As novas estantes (4)

 

Ainda na secção de “Por ler”… (excepto o do Afonso Cruz que está lido há muito)

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Resumo de leituras – Março 2014

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01 – The Ghostwritter - Zoran Zivkovic

Apesar de ser o autor de alguns dos meus livros favoritos, como A Biblioteca ou The Last Book, The Ghostwritter não me fascinou como os restantes. A história centra-se num autor com bloqueio de escrita, que vai tentando encontrar estratégicas para o ultrapassar. Entretanto troca e-mails com os amigos e conhecidos e conta as tripulias do gato. Claro que a história não é tão linear e simples quanto parece, mas ainda assim ficou aquém das restantes obras.

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02 – The Great Bazaar & Brayan’s Gold – Peter V. Brett

Estas são mais duas curtas aventuras de Arlen, a personagem principal da série fantástica O Ciclo dos demónios. Escritas dentro do mesmo género, mas claro, bastante mais simples, contribuem para a continuidade da saga, onde existem referências a estas aventuras.Ainda que estas duas historias sejam acompanhadas por glossários para os novos leitores, não aconselharia a quem ainda não leu a história principal.

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03 – Trafalgar – Angelica Gorodischer

Trafalgar é um comerciante aventureiro que viaja de mundo em mundo, negociando, em cada um, diferentes produtos. A cada regresso conta as suas aventuras e conquistas românticas, sempre acompanhado por vários cafés. Uma leitura espectacular que intercala elementos fantásticos e de ficção científica, em que cada mundo descrito é mais fabuloso que o anterior. Algumas das aventuras são leves e divertidas, outras são pesadas e melancólicas. Uma das melhores leituras dos últimos tempos.

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04 – Sono - Haruki Murakami

Autor de alguns dos meus livros favoritos, Haruki Murakami desiludiu-me com Sono, um livro que segue o dia-a-dia de uma dona de casa que, sem sono, aproveita as horas livres da noite para ler e dar longos passeios. Sem a magia que costuma transparecer nas restantes histórias, destaca-se apenas pelas imagens que ocupam grande parte do livro, estas sim fantásticas.

As novas estantes (3)

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E aqui fica um pequeno detalhe

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Little Brother – Cory Doctorow

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Há alguns anos li as primeiras 100 páginas de rajada deste livro, num café da fnac. Ficou-me na memória terminá-lo um dia, mas só recentemente o comprei. O título é uma óbvia alusão ao Big Brother de 1984 (George Orwell). Ambos os livros nos apresentam sociedades sob vigilância contínua, extremamente controladas, e onde qualquer fuga à norma ou à vigilância é associada ao inimigo ou ao terrorismo.

1984 é sem dúvida um clássico, mas Little Brother conseguiu ser ainda mais assustador. Talvez por ser uma leitura mais recente, ou por ser uma realidade mais próxima da que conhecemos. 1984 não foi a primeira distopia que li, e a realidade que descreve possui detalhes discrepantes com a nossa. Em Little Brother a sociedade que se descreve é semelhante à nossa não só em referências culturais e geográficas, como na vigilância contínua por câmaras, escutas telefónicas e bases de dados com informação pessoal. E todos estes dados são mais usados contra, do que a favor dos cidadãos.

Usando como argumento base a necessidade de segurança nacional (quem não deve não teme), a vigilância torna-se cada vez mais apertada: um desvio do habitual caminho diário, ou um diferente padrão de navageção na internet, são motivos para questionamento ou prisão sem julgamento.Os jovens, principalmente os estudantes, são assim os mais questionados e oportunados.

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A história começa por nos apresentar Marcus, um jovem entendido em programação, que descobre técnicas para conseguir fugir da escola sem ser reconhecido. O destino da fuga é um jogo de caça ao tesouro pela cidade com os amigos. Infelizmente, na mesma altura, explodem bombas pela cidade. É desta forma que todos os que se encontram no local se vêem detidos pelas autoridades. Uma semana depois alguns são libertados, mas não o melhor amigo de Marcus, Darryl. Assim começa a luta contra a autoridade e vigilância absolutas, baseada na internet paralela montada por Marcus.

Existem livros, que por serem escritos para um público juvenil,a qualidade da escrita é menor, ou o tom é infantil. Não é o caso, pelo contrário. Cory Doctorow preocupou-se em inserir a teoria por detrás das técnicas usadas por Marcus para despistar e sabotar as autoridades.Encriptação ou programação são dois dos temas extensivamente debatidos. A meu ver, até em exagero. As personagens são, conforme esperado, juvenis, mas não infantis. A história é uma escalada sufocante: o maior controlo faz evoluir as técnicas de camuflagem, que por sua vez aumentam a supervisão.

O que me cativou em Little Brother foi sem dúvida a irreverência das personagens num mundo tão semelhante ao nosso, onde (e utilizando o discurso comum) as liberdades individuais são postas de lado em prol da segurança, e o medo é utilizado para conseguir o apoio da população adulta. Tão à semelhança de outros episódios que têm acontecido recentemente, mas, em Little Brother, de forma bastante mais extrema.

 

As novas estantes (2)

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Trafalgar – Angélica Gorodischer

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Desde Kalpa Imperial que aguardava o lançamento de um novo livro de Angélica Gorodischer. Pelo menos numa edição acessível, já que as edições em espanhol atingem valores absurdos. Finalmente, saiu Trafalgar.

Trafalgar é o nome da personagem principal,  um comerciante viciado em café. Ao ritmo de uma viagem por capítulo vamos conhecendo o aventureiro comerciante que é tudo menos vulgar. Trafalgar viaja entre mundos, transportando os artigos que mais acha fazerem falta no destino. Acompanhado por vários cafés, vai relatando as várias civilizações que conhece, e as tropelias às quais escapa.

Nalguns mundos os nativos vivem quase catatónicos, apenas se movendo ao som de tambores. Nesse mesmo planeta persistem construções pertencentes a uma evoluída civilização. Quem os construiu, não se sabe. Noutro planeta vive-se em Carnaval constante, e os habitantes ocupam grande parte do tempo em máscaras e partidas. Em contrapartida, noutro planeta os habitantes vivem com medo de mudar os seus hábitos, constrangidos pela presença dos antepassados mortos que continuam a levantar-se das campas e a tentar viver o dia-a-dia com os sobreviventes.

Entre aventuras alegres e melancólicas, Trafalgar é um mulherengo bem intensionado que muda, por diversas vezes, a vida dos mundos que visita. Sempre de bom humor e prático, leva-nos por diversos mundos, peculiares e fascinantes. Apesar de ter gostado mais de Kalpa Imperial, é uma leitura agradável e fantástica que intercala aventuras pesadas com outras mais leves e divertidas.

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Sono – Haruki Murakami

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Responsável por alguma das minhas obras preferidas, Haruki Murakami tornou-se, nos últimos tempos, um autor que me suscita opiniões contrastantes – ora adora os livros, ora passo pelas histórias sem grande envolvimento.

Conheci o autor com Kafka on The Shore e adorei. De tal forma que não consigo pensar no livro sem relembrar o fascínio que senti ao lê-lo. Seguiu-se Hard Boiled Wonderland and The End of the World. Em ambos se destacou a estranheza que nunca se entranha complementamente, com acontecimentos pouco lineares ou expectáveis. Em compensação, achei After Dark fraquinho, demasiado leve e supercial, sem uma história concreta que me envolvesse. Comecei a ler A Rapariga que Inventou um Sonho, mas encostei-o passadas poucas páginas, e não lhe voltei a pegar.

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Em Sono Murakami retorna à noite, às horas em que habitalmente se dorme. Mas não a personagem principal – uma dona de casa que perde a necessidade de dormir. Esta incapacidade em adormecer nada tem a ver com as normais insónias, já que demonstra uma vitalidade sem limites que a levam à leitura dos grandes romances russos, a altas horas da manhã, acompanhada por chocolate e brandy. Para o marido e para o filho o dia-a-dia continua sem mudanças: todas as tarefas domésticas continuam a ser executadas mecanicamente, ainda que de forma desprendida.

Apesar de sobejamente bem ilustrada, não foi uma história que me tenha fascinado. Para além do curto espaço onde decorre, tem pouco da imaginação característica das obras que adorei. A personagem principal é bastante linear e previsível e a acção resume-se ao dia-a-dia aborrecida da dona de casa, e da quebra da rotina nocturna. A característica mais positiva da obra são as imagens que ocupam quase metada das páginas.

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