Dezembro 2007


Quase no final do ano, é altura de olhar para trás e fazer o balanço, neste caso, olhar para a listagem de livros lidos, e recordar (ou não) o que me deixaram (como no ano passado…)

Para além das más recordações, há as obras que não deixaram nenhumas, o que considero ser o pior.

Como com as pessoas, há livros com os quais não vamos à bola – mas que acabam por nos marcar de alguma maneira. Lembramo-nos de terem cruzado o nosso caminho e provavelmente o “não gostar” não passa de uma embirração derivada do estado de espírito da leitura – mas pior, é a indiferença sentida por uma obra.

No entanto, há livros que acabam por nos desiludir. Não por não termos gostado, mas porque a expectactiva foi tanta que, quando finalmente os lemos, pensamos “Afinal, era isto”. Neste estado de espírito deixaram-me A Guerra das Salamandras (Karel Capek), The Clerkenwell Tales (Peter Ackroyd), e o tão badalado The Road (Cormac McCarthy). O primeiro, uma obra FC de referência, revelou-se um tanto ou quanto aborrecido. O segundo, andou pelo mesmo caminho. O terceiro, deve ter sido dos livros mais falados este ano. Desde recomendações no NYTimes, a referências em blogs e fórums (se não me engano, foi um dos livros aconselhados pela Oprah), o livro esteve em todo o lado. Talvez por isso. Não o achei um espectáculo…

Ainda bem que algumas obras se destacaram positivamente, das quais deixo uma listagem de 11 (entre a dezena e a dúzia, para não deixar de fora nenhum dos que queria incluir):

- A Bondade dos Estranhos (João Barreiros) – como no ano anterior, o que leio deste autor, acaba por se incluir entre o melhor. Mais palavras aqui para quê , se já foram escritas?

- O Segredo do Bosque Velho (Dino Buzzati) – após as várias sugestões para ler esta obra, a expectativa era grande. Mas nem por isso me desiludiu, pelo contrário, levou-me a comprar, e bem depressa, os outros dois livros do autor, publicados pela Cavalo de Ferro. Ainda que não me tivesse apercebido na altura, foi este que, dos três, mais me ficou na memória (e ao mesmo tempo que escrevo isto, recordo os outros dois e atinge-me a indecisão… mas, bolas, foi este que recordei primeiro e é este que fica na listagem).

- House of Leaves (Mark Z. Danielewski) – a escrita de um comentário alongado no blog tem sido sucessivamente adiado, mas este é daqueles livros que, sem dúvida, tem de constar da lista. Um livro labiríntico em todos os sentidos, desperta sentimentos opostos, oscilando entre a sedução e a repulsa… E devo parar por aqui, senão acabo por escrever o tão adiado comentário aqui… É quando parece que não vamos conseguir parar de falar (ou escrever) sobre um livro que nos apercebemos o quão bom é – para ficarem com uma melhor ideia deixo link

- A Sereia da Curitiba (Rhys Hughes) – o segundo livro que li deste autor, revelou-se uma escolha tão boa como o primeiro. Mas achei este mais hilariane, mais non-sense, carregado de referências e pequenas private jokes – um daqueles livros que nos traz um sorriso aos lábios… Talvez também por ter assistido à sua apresentação pelo autor… Mas o melhor é ler um post de um outro blog

- A Game of Thrones (George R R Martin) – Ah e tal… fantasia… pura e dura. Mas não é para crianças… ou então é para crianças crescidas. Sarcasmo, ironia, enredos, traições, amizades, mortes… não, o autor não pretende poupar ninguém. O primeiro livro da série entusiasmou-me e dizem-me que isto ainda melhora… a ver vamos, que o segundo já cá mora.

- Hard Boiled Wonderland and the end of the world (Haruki Murakami) – outro autor que se repete na listagem deste ano… do qual espero ler mais alguma coisa nos próximos tempos. Que dizer? fiquei fã. Pena que o After Dark me tenha desiludido um pouco…

- O Dilema de Shakespeare (Harry Turtledove) – livro de História Alternativa, conseguiu divertir-me o suficiente para ser incluído e pensar em adquirir outros via net (já que , que eu saiba, mais nenhum se encontra publicado em Português).

- Biblioteca (Zoran Zivkovic) – acho que não cheguei a “publicar” um post para este livro (pelo menos não o encontrei, ainda que me lembre de o ter escrito). Um livro de seis contos indispensável a todos os que gostam de livros e de bibliotecas… e de livros, e livrinhos, e livros encadernos e um sem fim de histórias, contos, páginas repletas de frases, palavras, letras por lá espalhadas…

- Watership Down (Richard Adams) – o estranho não é o livro estar nesta lista, mas ser um livro sobre coelhos… Sim. Aqueles roedores felpudos que vivem em tocas.

- O Livro do Deslumbramento (Lord Dunsany) – outro livro de fantasia, este, com referências a quase tudo o que existe no género… só que foi escrito antes do que é actualmente conhecido (ou pelo menos, da maioria).

- Viriconium (John M Harrison) – décimo primeiro, não necessariamente o último (já que a ordem foi aleatória). Este é outro livro de fantasia, que possui várias histórias em torno da mesma cidade imaginária que toma vários nomes ao longo do tempo… Para perceber um pouco melhor, não muito, é ler o artigo na Wikipedia sobre a cidade.

Mas não foram só estes que me ficaram na memória – outros houve que merecem uma referência. Claro. Livros como O Cavaleiro Inexistente (de Italo Calvino, que não consta da listagem talvez pela comparação com o Barão Trepador, que gostei imenso), Criaturas da Noite (de Lazaro Covadlo, livro impressionante, mas não o suficiente para ser incluído na listagem acima, em minha opinião), Man in the Hight Castle (de Philip K. Dick – até gostei imenso, não fora o final…), UnLunDun (de China Miéville, um livro de fantasia diferente do anterior que li do mesmo autor, mais virado para o público juvenil mas ainda assim, muito bom) ou Chance (de Jerzy Kosinsky, é um livro arrepiante, não por ter, como Pássaro Pintado, cenas de extrema malvadez e violência, mas pela hipótese que suporta a história).

And That’s All Folks !

Existem pedaços de músicas que conseguem trazer-nos todos os sentimentos possíveis e imaginários à memória. Torrentes de sentimentos em poucos instantes – trazem-nos uma lágrima numa nota ou um sorriso aos lábios na próxima entoação. Correm lembranças do que somos, do que fomos. Lembranças de nós próprios e dos outros que por nós passaram.

Não apetece respirar. Apenas suster para não estragar a música. Ou então, respirar com o instrumento de cordas que por detrás se faz ouvir.

Fechar os olhos para nos deixarmos invadir, e para deixar correr as teclas por entre os dedos. Mas devagar. Para não se sobrepor à música, para não se fazer sentir na pele como aquela palavra dita de forma especial.

Há músicas assim, com as quais nos identificamos qualquer que seja a altura da nossa vida, que nos lembram de nós próprios, que nos lembram dos outros que fazem e fizeram parte da nossa vida. Com alguma melancolia sim. Mas sem tristeza. Life is what it is.

Pale White – Yann Tiersen

Este foi o momento sentimental do blog. Porque sim. Apeteceu-me.

(mais…)

Conhecido pelas suas obras nos mais diversos campos, desde peças de teatro a poesia, Edward Plunkett ou Lord Dunsany terá influenciado várias na área do Fantástico. Vários são os escritores que admitem a sua influência, desde Lovecraft, a Jorge Luis Borges, ou Ursula K. Le Guin e Moorcock, assim como Guillermo del Toro.

Ainda que, na Fantasia, as influências comuns sejam várias, e se possam encontrar elementos semelhantes entre vários autores por alguma razão me lembrei dos piratas de Rhys Hughes e do monstro horripilante de El Laberinto del fauno.

The Book of Wonder, ou o Livro do Deslumbramento possui vários contos curtos, maioritariamente de duas ou três páginas, carregados de elementos fantásticos que parecem saídos das mais antigas lendas e com um desenrolar inesperado.

Dando como exemplo uma passagem muito característica (que misteriosamente foi também a passagem escolhida na wikipedia, e assim coloco-a na língua original):

The Gibbelins eat, as is well known, nothing less good than man. Their evil tower is joined to Terra Cognita, to the lands we know, by a bridge. Their hoard is beyond reason; avarice has no use for it; they have a separate cellar for emeralds and a separate cellar for sapphires; they have filled a hole with gold and dig it up when they need it. And the only use that is known for their ridiculous wealth is to attract to their larder a continual supply of food. In times of famine they have even been known to scatter rubies abroad, a little trail of them to some city of Man, and sure enough their larders would soon be full again.

O desenrolar é quase sempre invulgar, nalguns o final é conhecido mas nem por isso as histórias menos interessantes e podemos quase sempre encontrar passagens de humor aguçado e sarcástico, com algumas pitadas de malvadez.

Uma leitura interessante, muito por causa do estilo próprio do autor, recomendável a todos os que gostam de boa fantasia.

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Alguns dos contos podem ser lidos em inglês.

Página da editora