendo-se separadas apenas porque os habitantes são forçados a ignorar tudo o que faça parte da outra cidade. The Other City baseia-se também na existência de uma cidade alternativa sob outra cidade, neste caso uma Praga surreal:

Borgesian cohort of freakish creatures, talking birds and eccentric city dwellers lurk on the margins of an alternative Prague. An unnamed protagonist learns that a book written in an unearthly language is an opening to a dangerous world that is just around the corner from normal life. More and more frequently, the protagonist stumbles across scenes from the other city—he spies on an inscrutable religious service, is treated to a lecture on the subject of Latest Discoveries about the Great Battle in the Bedrooms.

Greg Bear é o autor de Blood Music, um excelente livro de Ficção Científica que faz parte da colecção 8 Future Classics. Em busca de algo mais do mesmo autor, resolvi-me por Sleepside, uma colectânea de 9 contos que inclui histórias como Petra ou The White Horse Child.

The Rhinoceros Who Quoted Nietzsche and Other Odd Acquaintances é também uma colectânea, mas de Peter Beagle. Este é o terceiro livro que leio este ano do autor, e ainda que não o mais famoso dele, The Last Unicorn, não me tenha fascinado, gostei bastante das histórias curtas de We Never Talk About My Brother.

Este é o livro que estou a ler.

Vencedor do Crawford Award, e finalista do Mythopoeic Award, Pandemonium retorna aos anos 50, modificando a realidade da época. A premissa é simples – várias pessoas são possuídas por entidades estranhas com peculiares poderes, entre elas Philip K. Dick.

All the Windwracked Stars é o meu primeiro livro de Elizabeth Bear, o início de uma trilogia, ainda que possa ser lido isoladamente. Em resumo, é um épico – a história de uma batalha infinita num mundo que renasce após cada apocalipse, palco do encontro e desencontro de deuses e figuras míticas. Com bases na mitologia nórdica não é uma história feliz – as personagens são mais velhas do que o próprio mundo e consigo carregam recordações, conhecimentos e medos alienígenas a qualquer mortal.

Tim Lebbon é outros daqueles famosos autores de horror fantástico que desconheço. As the Sun Goes Down contém várias histórias, cujo único ponto em comum será o potencial para perturbar o leitor, corrompendo as noções de amor, vida, natureza, beleza ou inocência. A total lista de conteúdos pode ser visualizada no site da editora.

Também dentro do género horror encontra-se Chaos, pela Underland Press – um thriller psicológico, do qual se encontram alguns excertos disponíveis para leitura. Escober não é verdadeiramente o nome do autor, mas o nome pelo qual escreve o casal Berry Verhoef e Esther Verhoef.

Seguem-se mais dois livros do género horror – The Imago Sequence e The Strain. O primeiro é um conjunto de nove histórias, algumas nomeadas para o World Fantasy Award ou para o International Horror Guild Award. The Strain foi o livro terminado recentemente. Da autoria de Guillermo del Toro e Chuck Hogan, é o início de uma trilogia que recorda filmes de horror de série B. Os vampiros existem, mas com características bem diferentes daquelas às que estamos acostumados. Sem romantismos, com mandíbulas tão flexíveis quanto as das serpentes, são na verdade mortos vivos de baixa complexidade biológica movidos pela sede de sangue. Um velho vampiro invade os Estados Unidos e rapidamente converte vários humanos com os quais constroi um exército.

Guillermo del Toro é mais conhecido pelos seus filmes de horror fantástico como Labirinto do Fauno, El Dspinazo del Diablo ou Chronos, iniciando-se agora no mundo da escrita com The Strain, o seu primeiro livro, escrito em conjunto com Chuck Hogan.

Este é mais um livro de vampiros, mas bem diferente da vaga de vampiragem romântica que está tão em voga, relembrando antes os filmes de horror com muito sangue e acção. A premissa é simples – no dia do eclipse solar, um avião aterra misteriosamente, e todos os seus passageiros parecem mortos. Descobrem-se meia dúzia de sobreviventes, restos de dejectos numa cabina, e os corpos desaparecem misteriosamente da morgue.

Os passageiros do avião foram convertidos em vampiros, seres de mandíbula flexível e probóscis sugador,  mortos vivos de baixa complexidade biológica movidos pela sede de sangue. A conversão em massa é na verdade um plano de invasão de um vampiro antigo ajudado por um velho milionário, que terá planeado a viagem através do Atlântico.

Claro que do lado inverso existem os bons, neste caso um pequeno grupo que pretende exterminar os seres sugadores – o guru, um velho que há muitos anos persegue vampiros e possui o conhecimento e as armas adequadas; o especialista em exterminar pestes, um caçador de ratos que cedo se apercebe das mudanças na cidade; e o homem que luta pela sobrevivência da sua família, um especialista em epidemias que chefia o primeiro grupo a entrar no avião.

De leitura leve, The Strain é, como já esperava, um livro muito visual carregado de acção, quase o guião de um filme de terror que ao invés de zombies tem vampiros meio mortos que se arrastam e que por pouco não esticam os braços e dizem sangue (e não brains). As cenas macabras proliferam – pequenos pormenores no método de propagação e desenvolvimento da doença ou cabeças cortadas e linfa branca e viscosa.

O primeiro volume de uma trilogia, The Strain é um livro engraçado e de leitura divertida para quem gosta do género, quase uma leitura de Verão.

Depois de anunciados os finalistas, foram recentemente nomeados os vencedores:

  • Science Fiction Novel: Anathem, Neal Stephenson
  • Fantasy Novel: Lavinia, Ursula K. Le Guin (Harcourt)
  • First Novel: Singularity’s Ring, Paul Melko (Tor)
  • Young-Adult Book: The Graveyard Book, Neil Gaiman
  • Novella: “Pretty Monsters”, Kelly Link
  • Novelette: “Pump Six”, Paolo Bacigalupi
  • Short Story: “Exhalation”, Ted Chiang
  • Anthology: The Year’s Best Science Fiction: Twenty-Fifth Annual Collection, Gardner Dozois, ed.
  • Collection: Pump Six and Other Stories, Paolo Bacigalupi

A obra de Neal Stephenson tem sido uma das mais referenciadas desde o seu lançamento, e talvez por isso a sua nomeação não me espantou. Idem aspas para a categoria Young-Adult Novel, ainda que ao lado de The Graveyard Book estivesse Little Brother.

De entre os nomeados ainda não tive oportunidade de pegar em nenhum, mas City at the End of Time, Anathem, The Dragons of Babel e The Graveyard Book são aqueles que me despertaram maior interesse.

Espantar, espantar, espantou-me Paolo Bacigalupi que conseguiu arrebatar dois prémios, um pela Novela Pump-Six (sobre a qual já tinha falado há alguns meses),  e outra pela colectânea que contém esta mesma novela.

The Fifth Head of Cerberus de Gene Wolfe, é a leitura próxima leitura proposta, a terminar a 21 de  Julho.

O nome Christopher Barzak apareceu-me pela primeira vez entre os autores dos livros da lista preliminar de nomeados para o prémio Nebula. O livro, One for Sorrow. A descrição disponível na net indicava uma obra com laivos fantásticos um pouco diferente do que é habitual, criada em resposta a The Catcher in the Rye:

Part thriller, part ghost tale, part love story, One for Sorrow is a novel as timeless as The Catcher in the Rye and as hauntingly lyrical as The Lovely Bones. Christopher Barzak’s stunning debut tells of a teenage boy’s coming-of-age that begins with a shocking murder and ends with a reason to hope.

Nomeado para uma série de prémios pouco conhecidos, One for Sorrow é a primeira obra de Christopher Barzak. Curiosa, comprei o segundo livro do autor, The Love We Share Without Knowing, acessível nos vendedores que costumo utilizar.

Também com uma componente sobrenatural (fantasmas), The Love We Share Without Knowing explora os relacionamentos amorosos e as amizades que se estabelecem entre americanos ou ingleses que decidem viver durante algum tempo no Japão, e os nativos.

Em todos os casos existe decididamente um choque cultural – a subtileza do japonês contrasta com a frontalidade ocidental, e ainda que a princípio pareça fácil conhecer novas pessoas, estas desaparecem tão facilmente quanto aparecem, satisfeita a curiosidade.

Cada capítulo é uma história que se interliga com as restantes, contando várias perspectivas de uma mais complexa e que envolve várias personagens. Um dos temas bastante referido é o suicídio, mais especificamente o colectivo; assim como a solidão numa multidão.

Na primeira história, um jovem americano é obrigado a mudar-se para o Japão com a família e numa das viagens à cidade conhece uma rapariga vestida de rapousa, Midori. Quando tenta, no dia seguinte, re-encontrá-la em casa, descobre pelo pai que Midori se suicidou vários anos antes.

O suicídio de Midori não é o único de que tomamos conhecimento, e anos depois a melhor amiga de Midori participa num suicídio colectivo.  Os participantes são pessoas que não descobriram qualquer sentido para a vida que levam, nem estabeleceram relações duradoiras que os satisfaçam. Ao londo das várias histórias vamos conhecendo cada um, directa ou indirectamente, por relato em primeira mão, ou por observação de um amigo ou amante.

Alguns dos conceitos culturais revelados em The Love We Share Without Knowing são-me completamente alienígenas – a crença de que uma mulher se não casa até aos trinta está acabada, a existência de profissões destinadas ao sexo feminino, a forma como as pessoas evitam confrontos emocionais ou como se preocupam mais com o pensamento dos vizinhos do que com o sentimento dos familiares. Se algumas ideias parecem saídas de uma sociedade medieval, outras parecem provir de uma do século XXI.

Talvez por isso, aquilo que mais senti durante o livro foi estranheza – algumas passagens são belíssimas, outras são algo decepcionantes pelo resultado do confronto entre culturas. Nalguns casos parece existir eternamente uma barreira composta de expectativas e preconceitos que impede a correcta comunicação entre as pessoas – uma pré-formatação da mente que tenta encaixar os novos conhecimentos naqueles que já possui. Este foi o facto mais arrepiante das histórias – não os suicídios ou os fantasmas; mas a incapacidade de ver o outro através do filtro que cada mente estabelece, algo que acontece diariamente, inclusive entre pessoas da mesma cultura.

Não se tornou um dos meus livros favoritos, mas deixou-me um espaço para reflexão e talvez faça aquilo que raramente faço com um livro – repetir a leitura. Não é um livro de fadas e dragões, e muito menos alegre – possui alguma melancolia e tristeza mas também amor e alegria, como não podia deixar de ser num livro que explora os relacionamentos humanos.

The Atrocity Exhibition é uma das obras mais controversas de J. G. Ballard, um dos mais conhecidos escritores ingleses de Ficção Científica. Recentemente falecido, resolvi-me a adquirir algumas das suas obras e talvez tenha começado a ler pelo livro errado.

The Atrocity Exhibition é um conjunto experimental de pequenas histórias, cujas partes possuem títulos como Why I Want to Fuck Ronald Reagan ou Love and Napalm: Export USA, e cuja premissa de um conto terá sido aproveitada e expandida para escrever Crash, um dos livros mais conhecidos do autor.

Experimental talvez seja realmente a melhor palavra que define The Atrocity Exhibition, um livro composto por vários fragmentos de histórias, algumas que se intercalam, sem ordem nem sequência lógica, outras que permanecem isoladas e quase descontextualizadas. Estes fragmentos reflectem, por vezes, a mente de um médico demente, que encena, vezes sem conta, a morte de figuras públicas ou pessoas mais próximas, talvez para lhes dar algum sentido.

Entre esses pedaços de histórias, lemos a ideia que supostamente irá dar ideia a Crash - a sensualidade de um desastre de automável, o acto simbólico do coito num embate de metal, a transposição da derradeira barreira que afasta dois amantes.

No final, vi-me a acelerar a leitura, não por estar ciosa pelo final (que na realidade não existe neste conjunto pouco coeso de pedaços), mas porque não apreciei este género de escrita ou disposição de pensamentos. Decididamente, não me captou e nada tem a ver com as atrocidades descritas que me passaram ao lado, friamente, sem acordar qualquer sentimento relevante. Talvez não seja o meu género de livro.

O Último Unicórnio será, sem dúvida, um dos livros mais conhecidos de Peter S. Beagle e o único, até agora, que tive oportunidade de ler.

We Never Talk About My Brother é um daqueles livros cujo título não me fascina – lembra-me demasiado algum romance trágico, sentimental, meloso e cor-de-rosa. Não é o caso. Na realidade é uma pequena antologia de contos  com pitadas fantásticas, pequenas histórias fascinantes e originais aconselháveis a qualquer leitor do género.

O livro abre com Uncle Chain and Aunt Rifke and The Angel, o conto responsável pela ilustração da capa e que conta como um anjo desce à terra para servir de inspiração a um pintor. Apesar das asas o anjo nem sempre se comporta angelicamente e em busca do quadro perfeito o tio do narrador pinta quadro após quadro, com obsessão crescente.

Segue-se o conto que dá nome ao livro, We Never Talk About My Brother, que narra como um rapaz se apercebe que o irmão mais novo poderá controlar a ordem dos acontecimentos, fazendo morrer alguém no passado ou provocando imensas catástrofes, a seu belo prazer, por vingança ou ciúme.

The Tale of Junko and Sayuri é a terceira história e uma das mais fascinantes do livro, contando como um jovem de classe baixa se eleva na sociedade feudal japonesa e arranja uma esposa com a capacidade de se transformar em qualquer animal.

King Pelles The Sure foi outro dos contos que se realçou – num reino estável e  próspero, o rei anseia por canções bélicas que imortalizem o seu nome. Para tal terá de ser induzida uma pequena guerra, uma pequena escaramuça com um vizinho fraco. Não conta, no entanto, com o ciúme dos restantes reinos circundantes que rapidamente tecem alianças contra ele.

Para além destas histórias, um americano transforma-se gradualmente num francês de gema, um fantasma força o morador da casa para um duelo (mas tomando como arma, poemas), um fugitivo encontra esconderijo junto de um velhote com estranhos poderes e um poema relata a história por detrás das Tapecearias do Unicórnio. Estes contos quase que seriam histórias normais não fosse algum elemento perturbador que pode conferir ironia, tragicidade ou apenas estranheza.

Concluindo, apesar da impressão inicial conferida pelo título, o conjunto de histórias revelou-se original e interessante, conseguindo fazer-me lembrar num ou outro conto um dos meus autores preferidos de histórias curtas, Zoran Zivkovic.

Os Mythopoeic Award são escolhidos pelos membros da Mythopoeic Society, e seleccionados por um comité da mesma sociedade. Esta possui como objectivo a promoção do estudo, discussão e entusiasmo pela literatura fantástica ou mitológica.

O prémio possui quatro categorias (Adult Literature, Children’s Literature, The Mythopoeic Scholarship Award in Inklings Studies e The Mythopoeic Scholarship Award in Myth and Fantasy Studies).

Entre os vencedores dos anos anteriores encontram-se autores como Peter Beagle, Michael Bishop, Tim Powers, Patricia A. McKillip, Susanna Clarke ou Neil Gaiman.

Os nomeados deste ano foram já anunciados.

Adult Literature

  • Carol Berg, Flesh and Spirit and Breath and Bone (Roc)
  • Daryl Gregory, Pandemonium (Del Rey)
  • Ursula K. Le Guin, Lavinia (Harcourt)
  • Patricia A. McKillip, The Bell at Sealey Head (Ace)
  • Gene Wolfe, An Evil Guest (Tor)

Children’s Literature

  • Kristin Cashore, Graceling (Harcourt Children’s Books)
  • Neil Gaiman, The Graveyard Book (HarperCollins)
  • Diana Wynne Jones, House of Many Ways (HarperCollins)
  • Ingrid Law, Savvy (Dial)
  • Terry Pratchett, Nation (HarperCollins)

O nome dos vencedores será conhecido na Mythcon XL, a realizar entre os dias 17 e 20 de Julho.

Mindbridge foi o meu primeiro livro de Haldeman, um autor muito referenciado, mas do qual me tinha mantido afastada até agora. Enquadrado dentro da ficção científica militar, com títulos como Forever War (Guerra Sempre pela Europa-América), War Year ou Camouflage, os livros de Haldeman pareciam afastar-se bastante do meu género de leitura e foi com surpresa que me vi a apreciar Mindbridge.

A história centra-se numa personagem masculina algo estereotipada, um homem duro com tendência para a violência, extremamente inteligente sem cair na esquizofrenia – Jacque LeFavre. Filho de um físico, facto que irá marcar toda a sua vivência, Jacque constitui parte de uma equipa de reconhecimento, que explora novos mundos potencialmente  habitáveis.

As viagens à velocidade da luz são ainda um sonho, mas graças a um acidente científico, descobriu-se uma espécie de teletransporte que permite viajar instantaneamente para um determinado local, durante um período de tempo limitado. Decorrido esse tempo, os viajantes reaparecem no local de origem. Todos os objectos que transportem consigo irão desaparecer após o mesmo tempo que durou a viagem.

Numa das primeiras explorações de Jacque são descobertos seres aparentemente simples, mas que conferem, a quem lhes toca, fortes capacidades telepáticas. Possuem também a capacidade de se defenderem, podendo induzir a morte aos seres humanos que pretendam magoá-los. Estes pequenos seres não são o único imprevisto nas explorações humanas, e será encontrada uma outra espécie sapiente mas violenta, os L’vrai.

Um dos aspectos que me cativou desde o início de Mindbridge foi a escrita – concisa, sem se perder por deambulações demasiado filosóficas, ainda que tenha algum (pequeno) espaço de meditação, carregado de discurso directo e intercalado por gráficos e esquemas explicativos (nada de complexo). Algumas das hipóteses científicas são engraçadas, assim como as  histórias paralelas que podemos encontrar dentro da história principal, um aspecto que costuma elevar a minha opinião por conferir alguma consistência.

Após a leitura e dado algum distanciamento crítico da história, verifico que alguns factos podem ser considerados forçados – Jacque tem algumas características especiais enquanto ser humano e está no local certo na hora certa, o tipo de experiências que são realizadas com seres alienígenas ou o modo como são conduzidas as expedições.

Nenhum destes aspectos nublou o meu gozo pela leitura, e no final ficou a sensação de um bom livro de ficção científica muito diferente do que esperava. Talvez um estímulo em pegar em mais alguma coisa de Joe Haldeman.

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No âmbito do Círculo de Leibowitz podem encontrar outras críticas ao livro:

Sunless Countries, de Karl Schroeder é o quarto volume da trilogia Virga, que se iniciou com o Sun of Suns e que melhorou no segundo, Queen of Candesce. Sim, não me enganei – quarto volume da trilogia. Sunless Countries constitui, segundo o autor, um livro isolado que poderá ser lido independentemente, ainda que decorra no mesmo Mundo que Virga.

A série decorre num mundo gasoso em que as nações se constroem em torno de sóis artificiais e o poder é determinado pelo acesso à gravidade e à luminosidade das estrelas artificiais. Sunless Countries decorre exactamente nas nações que a luz solar nunca atingiu:

In an ocean of weightless air where sunlight has never been seen, only the running lights of the city of Sere glitter in the dark. One woman, Leal Hieronyma Maspeth, history tutor and dreamer, lives and dreams of love among the gaslit streets and cafés. And somewhere in the abyss of wind and twisted cloud through which Sere eternally falls, a great voice has begun speaking.

As its cold words reach even to the city walls—and as outlying towns and travelers’ ships start to mysteriously disappear—only Leal has the courage to try to understand the message thundering from the distance. Even the city’s most famous and exotic visitor, the sun lighter and hero named Hayden Griffin, refuses to turn aside from his commission to build a new sun for a foreign nation. He will not become the hero that Leal knows the city needs; so in the end, it is up to her to listen, and ultimately reply, to the worldwasp.

The Very Best of Gene Wolfe é um dos próximos lançamentos da PS Publishing, um volume que reúne algumas das melhores e mais conhecidas obras, cerca de 32 histórias, de entre as quais se destacam:

  • The Fifth Head of Cerberus
  • The Island of Doctor Death and Other Stories
  • The Hero as Werwolf
  • Seven American Nights
  • The Detective of Dream
  • La Befana
  • The Eyeflash Miracles
  • The God and His Man
  • And When They Appear
  • Bed and Breakfast
  • Petting Zoo
  • The Tree is My Hat
  • Christmas Inn

Para os aficcionados em histórias de zombies, a Subterranean Press lança The New Dead, uma colectânea ilustrada com histórias de autores de vários géneros, desde mainstream, fantasia, mistério, histórico e claro, horror.

Entre os autores podemos encontrar Joe Hill, Tad William, David Liss, Tim Lebbon e Kelley Armstrong.

The 21st century has brought an explosion of interest in zombie stories. Tales of death and resurrection have never been so popular, from massive bestsellers like Max Brooks’ World War Z to dozens of young adult novels to comic book series like Robert Kirkman’s The Walking Dead and films like Shaun of the Dead. George A. Romero may have spawned the last century’s “modern” zombie story with Night of the Living Dead, but four decades have passed since then. So what accounts for the current zombie craze?

That is the question that the contributors to The New Dead were asked to ruminate upon while writing the stories in this volume. Do we turn to tales of intimacy with death to deal with its constant presence in our media and our lives? Do zombie stories provide a way to process our feelings about the horrors of war and torture? Or is it merely that death is the final frontier available to us in this new millennium, and we cannot help but explore?

Pela Dalkey Archive Press chega-nos chega-nos uma obra checa de Michal Ajvz – uma história em que a cidade de Praga é populada por fantasmas, animais que falam ou estátuas impossíveis – The Other City.

Este é daqueles livros que após ler a descrição, entrou directamente para a minha Wishlist:

The Other City is a guidebook to this invisible, “other Prague,” overlapping the workaday world: a place where libraries can turn into jungles, secret passages yawn beneath our feet, and waves lap at our bedspreads. Heir to the tradition and obsessions of Jorge Luis Borges, as well as the long and distinguished line of Czech fantasists, Ajvaz’s Other City—his first novel to be translated into English—is the emblem of all the worlds we are blind to, being caught in our own ways of seeing.

Obras como Perdido Street Station, The Scar ou Iron Council são conhecidos exemplos do género New Weird, um recente movimento literário que inclui, para além de China Mieville, autores como Jeff Vandermeer, John Harrison ou Mark. Z. Danieleewski.

Para além de Iron Council, tinha lido já, de China Mieville, Un Lun Dun, um livro mais suave e infantil que fala de uma cidade reflexo de uma outra cidade, Londres, onde a lógica que rege o nosso Mundo não se aplica. The City & The City é algo semelhante, mas ao contrário de Un Lun Dun, Neverwhere (de Neil Gaiman) ou The Secret History of Moscow (de Ekaterina Sedia) não se baseia na existência de uma cidade por detrás de outra, mas na sobreposição de duas cidades, em que ambos os lados são visíveis, mas os habitantes se ignoram mutuamente.

Beszel e Ul Qoma são os nomes das duas cidades que coexistem espacialmente, mas com línguas, costumes e economias bem distintas, separadas por um fenómeno difícil de explicar designado como “The Breach” – uma entidade que supervisiona e garante a separação das duas cidades (excepto em pontos chave, neutros), castigando aqueles que quebram as regras e por mais do que segundos, interajam com algo que pertença à outra cidade.

É na cidade menos desenvolvida e mais pobre, Beszel que se inicia a história – o corpo de uma jovem estrangeira é depositado num terreno baldio por uma carrinha que se suspeita ter provido de Ul Qoma. Tyador Borlú é o inspector da polícia chamado para resolver o crime, que cedo se apercebe da influência de forças superiores e se vê obrigado a viajar até Ul Qoma, em busca de pistas.

Ao contrário de algumas críticas que li, não achei que The City & The City fosse genial – é engraçado, bem escrito, interessante, mas faltou-lhe algo que me cativasse por completo, como aconteceu com The Iron Council. Talvez porque este último continha uma fatalidade sombria e uma estranheza fascinante que me fizeram querer ler rapidamente o livro ainda que não seja um page turner carregado de acção. The City & The City possui ainda um teor policial que achei, estranhamente, demasiado inocente.

Depois do sucesso de A Sombra do Vento, a Dom Quixote publica O Jogo do Anjo, um romance que decorre no mesmo espaço (Barcelona), numa época anterior mas com algumas das mesmas personagens secundárias.

O romance inicia-se com um parágrafo enigmático, cujo sentido apenas é percebido na totalidade, após o final da história:

Um escritor nunca esquece a primeira vez em que aceita umas moedas ou um elogio a troco de uma história. Nunca esquece a primeira vez em que sente no sangue o doce veneno da vaidade e acredita que, se conseguir que ninguém descubra a sua falta de talento, o sonho da literatura será capaz de lhe dar um tecto, um prato de comida quente ao fim do dia e aquilo por que mais anseia: ver o seu nome impresso num miserável pedaço de papel que certamente lhe sobreviverá. Um escritor está condenado a recordar esse momento pois nessa altura já está perdido e a sua alma tem preço.

Estas palavras devem-se à personagem principal, Martin, um jovem que trabalha num jornal onde começa a publicar pequenos textos, protegido por Pedro Vidal, um homem poderoso na cidade de Barcelona. A mãe de Martin terá abandonado a família vários anos antes aquando do retorno do marido da Guerra – um soldado entorpecido que da vida apenas conhece a bebida e a morte, e que após saltitar entre vários empregos aos quais não se adapta, morre às portas do jornal La Voz de La Industria como segurança.

Martin ganha o seu próprio sustento no mesmo jornal, onde as suas capacidade literárias cedo o tornam alvo do ciúme dos colegas. Pedro Vidal acaba por lhe conseguir um contrato com uma editora que lhe permitirá viver da escrita: aproveitando a avultada soma de dinheiro que consegue pelos seus livros, arrenda uma austera mas temida casa, que consigo traz fantasmas do passado. Apaixonado pela secretária de Vidal, Cristina, a vida de Martin resume-se a ansiar pela sua atenção e em escrever mais livros, ao mesmo tempo que é assediado pelo dono de uma editora francesa para um projecto especial.

Na casa onde habita terá vivido há vários anos um outro escritor, apaixonado por uma artista de origens duvidosas, que terá conhecido o dono da mesma editora francesa, e terá sido contratado para pertencer ao mesmo projecto especial. Nos quartos há muito fechados existem fotos perturbantes e a curiosidade fará Martin iniciar uma investigação em torno dos antigos habitantes da casa.

Em O Jogo do Anjo não só retornamos ao cemitério dos livros tão falado em A Sombra do Vento, como conhecemos um Sr. Barceló mais novo e as gerações anteriores da família Sempere, ainda que aqui tenham um papel secundário. Para além das personagens, a história de Martin recorda levemente a do escritor investigado por Daniel Sempere, Julian Carax.

Apesar de algumas semelhanças O Jogo do Anjo pareceu-me uma história mais madura onde encontro dois pontos fracos: Martin é um jovem que deixa passar a vida demasiado facilmente; e o sobrenatural tem um forte papel nos acontecimentos.

Para além destes dois pontos, fiquei positivamente surpreendida pela diferença de tom entre os dois livros  - Martin torna-se uma personagem caústica em cuja boca as verdades são, por vezes, disparadas de forma crua; e algumas das personagens revelam-se algo muito diferente do que estávamos à espera. Reinam as aparências, a cobardia e o sentimento de culpa por acções passadas e os descendentes nem sempre poderão desligar-se do passado familiar. Deixa-se de parte a inocência ainda que as intenções sejam boas.

Esta é, sem dúvida, uma história mais negra que A Sombra do Vento, mas onde também os livros possuem um papel fulcral no desenrolar dos acontecimentos. Talvez por isso tenha gostado imenso da história, ainda que de forma diferente do primeiro livro que li do autor.

Após a leitura do volume 1 de Preacher (Gone to Texas) continuei pelos volumes 2 e 3 que retratam as aventuras de Preacher, namorada e amigo em busca de Deus. Infelizmente chamam a atenção de poderosos grupos religiosos e não religiosos que pretendem aproveitar-se das capacidade de Preacher ou eliminá-los por alguma ofensa passada.

Em Proud Americans (volume 3) tinha-se já reservado um pequeno espaço para explicar a origem de Cassidy(And Justicy for All), o vampiro que acompanha as aventuras de Preacher – uma versão interessante da vida de alguns irlandeses que emigraram para os Estados Unidos no início do século XX.

O volume 4 de Preacher, Ancient History,  continua com a mesma premissa, explorando as histórias paralelas de algumas personagens que conhecemos nas aventuras anteriores – Saint of Killers, You-Know-Who, The Good Old Boys.

Saint of Killers terá sido um homem duro, um cowboy de sangue frio que participou em várias guerras onde se torna lendário pela quantidade de homens que mata. Mas até os homens mais duros conhecem o amor, e Saint of Killers conhece uma mulher capaz de o amar. Claro que a história de tal personagem nunca poderia ter terminado bem e após a morte da família por causa de uma febre, o ódio e a vontade de matar aqueles que atrasaram a obtenção do remédio apoderam-se de Saint of Killers.

You-Know-Who é o jovem Root de cara desfeita que conhecemos em Gone to Texas, o filho de um Xerife do Texas cuja mente está condicionada por uma moral duvidosa mas implacável – o racismo, a crença nos extraterrestres negros que raptam pessoas, a imagem de um pai / marido que mantem a ordem em casa pela força da pancada. Numa vila de interior Root não é considerado muito normal – ouve Nirvana, fuma charros e não se interessa por desportos como o Basebol ou o Futebol Americano.

Finalmente, The Good Old Boys retrata uma das aventuras de Jody e T.C., dois capangas da avó de Preacher (Ms. L’Angelle), que tinhamos já encontrado em Proud Americans. Nesta pequena história assistimos às façanhas de Jody, um jovem musculado e implacável, acompanhado por T.C., um maluco perverso a quem qualquer buraco poderá servir para se aliviar sexualmente – incluindo animais mortos. Quando encontram o típico casal de polícia e ex-modelo detective, Jody decide divertir-se à custa do polícia e aproveitar a companhia da jovem que de loira típica tem tudo.

Este é um volume que pode ser lido independentemente, contendo três histórias bastante interessantes e diferentes – a primeira é trágica, apesar de ter alguns elementos irónicos no final que aliviam a história; a segunda é também trágica, mas com traços de ridículo pelo estereótipo de uma família de costumes rígidos com o macho é a lei; a terceira é leve e cómica, mas de uma forma bastante inteligente.

Depois de Bocca, COP’3 e Faz Figura, seguiram-se outros dois restaurantes – L’Appart e Eleven.

O primeiro encontra-se dentro do Hotel Tiara, perto do Parque Eduardo VII – um restaurante que prima no luxo na decoração, na simpatia e na discrição dos empregados.  A comida, pataniscas de camarão com arroz de feijão também foi muito apreciada por todos, assim como a sobremesa. O ambiente e a decoração recordam o interior de uma casa austera, com livros nas estantes e mesas isoladas em recantos.

Mas o auge de todos os restaurantes terá sido o Eleven – vista esplendorosa sobre o Parque Eduardo VII e rio Tejo, um serviço impecável e uma refeição  muito agradável – desde os pãezinhos de tomate e azeitonas, ao frango recheado com requeijão e ervas e batata gratinada (se não me falha a memória para a descrição do prato).

Finalizando, a experiência Lisboa Restaurant Week permitiu  experimentar uma série de restaurantes excelentes. De todos o Eleven é aquele ao que mais facilmente voltarei para uma refeição especial, ainda que o Faz Figura e o L’Appart me tenham deixado boas recordações. O COP’3 não é mau, mas comparativamente aos três assinalados é mais fraco e por último, o Bocca que foi, sem dúvida, a pior experiência, destacando-se pela falta de qualidade do serviço.

Há cerca de um mês a Bis lançou um pequeno concurso no âmbito do Dia Mundial do Livro, em que o prémio seria um exemplar à escolha da colecção Bis. O escolhido foi Alice no País das Maravilhas, que se encontra no topo da pilha de livros. Por alguma razão Alice no País das Maravilhas era uma história que com a qual nada simpatizava quando pequena – simplesmente odiei o gato (irritante), o coelho stressado e nunca consegui simpatizar com a rapariga de nome Alice. Do desenho animado é esta a recordação que me ficou, mas com os anos li algumas coisas interessantes sobre o livro que me despertaram a curiosidade.

Iron Angel é o segundo volume de uma trilogia iniciada com Scar Night, um livro engraçado de fantasia que retrata a vida de um jovem anjo, o último da sua espécie e um fraco sucessor à temida imagem do pai. Recordo Scar Night como um livro cujo final estragou em parte a história, o que talvez tenha sido remediado em Iron Angel.

O livro que deu origem ao filme Blade Runner, tem como título Do Androids Dream of Electric Sheep? – um título curioso para uma obra que, grande falha minha, nunca li. Finalmente após algumas tentativas em adquirir em inglês, decidi-me a aproveitar uma encomenda para o incluir.

De Mr Weston’s Good Wine não tenho grande ideia sobre  o que vai sair, a não ser que se trata de uma estranha alegoria religiosa (conforme indicam todos os comentários que li ao livro):

“Mr Weston’s Good Wine” is the unusual tale of the struggle between the forces of good and evil in a small Dorset village. Its action is limited to one winter’s evening when time stands still and the bitter-sweet gift of awareness falls upon a dozen memorable characters. During the book a child knocked down by his car is miraculously brought back to life; the sign ‘Mr Weston’s Good Wine’ lights up the sky; and the villagers soon discover that the wine he sells is no ordinary wine.

Ballard é dos autores mais conhecidos de Ficção Científica, outro daqueles cujo trabalho desconheço e que resolvi adquirir. Tanto The Atrocity Exhibition como Crash são duas das suas obras mais controversas. O primeiro é um conjunto experimental de pequenas histórias, cujas partes possuem títulos como Why I Want to Fuck Ronald Reagan ou Love and Napalm: Export USA. O segundo, Crash, explora o fetiche com acidentes de carros, em que as personagens sentem estímulo sexual quando participam em acidentes automobilísticos. No mínimo, estranho. The Atrocity Exhibition é o livro que estou a ler de momento e a experiência é totalmente alienígena – ainda não sei o que pensar do que estou a ler, talvez no final.

The Love We Share Without Knowing é o segundo livro de Christopher Barzark, lançado em 2008 e alvo de excelentes críticas até ao momento. O primeiro, One for Sorrow, tinha-me deixado curiosa, mas não o sufiente. Algumas críticas positivas ao segundo livro levaram-me a dar uma oportunidade ao autor supostamente do género fantástico, ainda que os títulos recordem romances lamechas.

The Girl with Glass Feet é um pequeno romance pouco usual com pitadas de fantasia – engraçado e de leitura rápida, mas nada de espectacular. Uma jovem vê os seus pés transformarem-se gradualmente em vidro, e atrás deles os calcanhares…. Em busca de um remédio procura um homem que lhe terá falado de  uma doença semelhante, e para tal origina um mar de encontros que desenterram memórias passadas.

De Peter Beagle apenas li The Last Unicorn,  uma história que tem menos de conto de fadas do que parece, em que as personagens sofrem uma evolução interessante na história de contornos por vezes satíricos. We Never Talk About My Brother é o mais recente livro de Peter Beagle, uma colectânea de contos:

Modern parables of love, death, and transformation are peppered with melancholy in this extraordinary collection of contemporary fantasy. Each short story cultivates a whimsical sense of imagination and reveals a mature, darker voice than previously experienced from this legendary author.

The Best of Michael Moorcok pretende reunir os melhores contos e histórias curtas de um autor que dispensa apresentações, propondo-se a revelar um autor um pouco diferente do do famoso Elric.  Uma listagem de conteúdos pode ser consultada no site oficial da editora.

Beyond Armageddon é o primeiro livro de uma colecção com o mesmo nome, onde se incluem outras obras como Last Man (Mary Shelley) ou The Queen of Springtime (Robert Silverberg). O livro em questão é um conjunto de contos de diversos autores em torno de uma única premissa – a vida depois de uma guerra nuclear. Entre os autores dos contos podemos encontrar Poul Anderson, Carol Emshwiller, Ballard, Michael Swanwick ou Ray Bradbury.

Chegamos então à secção de BD’s e Comics, The Complete Maus, Joker e o terceiro volume de Dark Tower. Maus retrata a luta pela sobrevivência do pai de Spiegelman durante o Holocausto e todas as personagens são representadas por animais (por exemplo, os judeus são ratos).

Estrela distante é um dos livros escrito por Roberto Bolano, autor chileno que após a morte parece ter-se tornado uma celebridade em ascensão, com a publicação do seu romance incompleto, 2666. Se este último é um calhamaço de 1000 páginas, Estrela distante é exactamente o oposto – um livro fino que não chega a contar as 160.

A história centra-se na observação de um aspirante a poeta, um auto-didacta que comparece a encontros de poetas que se torna amigo apenas dos membros do género feminino, principalmente das gémeas Garmendia: Alberto Ruiz-Tagle. Personagem dúbia, Alberto destaca-se por parecer um homem culto e talvez talentoso, cujos poemas se caracterizam como impessoais e distantes.

Com o desenrolar da história, observador e observado separam-se, mas através de relatos de amigos é-nos revelada uma outra face de Alberto, um homem de crenças obscuras e múltiplas capacidades, a quem são atribuídos alguns dos actos mais hediondos praticados durante o Regime de Pinochet.

Estrela distante é mais do que um romance em torno de uma personagem complexa, é também o relato indirecto da vida sob o regime ditatorial chilena e a permanência dos fugitivos e exilados na Europa, chegando a ser, até uma crítica ao Chile.

Este é, no mínimo, um livro estranho, onde a par com a observação de uma personagem dúbia se relatam pequenos episódios cuja ironia apenas poderia ser captada por um bom observador – como um maluco que poderia ter fugido no momento certo, não fosse maluco. Talvez por ser um livro tão pequeno, gostei, mas não me fascinei – ficou a curiosidade em ler algo mais do autor.

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