Abril 2007


Watership Down pode ser descrito resumidamente como um livro sobre coelhos. Das várias descrições que li antes de lhe pegar, foi este aspecto que me intrigou – como poderia uma história que se debruça exclusivamente sobre esta espécie de roedores, ter tanto sucesso. Ficou-me na memória a afirmação de que esta história seria boa demais para crianças. Não concordo. Quanto muito é uma obra que pode ser lida por crianças, que poderão reler com espanto em adultos.

A história roda em torno de dois coelhos que partilham a mesma lura. Nascido da mesma ninhada, são no entanto muito diferentes – Hazel, o mais velho e mais forte pertencerá provavelmente à elite dominante quando crescer; Fiver, o mais novo, é pequeno, fraco e frágil mas possui o dom divinatório.

É por causa da premoniação de um perigo desconhecido que ameaça a coelheira, que ambos resolvem fugir ignorando as ordens do “coelho-chefe”. Conseguem convencer outros a fugir que, temorosos ou descontentes com a situação actual juntam-se à fuga. De início turbulento, a viagem perigosa prolonga-se em busca da terra perfeita dos sonhos de Fiver.

De realçar que nesta história, os coelhos são coelhos. Podem pensar e falar entre eles, mas a sua esperteza é limitada, não possuem tecnologia, nem são tão humanizados quanto em outras histórias. Em compensação o autor desenvolve uma linguagem e uma cultura próprias, com mitologia e expressões características. As histórias contadas são sempre sobre o primeiro coelho, personagem ardilosa, astuta e corajosa que tece sempre incríveis planos não só para proteger a sua espécie, mas para os manter alimentados e livres.

Um livro durante o qual é quase impossível não desenvolver algum carinho e empatia para com estes seres relativamente indefesos. Muito mais do que engraçado ou uma mera história infantil, apesar do aspecto ficcional, a história reflecte um pouco o que é a vida. Como não pretendo estragar o livro a ninguém, do final apenas digo que gostei, o que se tem revelado difícil nos últimos tempos.

Mais um ano decorrido, e retorna o FATAL – Festival Anual de Teatro Académico de Lisboa. Participam não só vários grupos de teatro nacionais, como algumas espanholas.

Tenho a confessar, não sou grande apreciadora de teatro. Podem até contar-se pelos dedos de uma só mão, as peças às quais assisti. Recordo no entanto, que neste festival uma me conseguiu cativar, apesar de falada em espanhol – Km 526. Apresentada pelo grupo da Universidade de Santiago de Compostela, conta-se a história da mulher do governador morto em Agosto de 1936, um ano de mortes, revoluções, uma época de revolta política.

De preço acessível, o Festival conta com Workshops e seminários, para além das peças entre 11 e 27 de Maio. Olhando para o programa, parece que se destaca, de novo, a peça galega.

Podem ler-se nos jornais notícias sobre o aumento do investimento na ciência. Ouve-se falar de novas parcerias, novas instituições, novos ramos de investigação. Ouve-se, le-se. Ver é mais difícil. Infelizmente a maioria das posições parecem ser mais para dar a sensação de um avanço. Novos institutos, novos fundos ou novas parcerias. É tudo muito bonito. Pergunto-me, e então o que já existe?

Aumentam os fundos, sim senhora, mas com o desviar do orçamento para novos projectos (sonantes sem dúvida) baixa muitas vezes o investimento nos laboratórios que se encontram já a produzir resultados.

Se alturas houve já em que abriam anualmente dois concursos por ano para bolsas de doutoramento, o único do ano passado abriu tarde, prolongou-se para além do esperado, e os resultados saíram falhando mais uma vez as datas previstas (para além da barracada que houve em torno das listagens). O resultado dos recursos, por sua vez, só agora começa a ser conhecido. Nisto, esperou-se uma eternidade e em que situação ficam os investigadores que não têm outro modo de sustento? Isto só falando nas bolsas. Avaliação de projectos, essa então… é melhor nem escrever mais nada.

Na realidade, não temos muitos cientistas portugueses. Diria que estamos abaixo da média europeia (esse monstro comparativo que nos assombra). A andar assim não teremos muitos mais. Não sei porquê.

Este é um pequeno livro de contos de Gao Xingjian, escritor chinês que terá emigrado e adquirido a nacionalidade francesa. Ganhou em 2000 o prémio Nobel e dedica-se actualmente não só à esrita, como à pintura e ao teatro.

No primeiro conto acompanhamos um casal em lua de mel, que deambula sem destino traçado, visitando povoações e montanhas, onde encontram um templo. Apesar da transbordante felicidade do casal, o meio que os circunda não é totalmente amistoso.

Segue-se o relato de um acidente de um autocarro e uma bicicleta. O ciclista, adulto, morre instantaneamente, mas a criança que leva consigo, salva-se inconsciente. Junta-se uma multidão, ouvem-se as conversas – lógicas, casuais ou especulativas.

Por sua vez, o conto que dá nome ao livro, Buying a fishing rod to my grandfather gira em torno da compra de uma cana de pesca para o avo. Com a aquisição, a visita ao local da infância torna-se imperativa, mas uma vez lá, o lago terá sido engolido pela areia que ameaça fazer desaparecer também as recordações de criança.

Como o próprio autor admite, o objectivo da sua escrita não é contar uma história, mas a actualização da linguagem. De um modo geral, a narrativa não se revelou particularmente interessante – o modo como estava escrita também não. Do conjunto, foi exactamente o Buying a fishing rod to my grandfather que mais sentimentos me despertou, mas a impressão final foi a de uma grande indiferença.

Se há cerca de dois meses se definiram as datas e os locais onde decorreria o evento, encontram-se agora no site, não só o programa completo como os resumos dos filmes.

Do programa ainda só destaquei dois, A Scanner Darkly (que não estreou nas salas de cinema quando deveria)

Esta adaptação do livro de 1977 de Philip K. Dick, baseado na sua própria experiência com drogas, conta a história de Bob Arctor (Keanu Reeves), polícia infiltrado num grupo de toxicodependentes, que tem como missão descobrir a origem da nova e poderosa droga “D”. Mas, aos poucos, ele próprio fica viciado nesse poderoso alucinogénio e empreende uma corrida contra o tempo, de forma a conseguir cumprir a sua missão.

Recorrendo às técnicas de animação já utilizadas em Waking Life (2001), Linklater cria um universo fluído que faz justiça à degradação psíquica do protagonista, ajudando a criar cenários que representam as alucinações das personagens.

e Death of a President

O filme tem a forma de um documentário televisivo que elata os factos do assassinato de George W. Bush, a 17 de Outubro de 2007. Este “documentário” combina materiais de arquivo e entrevistas e começa com uma montagem de um discurso do presidente num hotel.

Cá fora a multidão está fora de controlo. A tensão vai aumentando e culmina no assassinato de Bush. Depois do ataque sucedem-se as investigações do FBI e a caça ao homem suspeito do assassinato. Fantasiando sobre o futuro, Gabriel Range toca num dos pontos mais sensíveis dos dias que correm: o poder dos meios decomunicação e as suas capacidades de manipulação.

Mais sugestões?

Embora conheça o género no qual se integra o filme, não conheço o jogo que lhe terá dado origem – feliz ou infelizmente, já que como filme deve ter sido dos piores, senão o pior que terei visto numa sala de cinema.

No início somos apresentados a uma criança sonâmbula que deambula durante a noite murmurando silent hill enquanto é procurada pelos pais preocupados. Bem, na verdade, apresentados não será o termo mais correcto, já que praticamente não existe qualquer introdução ou apresentação ao filme, passando-se por uma sequência de acções sem sentido que nos levam até à vila assombrada onde a menina se separa da mãe. Não existe sequer a criação de um ambiente misterioso ou de suspense.

Os diálogos, praticamente inexistentes, até poderiam não ter sido mostrados de tão maus que se tornam, e as frases em paredes ou umbrais, que talvez pretendessem causar algum assombro ou impacto, são sequências de palavras desconexas. E se as frases proferidas deixam algo a desejar, também as interpretações não são de todo satisfatórias, e os figurantes, então, são de temer.

Ah. Existem monstros. Conjuntos estranhos pouco originais que lembram múmias que se deslocam com alguns ossos partidos. Mas, cereja em cima do bolo são mesmo as adaptações horripilantes de possíveis fétiches masculinos – enfermeiras de uniforme justo em poses estranhas e cenas que lembram remotamente hentai.

Finalmente, e como se não tivesse sido já dado a entender, nada faz sentido. Ainda que filmes do género estejam normalmente repletos de momentos pouco inteligentes, aqui o nonsense impera do princípio ao fim. E não, nem para rir deu.

Conhecido fundamentalmente pelas suas histórias infantis como Charlie and the Chocolat Factory, Road Dahl escreveu também vários contos direccionados para adultos.

Na colectânea The Best of Roald Dahl, reunem-se várias destas histórias mais maduras que revelam os piores aspectos da raça humana. Macabros, perversos ou simplesmente estranhos, abundam as características humanas como o egoismo, a ambição ou a maldade. Quase todos possuem um pequeno twist final, por vezes num humor negro muito próprio.

Embora tenha contos excelentes e marcantes, a qualidade difere de história para história, e entre os melhores podem-se encontrar os mais simples e esquecíveis. Muitas vezes o final é expectável, o que nem sempre é negativo, mas que contribui para diminuir o impacto de algumas histórias já por si pouco extraordinárias.

A leitura vale por algumas partes brilhantes e para alguém que não conheça a obra de Road Dahl, o livro reune uma amostra diversa – desde contos fantástico, a mundanos ou de horror.