Setembro 2007


Neste livro de Kosinski, a personagem principal é um jardineiro de nome Chance, que nada tem na cabeça. Incapaz de ter opiniões próprias, simplesmente não pensa, limitando-se a imitar os comportamentos que observa na televisão. Desde que se recorda, viveu cuidando do jardim, que faz parte do prédio onde o velho o acolheu em pequeno. Documentos de identificação não possui, e apelido que saiba, também não.

Um dia o seu benfeitor morre, e vê-se obrigado pelos advogados a deixar o único local que conhece. Consigo leva alguns items de boa qualidade e vagueando sem destino, é atropelado por uma limusina, onde ia a esposa de um bem sucedido homem de negócios. Dada a boa aparência de Chance, é levado para casa do empresário para ser analisado pelo médico e por lá acaba por ficar. A sua mente vazia impressiona os que o rodeiam, pensando tratar-se de uma pessoa estável, sábia, madura e inteligente – acaba assim por ganhar a confiança de todos e vai-se tornando uma figura proeminente.

Como sempre não posso deixar de fazer algum paralelismo com o outro livro do mesmo autor, Pássaro Pintado. O cenário é totalmente diferente, e embora Pássaro Pintado fosse algo chocante pelo mundo que rodeava uma inocente criança, aqui, a premissa simples toma dimensõs assustadoras pelos juízos de valor positivos que se fazem em torno do vácuo arrepiante que é a mente de Chance.

Gostei, achei piada, mas não se tornou num dos meus favoritos.

Este foi daqueles livros que durou apenas um dia. Mais pequeno do que Kafka on the Shore ou Hard boiled Wonderland and the end of the World, After Dark decorre numa só noite.

Mais leve, de linguagem mais corrida e por isso mais fácil de ler, apesar de interessante, é incomparável aos outros dois. Se os anteriores possuíam um estranho género de fantasia que conferia um manto flutuante de irrealidade, em After Dark, o surreal é praticamente inexistente, vestigial e explicável. Existe, num canto, mais como figura de estilo do que como parte da história.

A caracterização das personagens permanece interessante – apenas parcialmente desvendadas, nem sempre compreensíveis, com as suas excentricidades e peculiaridades. Estranhas personagens que são puxadas para acontecimentos pouco usuais que lhes parecem servir na perfeição. Boas personagens que poderiam ter sido melhor aproveitadas.

Gostei imenso do livro, mas a impressão que me deixou foi a de ser uma vertente mais comercial de Haruki Murakami, facilitando a história e tornando-a demasiado ligeira, quase mundana.

O trailler já prenunciava um filme algo burlesco… e a expectativa coincidiu com a realidade.

A história que serviu de base à adaptação não parece, por si só, a mais esplendorosa maravilha do género, mas poderia ter sido melhor apresentada.

Ainda que do elenco façam parte vários actores conhecidos, as primeiras cenas transmitiram-me logo uma falta de seriedade gritante, e a qualquer momento esperava que os actores se desmanchassem a rir, mesmo nas partes mais sérias e trágicas.

Existem várias lutas, mas com malabarismos raramente bem enquadrados, fazendo lembrar um tosco filme de Jackie Chan. As batalhas, no entanto, safaram-se, emprestando à segunda metade do filme alguma capacidade de diversão, apesar do final expectável. No meio de tudo isto, existem igualmente alguns (poucos) elementos fantásticos, que parecem desenquadrados e despropositados.

O filme, esse, no seu conjunto – vê-se…