Dezembro 2008


Após um desastre (nunca explicado), estabelece-se na cidade um cenário pós-apocalíptico. As pessoas, isoladas do Mundo exterior, perderam quase todas as características que as distinguiriam dos animais. A comida escasseia, e toda a carne que se apanha é bem vinda, ainda que provenha de cães… ou até de outros seres humanos.

Neste Mundo arrepiante vive Carrier, uma mulher que não perdeu a esperança de escapar da zona isolada e que, diariamente, se arrisca pelas ruas em busca de comida para si e para o companheiro, imobilizado e cada vez mais demente.

Carrier mantém alguma humanidade, em parte por conseguir manter contacto com o Mundo exterior, através de um velho computador encontrado num edifício abandonado há muito. Assim, tenta tecer alguns planos de fuga… até que o seu quotidiano tenebroso é quebrado por uma personagem que, vestida de branco, percorre as ruas, dançando – O Dançarino.

Nearly People é uma história negra carregada de  fatalidades num mundo degradante e vicioso – é neste ambiente que se tece o surreal, mas cru, cenário de sobrevivência.  Apesar de curto, o livro capta o leitor até ao twist final que nos deixa um estalo atordoante.

Depois de apresentar a minha lista de Melhores de 2008, deixo aqui vários links para outras listas do mesmo género, com algumas sugestões interessantes:

- Booksptocentral –  Bookspotcentral é um site que se destaca não só pelas reviews que tem apresentado, como pela quantidade de livros que oferecem (desde Engelbretch de Rhys Hughes, a Fast Ships, Black Sails). No post de Best Of apresentam-nos, não uma lista resultante de uma votação, mas um texto de cada reviewer, cada um com o seu estilo próprio, onde nos apresentam vários livros (eu tomei particular atenção à lista de Trinuviel, na qual constam livros como The Last Light of the Sun, A Clash of Kings ou Perdido Street Station).

- Fantasy Book Critic – Neste blog optou-se por apresentar listas de vários autores / editores

- SF Signal propôs a vários autores que nos indicassem o melhor dos géneros SF, Fantasy e Horror não só em livros, mas também em filmes. O resultado encontra-se partido em dois posts, ambos com propostas interessantes:

- Omnivoracious – um blog da amazon, possui listas tão diferentes quanto os seus contribuidores:

- Pós-estranho – Fábio Fernandes apresenta-os várias listas, ordenadas por género, tipo (novelas, noveletas, contos…), estrangeiros / brasileiros:

- Of Blog of the Fallen – um resumo interessante com várias graphic novels, que inclui a antologia Flight ou A People’s History of American Empire.

- Blood of the Muse entre as nomeações para os melhores blogs, e os melhores artistas, pode ser encontrada uma lista das 10 melhores leituras de 2008.

- The Hotties –  2008 Year-End Awards in Pat’s Fantasy Hotlist.

- I09 Best Science Fiction Books o 2008 – I09 é um site onde podem encontrar outros artigos tão… estranhos, quanto As Predições para 2009 pela Ficção Científica, ou The Greatest and Wrongest Spoilers of 2009.

Irei adicionar novos links conforme os for encontrando e achando relevantes.

Ladies of Grace Adieu 2 Jonathan Strange & Mr Norrell, de Susanna Clarke tornou-se um dos livros mais conhecidos de Fantasia, tendo sido premiado com os prémios Hugo e World Fantasy Award, e nomeado para inúmeros outros.

As opiniões, no entanto, diferem. Para uns demasiado longo, aborrecido perdendo-se nas inúmeras notas de rodapé, para outros uma obra fascinante para quem as anotações são um acrescento que ajuda a fortalecer o mundo que envolve a história.

Eu gostei de ler – a rivalidade de dois magos num século XIX inglês alternativo da qual a magia faz parte.

The Ladies of Grace Adieu and Other Stories revelou-se bastante diferente do primeiro livro da autora.  A colectânea de oito contos em que algums decorrem no mesmo mundo que Jonathan Strange & Mr Norrell, distingue-se não só pelo estilo, como pelo tamanho dos parágrafos, o ritmo das frases, a seriedade das palavras e a total ausência das míticas notas de rodapé. Na verdade, é como se os contos tivessem sido escritos por outra pessoa, não possuindo a solidez  do aclamado Jonathan Strange & Mr Norrell.

É, no entanto, um conjunto de histórias engraçadas, aprazíveis que, simplesmente, não devem ser lidas como tendo em vista uma continuação do livro anterior.

The fungus in this place has eaten into the typewriter ribbon. I’m typing in sticky green ink now, each word a mossy spackle against the keys. If I could turn off the light, no doubt my sentences would read themselves back to me in a phosphorescent fury-the indignation of creatures uncovered from beneath a rock.

Ambergris, a cidade criada por Jeff Vandermeer, tinha-me já sido introduzida por City of Saints and Madmen: uma cidade assombrada pelos gray caps e habitada tanto por pessoas, como por fungos. Na verdade, a cidade comporta-se como se fosse propriedade passageira das pessoas: explosões de cogumelos, luminescências esverdeadas, nuvens de esporos e superfícies irregulares cobertas por mantas coloridas. Tais expressões de vida fazem lembrar os horrores escondidos na história da cidade, que ninguém pretende recordar.

Neste livro retorna-se a Ambergris, desta vez pela voz dos irmãos Shriek: Janice e Duncan. Ainda que a escrita principal pertença a Janice, vai sendo intercalada (entre parêntesis) pela de Duncan. A infância de ambos terá sido marcada pela morte do pai, um historiador que morreu de felicidade. Duncan, que cedo revelou vontade de explorar as florestas sombrias, os túneis escuros e outros lugares inóspitos; segue algumas das pegadas do progenitor, dedicando-se a tentar descobrir a verdade sobre os estranhos acontecimentos que assombraram a cidade de Ambergris. Janice, por sua vez, dedica-se às artes, recebendo alguma notoriedade por impulsionar um novo movimento artístico através do lançamento de Martin Lake.

A vida de Duncan será marcada por duas obsessões: a verdade sobre os graycaps e Mary Sabon; e ainda que tenha obtido algum sucesso pelos seus livros de história, cai no ridículo e no esquecimento quando revela factos que devem permanecer escondidos. Contaminado pelos fungos que habitam os subterrâneos que percorre, Duncan é, ainda, expulso do local onde lecciona por manter um relacionamento amoroso com uma das alunas – Mary. Também Janice cai no anonimato, recordando constante e melancolicamente os seus tempos áureos.

Uma história pausada e sofrida, Shriek possui um tom bastante diferente de City of Saints & Madmen, e talvez por isso não me tenha cativado à primeira. Tive que parar a leitura e só decorridos vários meses, retorná-la – desta vez engolindo as várias páginas de um trago. Por vezes, a leitura de um livro depende da nossa disposição, outras, só à segunda se entranha uma história. Ainda que algumas passagens sejam demasiado extensas, outras, como a da Ópera, ficar-me-ão na memória. Desta poderão ler um excerto no site do livro.

Nesse mesmo site, encontra-se informação sobre uma banda sonora e um filme, realizados em torno de Shriek.

Em português, de Jeff Vandermeer, foi publicado um pequeno livro contendo três histórias, pela editora Livros de Areia, A transformação de Martin Lake & Outras histórias, uma das quais (a que terá dado o título ao livro), terá vencido o World Fantasy Award.

Angelica Gorodischer, argentina, apesar de ter escrito vários contos de FC, fantasia ou crime, é mais conhecida por Kalpa Imperial, obra de onze contos traduzida para o inglês por Ursula le Guin e contemplada com os prémios Sigfrido Radaelli, Más Allá e Poblet.

Kalpa Imperial retrata um Império extenso que ninguém conseguiria percorrer de ponta a ponta no tempo de uma vida, um Império que nasce e renasce, que se renova como uma Fénix. Sucedem-se imperadores e dinastias, guerras e períodos de paz – na maioria das vezes o trono é herdado, noutras é tomado pela força ou pela intriga. Como seria de esperar, uns governam para o bem do povo, outros pretendem governar bem mas tomam as decisões erradas.

O Império existe num Mundo em tudo semelhante ao nosso – não existem seres fantásticos, nem tecnologias avançadas; tudo o que lá existe é-nos conhecido, desde desertos, a montanhas, cidades ou animais. As pessoas, por sua vez, possuam também ocupações comuns: contadores de histórias e artistas, comerciantes, viajantes ou ladrões.

É neste mundo que decorrem as várias histórias que constituem Kalpa Imperial, histórias que se sucedem cronologicamente e que em comum possuem o tom em que são contadas (como lendas ou fábulas) e o pano de fundo: o Império.

Uma Imperatriz de origens humildes deambula pela cidade, livre sem guarda-costas, um ladrão vê-se líder de uma batalha, um Imperador ordena a construção de uma cidade em honra da amante; estas são algumas das histórias que compõe o livro.

Todos os onze contos são fragmentos de uma história maior, a do Império imenso que nunca existiu. Bem contados, lembram pequenas fábulas que nos deixam, no final, a vontade de ler mais histórias em torno do mesmo Universo.

Os interessados podem encontrar excertos disponíveis online:

- Portrait of the Emperor

- The End of a Dynasty or The Natural History of Ferrets

The storyteller said: He was a sorrowful prince, young Livna’lams, seven years old and full of sorrow. It wasn’t just that he had sad moments, the way any kid does, prince or commoner, or that in the middle of a phrase or something going on his mind would wander, or that he’d wake up with a heaviness in his chest or burst into tears for no apparent reason. All that happens to everybody, whatever their age or condition of life. No, now listen to what I’m telling you, and don’t get distracted and then say I didn’t explain it well enough. If anybody here isn’t interested in what I’m saying, they can leave. Go. Just try not to bother the others. This tent’s open to the south and north, and the roads are broad and lead to green lands and black lands and there’s plenty to do in the world — sift flour, hammer iron, beat rugs, plow furrows, gossip about the neighbors, cast fishing nets — but what there is to do here is listen. You can shut your eyes and cross your hands on your belly if you like, but shut your mouth and open your ears to what I’m telling you: This young prince was sad all the time, sad the way people are when they’re old and alone and death won’t come to them. His days were all dreary, grey, and empty, however full they were.

Em continuação dos anos anteriores (2007 e 2006), e porque adoro listas (Best of, To Read Before You Die … and so on) aqui ficam aqueles que considerei como as melhores leituras de 2008 (por nenhuma ordem especial):

- Abarat, Cliver Barker

- Blood Music, Greg Bear

- The Etched City, K J Bishop

- El libro de los seres imaginarios, Jorge Luís Borges

- Se numa noite de Inverno um viajante, Italo Calvino

- O Labirinto, Panos Karnesis

- River of Gods,  Ian McDonald

- The Throne of Bones, Brian McNaughton

- Altered Carbon, Richard Morgan

- Kalpa Imperial, Angelica Gorodisher

- Animal Farm, George Orwell

-  Pequenos Mistérios, Bruce Holland Rogers

- Air, or Have not Have, Geoff Ryman

- O Último Anel, Kiril Yeskov

Destes, destacaria Se Numa Noite de Inverno Um Viajante (Italo Calvino), River of Gods (Ian McDonald), Altered Carbon (Richard Morgan) e Animal Farm (George Orwell).

O primeiro tinha sido uma leitura por várias vezes adiada e finalmente concretizada. No final, manteve-se à altura das elevadas expectativas. Italo Calvino dedica-se a fazer mais do que contar uma história, apresentando-nos uma série de livros, alguns escritos, outros falsos, outros por escrever que constituem um todo. Uma leitura fascinante.

Animal Farm era, também, um daqueles livros que há muito pretendia ler.  Revelou-se melhor que 1984, uma fábula contada através de olhos inocentes que, ainda assim, consegue dar a conhecer, ao leitor, uma realidade menos feliz.

River of Gods e Altered Carbon revelaram-se dois dos melhores livros de Ficção Científica de sempre. River of Gods distingue-se por decorrer num país terceiro mundista, Índia, o que lhe dá um ambiente distinto de outros livros do género. De realçar, igualmente, o entrelaçar da história das várias personagens – algo que, quando bem trabalhado, costuma ter bons resultados.

Altered Carbon foi uma boa surpresa. Dentro do género Cyberpunk, decorre num futuro em que os humanos podem trocar de corpo, melhorar o que já possuem ou viver para sempre. A história é movimentada e cativante. Talvez este tenha sido o grande culpado por não ter apreciado, posteriormente, Neuromancer de Gibson.

Mas este foi também, um ano de contos, destacando-se:

- Pump Six, Paolo Bacigalupi (Fantasy & Science Fiction Magazine)

- Two hearts, Peter Beagle (Fantasy – The Best of 2006)

- Yoo Retoont, Sneogg Ay Noo, Mark S. Huberath ( The SFWA European All of Fame)

- Vertummte Musik, W. J. Maryson ( The SFWA European All of Fame)

- Urchin’s While Sleeping, Catherynne M. Valente (Realms: The Annual Clarkesworld Anthology)

- The Third Bear, Jeff Vandermeer (Realms: The Annual Clarkesworld Anthology)

Pump Six é um conto arrepiante que retrata uma sociedade futura, cujos mecanismos foram feitos para durar vários anos e onde já ninguém sabe como arranjar seja o que for. Ninguém se preocupa. Por outro lado, a população excede o óptimo e o saneamento há muito é deficiente. Os humanos são cada vez menos inteligentes e parecem regredir.

Dos restantes contos já falei quando comentei as respectivas antologias:

- Two Hearts e The Third Bear são duas histórias que relembram as tradicionais lendas populares. Histórias de monstros que atormentam as populações e que deverão ser eliminados. Têm, no entanto, desfechos bastante diferentes.

- Urchin’s While Sleeping, por sua vez, é um conto melancólico e fantástico

-  Yoo Retoont, Sneogg Ay Noo, uma história triste, mostra-nos um mundo pós-apocalíptico de seres humanos defeituosos devido às elevadas radiações

- Vertummte Musik, outra história triste, mistura o fantástico com a ficção científica, numa sociedade distópica da qual um casal pretende escapar.

Dos vários livros que cá esperam por ser lidos, espero conseguir ler, em 2009:

- Perdido Street Station – China Mieville

- The Fourth Circle – Zoran Zivkovic

- Only Revolutions – Mark Z. Danielewski

- The Lies of Locke Lamora – Scott Lynch

- In the cities of coin and spice – Catherynne M. Valente

- As cruzadas vistas pelos árabes – Amin Maalouf

Lançado pela Editorial Teorema como A Odisseia de Penélope, Penelopiad foi publicado inicialmente num conjunto de livros, Canongate Myth Series, onde uma série de autores contemporâneos se propôs a recontar mitos antigos. Mais tarde foi publicado isoladamente e, inclusivé, adaptado para peça de teatro.

A história de Ulisses, contada por Homero em Odisseia, é uma das mais conhecidas da actualidade. Ulisses, herói grego de onde ressalta não a força ou a capacidade de combate, mas a astúcia, ingressa numa viagem que o afasta durante vinte anos da sua casa, em Ítaca. Lá terá deixado a jovem esposa, Penélope.

E é através da esposa de Ulisses, que Margaret Atwood conta uma versão diferente, a história de quem esperou o regresso dos heróis.

Segundo Penelopiad, Penélope não terá sido uma criança feliz, atirada pelo pai às águas à nascença e ignorada pela mãe, Periboea, uma ninfa das águas, cresce à sombra da mítica beleza da sua prima Helena. Finalmente, deixa a casa onde passou a infância, para partir com o vencedor da corrida, Ulisses (que, como seria de esperar, utilizou métodos alternativos), para Ítaca. Mas nem na nova casa foge à família, e ve Ulisses ser arrastado para a Guerra de Tróia.

A voz principal é a de Penélope, em Hades. No entanto, intercala-se com o coro das damas enforcadas aquando do regresso de Ulisses à casa. Mas a versão do esposo terá algumas imprecisões que Penélopse se propõe a esclarecer.

Penelopiad é uma história curta de uma mulher atormentada que, sem amigos e sem aliados, espera eternamente o marido, sobre o qual se diz encontrar-se entre os braços de uma deusa – a sogra mantém-se distante, a ama de Ulisses controla parte da casa e o filho torna-se um rapaz mimado e sem modos.

Leitura há muito esperada, Penelopiad tornou-se uma desilusão. É uma leitura rápida que se tornou, a meu ver, medíocre perante tanta lamúria em que as melhores passagens pertencem decididamente às damas que, com os seus cânticos trágicos, pretendem recordar uma peça de teatro grego.

Poderão todas as cidades ser descritas a partir de uma, completa, à qual são retiradas propriedades? Serão todas as cidades, afinal, uma só?

Em Cidades Invisíveis assistimos à descrição de várias cidades por Marco Polo ao imperador Khan. Marco Polo descreve, não o comércio e as riquezas particulares das cidades como o fazem os mercadores, mas o que as torna únicas e fantásticas. Algumas são realçadas pela forma como foram e são construídas, outras pela arquitectura, outras pelos habitantes e seus hábitos.

Uma cidade que se espelha, uma cidade em água, uma cidade desenhada em sonhos a partir da perseguição de uma dama – todas as cidades podem ser descritas, todas se distinguem em comparação com a cidade que Marco Polo toma como base – Veneza.

Cada cidade é descrita de forma concisa, ocupando de 1 a 3 páginas. Entre estas descrições, assistimos aos diálogos entre Marco Polo e o Khan – conversas que aproveitam as cidades como alegoria, para mais vastas discussões filosóficas.

O modo como as cidades são apresentadas faz-nos reflectir sobre o conceito de cidade em si – uma cidade não é os monumentos que possui, as ruas e a população que nela habita, mas é constituída pelo conjunto de tudo isto que lhe confere uma assinatura.

Ainda que não tenha apreciado tanto Cidades Invisíveis como Se numa noite de Inverno um viajante, é uma mistura de fantasia e filosofia, com passagens espectaculares, que demonstra a mestria de Italo Calvino.

Nomeado para o prémio Nébula em 1975, as várias cidades descritas por Italo Calvino têm sido aproveitadas tanto por arquitectos como por artistas para visualizar as possibilidades de uma cidade. Exemplos destes trabalhos podem ser observados no site de Mikhail Viesel (em que são ilustradas todas as cidades) ou de Colleen Corradi.

De Paul McAuley tinha lido anteriormente A Invenção de Leonardo, um livro de História Alternativa que, embora tenha apreciado, não se tornou um dos meus favoritos.

Paul McAuley escreve também Ficção Científica impregnada de Biologia Molecular, como viria a descobrir com Fairyland (que faz parte da colecção de 8 volumes Future Classics da Gollancz) – talvez por causa do seu passado como investigador em Oxford.

Vencedor dos prémios Arthur C. Clarke e John W Campbell, Fairyland retrata um Mundo de Fadas que representa o Mundo das infinitas possibilidades. Este Mundo não é, como seria de esperar, um sonho – antes um pesadelo, uma ilusão momentânea para os humanos, uma realidade efémera para outros seres inteligentes – As Fadas. Estas, por sua vez, não possuem a mítica origem que se encontra nos normais contos. São antes o resultado da transformação de bonecas, seres humanos assexuados, modificados geneticamente para desempenharem as mais variadas funções, sem vontade própria e comandados por um chip incorporado.

Alex é um cientista obscuro que trabalha numa linha de negócio que se tornará ilegal – à semelhança das drogas tradicionais, constrói vírus que permitem estimular o cérebro, modificar emoções ou memórias. Dado o potencial público alvo para os seus produtos e o seu passado duvidoso, Alex vê-se forçado por um gangster a enveredar numa linha diferente de investigação, a produção de hormonas quer permitam às bonecas adquirir caracteres sexuais secundários e até, capacidade reproductiva.

Neste projecto forçado, conhece Milena, uma jovem de 10 anos sobre-humana que utiliza a nanotecnologia para os mesmos fins que os vírus de Alex, e que pretende libertar as bonecas através da alteração dos chips. Assim nascem as fadas.

Abandonado por Milena, Alex irá percorrer Mundo para a encontrar, induzido por uma infecção que provoca uma cega paixão pouco romântica.

A história pode ser dividida em três grandes partes. A primeira, centra-se em Alex e no seu estranho relacionamento com Milena, terminando com a libertação da primeira boneca. A segunda parte deixa de ser centrada totalmente em Alex e acompanhamos outras personagens que assistem a estranhos acontecimentos – rapto de crianças e mortes inesperadas. Algumas dedicam-se a lutar contra o avanço das fadas, outras afastam-se para não serem engolidas pelo pesadelo que as rodeia. Na última parte, Alex torna-se apenas mais uma peça do enorme puzzle que foi sendo montado.

Fairyland explora vários aspectos dos avanços bio e nanotecnológicos, mas não de uma forma agradável – é um pesadelo que invade alguns humanos, os transforma de múltiplas maneiras, como uma doença inteligente mas egoísta. Ainda que algumas pessoas se insurjam, a sua voz é engolida pelos múltiplos interesses económicos.

Ainda que seja uma história diferente e interessante, Fairyland consegue tornar-se extremamente longa e aborrecida, principalmente na segunda parte que se torna um perpetuar de acontecimentos inconsequentes que nada acrescentam à nossa visão da história. Por outro lado, nessa altura, as personagens pouco ajudam para que a história seja capaz de nos envolver.

Fairyland é uma boa obra de ficção científica, que se desenrola em torno dos desenvolvimentos biotecnológicos (o que é raro), mas dado o seu prolongar excessivo, não se tornou uma das minhas leituras favoritas.

… but some animals are more equal than others.

Eric Arthur Blair (ou George Orwell, nome pelo qual assinava), foi o escritor inglês de duas das obras mais marcantes do nosso século – Animal Farm e 1984.

Li 1984 há cerca de de dois anos e tinha-me ficado marcada a sensação claustrofóbica originada pelo controlo desmedido do quotidiano e pela constante vigilância.

Animal Farm conta a história não de uma ditadura estabelecida, mas a origem e o desenvolvimento de uma sociedade, após uma revolução, que possui vários pontos em comum com a Rússia Comunista – não se trata de uma coincidência.

E se… todos os animais de uma quinta se unissem, revoltassem e expulsassem os humanos? Ao contrário das expectativas, os animais organizam-se, trabalham, constroem e, até, aprendem a ler.

Após a revolução, os porcos revelam-se os mais inteligentes, ficando responsáveis pela administração e organização. Letrados, são capazes de a seu belo prazer as questões levantadas pelos restantes animais. De tal forma que os princípios do Animalismo (estabelecidos aquando da revolução) vão sendo corrompidos e alterados – “Quatro Pernas Bom, Duas Pernas Mau” passa a “Quatro Pernas Bom, Duas Pernas Melhor”.

A nova sociedade, que tinha como princípio a liberdade, igualdade e melhoria de vida de todos os animais, evolui até constituir uma ditadura suína, em que uns são mais iguais do que os outros. Os porcos substituíram os humanos – vivem confortavelmente numa casa e estabelecem relações comerciais com os vizinhos utilizando os produtos produzidos pelos restantes animais, que trabalham de sol a sol, sem descanso e sem conforto.

Um retrato inteligente e perspicaz de uma época perturbada, Animal Farm, mais conciso que 1984, lê-se de um só fôlego.

(mais…)

Com a aproximação do final do ano, começam a ser publicadas as primeiras lista de Best Of 2008  - NYTimes 100 Notable Books, NYTimes 10 Best OfNYTimes Notable Children Books.

Mas este ano reparei, pela primeira vez, na existência de listas de melhores capas de 2008. Nesse post do Book Design Review encontram-se capas espectaculares, e no final uma votação.

Esta (Why You Should Read Kafka Before You Waste Your Life) era, para mim, a capa mais espectacular do conjunto – até ter visto em detalhe a capa de Obsession.

Para além das capas destacadas no Best of, fiquei fascinada com o aspecto das re-edições da Penguin de uma série de clássicos em capa dura

- 3 encomendados na Amazon, que fazem parte dos 8 Sci-fi Future Classics

- 2 adquiridos na última pesca na FNAC que fazem parte da colecção de horror / terror da Gollancz (conjuntamente com Something Wicked This Way Comes de Ray Bradbury e Fevre Dream de George R R Martin)

- 1 ganho num Book Giveaway

Este foi o segundo livro que li de William Gibson. O primeiro tinha sido Neuromancer.

Talvez por ter comparado Neuromancer ao anteriormente lido Altered Carbon de Richard Morgan, não achei que fosse livro para originar o burburinho que originou. Talvez na altura em que foi lançado tivesse sido original.

Spook Country também não me ficou na memória como um grande livro. Continuação de Pattern Recognition, peguei em Spook Country sem ter lido o anterior.

A história é o resultado da sobreposição dos pontos de vista das três personagens principais – Hollis Henry, Tito e Milgrim.

Hollis Henry é uma ex-estrela de Rock que após a dissolução da banda, e de um investimento mal gerido, tenta seguir carreira como jornalista free-lancer.

Tito é membro de uma família cubo-chinesa em que todos recebem um treino militar russo especial à semelhança dos espiões. Para se comunicarem os membros da família utilizam uma linguagem própria – o volapuk.

Milgrim é um drogado, mantido sob cativeiro, com o intuito de descodificar as mensagens em volapuk.

Sem grandes detalhes científicos e com uma tecnologia ligeiramente mais avançada à que temos disponível hoje em dia, Spook Country é um livro sobre o mundo da espionagem, dos media, da informação e da contra-informação.

Segundo alguns artigos, o livro lida com os efeitos socioculturais da tecnologia. Para mim, estes efeitos serão um pano muito secundário e demasiado abstracto da história. Este é um mundo de faz de conta criado para enganar outrém, aquele que nos espia, mas em que talvez acabemos por nos enganar a nós próprios. A maioria das acções são tomadas tendo em conta a impressão a criar, e só talvez 5% pertencem a algo que se quer mesmo fazer. Lavagem de dinheiro, contra-inteligência, espionagem – são estes o tema principal da história.

Mas não me convenceu. Demasiado impregnado com uma urgência que soa a falso, transmitiu-me aquela sensação de surrealidade que afasta o leitor. A acção é rara, praticamente inexistente e quase toda a história é passada à pesca não se chega a saber muito bem do quê.

Capa OlympusO livro a abrir este post é um lançamento nacional que me teria passado completamente ao lado não fosse a referência de uma amiga.

Lançado no passado dia 22 de Novembro na Biblioteca Municipal de Almada, Olympus é o primeiro de uma trilogia que parece querer trazer mais do que uma simples série de Fantasia ao se fazer acompanhar pela seguinte frase:

“Lembra-se da última vez que um livro o fez pensar por si?”

Sobre o livro podem consultar o blog do autor e o site.

Site da editora não encontrei, mas aqui fica a sinopse:

Uma Profecia que jaz no trilho da civilização, preparada há milénios por uma classe oculta de misteriosos e auto-proclamados “Deuses”, é revelada a um Professor da Universidade de Halmos, após ingerir uma substância misteriosa, contida num frasco que herdou. A Profecia define os caminhos de um trio de homens escolhidos, de forma a fazê-los convergir no Monte Olympus, na Terra. Nem tudo, no entanto, poderá correr como profetizado… especialmente quando outras forças desejam manipular a Profecia para canalizar o seu poder…

Da Gailivro chega-nos uma série de livros dentro do género Fantástico ou FC. Mas se de Ar foram vistas imensas referências na net, incluindo na editora, destes novos lançamentos, nem uma linha. E afinal que lançamentos são estes? Nada menos do que Brasil de Ian McDonald ou Minha Besta de Christopher Moore. As únicas referências completas a estes dois livros foram encontradas no site da Wook.

Ian McDonald é o autor de River of Gods, sobre o qual já tinha aqui escrito alguns comentários. River of Gods é considerado um dos melhores livros do género, e segundo alguns reviewers, Brasil não lhe ficará atrás. Pena não terem lançado igualmente River of Gods em português. Sobre o livro deixo aqui o resumo:

País – Brasil. Três histórias, em três séculos – 1732, 2006 e 2032 – que convergem habilmente. A história começa nas favelas do Rio de Janeiro, em cenários de droga e corrupção, deslizando para a apresentação de uma tecnologia de ponta que dá acesso a uma série de mundos e cuja existência assume diversos planos sempre que se toma uma decisão… Esta rica e épica ficção científica permite-nos conhecer os prós e contras das ciências alternativas.

Christopher Moore, autor de livros como A Dirty Job ou The Stupidest Angel (O Anjo Mais estúpido, também disponível através da Gailivro), aproveita elementos sobrenaturais nas suas histórias de humor negro, num tom entre o sarcasmo e a ironia.

Apesar de negro, as histórias são divertidas, leves e inteligentes, constituindo críticas sociais perspicazes.

O género de história que podem esperar em Minha Besta encontra-se exemplificado na sinopse:

C. Thomas Flood, 19 anos, tem um problema. Ele dormiu com a sua incrivelmente sexy namorada, Jody. Acontece que ela é um vampiro. E agora, ele também é um.

Se está à procura de uma história no típico cenário de São Francisco, com sexo quente entre vampiros (semelhante a sexo escaldante entre macacos, mas mais quente ainda), gatos gigantescos barbeados, princesas do Cheddar de Fond du Lac e grandes jogadores de bowling com perus congelados, não procure mais… pois acabou de encontrar Minha Besta.

A Máquina do Tempo Acidental é o lançamento de FC da Europa-América para Dezembro. Livro da autoria de Joe Haldeman, foi nomeado para o prémio Nébula em 2008.

Entre as obras mais conhecidas de Joe Haldeman encontram-se: The Forever War, Forever Peace, ou Camouflage.

Sobre A Máquina do Tempo Acidental pouco vi mais do que leves referências, mas aqui fica parte da sinopse disponível no site da editora:

A Máquina do Tempo Acidental é um romance provocador que fala de um homem que viajou no tempo à descoberta da sua vida futura… ou das suas vidas futuras.

(…)

Como é habitual na sua escrita, Haldeman, sob o véu de uma aparente ingenuidade, consegue ser simultaneamente contundente e irresistível na projecção do futuro da natureza humana.

Numa nota muito diferente, After Dark: Os Passageiros da Noite, de Haruki Murakami é o lançamento da editora Casa das Letras.

Ainda que as obras de Haruki Murakami não sejam referidas como género fantástico, contém vários elementos deste género e até da Ficção Científica. São romances diferentes que se distinguem pelos elementos surreais e nonsense que misturam o mundo real com uma realidade alternativa.

Ainda que After Dark não tenha sido dos meus favoritos do autor, há fans que apreciaram e aqui fica o resumo:

Por uma noite, Murakami leva-nos com ele através de uma Tóquio sombria, onírica, hipnótica. Um deslumbrante romance perpassado de uma singular atmosfera poética, na fronteira entre a realidade e o universo fantasmático, onde cada pormenor, olhado retrospectivamente, faz sentido.
Num bar, Mari encontra-se mergulhada num livro, enquanto bebe o seu chá e fuma cigarro atrás de cigarro. Às tantas, entra em cena um músico que a reconhece. Ao mesmo tempo, encerrada num quarto, Eri, a irmã de Mari, dorme com os punhos cerrados, sem saber que está a ser observada por alguém.
Em torno das duas irmãs desfilam personagens insólitas: uma prostituta chinesa vítima de agressão, a gerente de um hotel do amor, um técnico informático, uma empregada de limpeza em fuga. Sucedem-se acontecimentos bizarros: um aparelho de televisão que, de um momento para o outro, começa bruscamente a funcionar, um espelho que conserva os reflexos.
Em Tóquio, durante as horas de uma noite, vai desenrolar-se um estranho drama…

A premissa de Blood Music foi desenvolvida inicialmente num conto publicado em 1983 na Analog, que venceu os prémios Hugo e Nébula.

Encorajado pelos prémios, Greg Bear desenvolveu o conto num romance com o mesmo nome, que viria a ser nomeado para os mesmos prémios na categoria respectiva.

Apesar de não ter ganho os prémios referidos, Blood Music é considerado um dos melhores livros de Ficção Científica, fazendo parte de uma colecção de 8 obras da Gollancz – Future Classics.

Blood Music é um livro de FC sem naves, sem extra-terrestres, sem tecnologias informáticas ultra-avançadas – recorre apenas à microbiologia e à genética.

Não são vulgares os livros do género bem sucedidos que se baseiam única e exclusivamente em experiências laboratoriais. E se um cientista fosse capaz de dar inteligência a células?

Vergil Ulam é um cientista sem medo de recorrer a meios algo obscuros para conseguir o que pretende, como falsear informação curricular. No entanto, as suas capacidades intelectuais são suficientes para ninguém questionar o currículo.

Para além das experiências do projecto, Vergil utiliza o laboratório para desenvolver as suas próprias ideias fora do horário de trabalho – algo usual na área. O que não é normal são as experiências de Vergil – utilizando vários tipos de células (até células animais ou células humanas), e DNA humano silencioso (intrões, que segundo algumas teorias se tratam de lixo celular), Vergil constroe células inteligentes.

Quando os materiais que utiliza nos ensaios se tornam conhecidos, Vergil é despedido por as experiências não serem abrangidas pelas licenças da empresa e por serem consideradas pouco éticas. De modo a salvar os resultados, Vergil injecta-se com as suas próprias células modificadas.

Desempregado, a vida de Vergil modifica-se – conhece uma rapariga, Candice, algo para ele pouco normal; e sofre alterações morfológicas profundas – recupera a visão, o metabolismo modifica-se e deixa de ter alergias. Para além do bem estar geral, os ossos e os tecidos celulares são optimizados levando a uma re-estruturação geral. Tudo na transformação é prefeito, até que Vergil começa a ouvir música no sangue – as próprias células decidem dar-se a conhecer.

A história roda em torno de Vergil durante o primeiro terço, e lembro-me de ter achado que mais um pouco do mesmo e caísse na monotomia. Mas Greg Bear roda o tabuleiro e consegue-nos surpreender, evoluindo a história de uma forma imprevista, surreal e repentina que lhe dá um novo ímpeto. Após nova reviravolta, Greg Bear termina a história quando deve, sem se perder nem alongar para além do necessário.

A meio fica-nos uma introspeccção curta em que, propositadamente, se relembra de um clássico de FC – Frankenstein. Um livro que apesar de extraordinário, deixou na sociedade um medo patológico dos cientistas, e das suas experiências incompreendidas pelos restantes seres humanos.

Para além desta comparação, algo de interessante no livro é a sua estrutura interna – os capítulos são nomeados consoante as fases da mitose; em consonância com o desenvolvimento da história.