Outubro 2008


Catherynne Valente era-me totalmente desconhecida até ter participado no blog de Jeff Vandermeer. Ainda que não tenha lido nda da autora, os seus livros despertaram-me grande interesse não só pelos elementos fantásticos como pelo ambiente negro.

Palimpest , a mais recente obra da autora que será publicada em Fevereiro, teve origem num conto que pode ser lido online e que foi publicado na Antologia Paper Cities, An Anthology of Urban Fantasy.

Uma capa misteriosa e pouco reveladora do conteúdo que infelizmente me parece a re-utilização da mesma ideia utilizada emApocrypha, um livro de poemas da mesma autora.

Sobre a cidade, Palimpest, é-nos deixada uma descrição pesada e sinistra, que até agora me tem parecido, característica da autora:

There is a city you have never heard of. It is a city of dreams and flesh, of night-terrors and exaltation. It is a city that exists as a virus, passed from person to person, on skin and on bone, streets and alleys and factories and orchestral halls crawling and thriving, infinitesimally small, on the bodies of those who have been touched by Palimpsest. And once you have entered this place, once you have tasted it, you will do anything to get back.

Para além das colectâneas, New Weird, Steampunk e Best American Fantasy 2 (2008) o casal Vandermeer publicará ainda este ano,  Fast Ships, Black Sails . Esta conterá vários contos sobre piratas que pelas descrições e críticas disponíveis parece ser um conjunto de histórias engraçadas e dementes.

Da total lista de participantes (que se encontra disponível aqui), realçaria Naomi Novik (Saga Temeraire publicada em Portugal pela Presença), Rhys Hughes (publicado pela Livros de Areia) e Moorcock (em Portugal pela Saída de Emergência).

Os restantes autores são-me totalmente desconhecidos.

Mas para aguçar o apetite, deixou-vos a sinopse:

Do you love the sound of a peg leg stomping across a quarterdeck? Or maybe you prefer a parrot on your arm, a strong wind at your back? Adventure, treasure, intrigue, humor, romance, danger–and, yes, plunder. Oh, the Devil does love a pirate–and so do readers everywhere.
Swashbuckling from the past into the future and space itself, Fast Ships, Black Sails, edited by Ann & Jeff VanderMeer, presents an incredibly entertaining volume of original stories guaranteed to make you walk and talk like a pirate.
Come along for the voyage with bestselling authors Naomi Novik, Garth Nix, Carrie Vaughn, Dave Freer, Michael Moorcock, and Eric Flint, as well as such other stellar talents as Kage Baker, Sarah Monette, Elizabeth Bear, Steve Aylett, and Conrad Williams–all offering up a veritable treasure chest of piratical adventure, the likes of which has never been seen in the four corners of the Earth. Highlights include a brand-new Garth Nix Sir Hereward & Mr. Fitz novella, as the two clever ne’er-do-wells storm the sea-gates of the scholar-pirates of Sarkoe.
If ever you had a yearning for adventure on the high seas, now’s the time to indulge it, with Fast Ships, Black Sails. You’ll return with a sword shoved through your sash, booty in a safe harbor, and beer on your breath. We promise.

Os próximos, não são novos, mas são re-edições espectacularmente pensadas que formam colecções coerentes, com capas diferentes e pouco associadas ao género fantástico ou FC:

- Totally Space Opera - que inclui obras como Ilium (Dan Simmons) , Eon (Greg Bear) ou Rendezvous with Rama (Arthur C. Clarke)

- Os próximos 10 clássicos de FC – sobre os quais já me tinha referido e onde se incluem Hyperion (Dan Simmons) ou Altered Carbon (Richard Morgan)

- Alguns Fantasy Masterworks – como Elric (Moorcock), Chronicles of Amber (Zelazny), Darker Than You Think (Jack Williamson), Song of Kali (Dan Simmons) ou Lyonesse (Jack Vance)

- Penguin Classics Read Red - uma colecção composta por obras de horror / terror, de onde se podem destacar the Dunwich Horror (Lovecraft) ou de The Masque of the Red Death (Edgar Allan Poe).

Confesso que nalguns casos fiquei com pena de já ter os livros… e de não ter o hábito de comprar novas edições dos que já tenho…

Primeiro e, até agora, único livro de K. J. Bishop (autora australiana que reside actualmente na Tailandia), The Etched City foi nomeado para a categoria de melhor novela tanto no World Fantasy Award como no British Fantasy Society. Publicado por diversas editoras, até agora a capa interessante será a da edição inglesa pela TOR.

A história enquadra-se dentro do género fantástico, talvez até no New Weird. A acção decorre num Mundo diferente, do qual fiquei com a ideia de ser pós-apocalíptico ou pós-guerra – um Mundo negro, de justiça laça governado pelos grupos armados e balas dispersas. Conhecemos as duas personagens, Gwymn e Raule numa espécie de deserto, com a cabeça a prémio e tentando escapar do Exército dos Heróis. Encontram-se numa espécie de estalagem e prosseguem viagem juntos até conseguirem entrar na Cidade de Ashamoil.

Na cidade tudo muda, o ambiente, as personagens e até diria, a escrita. Raule e Gwymn separam-se. Raule não consegue um lugar no hospital central e acaba por exercer a sua actividade médica num centro de apoio local apoiado por freiras. Gwymn, por sua vez, junta-se a um bando armado comandado por um dos homens mais poderosos da cidade.

Mas se pensavam que tinham atingido a estabilidade, coisas anormais sucedem-se nesta cidade, de onde se destaca a considerável quantidade de mulheres que dão à luz monstros pouco humanos e perturbadores.

Nostálgico, negro e cativante, este livro poderia ser comparado aos livros de Vandermeer ou de Miéville. No entanto, não se torna nem tão estranho ou denso, nem tão impregnado de uma cultura fantástica própria quanto o trabalho dos referidos autores. The Etched City pareceu-me precisar de mais trabalho de modo a se tornar focado e ritmado.

A cidade de Ashamoil pode ser encontrada numa compilação de histórias sobre cidades fantásticas Leviathan: Cities, uma série de livros que se dedicam a “exploring the character of cities and the city as character“, mapeando as cidades, explorando-as e concedendo-lhes vida própria.

Para quem quiser saber algo mais sobre K. J. Bishop, pode explorar o seu blog ou ler uma extensa entrevista em Clarkesworld Magazine. Ainda poderão encontrar excertos do livro em Fantastic Metropolis.

Este são os mais novos moradores das minhas estantes. Destes só Os da Minha Rua (Ondjaki) e A Hora Má (Gabriel Garcia Marquez) foram adquiridos.

No caso do Ar – Ter ou Não Ter, escrevi uma carta para a direcção de Marketing da Gailivro como indicam no blog. Poucos dias depois, já cá tinha a versão portuguesa. Temporal Void foi ganho num Blog GIveaway, assim como The Two Pearls of Wisdom. Demoraram a chegar, mas valeu a pena. Vodu nas Caraíbas também me foi oferecido, mas por alguém com uma cópia duplicada.

Isto sim, é que foi uma semana proveitosa !

um viajante

Esperado há muito, de aquisição por diversas vezes adiada, finalmente lido.

Um livro sobre livros, sobre leitores, sobre escritores – um livro com pedaços de outros livros – mas serão estes pedaços histórias isoladas ou pedaços de uma história maior que resulta no entrelaçar destas pequenas para criar algo maior?

Um falso escritor, um escritor perdido na angústia da sua recente incapacidade, livros formulados ou livros profetizados – serão os livros resultantes de uma fórmula menos livros do que os outros se até a mesma essência parecem destilar? Serão não-livros e apenas nomeados livros aqueles saídos do punho de um escritor?

Um leitor que conhece uma leitora, em que nenhum deles consegue terminar o livro que tem entre mãos – erros de impressão, cadernos trocados, títulos misturados, traduções falseadas e intercaladas, que não são nem o livro esperado do título, nem o livro que se pensava estar a ser traduzido, talvez um não livro… um par de leitores salta irremediavelmente de livro em livro sem nunca conseguir terminar o último, ainda que pretendessem conseguir terminar qualquer um deles – livros sem fim, livros sem nome, livros sem capa, ou livros sem autor.

Uma obra que nos poderá fazer pensar no nosso próprio processo de leitura, no modo diferente como diferentes pessoas olham para o mesmo livro, como o tentam analisar ou apenas saborear, no modo diferente como algumas pessoas procuram significado ou apenas aceitam o que lá está escrito…

Isto foi, para mim, Se Numa Noite de Inverno um Viajante de Italo Calvino.

Publicado em 1954, este é um dos cinco livros disponibilizados em português pela Editora Cavalo de Ferro. O último a aparecer no mercado, A Derrocada da Baliverna é uma compilação de contos de Dino Buzzati semelhante a Pânico no Scala ou a Os Sete Mensageiros.

Até agora, a minha preferência vai para o Segredo do Bosque Velho seguido de O Deserto dos Tártaros. Não desgosto dos contos, mas nalguns fico com a sensação de estar a ler um trecho de um romance – uma parte de uma história maior e mais complexa da qual apenas antevejo uma ponta.

Aparte esta sensação deixada por alguns contos, a colectânea tem algumas histórias memoráveis e espectaculares, começando por aquela que lhe dá nome. Sucintamente, um homem terá tentado escalar um velho edifício, habitação de uma populaça de origem e profissão duvidosa. A construção é, no entanto, instável não só pelos anos que tem, como pelos maus tratos que sofreu – cai um pau, solta-se uma varanda, desliza uma parede e cedo o prédio inteiro cede num momento surreal.

A maioria das histórias partilha a mesma mistura de fantasia, destino e de fatalidade, típica já de outras histórias de Dino Buzzati – uma senhora não se recorda de ter saído de casa com a filha há 4 dias; a vida de cinco irmãos torna-se um inferno de medo e desconfiança às mãos de um feiticeiro manipulador; ou um príncipe leproso que pelas preces se cura descobre que não mais deseja retornar à vida despreocupada e repleta de mordomias de outrora.

No geral, escritas e manipuladas com mestria e implacabilidade, de final fatalista ou raramente aliviante, as histórias compõe um conjunto coeso e harmonioso no tom. Ainda que seja um daqueles livros que aconselharia a todos os que gostam de Borges, Casares ou Calvino, se já leram os outros livros de contos, este não será de todo surpreendente.

O mercado continua a ser populado com diversas novidades no género fantástico, ainda que mais viradas para o público infantil ou juvenil. Este é um estilo muito em voga que parece ter ganho curtas mas fortes raízes.

A Editorial Presença tem publicado muito frequentemente dentro do género fantástico juvenil, com a sua colecção Via Láctea ou Estrela do Mar, tendo chegado a vez de A Profecia de Aurobon (The Dreamwalker’s Child em inglês) de Steven Voake:

Desde que os pais se mudaram para o campo, a única coisa que distrai Sam Palmer é o seu fascínio por insectos, mas, nos últimos tempos, estes parecem ter adoptado um comportamento estranho, como se andassem a vigiá-lo. E se Sam já achava isso suficientemente bizarro, imagine o seu espanto e terror quando, ao sofrer um acidente, acorda em Aurobon, um mundo onde é procurado por causa de uma antiga profecia que diz que ele se irá erguer contra Odoursin, um ditador cujos planos tenebrosos ameaçam a Terra… Uma aventura imaginativa, poderosa e repleta de acção que transportará o leitor para um mundo fantástico que não quererá abandonar.

A parte dos insectos parece interessante e até algo original, a ideia de uma profecia que rodeia o nosso herói é no entanto algo que está quase gasto até à exaustão. Resta saber a opinião de quem lê.

Ainda no site da Editorial Presença, podemos tomar conhecimento da data de lançamento do último livro de J. K. Rowling - Os Contos de Beedle, o Bardo, a 4 de Dezembro. Esta é uma obra há muito esperada, desde que foram lançados os 7 exemplares escritos à mão e ilustrados pela própria autora. Um destes foi adquirido pela Amazon, encontrando-se disponível uma edição de luxo especial.

Por sua vez, a Bertrand publicou recentemente Elspeth, a Senhora do Pensamento – As Crónicas de Obernewtyn (em inglês simplesmente Obernewton):

Num mundo que emerge penosamente do limiar do apocalipse, a existência é uma luta. Para Elspeth Gordie, nascida com insondáveis poderes mentais que a condenariam à esterilização ou à fogueira se fosse descoberta, a vida envolve inúmeros perigos.
Só o segredo permite a sobrevivência, por isso ela decide nunca recorrer aos seus dons proibidos. Estes parecem, contudo, ter um desígnio próprio e, ao usá-los, Elspeth atrai inevitavelmente as atenções do Conselho totalitário que governa a terra.
Enviada para a longínqua instituição de Obernewtyn, de onde ainda ninguém conseguiu fugir, Elspeth terá de despir o seu manto de segredos e enfrentar aqueles que desejam ressuscitar as terríveis forças na origem do apocalipse.
Só então Elspeth descobre verdadeiramente quem é — e o que é.


Para quem já conhece Altered Carbon, Black man não será uma surpresa, mas uma confirmação do género de Richard Morgan.

Num Futuro pouco distante em que os avanços tecnológicos se encontram dentro do expectável, Marte é uma colónia para onde se enviam os indesejáveis e trabalhadores pagos a preço de ouro. Em laboratório foram desenvolvidas variantes genéticas de seres humanos, como Bonobo ou Thirteen. Bonobo é uma variante humana de mulheres submissas usadas como criadas sexuais. Por sua vez, com Thirteen pretendia-se criar uma estirpe de homens mais agressivos, mais hábeis em combate – uma espécie de homem pré-civilizado, e consequentemente com uma baixa capacidade de integração e com a mania da perseguição. Estes seriam os soldados solitários por excelência. Ainda que as variantes genéticas sejam desprezadas, temidas ou marginalizadas, os Thirteen são os únicos que estão proibidos de procriar e que foram enviados para Marte, quando mais deles não havia necessidade. É a cor escura dos Thirteen que origina o título da edição inglesa do livro Black Man, ainda que na América tenha sido lançado como Thirteen para não ferir susceptibilidades.

Carl é um dos poucos Thirteen que conseguiu voltar a Terra, ficando encarregue de capturar Thirteen fugitivos – trabalho violento, imprevisto e frio que o leva a ter de eliminar por vezes outros seres humanos. E é por isso que, fora da jurisdicação da sua empresa, é colocado numa prisão, sem julgamento.

Simultaneamente, aquando da aterragem de uma nave de Marte com destino à Terra, origina-se o pânico. Um Thirteen clandestino terá acordado semanas antes do término da viagem, sozinho e sem comida… se não considerasse como tal os restantes tripulantes adormecidos. O cenário de terror é descoberto, mas o tripulante canibal desaparece misteriosamente.

E é com vista a poderem perseguir este Thirteen que Carl é liberto pelos agentes da COLIN.

Black Man é um livro movimentado, carregado de acção e de bons momentos, semelhante a Altered Carbon. No entanto, a meu ver terá sido demasiado prolongado com reviravoltas desnecessárias, tornando o final aliviante (finalmente acabou). Richard Morgan tenta também incorporar alguma tensão sexual que acaba por se perder nas passagens melancólicas que parecem tentar justificar as acções das personagens. Para mim, são estes dois pontos que me levam a não considerar este como um dos melhores livros do género dos últimos tempos.