As novas estantes (2)

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Trafalgar – Angélica Gorodischer

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Desde Kalpa Imperial que aguardava o lançamento de um novo livro de Angélica Gorodischer. Pelo menos numa edição acessível, já que as edições em espanhol atingem valores absurdos. Finalmente, saiu Trafalgar.

Trafalgar é o nome da personagem principal,  um comerciante viciado em café. Ao ritmo de uma viagem por capítulo vamos conhecendo o aventureiro comerciante que é tudo menos vulgar. Trafalgar viaja entre mundos, transportando os artigos que mais acha fazerem falta no destino. Acompanhado por vários cafés, vai relatando as várias civilizações que conhece, e as tropelias às quais escapa.

Nalguns mundos os nativos vivem quase catatónicos, apenas se movendo ao som de tambores. Nesse mesmo planeta persistem construções pertencentes a uma evoluída civilização. Quem os construiu, não se sabe. Noutro planeta vive-se em Carnaval constante, e os habitantes ocupam grande parte do tempo em máscaras e partidas. Em contrapartida, noutro planeta os habitantes vivem com medo de mudar os seus hábitos, constrangidos pela presença dos antepassados mortos que continuam a levantar-se das campas e a tentar viver o dia-a-dia com os sobreviventes.

Entre aventuras alegres e melancólicas, Trafalgar é um mulherengo bem intensionado que muda, por diversas vezes, a vida dos mundos que visita. Sempre de bom humor e prático, leva-nos por diversos mundos, peculiares e fascinantes. Apesar de ter gostado mais de Kalpa Imperial, é uma leitura agradável e fantástica que intercala aventuras pesadas com outras mais leves e divertidas.

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Sono – Haruki Murakami

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Responsável por alguma das minhas obras preferidas, Haruki Murakami tornou-se, nos últimos tempos, um autor que me suscita opiniões contrastantes – ora adora os livros, ora passo pelas histórias sem grande envolvimento.

Conheci o autor com Kafka on The Shore e adorei. De tal forma que não consigo pensar no livro sem relembrar o fascínio que senti ao lê-lo. Seguiu-se Hard Boiled Wonderland and The End of the World. Em ambos se destacou a estranheza que nunca se entranha complementamente, com acontecimentos pouco lineares ou expectáveis. Em compensação, achei After Dark fraquinho, demasiado leve e supercial, sem uma história concreta que me envolvesse. Comecei a ler A Rapariga que Inventou um Sonho, mas encostei-o passadas poucas páginas, e não lhe voltei a pegar.

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Em Sono Murakami retorna à noite, às horas em que habitalmente se dorme. Mas não a personagem principal – uma dona de casa que perde a necessidade de dormir. Esta incapacidade em adormecer nada tem a ver com as normais insónias, já que demonstra uma vitalidade sem limites que a levam à leitura dos grandes romances russos, a altas horas da manhã, acompanhada por chocolate e brandy. Para o marido e para o filho o dia-a-dia continua sem mudanças: todas as tarefas domésticas continuam a ser executadas mecanicamente, ainda que de forma desprendida.

Apesar de sobejamente bem ilustrada, não foi uma história que me tenha fascinado. Para além do curto espaço onde decorre, tem pouco da imaginação característica das obras que adorei. A personagem principal é bastante linear e previsível e a acção resume-se ao dia-a-dia aborrecida da dona de casa, e da quebra da rotina nocturna. A característica mais positiva da obra são as imagens que ocupam quase metada das páginas.

Últimas aquisições – 2014-03-11

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De origem argentina, Angelica Gorodischer possui vários trabalhos fantásticos em espanhol, na sua maioria indisponíveis em Portugal (ou a preços proibitivos). Em contrapartida, existem dois livros traduzidos para inglês, Kalpa Imperial e Trafalgar. Apesar de ter livro o primeiro há alguns anitos, foi com entusiasmo que adquiri Trafalgar e já estou quase a terminar.

The Golem and The Djinni tem aparecido com excelentes referências em vários sítios e já me foi aconselhado por várias pessoas. Para quem desconhece Mark Charan Newton, aconselho Legends of the Red Sun (Nights of Villjamur, City of Ruin, The Book of Transformations) um ciclo fantástico que apesar de inconstante me tem surpreendido pela positiva. Outra saga fantástica interessante é a de Scot Lynch que nos apresenta um peculiar grupo de burlões e ladrões. Esta saga inicia-se com The Lies of Locke Samora.

The Great Bazaar & Brayan’s Gold – Peter V. Brett

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Em O Ciclo dos Demónios, de Peter V. Brett toda a história roda em torno de um simples facto que fez divergir este mundo do que conhecemos: os demónios. Todas as noites estes seres mágicos se erguem do núcleo para atacar os humanos, e todas as noites os humanos se escondem por detrás das runas, caracteres com os quais tecem barreiras mágicas. Estes sucessivos ataques terão feito regredir uma civilização que, pelas pistas deixadas ao longo das histórias, terá sido bastante evoluída.

Por receio de pernoitar fora das muralhas protectoras de uma cidade, os seres humanos raramente viagem, e o sentimento de medo é constante. Ainda assim, existem aqueles que se arriscamo como profissão, mensageiros, que levam correspondência e mercadorias entre as povoações. Arlen, o herói deste ciclo fantástico é um desses mensageiros.

Brayan’s Gold faz-nos rever um Arlen ainda jovem, mas já aprendiz de mensageiro e bastante corajoso. Acompanhado por um mensageiro mais velho, mas bêbado e cobarte, tem como missão a entrega de uma perigosa carga, explosivos. Para além da instabilidade da carga e do ambiente irregular, Arlen depara-se ainda com assaltantes e demónios, que o seu parceiro de viagem não ajuda a defrontar.

Na segunda história, The Great Bazaar, Arlen retorna ao deserto para procurar tesouros escondidos em cidades abandonadas. Atacado por demónios desconhecidos, Arlen sobrevive por pouco a mais uma aventura. De regresso ao bazaar é recebido por Abban, um rico mercador que, no sistema de castas daquele povo, pouco mais é do que uma mulher. Astucioso e ambicioso, Abban convence Arlen a mais uma aventura.

Num mundo onde qualquer descuido com as runas é fatal, vamos assistindo à transformação de Arlen num herói cada vez mais introvertido e isolado. Tendo sofrido perdas bastante traumáticas, carrega nos ombos a culpa de sobreviente. Mas nestas aventuras revemos um Arlen audaz e destemido, ainda jovem e optimista. São duas aventuras interessantes principalmente para quem leu os restantes ciclos da saga.

Estas duas histórias foram publicadas separadamente, em dois volumes pela Subterranean Presso em edição limitada. Recentemente, surgiu uma edição da Harper, mais acessível, que contem um pequeno glossário para que os novos leitores não se sintam perdidos.

Últimas aquisições – 2013-12-29

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Depois da descrição colorida do último livro de Joe Hill pelo João Barreiros, claro que tive de o encomendar rapidamente. Vêm depois as habituais aquisições obrigatórias: Zoran Zivkovic, Haruki Murakami e Jeff Vandermeer.Para além destes, o livro do Nuno Camareiro despertou-me a curiosidade por se centrar em Kafka, Pessoa e Borges; e Lusitânia convenceu-me por apresentar um conto do Barreiros.

Fórum Fantástico 2013

Só agora, com o ano a terminar, encontrei vagar para dissertar um pouco sobre o Fórum Fantástico deste ano. Algo que reparei, assim que cheguei, foi na audiência – enquanto que nos primeiros anos, o início da tarde de Sábado era caracterizado por meia dúzia de gatos pingados, este ano, a sala estava cheia. Mesmo.

Entre as apresentações de livros e revistas, houve para mim, três pontos altos: Ian McDonald, Winepink e Dog Mendonça.

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Ian McDonald é “só” o autor de um dos meus livros favoritos – River of Gods. Mas, ainda que fora do top 10, é responsável por outros excelentes livros de ficção científica como Tendeleo’s Story ou Brasyl (sendo a edição portuguesa a razão para trazer o autor). Simpático e divertido, fez os possíveis para aumentar o envolvimento do público, que, em Portugal se mostra sempre muito acanhado em interagir em qualquer tipo de apresentação (e mal de mim falo).

Seguem-se os projectos portugueses. Winepunk partiu de uma brincadeira envolvendo tecnologia movida a Vinho do Porto, como fonte de energia. A ideia, pouco usual, pareceu desenvolvida com talento e afinco, tendo-me desiludido apenas por não ter já disponíveis os exemplares do primeiro volume do conjunto de contos. Ficou para a história o panfleto de edição limitada e vida curta.

Por último, Dog Mendonça. Chamem popular, chamem o que quiserem. A verdade é que, com conhecimentos no mundo da publicação ou sem eles, a ideia deu frutos e foi reconhecida internacionalmente com publicação na Dark Horse. Foi com entusiasmo que se assistiu ao lançamento da terceira e última aventura de Dog Mendonça, onde estiveram presentes os desenhadores. Continuo a achar que a qualidade das imagens é algo que raramente se vê em edições portuguesas, sendo-nos apresentada uma aventura engraçada e mirabolante, sem pseudo-intelectualismos, o que é refrescante.

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