Novembro 2008


ASFA (The Association of Science Fiction and Fantasy Artists) é uma organização não lucrativa de artistas amadores e professionais, assim como de outras profissões envolvidas na arte do género.

Esta associação tem como intuito o encorajamento e o desenvolvimento da arte visual relacionada com a Ficção Científica, a Fantasia ou a Mitologia.

Anualmente, ASFA é responsável pelos Chesley Awards desde 1985, que têm como objectivo reconhecer o trabalho individual e são apresentados anualmente na Worldcon.

A listagem de nomeados para este prémio pode ser encontrada online, assim como alguns dos trabalhos responsáveis pela nomeação.

Para os que gostam deste género de arte, o site vale a visita.

Ar foi um dos grandes lançamento de FC deste ano, em Português, não só pela qualidade do livro mas pela pouco usual campanha publicitária, o que é raro na publicação de um livro.

Parte da campanha pode ser observada num blog próprio, construído pela editora Gailivro, onde, para além de outras coisas, se pode ler o primeiro capítulo. Tenho pena que o blog não tenha sido mais desenvolvido.

Para além do site, a editora disponibilizou aos bloggers, o livro, à imagem das campanhas publicitárias de várias editoras em Inglaterra ou nos E.U.A, que sorteiam ou distribuem vários exemplares. Tal pretende fazer com que os livros não passem despercebidos no meio de outros tantos – originam-se comentários, críticas desperta-se a curiosidade de potenciais leitores.

Dois outros livros do mesmo autor tinham sido já publicados em Portugal – The Warrior who Carried Life (O Guerreiro que trazia a vida) pela Editora Caminho na coleccção Caminho FIcção Científica e The Child Garden (O Jardim de Infância) na colecção Limites da Clássica Editora. Do primeiro desconhecia a publicação portuguesa até ver a Bibliowiki e o segundo tinha-me sido muitas vezes recomendado como um excelente livro sob uma péssima capa (para os que não conhecem esta edição, digo só que na capa habita uma única rosa, assemelhando-a à de um qualquer romance rosa pegajoso).

Have, Not Have foi o início de Ar - uma curta história incluída em The Magazine of Fantasy & Science Fiction. Mais tarde esta história foi alongada dando origem a Air. Vencedor dos prémios British Science Fiction, James Tiptree e Arthur C. Clarke, é uma mistura entre dois géneros, a fantasia e a ficção científica.

A história começa com a expectativa do teste ao Ar. Ar é uma nova tecnologia que permite às pessoas ligarem-se directamente, à semelhança da internet, sem recorrerem a qualquer tipo de equipamento informático. Numa aldeia semi isolada de Karzistan (país inventado), o teste é aguardado com ansiedade, sem saberem com exactidão o que esperam. Pensam poder ver filmes e espectáculos, mas desconhecem todo o potencial que Ar irá trazer.

Não é pois uma surpresa quando, durante o teste, algumas pessoas entram em pânico e morrem, de choque ou desorientação. Mae, a especialista de moda da aldeia, foi a que mais explorou Ar durante a experiência, tendo inclusivé, assistido à morte de uma grande amiga, já idosa. A ligação estabelecida entre as duas enquanto em Ar, permite à amiga falecida apoderar-se, por vezes do corpo de Mae.

Com Ar, veio a mudança e o medo da Mudança – abrem-se inúmeras possibilidades, mas ao mesmo tempo surgem os grupos resistentes que julgam poder ignorar o Futuro.

A história, que não perde tempo com explicações sobre as bases científicas ou tecnológicas, possui diversos pormenores inverosímeis – mas nem por isso é menos interessante. O facto de estar bem escrito cativa o leitor fazendo com que os factos pouco credíveis se tornam um factor de distanciamento. O que interessa é o enredo.

Apesar de ter gostado imenso do livro tenho pena que o final tenha sido tão mirabolante.

Editor e escritor, Jeff Vandermeer ganhou por duas vezes o World Fantasy Award, tendo sido finalista de outros prémios inúmeras vezes. Conjuntamente com a esposa é responsável por inúmeras antologias, desde The New  Weird a Steampunk ou Fast Ships Black Sails.

Do autor de livros como Shriek e City of Saints and Madmen, será lançado Finch, que decorre na mesma cidade fantástica de Ambergris.

Ainda que possua uma sobreposição espacial com os anteriores livros em Ambergris, este parece diferenciar-se por impregnar o género policial

In the occupied and oppressed city-state of Ambergris, the detective John Finch must solve a sensitive double-murder for his inhuman masters, the Grey Caps.  Nothing is as it seems as he negotiates his way through the landscape of spies, rebels, and deception.  The fate of the city is in the balance, with Finch caught squarely in the middle.

A blunt sharp shock to the system, VanderMeer’s latest takes noir mystery, adds surreal fantasy, and comes up with a startling new hybrid.

De teor mais negro, chega-nos Living with the Dead publicado pela PS Publishing, o que desde já promete.

Ainda que Darrell Schweitzer escreva mais dentro do género do fantástico negro ou do horror, também tem obras dentro do fantástico ou da ficção científica. Algumas das suas obras, como Necromancies and Netherworlds: Uncanny ou Transients: And Other Disquieting Stories foram nomeadas para o World Fantasy Award.

Darrell Schweitzer é ainda um dos editores / contribuidores da Weird Tales.

Living with the Dead como o próprio nome indica, tem uma premissa negra:

The dead come from the sea, at night. They merely arrive and are discovered in the morning on the wharves, lying in great heaps. It has been the immemorial custom for people to take them into their homes, to find places for them, to pattern their increasingly cluttered lives around the growing accumulation of corpses. No one knows why, although it is the irresistible decree of the Unseen Government that the order of things must be preserved, at all costs. Old and young must participate, and carry away the dead, on bicycles, in carts, on their backs if need be. It has always been so. It always will be so.

This isn’t Hell, or an Afterlife, just a place, a fog-shrouded, tradition-stifled town without a name, where the dead are accommodated at the expense of the living, where the established way of life has become a grotesque absurdity, and a few brave or foolish or deviant souls struggle to find some meaning, and perhaps unravel the mystery of the dead.

The NightWatch e The DayWatch constituem parte de uma série fantástica de Sergei Lukyanenko que foi já adaptada para cinema.

Os livros centram-se na existência de um Mundo paralelo habitado por pessoas aparentemente normais mas que constituem os Outros – vampiros, magos ou bruxas; com capacidades mágicas. Existem os Outros da Luz e da Escuridão que se vigiam e lutam eternamente. Originais dentro do género, não são o expoente máximo da literatura, mas divertem; e ainda que possuam as banais figuras fantásticas míticas, estas são tratadas de um modo diferente do habitual.

Ainda que só tenha lido os dois primeiros, tenho vontade de ler os que se seguem – no seguimento de The Nightwatch e The Daywatch, foi lançado já um terceiro, Twilight Watch e chega agora a vez de The Last Watch:

While on holiday in Scotland, visiting a macabre tourist attraction, ‘The Dungeons of Edinburgh’, a young Russian tourist is murdered. As the police grapples with the fact that the cause of the young man’s death was a massive loss of blood, the Watches are immediately aware that there is a renegade vampire on the loose. Anton – the hero of The Night Watch and The Day Watch – is detailed to this seemingly mundane investigation, but on arriving in Scotland begins to realise that there is much more to the story than a wildcat vampire and a single murder.

Aided by Thomas, the head of Edinburgh’s Night Watch, Anton investigates and ruminates, and becomes aware that a team of unlicensed Others are hunting for a fabled magical treasure, hidden in the sixth level of the Twilight by Merlin himself…

Já por cá tinha falado de Clarkesworld, uma revista online que publica contos de autores conhecidos e desconhecidos, dois dos quais nomeados para WSFA Small Press Awards. Para além dos contos, são publicados artigos não científicos acompanhados por belíssimas e fascinantes capas.

Conhecida a revista, e dado que não gosto de ler no ecrã, adquiri a colectânea que reúne as histórias do site. De entre as várias histórias vou só referir as que mais me interessaram.

- 304 Adolph Hiltler Strasse (Lavie Tidhar) – Num Mundo em que a Alemanha terá vencido a guerra, e nos primórdios de uma net de contornos clandestinos, um jovem decide fazer parte do universo de escritores de contos eróticos onde são retratados encontros entre arianas alemãs e judeus esfomeados – prevalece a imagem dos judaicos em campos de concentração, agora uma raça extinta – homens esfomeados e escanzelados.

- Lydia’s body (Vylar Kaftan) – é um conto arrepiante. Amanda vê-se presa num corpo e numa época aos quais não pertence, encarnando uma jovem que vive sozinha com o pai. Apaixona-se, mas este é um amor impossível pois o pai pensa estar a ser seduzido pela própria filha.

- Urchin’s While Sleeping (Catherynne M. Valente) – é a história melancólica de uma geração de mulheres que têm de viver eternamente molhadas – não podem deixar-se secar, nem durante a noite, tendo de acordar frequentemente para tomar banho e molhar os cabelos.

- Orm the Beautiful (Elizabeth Bear) foi um dos dois contos nomeados. Orm é o último da sua espécie e lutando contra os humanos tenta arranjar uma forma de preservar os restos mortais dos seus semelhantes de modo a que estes possam continuar a cantar eternamente.

- The Third Bear (Jeff Vandermeer) – tal como o conto de Catherynne M. Valente, é intemporal, trágico e contado com mestria. O tom é sarcástico e Vandermeer não tem medo de conduzir a história por caminhos menos convencionais.

- The Taste of Wheat (Ekaterina Sedia) – talvez devido às altas expectativas que tinha em ler finalmente algo de Ekaterina Sedia, não fiquei fascinada. Laivos de fábula tradicional, detalhes de folclore popular, a história centra-se numa jovem cuja vida é dedicada a cuidar do avo e que segundo os que a rodeiam nunca há-de casar.

Este é um conjunto de contos bem diferentes que se demarcam pela estranheza – como a maioria das colectâneas contem histórias medíocres que mal são dignas de menção, e alguns contos razoáveis – mas um raro número de excepcionais.

Os prémios deste ano não me revelaram novos autores, mas foram a distinção de profissionais já conhecidos no meio:

Novel: Ysabel, Guy Gavriel Kay (Viking Canada/Penguin Roc)
Novella: Illyria, Elizabeth Hand (PS Publishing)
Short Story: “Singing of Mount Abora”, Theodora Goss (Logorrhea, Bantam Spectra)
Anthology: Inferno: New Tales of Terror and the Supernatural, Ellen Datlow, Editor (Tor)
Collection: Tiny Deaths, Robert Shearman (Comma Press)
Artist: Edward Miller
Special Award, Professional: Peter Crowther for PS Publishing
Special Award, Non-Professional: Midori Snyder and Terri Windling for Endicott Studios Website

Os livros de Guy Gavriel Kay, e mais especificamente, Tigana, encontram-se quase sempre nas listas dos melhores do Fantástico; menções estas mais do que merecidas, se forem todos tão bons ou melhores que The Last Light of the Sun. Três dos seus livros tinham já sido nomeados anteriormente para este prémio – Tigana em 1991, Sailing to Sarantium em 1999 e Lord of Emperors em 2001. Chegou a vez de Ysabel:

Provence, in the south of France, is one of those parts of the world that can truly be called a paradise. But history teaches us that paradises are coveted, and fought over, and those sun-dappled vineyards and river valleys have also seen millennia of invasions and violence, strangers coming time after time to lay claim to it. Accompanying his photographer father to the celebrated city of Aix-en-Provence, near Marseilles, 15-year-old Ned Marriner finds himself drawn into a centuries-old battle as dangerous, mythic figures from the Celtic and Roman conflicts of long ago erupt into the present, claiming and changing lives. The larger-than-life figures of a 2,500-year-old romantic triangle seem to be in the world again, and Ned and his family and friends are shockingly drawn into their tale on one night when the borders between the living and the dead are blurred and fires are lit upon the hills …

Guy Gavriel Kay iniciou a sua carreira como escritor ao ajudar o filho de Tolkien na compilação de Silmarillion. Para além dos elementos fantásticos, nos seus livros podem-se encontrar detalhes culturais de várias sociedades medievais, como a Nórdica, a Francesa ou a Espanhola de vasta influência mourisca.

Elizabeth Hand é daquelas autoras da qual já tinha visto várias referências, nenhuma que me despertasse o interesse. Neste caso, o que me fez parar e olhar não foi tanto o prémio, mas a editora, Ps Publishing, conhecida pela qualidade do que publica. Para além de Illyria, entre as obras de Elizabeth Hand contam-se vários outros nomeados e vencedores do prémio World Fantasy Award.

A informação disponível sobre Illyria é escassa, mas aqui fica o resumo que se pode encontrar no site oficial da editora:

Teenagers Maddy and Rogan Tierney are cousins, two among dozens living in a tumbledown family enclave outside New York.
Secretly, or not so secretly, the pair are lovers, and if this weren’t bad enough, they are also drawn to the stage, to music, reviving a Tierney tradition of artistic involvement long since abandoned for more practical, worldly pursuits. Parents and siblings radiate disapproval.
But encouraged by their mysterious Aunt Kate, and by a magically animated toy theatre hidden in a forgotten attic room, Rogan and Maddy become involved in a school production of Twelfth Night. Their own lives eerily echoing the play’s concerns with twinning and disguise, they are thereby destined for brief apotheosis and lasting heartbreak, in a narrative of stark emotional power and potent nostalgic richness.
Elegant and fraught as only Elizabeth Hand’s novellas can be, Illyria is a superb tale of illicit devotion and the fleeting potentials of childhood, one of the finest stories of the year.

Theodora Goss escreve, fundamentalmente, contos, vários dos quais já destacados com prémios e nomeações para o Nébula ou o World Fantasy Award. Livros publicados, tem um – In the Forest of Forgetting, uma compilação que possui histórias espectacularmente bem escritas.

O conto nomeado, Singing of Mount Abora, foi publicado inicialmente em Logorrhea, uma colectânea que pretendia reunir os contos dos melhores Storytellers actuais

Inferno: New Tales of Terror and the Supernatural, por sua vez, é uma compilação organizada por Ellen Datlow, que pediu a vários dos seus autores favoritos para:

“provide the reader with a frisson of shock, or a moment of dread so powerful it might cause the reader outright physical discomfort; or a sensation of fear so palpable that the reader feels compelled to turn on the bright lights and play music or seek the company of others to dispel the fear.”

Entre os autores escolhidos podem-se destacar Elizabeth Bear, Joyce Carol Oates ou Conrad Williams:

Each author approaches fear in a different way, but all of the stories’ characters toil within their own hell. An aptly titled anthology, Inferno will scare the pants off readers and further secure Ellen Datlow’s standing as a preeminent editor of modern horror.

Tiny Deaths de Robert Shearman era o livro totalmente desconhecido desta listagem de vencedores:

Robert Shearman’s debut collection offers a gravity-defying spectacle: a procession of perfectly weighted what-ifs floating just above the real world, self-contained hypotheticals all buoyed up by a single, infinitely variable theme: mortality. Whether questioning our deepest metaphysical assumptions about death, or playing tricks with its analogies – the death of a relationship, or the petit mort of the title – Shearman continually surprises and subverts. Alien intelligence, reincarnation, imaginary children, even conversations with Hitler’s childhood pet, are all deployed to unpack the complexity, absurdity and blessedness of seemingly ordinary people.

O artista premiado foi Edward Miller, o pseudónimo do artista Les Edwards. Ilustrações sob ambos os nomes podem ser encontradas nas capas de várias revistas ou livros. Destacam-se as capas feitas para a coleccção SF Masterworks (Last and First Men, Earth Abides), Pern Series (Dragonsfire) , Ilario de Mary Gentle,  Wizard of Earthsea de Ursula le Guin ou Song of time de Ian MacLeod.

Tendeleo’s story de Ian mcdonald é um retorno ao mundo contaminado de Chaga, ou Evolution’s Shore, livro que desconheço mas que depois desta história me deu vontade de conhecer.

As chagas, depositadas pelos alienígenas, crescem rapidamente onde caem, incutindo o seu padrão indescritível a tudo em que tocam – engolem vilas, cidades ou países e transformam irreversivelmente a paisagem. Ainda que à primeira vista possam passar por fungos, na realidade são nanomáquinas que redesenham a paisagem.

Ainda que existam várias chagas a crescer a velocidade alarmante no Hemisfério sul, o quotidiano das populações ainda não afectadas não é modificado.

Tendeleo, filha de um pastor cristão, vive numa remota aldeia africana, com a sua família. Quando as Chagas se aproximam o suficente para constituirem uma ameaça, Tendeleo, movida pela curiosidade, convence a irmã a visualizar de mais perto o que se aproxima. Como os restantes seres humanos, experimenta as duas sensações antagónicas – medo e fascínio – pelos coloridos e diferentes invasores.

Finalmente, as chagas engolem a vila de Tendeleo, e a família é movida conjuntamente com milhares de refugiados, perdendo o estatudo social que detinha anteriormente. Face à apatia dos pais, Tendeleo vê-se obrigada a procurar emprego e a zelar pelo sustento da família. A única possibilidade é servir de correio, transportando esporos das chagas para os americanos. Com uma arma nas mãos, torna-se destemida e nada teme. Mas a chaga continua a aumentar, e Tendeleo tem de escapar para o Mundo Ocidental.

De Ian McDoanld só conhecia River of Gods, um livro sempre referenciado como um dos melhores de FC. Tendeleo’s Story, ainda que não tenha o entrelaçar e a complexidade de River of Gods, não é tão simples quanto possa parecer e é uma história bem contada capaz de cativar o leitor. Talvez o final seja demasiado redentor, o que nalguns livros pode fazer surgir um sorriso cínico – mas tal não me aconteceu neste caso.

A Hora maNunca vos deu vontade de pegar em algo de um autor específico? Isso acontece-me com alguns autores, e especialmente com Gabriel García Márquez – escrita pouco densa, mas capaz, fatalidades e desgraças que se conseguem tornar cómicas pela forma como são descritas, factos semi-fantásticos que dão à história uma aura surreal. A Hora Má, apesar de não ser um dos melhores do autor, não desiludiu.

Numa vila remota são deixados pasquins à porta dos vários moradores, papeís que divulgam os rumores que já todos ouviram, mas que ao verem a luz da madrugada, parecem confirmar as más línguas e atraem a desgraça a várias famílias. (Re)descobrem-se os filhos bastardos, relatam-se traições e, até, são assassinados os amantes revelados. Ainda que aquilo que é publicado nem sempre corresponda inteiramente à verdade, todos têm algo a esconder e temem a hora má. Unem-se esforços para descobrir quem coloca os bilhetes, mas sem sucesso.

Para além dos pasquins. o dia a dia na vila é influenciado pelas personagens ilustres que nela habitam – o juiz mulherengo, o alcaide corrupto cuja autoridade roça o ridículo, e um padre que se debate entre os ratos que habitam a igreja, o poder dos papéis da madrugada e a censura do cinema local.

A história torna-se não só uma descrição pitoresca de um quotidiano remoto, mas também uma crítica subtil e perspicaz aos Governos da América do Sul.

Este romance foi adaptado para cinema por Ruy Guerra com o nome O Veneno da Madrugada. Uma crítica interessante a este filme pode ser lida em Enquadramento.

Realçado em vários sites, nomeado para alguns prémios, pretendia conhecer alguma coisa de Charles Stross ainda este ano. Talvez pelas altas expectativas, não apreciei tanto Accelerando como esperava. A premissa é impressionante e até esplêndida, mas o desenrolar pareceu-me inconstante, e o final tornou-se insatisfatório.

A acção divide-se entre as duas gerações de uma família – Manfred Macz e Amber Macz. Manfred é um génio que descobre sucessivamente esquemas económicos que resultam no enriquecimento dos que o rodeiam, revolucionando o modelo económico actual. Num Mundo dominado pela tecnologia em que começa a ser possível o upload das mentes, Manfred ajuda um conjunto de lagostas a escapar ao domínio cibernético humano. Casado com Pamela, demasiado controladora e dominadora, acaba por se divorciar antes de saber que tem uma filha com ela – Amber. Estes são os factos mais importantes da vida de Manfred que irão ter consequências imprevisíveis no desenvolvimento da espécie humana.

Amber Macz, por sua vez, é uma criança precoce com implantes cibernéticos desde os três anos. Talvez por essa razão, Pamela está decidida a dar-lhe uma educação demasiado tradicional. Será o excessivo  e claustrofobiante controlo de que fará Amber contactar o pai de modo a fugir. Amber acaba por viver diversas vidas – a maioria das quais em Mundos Virtuais onde se encontra clonada ou reproduzida. Num desses mundos torna-se a rainha e instaura uma sociedade de parecenças medievais. É nesta realidade que entra em contacto com inteligências extraterrestres que pretendem estabelecer trocas comerciais duvidosas. Fora do Mundo Virtual, Amber vive uma realidade mais enfadonha mas que acabará por se interligar com a realidade das suas restantes personalidades.

No final, ficou-me a impressão de uma ideia original que se desgasta na transicção entre os bons momentos e as partes dolorosamente chatas que pretendemos ver passar depressa.

Dos últimos lançamentos do género, existe um que se destaca pelo burburinho e curiosidade que tem causado – A Invenção de Hugo Cabret de Brian Selznick. Lançado pela Gailivro, é um livro escasso em palavras, fascinante pelo seu interior, repleto de imagens a preto e branco, que ainda que pareça destinado a jovens ou crianças, tem maravilhado adultos:

Órfão, guardião dos relógios e ladrão, Hugo vive por entre as paredes de uma movimentada estação de comboios parisiense, onde a sua sobrevivência depende de segredos e do anonimato. Mas quando, repentinamente, o seu mundo se encaixa – tal como as rodas dentadas dos relógios que vigia – com o de uma excêntrica rapariga amante de livros e o de um velho amargo, dono de uma lojinha de brinquedos, a vida secreta de Hugo e o seu segredo mais precioso são colocados em risco. Um desenho misterioso, um bloco que vale ouro, uma chave roubada, um homem mecânico e uma mensagem escondida do falecido pai de Hugo formam a espinha dorsal deste intrincado, terno e arrebatador mistério.

Para os interessados em saber mais sobre o livro ou o autor, podem consultar o site oficial – The Invention of Hugo Cabret.

De Anne Bishop, mais conhecida pela Trilogia das Jóias Negras (que entretanto, parece-me, deixou de ser apenas uma trilogia e evoluiu para uma série de 8 livros), chega-nos Sebastian, através da Saída de Emergência – um livro que pela capa diria tratar-se uma história cor-de-rosa juvenil, mas que tem uma premissa atraente como base:

Bem-vindos a Efémera, onde a terra se altera em resposta aos mais profundos desejos e medos dos seus habitantes. Há muito tempo, Efémera foi dividida em inúmeras paisagens mágicas ligadas somente por pontes. Pontes que podem levar quem as atravessa para onde realmente pertence e não ao local onde pretende chegar. Numa dessas paisagens habitada por demónios e onde a noite impera, o meio-íncubo Sebastian delicia-se em prazeres obscuros. Contudo, aguarda-o um destino devastador. Uma aprendiza descuidada libertou um mal antigo que agora se agita – e o reino de Sebastian poderá ser o primeiro a sucumbir… Mas em sonhos, ela chama por ele: uma mulher que não deseja mais do que ser amada e sentir-se protegida – uma mulher pela qual ele anseia mas que sabe poder vir a destruí-la. Ela é Lynnea, e o seu improvável romance está no centro da batalha que se trava entre a luz e as trevas.

Da Saga Temeraire é agora publicado o segundo volume, pela Editorial Presença O Trono de Jade. A série, que assenta na existência de Dragões durante o Período Napoleónico, tem sido descrita uma história alternativa original, que ocorre numa época movimentada:

Will Laurence e o seu magnífico Téméraire encontram-se em grandes apuros. Na longínqua China, descobriu-se finalmente que o ovo destinado a Napoleão caiu nas mãos erradas, e agora uma imponente embaixada deslocou-se à Grã-Bretanha e não pretende ir-se embora sem recuperar um dos seus dragões mais raros e valiosos. É assim que Laurence e Téméraire iniciam uma longa viagem para o Extremo Oriente, porém mal fazem ideia daquilo que os espera na corte do Imperador… Conseguirá o leitor acompanhá-los nesta aventura?