Atrasado, mas ainda a tempo :) . Aqui fica um pequeno apanhado das críticas a livros fantásticos e FC desta semana.

- Drood, Dan Simmons (Blog Saída de Emergência) – se já pensava ler o livro, agora ainda fiquei mais curiosa. Em princípio este será um dos próximos livros do autor a ser publicado em português, assim como The Terror, pela Saída de Emergência. Para quem não conhece, este é o autor de A Canção de Kali e Clube de Patifes.

- A Corte dos Traidores, Robin Hobb (Bela Lugosi is Dead e Estante de Livros)

Ghostgirl – A Rapariga Invisível, Tonya Hurley (As Leituras do Corvo e Bela Lugosi is Dead)

- Fúria, L. J. Smith (As Leituras do Corvo)

- O Homem Pintado, Peter V. Brett (Páginas desfolhadas  e Estante de Livros)

- Os Jogos da Fome, Suzanne Collins (Correio do Fantástico) – este é outro que me começa a intrigar, pelas sucessivas críticas muito positivas.

- American Gods, Neil Gaiman (Der Wanderer’s Blog)

Não é uma crítica literária, mas depois do artigo publicado no blog da Pó dos livros, fica o post no blog da Safaa Dib sobre pseudo-editoras. De leitura obrigatório para todos aqueles que desejam um dia ser publicados.


 

Começam a ser conhecidos mais detalhes sobre o evento fantástico que irá decorrer nos dias 21 e 28 de Novembro, na biblioteca municipal de Telheiras, mais especificamente, foi publicada a lista de convidados do evento.

Para além das Conversas Imaginárias, poderão encontrar a partir de dia 9 de Novembro a exposição “Há Conversas com o IMAGINarte”, com ilustrações da autoria dos membros do Núcleo de Arte Fantástica da Faculdade de Belas Artes de Lisboa.

Os mais recentes posts no blog da livraria Pó dos Livros não são propriamente notícias, mas sim um aviso à navegação – um aviso sobre os vários esquemas, até burlas que rodeiam algumas “ofertas” de publicação, ou ainda passatempos com promessa de inclusão em antologias (Pseudo-editorasComentário ao post anterior “Pseudo-editoras”).

 

O Senhor da Guerra dos Céus é o primeiro de uma trilogia intitulada A Nomad of the Time Streams, em que cada um dos volumes pode ser lido independentemente, retratando as viagens no tempo de um homem que é transportado para uma realidade alternativa. Misto entre história alternativa e ficção científica, a trilogia enquadra-se no género Steampunk.

Neste primeiro volume Bastable é transportado para o futuro, para o final do século XX, onde conhece um Mundo sem guerras, em que as grandes potências económicas colonizam todos os restantes países e o nível de vida dos cidadãos dos países colonizadores é pago pelos habitantes das colónias.

A história inicia-se com Bastable, um jovem inglês que é responsável por conduzir um pequeno batalhão na Índia de 1902, com o intuito de controlar a revolta de algumas povoações. Esperando obter tréguas sem necessidade de travar uma pequena guerra, Bastable concorda em seguir um poderoso chefe religioso à povoação nativa, conjuntamente com os seus guerreiros, para jantar. A comida encontrava-se, no entanto, envenenada,  e numa tentativa de fuga desesperada, refugiam-se no Templo de Todos os Deuses. Atacados por uma força misteriosa, perdem a consciência.

Bastable acorda, sozinho e dorido,  com as roupas gastas, envelhecidas e apodrecidas.  Repara então que o Templo e a povoação onde se encontrava horas antes, se encontra agora em ruínas e que todos os caminhos terrestres que lhe permitiriam sair do rochedo se encontram cortados por fundas escarpas. Antes que fosse capaz de se recompor face às mudanças que observa, Bastable vê um enorme objecto voador, um dirigível inglês, que o salva e o transporta para uma impressionante e moderna cidade de Londres.

No final do século XX a tecnologia permite aos cidadãos ingleses viver com todas as comodidades e sem doenças, numa sociedade utópica que não conhece nem guerras nem vandalismos. Um mundo perfeito – assim pensa Bastable até conhecer a outra face da moeda, em que os cidadãos dos países subjugados alimentam as mordomias das grandes potências económicas e militares.

Se em Eis o Homem Michael Moorcock nos tinha apresentado um passado diferente pelos olhos de um homem moderno, em O Senhor da Guerra dos Céus descobrimos uma actualidade diferente, descrita por um homem do início do século. Ainda que o mundo se tenha desenvolvido de forma díspare, alguns dos mais relevantes acontecimentos do século são inevitáveis, mesmo com a alteração de contexto.

Livro pequeno de edição cuidada, esta é uma história curiosa não só pela forma original como nos é introduzida (supostamente estamos a ler o manuscrito deixado pelo avô do autor), como pela aventura que é vivida por Bastable e pela sociedade utópica que se torna gradualmente numa distopia. Este é um relato movimentado que toca em questões políticas e sociais da actualidade como a autonomia Vs comodidade /paz; ou a riqueza de uns às custas da pobreza de outros; ou ainda a crescente poluição resultante de um desenvolvimento frenético – ainda que tenha sido escrito em 1971 nem por isso as ideias descritas se encontram desactualizadas.

Para além de O Senhor da Guerra dos Ceús, de Michael Moorcock foram publicados, em português e pela Saída de Emergência, Eis o Homem e a série Elric. Na colecção de Ficção Científica da Europa-América podem encontrar A Cidade da Neblina Verde (City of The Beast), O Senhor das Aranhas (Lord of the Spiders) e Os Senhores do Fosso (Masters of the Pit) e pela Panorama A Escuna que Veio do Gelo (The Ice Schooner).

A Cidade dos Ossos – Cassandra Clare (As Leituras do Corvo)

- A Maldição do Anel – Os Cânticos da Valquíria - Édouard Brasey (Bela Lugosi is Dead)

- Something Wicked This Way Comes, Ray Bradbury (Der Wanderer’s Blog)

- O Terror – Arthur Machen (As leituras do corvo)

- Crónicas Vampíricas – Fúria- L. J. Smith (Bela Lugosi is Dead)

- Mucha – David Soares e Co (I Dream in Infrared)

- O Terror – Arthur Machen (Páginas Desfolhadas)

- O Senhor da Guerra dos Céus - Michael Moorcock (Páginas desfolhadas)

- Ghostgirl – A Rapariga Invisível – Tonya Hurley (Bela Lugosi is Dead)

- Os Caçadores da Lua Vermelha - Marion Zimmer Bradley (Correio do Fantástico)

Irmã de Anne e Charlote Bronte, Emily Bronte escreveu, na sua curta vida, um único livro, Wuthering Heights, conhecido em português como O Monte dos Vendavais. Em Portugal o livro conhece diversas edições, pelas editoras Relógio D’Água, Europa-América, Civilização e Dom Quixote (citando apenas algumas), chegando agora a vez da Editorial Presença.

Mr. Lockwood, habituado ao reboliço da cidade, desloca-se ao Yorkshire para uma calma temporada no campo, alugando a casa Thrushcross Grange. O seu senhorio,Heathcliff, é, no entanto, uma pessoa muito estranha, um homem de péssimos modos, que vive numa luxuosa mas mal estimada casa, que partilha com mais algumas pessoas, com as quais a ligação familiar é pouco clara a Mr. Lockwood. Curioso, Lockwood questiona a governanta sobre os moradores da casa de Heathcliff, no Monte dos Vendavais. Esta terá conhecido Heathcliff desde pequeno e narra a história que é a linha narrativa principal do livro.

Heathcliff foi encontrado e adoptado em pequeno por Mr. Earnshaw, pai de duas crianças, Catherine e Hindley. Criado como filho por Mr. Earnshaw, desenvolve-se entre ele e Catherine uma forta amizade e cumplicidade. No entanto, um ódio poderoso cresce em Hindley por Heathcliff que o vê como rival dos afectos do pai. Após a morte de Mr. Earnshaw, Hindley assume o lugar de chefe de família, tratando Heathcliff não como um irmão, mas quase como um escravo, fazendo com que este jure se vingar um dia.  Catherine cresce, tornando-se numa jovem bela, educada e saudável, mas rebelde e caprichosa acabando por se comprometer com uma rapaz de estatuto social semelhante, Edgar, também ele de mentalidade acriançada e demasiado mimado.

No compromisso entre Catherine e Edgar tudo parece iniciar-se de forma errada – Catherine apercebe-se de que os seus sentimentos por Heathcliff poderão ser algo mais do que amizade, e Edgar deixa-se manipular totalmente pelas birras de Catherine. Face ao compromisso estabelecido por Catherine, Heathcliff abandona então tudo e todos, procurando a sua própria fortuna. Anos mais tarde regressa, rico e Catherine é atormentada pela rivalidade entre o marido e o amigo de infância.

Emily Bronte criou, em O Monte dos Vendavais, uma tragédia romântica em que todas as personagens têm as suas qualidades e fraquezas – a governanta de Lockwood que terá ajudado a criar Catherine é uma linguaruda metediça que por vezes age de forma preconceituosa, mas possui um coração de manteiga; por sua vez Catherine, uma criança inteligente revela-se uma mulher caprichosa e Heathcliff torna-se num homem rancoroso que não liga aos meios que adopta para exercer a sua vingança. Emily Bronte explora o ódio, a vingança e o rancor, mas também a inocência e a amizade num romance sem heróis ou vilões absolutos.

Apesar de se tratar de um clássico O Monte dos Vendavais é de leitura relativamente rápida e mais acessível do que outros livros da mesma época e género como A Corcunda de Notre Dame de Victor Hugo.

 

A semana passada a Saída de Emergência lançou um pedido de histórias que se enquadrassem no tema da antologia Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead para Doenças Excêntricas e Desacreditadas, esta semana pedem-se ilustrações, dos mais variados estilos.

Para os fãs de Stephenie Meyer, o lançamento de Danças Malditas irá realizar-se na próxima sexta, 30 de Outubro, pelas 23.30 na Sala das Colunas da LX Factory. É um lançamento, mas também uma festa de Halloween.

Finalmente, a próxima LER no Chiado terá como tema “Livros Fenómeno: Porque não consigo largar Bolaño, Larsson, Dan Brown, Meyer”. A conversa irá envolver alguns dos autores mais falados no momento e decorrerá no próximo dia 5 de Novembro, pelas 18h30, na Bertrand do Chiado.

A Nuvem de Smog e A Formiga Argentina foi um dos livros de Italo Calvino re-editados pela Teorema com nova e mais apelativa capa. Livro pequeno, é constituído pelas duas histórias indicadas no título, possuindo, no início, uma carta do autor em resposta a uma crítica no jornal relativamente a A Nuvem de Smog, onde se terá criticado a alternância de tom e o cinzento do texto.

A Nuvem de Smog é mesmo um texto cinzento, mas não no tom nem nas palavras escolhidas, antes pelo pó que envolve a cidade e o protagonista principal, num cenário melancólico e decadente. A história centra-se num jovem jornalista que aceita lugar num jornal de fortes preocupações ambientais. O seu fraco rendimento permite-lhe alugar um quarto na casa de uma mulher surda que, apesar dos esforços, não consegue expulsar todo o pó que se acumula constantemente em todos os cantos da casa: pó no cimo dos móveis, poeira densa que se acumla entre as páginas dos livros e se despega aquando da leitura, deixando as mãos pretas, que são lavadas a cada passagem:

Mas os livros, já se sabe quanta poeira absorvem: escolhia um da prateleira, mas antes de o abrir tinha de esfregá-lo com um trapo todo em volta: saía uma poera enorme! Então tornava a lavar as mãos e depois deitava-me em cima da cama a ler. Mas ao folhear o livro, não valia a pena, sentia nas pontas dos dedos aquele velo que se tornava cada vez mais macio e me estragava por completo o prazer da leitura.

Segue-se A Formiga Argentina, uma história mais pequena, que acompanha um casal que se muda para uma terriola acossada constantemente por uma praga de formigas. Vários são os métodos aplicados pelos moradores da pequena vila, desde venenos a armadilhas, mas as formigas continuam a encontrar caminho para o interior das casas:

Este livro encontra-se, para mim, bastante abaixo das minhas obras preferidas de Italo Calvino, Se numa noite de Inverno um viajante, e Barão Trepador: são interessantes, mas não cativantes. O primeiro não é apenas uma história, mas também um texto de preocupações ambientais, retratando em parte a sociedade e a vida cada vez mais cinzenta e menos saudável nas cidades industrializadas.

No cimo encontra-se um clássico, Crime e Castigo de Dostoievski, em nova edição portuguesa, pela Relógio D’Água, com tradução directamente do russo. Por alguns referidos como maçador, por outros descrito como uma obra prima, já era tempo de ler alguma coisa dos mais famosos autores russos e espero poder ler este nos próximos tempos. Esta edição parece-me cuidada mas não a teria comprado se não se tratasse de uma tradução directa.

Segue-se A Nuvem de Smog, de Italo Calvino, um livro pequeno, constituído por duas histórias, A Nuvem de Smog e a Formiga Argentina.  Italo Calvino é  o autor de dois dos meus livros favoritos: Se numa noite de Inverno, um viajante e O Barão Trepador.

A Nuvem de Smog é, no entanto, um livro bem diferente: a história que dá nome ao conjunto apresenta-nos o meio melancólico e decadente que rodeia um jovem jornalista que trabalha para um jornal de fortas preocupações ambientais. A Formiga Argentina retrata a vida de um casal após se mudarem para uma pequena vila, acossada constantemente por uma praga.

Best of Contemporary Mexican Fiction é uma colectânea bilingue que reúne histórias de 16 autores mexicanos e que pretende ser uma amostra representativa da literatura mexicana:

Readers will meet an embalmed man positioned in front of the TV, a mariachi singer suffering from mediocrity, a man’s lifelong imaginary friend, and the town prostitute whose funeral draws a crowd from the highest rungs of the social ladder.

Nomeado para o Booker Prize, The Children’s Book decorre entre a época victoriana e a Primeira Guerra Mundial. A capa despertou-me mas foi a sinopse que me fez pegar no livro.

Segue-se Fool, mais um livro de Christopher Moore, que será publicado pela Gailivro com o título Rei Lear. Este foi mais um ganho em passatempo, acompanhada de marcadores e chapeú.

Editado por Greg Bear e Martin H Greenberg, New Legends é uma Antologia de Hard Scifi onde se podem encontrar histórias de autores como Ursula le Guin, Paul McAuley, Robert Silverberg ou Poul Anderson. Greg Bear é o autor de um dos meus livros favoritos no género da ficção científica, Blood Music e Ursula le Guin dispensa apresentações. Paul McAuley, por sua vez,  é mais conhecido por Fairyland ou Pasquale’s Angel (publicado em português como A Invenção de Leonardo) e Robert Silverberg escreveu Majipoor Chronicles (publicado em português como as Crónicas de Majipoor) ou Tower of Glass (publicado em português como A Torre de Vidro).

Os dois volumes de Preacher que se encontrem na foto constituem os últimos da espectacular série que retrata um pastor americano do Texas que adquire poderes sobrenaturais, resolvendo partir numa demanda em busca de Deus, acompanhado pela namorada e pelo amigo vampiro. Ao longo da história são levantadas várias questões sociais entre as cenas de violência sangrenta: desde a hipocrisia dos devotos pecadores que todos os Domingos assistem pios à missa, aos fenómenos sociais de sucesso instantâneo, passando pelos cultos fanáticos de estupidificação. Na realidade, um dos assuntos que mais se debate é Deus e a Igreja: existe uma sociedade secreta que protege o sangue de Jesus, uma união entre um anjo e uma diabinha e um Santo dos Assassinos que arrasa tudo à sua passagem.

Finalmente, Transmetropolitan é o primeiro volume de uma série pós-ciberpunk que se centra no herói Spider Jerusalem, um jornalista que se dedica a lutar contra a corrupção e o abuso de poder dos presidentes dos Estados Unidos da América. Mais direi depois de ler.

Aqui fica um pequeno resumo dos comentários e críticas publicados esta semana :

- Flashforward, de Robert J. Sawyer (Inner Space) – este livro irá ser publicado em português pela Saída de Emergência

- Clube de sangue, de Charlaine Harris (Bela Lugosi is Dead; As Leituras do Corvo; Ler e Reflectir)

- Da Terra à Lua, de Júlio Verne (Bela Lugosi is Dead)

Lud-in-the-Mist, de Hope Mirrlees (Der Wanderer’s Blog)

- Os jogos da Fome, de Suzanne Collins (Bela Lugosi is Dead)

- A Guilda dos Mágicos, de Trudi Canavan (Bela Lugosi is Dead)

- Lavinia, de Ursula Le Guin (Der Wanderer’s Blog)

Onde foram parar os livros da Simetria? Desde da extinção da sede que ninguém os via, mas finalmente estarão disponíveis no campus IST (Taguspark) a qualquer portador do cartão de biblioteca do IST. Para mais pormenores, poderão consultar o blog do Rogério Ribeiro, I Dream in Infrared. É de destacar, ainda, a realização de conferências mensais, sendo que a primeira se realizou no dia 19 de Outubro. Só tenho pena do local – Taguspark é demasiado longe de tudo !

Não somos máquinas é o tema de uma das sessões de cinema animado francês, Decididamente animados,  que irá decorrer na fnac de Almada na próxima sexta (23.10.2009). São onze curtas metragens que se debruçam sobre a tecnologica e a sociedade moderna.

Também na FNAC, mas na de Cascais, está programado um ciclo de cinema de horror, Boca do Inferno,  a decorrer entre os dias 23 e 31 de Outubro.

No FIBDA (Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora) podem assistir ao lançamento de Mucha a nova BD de David Soares, ilustrada por Osvaldo Medina e finalizado por Mário Freitas, que se enquadra no género de horror. O evento irá decorrer dia 24 pelas 15h.

Para além do lançamento irão decorrer várias conferências no FIBDA que poderão ser interessantes.

Vencedor dos prémios Arthur C. Clarke e John W. Campbell Memorial, The Child Garden basea-se num conto curto, Love Sikness que terá ganho também o prémio British SF para melhor história curta.

Em Portugal o livro foi publicado pela Clássica Editora, numa colecção dirigida por João Barreiros, um dos melhores (para mim o melhor) autores de ficção científica português, com livros como A Bondade dos EstranhosA Verdadeira Invasão dos Marcianos ou O Caçador de Brinquedos e Outras Histórias. Tendo lido a edição portuguesa, reparei que peca em dois pontos importantes: a rosa na capa vermelha relaciona-se bem com a história, mas para quem não a conhece, assemelha o livro a um pegajoso romance cor-de-rosa; por outro lado, a encadernação é de baixa qualidade, e os cadernos foram-se separando durante a leitura.

Para além de The Child Garden,  de Geoff Ryman, foram também publicados em Portugal, Ar e O Guerreiro que Trazia a vida, respectivamente pela Gailivo e pela Caminho. Tendo li Ar há pouco tempo, não deixo de sentir algum paralelismo nas duas histórias: apesar de se centrarem em espectaculares avanços tecnológicos, centram-se nas relações humanas e na forma como a tecnologia pode afectar a sociedade e consequentemente os relacionamentos.

Em The Child Garden a esperança média de vida é curta, rondando os 30 anos. Em compensação, são administrados vírus aos bebés que lhes possibilitam aprender rapidamente e ter disponível um enorme volume de informação. Estes vírus recordam a nanotecnologia de se fala hoje em dia – são capazes de reparar tecidos e de actuar como sistema imunitário. No livro, os vírus modulam também comportamentos e memórias, podem ser utilizados para normalizar tendências sexuais ou pensamentos.

Ainda que envelheçam por volta dos 30 anos, graças aos vírus, estes seres humanos aprendem a falar muito mais cedo e amadurecem precocemente, escolhendo uma profissão aos 10 anos. Neste mundo de elevada capacidade tecnológica, os seres humanos sofrem as consequências de uma estrondosas descoberta que terá eliminado o cancro mas terá, também trancado as sequências genéticas. Após a cura descobriu-se que as células cancerígenas tinham um papel fundamental na manutenção da juventudade, estimulando a replicação das células saudáveis vizinhas.

Milena é uma jovem orfã que se destacou desde muito cedo por ser resistente à maioria dos vírus que são administrados aos restantes, tendo recebido, aos 10 anos uma dose demasiado forte que lhe terá retirado todas as memórias do passado. Por ser resistente, Milena nunca foi lida, ou seja,  nunca foi submetida a testes psicológicos com o objectivo de lhe corrigirem as tendências sexuais. Desta forma, mantem-se capaz de se apaixonar por uma criatura do mesmo sexo, mas de espécie diferente, um ser humano modificado geneticamente para se assemelhar a um urso, que escondida na cala da noite, canta belíssimas óperas.

Jardim de Infância explora não só as consequências da busca de uma vivência perfeita, com a descoberta da cura permanente para o cancro; como também o limite da normalização dos seres humanos, em que todos possuem as mesmas tendências e o mesmo conhecimento, tendo-se perdido a capacidade de imaginar e de criar. Em boa verdade, o livro apresenta-nos uma realidade distópica de forma suave em que as vantagens tecnológicas se tornam limitações à espécie humana, barreiras sufocantes à criatividade.

The Child Garden é daqueles livros, raros, em que não se sente a falta de outras personagens ou pontos de vista – Milena é instável e imprevista q.b. para tornar a história interessante, ainda que não tenha simpatizado totalmente com ela.

Ao contrário da foto anterior, esta é composta só por paperbacks.

Três dos livros foram-me enviados directamente pela autora Gail Z. Martin. No passatempo apenas ganhei um ARC do The Blood King, mas como a autora demorou algumas semanas a enviar, para compensar, enviou-me os paperbacks de The Blood King e Dark Haven. Todos com dedicatória !

Estes dois paperbacks são, respectivamente, os volumes 2 e 3 da série Chronicles of the Necromancer, que mistura vampiros com magos e criaturas mágicas num mundo que parece ter algumas semelhanças com a época medieval.

Segue-se Weaveworld de Clive Barker, nomeado para o World Fantasy Award. O mundo mágico que caracteriza a história dá título ao livro: tecido num tapete, onde vivem criaturas mágicas. Uma delas não vive no tapete mas ficou no mundo dos humanos como guardiã, aguardando o dia em que os da sua espécie possam voltar em segurança.

Island of the sequined love nun e You suck são dois livros de Christopher Moore, o autor do hilariante The Stupidest Angel (publicado em português como O Anjo Mais Estúpido, publicado pela Gailivro) e A Dirty Job. Os livros de Moore costumam ser leves e divertidos, com pitadas de demência refrescante, aconselhada a quem queira relaxar.

Wuthering Heights é um clássico que dispensa apresentações. Publicado em português pela Relógio D` Água, Civilização Editora, Europa-América e Dom Quixote, conhece este mês lançamento pela Editorial Presença. A edição que aqui se encontra faz parte de uma série da Penguin denominada Classics Deluxe Editions, e possui uma capa apaixonante.

Um misto entre história alternativa e ficção científica, Darwinia encontra-se entre os livros mais viciantes e estranhos que li este ano.  Lançado em Portugal pela Saída de Emergência, Darwinia apresenta-nos um início do século XIX sem Europa e sem Guerra Mundial, mas com um estranho continente habitado por monstros indescritíveis.

Críticas / comentários

- O Nome do Vento,  Patrick Rothfuss  (Bela Lugosi is Dead)

- Memórias de um vampiro, Rafael Loureiro (BBDE) – depois da crítica de David Soares houve quem comprasse o livro para fazer a sua própria apreciação… seguiu-se uma extensa e por vezes pouco relacionada discussão.

- Darwinia, Robert Charles Wilson (Letras sem Fundo)

- O Triunfo das Mulheres, A. Sacramento Campos (Orgia Literária)

- The Dancers at the End of Time, Michael Moorcock (Der Wanderer’s Blog) – aproveito para apresentar o novo blog de uma pessoa que, para além de ser um dos meus melhores amigos, considero extremamente culta. O blog, escrito em inglês, estreou-se esta semana com a crítica de um livro incluído na famosa colecção da Gollancz, Fantasy Masterworks.

- I am Legend, Richard Matheson (Der Wanderer’s Blog)

- Fantasmas, Aparições e Poltergeists, Brian Righi (Bela Lugosi is Dead)

- World War Z, Max Brooks (Bela Lugosi is Dead)

- O Quarto Planeta, João Aniceto (Correio do Fantástico)

- Um Pinguim na Garagem, Luís Caminha (As Leituras do Corvo) – “E se um dia um de nós descobrisse que é o clone do próprio pai?

Chris Roberson é o co-fundador da editora MonkeyBrain Books, especializada em non-fiction. Para além de editor é também escritor, tendo sido nomeado para os World Fantasy Award em três categorias distintidas – escrita, publicação e edição.

As suas obras enquadram-se frequentemente no género da História alternativa e The Voyage of Night Shining White não é excepção.  Num mundo onde o Império Chinês se expandiu por todos os continentes e apenas o império Inca é autónomo, iniciam-se as viagens espaciais em naves isoladas por cerâmica, em busca de novos territórios e de explorar os recursos minerais disponíveis em Marte.

Zheng Yi, eunuco, é o capitão da nave menos importante da frota, Night Shining White. Embora dispensável, esta nave transporta água para abastecer as restantes, devendo retornar à Terra com as primeiras amostras de terra e minerais – será a última a partir da Terra, e a primeira a regressar. Zheng Yi não tem qualquer experiência em viagens espaciais ou em naves. Na verdade, até há bem pouco tempo, tinha como papel na corte gerir os músicos que divertiam as mulheres do imperador, e sente-se inseguro como líder. Felizmente, a bordo da nave estabelece uma forte amizade com o médico que, tal como Zheng é eunuco e músico.

Numa sociedade de liberdade castrada pela etiqueta, o relacionamento de Zheng com os restantes tripulantes é dificultado pela manutenção de uma imagem de autoridade divinizada. Tal é notório na comunicação entre peritos de engenharia, mesmo quando se torna necessário resolver um grave problema nos motores da nave – existe uma fuga de energia radioactiva que ameça a vida de todos a bordo.

História curta com 70 páginas, possui bons momentos de reflexão, proporcionados pelos dois músicos eunucos (médico e capitão). O desenrolar da crise que se instaura a bordo como resultado do mau funcionamento dos motores é interessante, mas mais interessante seria desenvolver as possibilidades do mundo alternativo referido por Chris Roberson – um mundo tecnologicamente avançado, regido pelas antigas leis imperiais, onde o Imperador era Deus e a honra de o servir era mais importante do que a própria família. Ainda assim é uma noveleta engraçada, de leitura aconselhável mais pela originalidade, do que pela história em si.

Dia 27 de Outubro irá decorrer, pelas 18h30, no auditório da SPA (Avenida Duque de Loulé) um debate sobre FC e Literatura Fantástica. Com Todas as Letras é o nome do evento organizado pela Meus Livros e SPA, onde se contará com a presença de Luís Corte Real (Saída de Emergência), João Seixas (editor da Livros de Areia), David Soares (escritor) e Pedro Reisinho (editor da Gailivro).

Entretanto, sobre o Festival Internacional de BD da Amadora, já começam a existir novidades. O evento irá decorrer entre os dias 23 de Outubro e 8 de Novembro e alguns dos autores estrangeiros já estão confirmados. Os horários e os preços também já se encontram disponíveis.

Para os potenciais escritores, encontram-se abertas as submissões à Antologia Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead para Doenças Excêntricas e Desacreditadas. A antologia é parcialmente uma tradução da colectânea organizada por  Jeff VanderMeer e Mark Roberts, que irá intercalar textos portugueses de assunto semelhante. Entre os autores da colectânea original podemos contar com Neil Gaiman, China Miéville, Michael Moorcock, Paul Di Filippo e Alan Moore. O regulamento para a submissão dos textos encontra-se no site da editora, Saída de Emergência.

O nome Cory Doctorow ouviu-se várias vezes nos últimos meses, em associação com o livro Little Brother, finalista dos prémios Hugo e Nebula. Este ano lança Makers, uma história centrada em dois inventores que não se limitam a construir autómatos úteis, definindo também novos sistemas económicos que transforma o país:

Perry and Lester invent things – seashell robots that make toast, Boogie Woogie Elmo dolls that drive cars. They also invent entirely new economic systems, like the ‘New Work,’ a New Deal for the technological era. Barefoot bankers cross the nation, microinvesting in high-tech communal mini-startups like Perry and Lester’s. Together, they transform the country, and Andrea Fleeks, a journo-turned-blogger, is there to document it.

Then it slides into collapse. The New Work bust puts the dot.combomb to shame. Perry and Lester build a network of interactive rides in abandoned Wal-Marts across the land. As their rides, which commemorate the New Work’s glory days, gain in popularity, a rogue Disney executive grows jealous, and convinces the police that Perry and Lester’s 3D printers are being used to run off AK-47s.

Hordes of goths descend on the shantytown built by the New Workers, joining the cult. Lawsuits multiply as venture capitalists take on a new investment strategy: backing litigation against companies like Disney. Lester and Perry’s friendship falls to pieces when Lester gets the ‘-fatkins’ treatment, turning him into a sybaritic gigolo.

Acompanhando a onda mais recente que integra zombies nos clássicos (como Pride and Prejudice and Zombies), é publicado I Am Scrooge: A Zombie Story for Christmas de Adam Roberts (o autor de Stone, Salt ou Gradisil). A sinopse que acompanha o livro é estranha, mas apenas destacaria esta frase “Can Scrooge be persuaded to go back to his evil ways, travel back to Christmas past and destroy the brain stem of the tiny, irritatingly cheery Patient Zero?”.

Mais interessante parece-me a antologia The Hellbound Heart, inspirada na novela de Clive Barker com o mesmo nome, adaptada para o filme Hellraiser. The Hellbound Heart reúne histórias de autores como Tim Lebbon, Conrad Williams ou Kelley Armstrong, assim como uma pequena graphic novel da autoria de Neil Gaiman. Para os interessados, encontra-se disponível uma lista completa de conteúdos.

Dentro do género História Alternativa, o livro de Scott Westerfeld, Leviathan, decorre numa Primeira Guerra Mundial onde o armamento militar não é apenas mecanizado, mas também vivo – várias criaturas são desenvolvidas especialmente para fins bélicos.  O príncipe do império austro-húngaro foge do país a bordo de Leviathan, uma nave voadora que é uma baleia. Uma das pessoas que controla a nave é uma rapariga disfarçada de rapaz que constitui a outra personagem central. Intrigante.

O primeiro capítulo encontra-se disponível para leitura, e em torno da história podem encontrar algumas imagens interessantes.

Por último, os seguidores da saga The Wheel of Time podem descansar (ao contrário dos que esperam a continuação de The Song of Ice and Fire) porque finalmente sai a primeira parte do último livro, The Gathering Storm.

Após a morte de Robert Jordan, Brandon Sanderson foi o escolhido para terminar a série, decidindo dividir o último volume em três partes. Para quem não conhece o estilo de Brandon Sanderson, Warbreaker foi disponibilizado gratuitamente pelo próprio autor.

Ekaterina Sedia, a autora de The Secret History of Moscow e de The Alchemy of Stone reuniu, na antologia Paper Cities, 21 histórias originais enquadradas no género da Fantasia Urbana. Nestas histórias que decorrem no meio urbano, não encontramos nem lobisomens nem vampiros. Ainda que, de uma forma geral, tenha gostado de todas as histórias (de duas ou três posso dizer que não gostei nem desgostei), apenas irei falar daquelas que se destacam.

A antologia inicia-se com Andretto Walks the King’s Way, uma história de Forrest Aguirre. Este é decididamente um dos melhores contos da antologia, destacando-se mais pela forma como é contada a história, do que pelos eventos que narra. Durante o Carnaval uma prostituta adoece e a contaminação espalha-se. Simultaneamente, o príncipe é atacado por um urso. A acção desenrola-se saltando de personagem em personagem, dando dois parágrafos de espaço a cada uma delas. Desta forma acompanhamos os acontecimentos de diferentes perspectivas.

Forrest Aguirre tem apenas um livro publicado, mas as suas histórias podem ser encontradas em diversas antologias e revistas do género, tendo já ganho o World Fantasy Award e sido nomeado para um Philip K. Dick. Alguns dos contos encontram-se disponíveis online: Keys I Don’t Remember,  StickmenThe Universal Language of Silence.

Outra das histórias que se destaca do conjunto é Courting the Lady Scythe, de Richard Parks, uma história irónica que se centra num jovem cuja única ambição é conquistar uma donzela, a governadora implacável da região.  A obsessão do jovem leva-o a procurar uma entidade mágica que o ajuda… mas não da forma que ele espera. Richard Parks também publica principalmente histórias curtas, tendo sido nomeado para o World Fantasy Award, pela colectânea The Ogre’s Wife: Fairy Tales for Grownups.

Promises: A Tale of the City Imperishable é o conto de Jay Lake, a história de uma sociedade matriacal onde as mulheres passam por um duro treino que irá determinar o seu papel na comunidade: mães, guerreiras ou chefes.

Cat Sparks é a responsável por Sammarynda Deep, uma bela história que retrata as deambulações de uma guerreira por uma cidade de cultura estranha, em que os habitantes se marcam propositadamente: desde cicatrizes a chagas, a retirarem um olho.  Mas a viagem da guerreira não é apenas um passeio turístico. Cat Sparks é uma autora australiana de ficção, tendo ganho dois prémios Aurealis.

Painting Haiti de Michael Jasper centra-se numa jovem que nunca aprendeu completamente a utilizar a magia negra ensinada pela avô. Vive assim nos Estados Unidos da América como taxista e professora de pintura numa associação de apoio a sem abrigos, até que algumas pessoas, consideradas “dispensáveis” começam a aparecer mortas.

Kaaron Warren traz-nos um conto entre o horror e o fantástico. Em Down to the Silver Spiritis acompanhamos um casal que recorre a medidas extremas no desespero de ter filhos, consultando uma espírita. Esta é outra autora australiana de horror, ficção científica e fantasia, mais conhecida pelas suas histórias curtas, com as quais ganhou os prémios Aurealis e Ditmar.

The Sombnambulist é outro conto entre o horror e o fantástico, que segue a esposa dedicada de um mágico: sempre cansada e atormentada por fortes e estranhos sonhos. A história de David Schwartz termina de uma forma irónica que nos deixa um sorriso nos lábios.

Esta é definitivamente uma das melhores antologias que já tiver oportunidade de ler, reunindo histórias de diferentes géneros de fantasia: encontramos desde fantasia em cenário medieval a realismo mágico, passando pelas histórias de fantasmas.

Esta semana resolvi iniciar dois “espaços” semaias no meu blogue – um para notícias e outro para reunir parte do que ocorre nos blogues em língua portuguesas relacionados no fantástico / scifi nacional.  O primeiro espaço começou  na quarta, e o segundo inicia-se com este post. Se no primeiro coloco notícias sobre o género, neste segundo pretendo reunir links para críticas / comentários a livros ou outros posts sobre livros que ache pertinentes. Claro que não conseguirei reunir tudo o que se faz, mas espero contar com a vossa ajuda.

Críticas / Comentários

- A Quarta Profissão, Larry Niven (Correio Fantástico)

- Fahrenheit 451, Ray Bradbury (Correio Fantástico)

- A Última Transmissão Humana (Correio Fantástico) – não é bem um livro, antes um FLI (Filme Literário Interactivo), um projecto interessante, que vale a pena ver.

- Memórias de um vampiro, Rafael Loureiro (Cadernos de Daath) – o post que gerou a polémica da semana, desde reacções bruscas (ver no próprio blog) a diversas discussões em torno do livro e da crítica.

- 2666, Roberto Bolaño (Cadernos de Daath)

Para além das críticas, Safaa Dib publicou a segunda parte do seu top 10 de Ficção Científica no blog Stranger in a Strange Land. Na primeira, publicada há cerca de um ano constavam obras como The Dispossessed de Ursula Le Guin ou Lord of Light de Roger Zelazny.

Finalmente, é de ler o artigo que Luís Filipe Silva copiou para o Correio Fantástico, Science Fiction in Portugal – The Drawing up of a Territory.

Vencedora do prémio Somerset Maugham, Angela Carter foi, não apenas escritora, mas também jornalista, tornando-se conhecida tanto pelas obras feministas, como pelos livros enquadrados nos géneros da Ficção Científica e do Realismo Mágico. Após diversas referências a livros de Angela Carter, peguei no primeiro que me apareceu à frente – Heroes and Villains.

O início era auspicioso. Num mundo pós-apocalíptico a humanidade sobrevive fragmentada em três grupos principais: aqueles que vivem em povoações armadas e vigiadas, os grupos nómadas e os selvagens. Nas povoações armadas co-existem três classes, a dos trabalhadoras, a dos professores e a dos guerreiros. Enquanto a primeira garante o sustento da povoação, a segunda ocupa-se da manutenção e transmissão do conhecimento, e a terceira defende a vila.

Mas nem todos os humanos foram sortudos o suficiente para nascerem numa povoação. Os nómadas, bárbaros incultos, subsistem como parasitas, reunindo grupos de ataque às vilas para obter os bens processados como as farinhas ou os tecidos. Por último, existem ainda os selvagens, seres que parecem ter perdido qualquer semelhança com a restante humanidade, caçando com a ajuda de setas envenenadas.

Marianne é a filha mais nova de um professor de literatura, que se revela incapaz de estabelecer laços com as restantes crianças. Na realidade, a sua única ligação é para com o pai, demonstrando uma enorme apatia à morte do irmão num ataque bárbaro, e posteriormente da mãe, de desgosto. De vez em quando foge da vila para explorar os arredores e um dia observa, escondida um grupo nómada, reparando na pobreza em que vivem. Nesse mesmo dia a ama idosa, já demente, mata o pai. Sem nada que a prenda à povoação, após uma incursão dos nómadas, ajuda um guerreiro a escapar da vila, fugindo com ele.

Os nómadas, supersticiosos e analfabetos, são controlados pelo mago que exercita os seus conhecimentos científicos assim como várias teorias sociais. O jovem que Marianne salvou, por sua vez, é uma espécie de príncipe, cujos comportamentos oscilam entre os de bárbaro e as boas maneiras de um rapaz letrado. E aqui a história descamba. Se a combinação de todos estes elementos se poderia tornar interessante, resvala para um mau romance entre a menina mimada que se torna Marianne, e o bárbaro que se revela tudo menos uma personagem coerente.

A história torna-se um vaivém de humores românticos com lugar para a indiferença fingida e para a frustração causada pela falta de comunicação: uma alegoria à vida conjugal de muitos com lugar até para a sogra. O enredo inicial desmancha-se para se tornar um palco sem importância, abandonado pelas personagens que desenvolvem um relacionamento caótico. Este foi, para mim, mais um daqueles exemplos de uma excelente ideia mal aproveitada.

Nomeado e premiado diversas vezes, Charles de Lint escreve fundamentalmente fantasia enquadrando-se por vezes no sub-géneros urbano. Após mais de sessenta livros, Charles de Lint é um dos nomes mais conhecidos no ramo que ainda não conheceu publicação em português (que eu conheça).

Medicine Road foi publicado inicialmente pela Subterranean Press, onde se pode ler o poema que abre a história. Mais tarde, foi publicado pela Tachyon e é esta a edição que tenho – um paperback de bom aspecto, com várias ilustrações de Charles Vess (o responsável pelas ilustrações em Stardust de Neil Gaiman). Foi então com alguma expectativa que peguei no livro.

A história desenrola-se entre o mundo real e uma dimensão mágica que coexiste com a realidade, em torno de dois seres, animais na dimensão mágica, que se vêm transformados em humanos. Mantendo a capacidade de se transformarem em animais, possuem um prazo de 100 anos para encontrarem o verdadeiro amor entre os humanos para poderem permanecer como seres de cinco dedos.

Para Alice, antes uma Jackalope (cruzamento entre lebre e antílope) foi fácil, tendo encontrado um pintor como companheiro, alguém que embora tenha assistido várias vezes à transformação de Alice, não acredita totalmente na sua origem. Jim Chaning Dog é uma pessoa bem diferente. De relação em relação, Jack não faz promessas de amor e ainda não encontrou alguém que o faça estabilizar. Até, semanas antes do prazo, encontrou uma jovem que o faz parar, Laurel, que actua em conjunto com a irmã gémea, Bess.

Em torno de Alice e Jack existem outras personagens, desde a réptil humana que, pegada ao passado, tenta por pura maldade afastar Jim de Laurel, à dura coiote que pensa ajudar as gémeas ao avisar Bess do perigo que pensa ser Jim. Cliché?

Ainda que a história possua contornos demasiado românticos para o meu gosto, entre a pressão a que é sujeito Jim pelo terminar do prazo face à jovem pela qual se apaixona e as restantes personagens meio humanas que resolvem intervir; tem alguns aspectos que apreciei.  A realidade mágica permite visualizar os objectos e a natureza de outra forma, e a transformação em seres humanos de animais possui um objectivo metafísico, em que cada ser deve elevar a sua alma, preocupando-se em ajudar os que o rodeiam, assim como em defender causas ambientais. São de realçar também as descrições do deserto, não como um local morto, mas como uma terra pululante de vida, e as extensas referências à mitologia dos índios, como os tokens.

Em edição graficamente vistosa, da história em si posso dizer o mesmo que penso em relação a vários outros livros: é engrado, mas nada de especial, possuindo alguns aspectos positivos que não foram o suficiente para me cativar e pensar em ler algo mais do mesmo autor.

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