Domingo, Dezembro 14th, 2008


Lançado pela Editorial Teorema como A Odisseia de Penélope, Penelopiad foi publicado inicialmente num conjunto de livros, Canongate Myth Series, onde uma série de autores contemporâneos se propôs a recontar mitos antigos. Mais tarde foi publicado isoladamente e, inclusivé, adaptado para peça de teatro.

A história de Ulisses, contada por Homero em Odisseia, é uma das mais conhecidas da actualidade. Ulisses, herói grego de onde ressalta não a força ou a capacidade de combate, mas a astúcia, ingressa numa viagem que o afasta durante vinte anos da sua casa, em Ítaca. Lá terá deixado a jovem esposa, Penélope.

E é através da esposa de Ulisses, que Margaret Atwood conta uma versão diferente, a história de quem esperou o regresso dos heróis.

Segundo Penelopiad, Penélope não terá sido uma criança feliz, atirada pelo pai às águas à nascença e ignorada pela mãe, Periboea, uma ninfa das águas, cresce à sombra da mítica beleza da sua prima Helena. Finalmente, deixa a casa onde passou a infância, para partir com o vencedor da corrida, Ulisses (que, como seria de esperar, utilizou métodos alternativos), para Ítaca. Mas nem na nova casa foge à família, e ve Ulisses ser arrastado para a Guerra de Tróia.

A voz principal é a de Penélope, em Hades. No entanto, intercala-se com o coro das damas enforcadas aquando do regresso de Ulisses à casa. Mas a versão do esposo terá algumas imprecisões que Penélopse se propõe a esclarecer.

Penelopiad é uma história curta de uma mulher atormentada que, sem amigos e sem aliados, espera eternamente o marido, sobre o qual se diz encontrar-se entre os braços de uma deusa – a sogra mantém-se distante, a ama de Ulisses controla parte da casa e o filho torna-se um rapaz mimado e sem modos.

Leitura há muito esperada, Penelopiad tornou-se uma desilusão. É uma leitura rápida que se tornou, a meu ver, medíocre perante tanta lamúria em que as melhores passagens pertencem decididamente às damas que, com os seus cânticos trágicos, pretendem recordar uma peça de teatro grego.

Poderão todas as cidades ser descritas a partir de uma, completa, à qual são retiradas propriedades? Serão todas as cidades, afinal, uma só?

Em Cidades Invisíveis assistimos à descrição de várias cidades por Marco Polo ao imperador Khan. Marco Polo descreve, não o comércio e as riquezas particulares das cidades como o fazem os mercadores, mas o que as torna únicas e fantásticas. Algumas são realçadas pela forma como foram e são construídas, outras pela arquitectura, outras pelos habitantes e seus hábitos.

Uma cidade que se espelha, uma cidade em água, uma cidade desenhada em sonhos a partir da perseguição de uma dama – todas as cidades podem ser descritas, todas se distinguem em comparação com a cidade que Marco Polo toma como base – Veneza.

Cada cidade é descrita de forma concisa, ocupando de 1 a 3 páginas. Entre estas descrições, assistimos aos diálogos entre Marco Polo e o Khan – conversas que aproveitam as cidades como alegoria, para mais vastas discussões filosóficas.

O modo como as cidades são apresentadas faz-nos reflectir sobre o conceito de cidade em si – uma cidade não é os monumentos que possui, as ruas e a população que nela habita, mas é constituída pelo conjunto de tudo isto que lhe confere uma assinatura.

Ainda que não tenha apreciado tanto Cidades Invisíveis como Se numa noite de Inverno um viajante, é uma mistura de fantasia e filosofia, com passagens espectaculares, que demonstra a mestria de Italo Calvino.

Nomeado para o prémio Nébula em 1975, as várias cidades descritas por Italo Calvino têm sido aproveitadas tanto por arquitectos como por artistas para visualizar as possibilidades de uma cidade. Exemplos destes trabalhos podem ser observados no site de Mikhail Viesel (em que são ilustradas todas as cidades) ou de Colleen Corradi.