Julho 2009


Este livro não possui uma única história, mas três que decorrem num mesmo mundo, colonizado por seres humanos, onde teria existido anteriormente uma outra espécie sapiente. A história que dá nome ao livro foi originalmente publicada numa antologia e nomeada para os prémios Hugo e Nebula. Posteriormente, a esta novela foram acrescentadas A Story e V.R.T.

Todas as histórias decorrem numa dupla de planetas colonizados, Sainte Anne e Sainte Croix, pensando-se terem existido, no primeiro, uma espécie inteligente. Não se encontram, no entanto, vestígios de uma outra civilização e surgem as teorias mais díspares sobre o assunto.

Num mundo onde as leis do planeta Terra não se aplicam, existem clones e até escravos que são vendidos num mercado ao ar livre. Os seres humanos que possuem algum estatuto social vivem como os de hoje, existindo apenas alguns detalhes espaçados que levam a crer numa tecnologia extremamente avançada, mas não facilmente disponível.

Em The Fifth Head of Cerberus seguimos um rapaz, etiquetado pelo pai como o Quinto – um jovem cuja mente é estimulada desde tenra idade, e cujas experiências do pai debilitam fisicamente. A tia deste é uma conhecida cientista que terá postulado a hipótese de Veil, segundo a qual os humanos que iriam colonizar a terra terão sido substituídos pelos alienígenas sapientes que possuíam a capacidade de modificar a forma do seu corpo – a farsa terá sido tão bem ensaiada que até os próprios actores terão perdido a capacidade para vestir outra pele.

A segunda história, A Story, relata um povo alienígena com desenvolvimento semelhante ao homem pré-histórico. Possuem algumas ferramentas com as quais caçam, acreditam no vento e na magia e com fome vivem o presente tentando apenas conseguir sobreviver o dia que se apresenta. Assim conhecemos Sandwalker, um rapaz que terá um irmão gémeo perdido no mundo e que pretende consultar-se com o mago. Para tal terá de conseguir uma oferta digna.

V.R.T intercala as páginas de um diário de excursão antropológica, com descrições de vida prisional e gravações de interrogatórios a John Marsch, o suposto autor do conto anterior. Preso por espionagem, John nega as acusações sem sentido que o levaram à cadeia, depois de ter deambulado vários anos nos desertos em busca dos seres inteligentes que outrora terão habitado o planeta. Com obstinação vai escrevendo as memórias nas folhas de papel que lhe disponibilizam.

No geral, o conjunto deixou-me algo decepcionada. Talvez por fazerem parte de uma história maior, pequenas porções de uma realidade de dimensão superior, fiquei com a sensação de que lhes faltava algo. A primeira novela possui uma reviravolta estranha, inoportuna e até irracional como se a história tivesse de ser terminada e para tal se tivesse sacrificado o fio condutor. A Story possui excelentes momentos e foi aquela que me pareceu mais completa, ainda que a acha incongruente com o restante conjunto e finalmente V.R.T. é coeso mas demasiado estático.

Mas não é só à primeira história que parece faltar algo. Também o conjunto, quando analisado após a leitura, parece incompleto – as três novelas são demasiado díspares e talvez fosse necessária uma quarta para tornar o conjunto mais coerente. Ou talvez bastasse mudar a ordem pela qual nos são apresentadas. No final, fica-nos um enigma cuja solução apenas poderá ser imaginada pelo leitor, que irá criar a sua própria teoria sobres os reais acontecimentos.

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Este comentário foi realizado no âmbito do Círculo de Leibowitz e poderão encontrar outras críticas nos seguintes espaços

  • Inner Space
  • Blade Runner

Magic Kingdom for Sale – Sold é o primeiro volume da série Magic Kingdom of Landover por Terry Brooks, e que se encontra disponível para download e leitura, em formato pdf.

A série conta a história de um advogado de Chicago, Ben Holiday, que adquiriu um reino mágico com fadas e magos… mas o reino incluiu também alguns extras inesperados.

Também disponibilizada foi a história de Arthur C. Clarke, The Star, vencedora do prémio Hugo em 1956 para a categoria de melhor conto, assim como The House That George Built, de Harry Turtledove.

Em Suvudu Free Book Library, para além do livro de Terry Brooks, podem encontrar For Love of Mother-Not, de Alan Dean Foster ou Manifold: Time de Stephen Baxter.

O primeiro possui uma estranha sinopse, de um jovem que irá tentar salvar a sua mãe adoptiva, levando uma cobra voadora. O segundo parece ser mais prometedor, referindo um planeta Terra devastado pela espécie humana, em que os seres humanos são obrigados a pensar em conolizar o espaço. De realçar que em Manifold: Time a acção decorre no ano 2010.

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- 2009-05-23

The Heart of a Dog, da autoria de Mikhail Bulgakov (mais conhecida pela sua obraA Margarida e o Mestre), tem uma sinopse no mínimo estranha e foi aquilo que decidiu a sua compra:

A rich, successful Moscow professor befriends a stray dog and attempts a scientific first by transplanting into it the testicles and pituitary gland of a recently deceased man. A distinctly worryingly human animal is now on the loose, and the professor’s hitherto respectable life becomes a nightmare beyond endurance.

Um cão vagabundo, queimado recentemente por uma panela de água a ferver é recolhido por um respeitável médico, Philip Philipovich. Enquanto que no seu prédio os camaradas partilham os diversos quartos dos apartamentos, Philip consegue manter o usufruto de 7 divisões.

Mas os intuitos de Philip para com o cão, a quem chama Sharik, não são completamente altruídas e um dia opera-o, substituindo a glândula pituitária e os testículos pelos de um homem. Aquela que seria uma experiência para descobrir a longa vida, transforma-se antes na descoberta da essência humana, no que determinada algumas das características de um homem.

Recordando obras como Frankenstein (Mary Shelley) ou The Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde (Robert Louis Stevenson), Heart of a Dog contém ainda a componente satírica contra o regime da União Soviética. São várias as referências, mas destacaria uma conversa em particular, uma crítica directa que se alonga por duas páginas:

But I ask you: why, when this whole business started, should everybody suddenly start clumping up and down the marble staircase in dirty galoshes and felt boots? Why must we now keep our galoshes under lock and key? And put a soldier on guard over them to prevent them from being stolen? Why has the carpet been removed from the front staircase? Did Marx forbid people to keep their staircases carpeted? Did Karl Marx say anywhere that the front door of No. 2 Kalabukhov House in Prechistenka Street must be boarded up so that people have to go round and come in by the back door? What good does it do anybody? Why can’t the proletarians leave their galoshes downstairs instead of dirtying the staircase?

Philip vê a sua casa revolta, e observa o contraste entre o animal Sharik que trouxe para casa e o ser em que este se transforma. Sharik, do qual conhecemos todos os pensamentos no início do livro, pensa apenas nos próximos minutos, expectante por uma festa ou pedaço de comida, enquanto que Sharikov é um homenzito repelente que logo se transforma num parasita da sociedade e se aproveita facilmente da estrutura social para garantir o seu sustento.

Inteligentemente bem escrito, Heart of a Dog é comico mas de uma forma grave – a situação para a qual as personagens se vêm empurradas é ridícula, mas para se escapulirem teriam de tomar medidas drásticas. Ainda que contenha alguns diálogos em relação à situação na União Soviética, estes integram-se na história.

Adaptado diversas vezes para cinema, a mais recordada para animação pela Walt Disney, a história em Alice no País das Maravilhas é demasiado conhecida para a estar aqui a resumir uma vez mais.

Se no filme animado tudo me irritava, desde a lagarta fumadora ao gato de sorriso estúpido, no livro a irritação concentrou-se única e exclusivamente em Alice – uma criança fútil, burra, preconceituosa e mimada, que dispara barbaridades a torto e a direito. Na realidade, nem acho possível que tal criança tivesse imaginação suficiente para construir o País das Maravilhas. Sim, estou a ser muito dura com a personagem principal – mas foi isso que senti durante a leitura desta história.

Todos os aspectos que no filme me tinham desagradado se tornaram, no livro, os pontos positivos da história. Dada a irritação crescente para com Alice, facilmente rejubilei com a lagarta ou com o gato, que disparavam charadas e diziam tudo sem dizer nada. Para além destas típicas personagens, ficaram-me na memórias as cenas caricatas de um lanche interminável, de uma duquesa que embala porcos entre pratos e panelas voadoras, ou de uma célebre Rainha de Copas que grita “Cortem-lhe a cabeça” a torto e a direito.

Concluindo, gostei do cenário demente inventado por Lewis Carroll, onde um bolo nos pode fazer aumentar de tamanho ou um cogumelo esticar o pescoço e tenho pena que este mundo não tenha sido explorado de outra forma. Aguardo agora a versão de Tim Burton do qual já se encontra disponível um trailler e algumas fotos.

Num primeiro quadro silencioso, uma cama. Nela uma velhota vegetativa a quem são mudadas as fraldas. Ao lado, um velhote.

Num segundo, o velhote come. À mesa está também a jovem que antes cuidava da idosa.

Terceiro. O quarto está vazio. Na cozinha, um velhote relaxa em cuecas, enquanto a jovem em lingerie lhe fotografa as zonas púbicas.

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Para não dar azo a interpretações estranhas, cada quadro representa uma visualização diferente da mesma janela, distando algumas semanas umas das outras. A janela é a de uma casa abaixo do nível do chão. Os acontecimentos, esses, são reais. Ou surreais.

Fábulas do tempo e da eternidade é a primeira colectânea de contos de Cristina Lasaitis, um conjunto de doze contos que se centram, como o título indica, em torno da temâtica tempo Vs eternidade e se enquadram nos géneros fantástico e de FC.

O primeiro conto tem como título Para além do Invisível e centra-se num encontro virtual entre duas pessoas.. mas uma destas, Maya, é algo mais do que revelou ao amante. Anos mais tarde encontramos as mesmas personagens no último conto, Meia-Noite. Neste à hora marcada, uma entidade artificial e inteligente é obrigada a atacar o servidor de uma empresa, com o objectivo de fazer evoluir as capacidades cognitivas de uma inteligência artificial, a ela semelhante, que comanda o servidor.

Um dos contos que mais apreciei foi Irmãos Siameses. Este retrata a sobrevivência de duas crianças que, numa aldeia isolada e pobre nos Andes, nascem coladas, espelho uma da outra, mas tão opostas em carácter como o Sol e a Lua – e assim são nomeados, Mani e Luri. De pensamentos e desejos opostos, os dois irmãos aprendem a grande custo a coordenarem as suas acções e movimentos.

Num outro conto, Assassinando o tempo, uma cientista prova que o tempo não existe e torna possível a comunicação com pessoas de épocas diferentes. Esta possibilidade dá origem ao conto Os parênteses da eternidade, em que dois jovens, embora separados por 250 anos, se comunicam e estabelecem uma forte amizade. 

Caçadores de Anjos é um conto que se destaca dos demais, bem distinto destes que acabo de referir. Num mundo em decadência, em que até os anjos são banidos por Deus e caem na Terra como trovões, uma caçadora de anjos procura resgatar, das mãos de Lucifer os seres alados.

Para além destes contos, presenciamos à descoberta de uma Pedra Filosofal amarga em Revés Alquímico,  a uma viagem através do tempo nas asas de um Condor em As Asas do Inca, ou ao final do Universo em Viagem além do Absoluto.

Todas as histórias possuem algo de original e o tom da narração difere consoante os acontecimentos que nos são relatados: nalguns os termos deslizam para o linguajar tecnológico, noutros para vocabulário alquímico. Este é um conjunto coeso de contos (excepto por uma ou duas histórias) que parecem ter alguma continuidade entre elas e formar um círculo, como indicado no relógio que nos serve de índice – no final, retornamos à história inicial.


Dispensa palavras…

De Charles de Lint, autor extensamente nomeado para prémios no género fantástico e premiado com o World Fantasy Award, foi publicada recentemente uma nova edição de Medicine Road, pela Tachyon.

Lançado pela primeira vez há vários anos pela Subterranean Press, este é um livro de histórias curtas ilustradas por Charles Vess (o responsável pelas ilustrações em Stardust ou The Ladies of Grace Adieu). O poema que abre Medicine Road pode ser lido no site da Subterranean Press , e aqui deixo a sinopse:

Laurel and Bess Dillard are charismatic bluegrass musicians enjoying the success of their first Southwestern tour. But the Dillard girls know that magical adventures are always at hand. Upon meeting two mysterious strangers at a gig, the red-headed twins are drawn into a age-old, mystical wager along the Medicine Road.

One day, seeing a red dog chasing a jackalope, Coyote Woman gave them human forms. They became Jim Changing Dog and Alice Corn Hair. In return, both of them must find true love within a hundred years or their “five-fingered” forms will be forfeit. Alice has found her soul mate, but trickster Jim is unwilling to settle down — until he sets eyes upon free-spirited Bess Dillard.

Yet time is running out for the red dog and the jackalope. In just two weeks they will journey to their reckoning at the Medicine Wheel. Meanwhile, a motorcycle-riding seductress and a vengeful rattlesnake woman are eager to meddle, and Bess and Laurel, caught in a web of love and lies, must find their own paths into the spirit world.

Wireless é o mais recente livro do autor de Accelerando, Glass House ou The Atrocity Archives, Charles Stross. É também uma colectânea de histórias curtas onde se incluem Missile Gap(premiado com o prémio Locus), Rogue Farm (onde se baseou uma animação com o mesmo nome):

The Hugo Award-winning author of such groundbreaking and innovative novels as Accelerando, Halting State, and Saturn’s Children delivers a rich selection of speculative fiction— including a novella original to this volume— brought together for the first time in one collection, showcasing the limitless imagination of one of the twenty-first century’s most daring visionaries.

The Ask and the Answer é a contiunação de The Knife of Never Letting Go, um dos livros mais referenciados este ano, e vencedor de inúmeros prémios, entre os quais, o Guardian Award e o James Tiptree Jr. A história decorre num planeta colonizado por seres humanos, um grupo de colonizadores cristãos. Ainda que estes tenham acesso a alguma alta tecnologia, vivem num meio rural onde substistem trabalhando a terra.

Aqui fica o resumo:

We were in the square, in the square where I’d run, holding her, carrying her, telling her to stay alive, stay alive till we got safe, till we got to Haven so I could save her – But there weren’t no safety, no safety at all, there was just him and his men. Fleeing before a relentless army, Todd has carried a desperately wounded Viola right into the hands of their worst enemy, Mayor Prentiss. Immediately separated from Viola and imprisoned, Todd is forced t learn the ways of the Mayor’s new order. But what secrets are hiding just outside of town? And where is Viola? Is she even still alive? And who are the mysterious Answer? And then, one day, the bombs begin to explode. “The Ask and the Answer” is a tense, shocking and deeply moving novel of resistance under the most extreme pressure.

Markus Heitz é já um nome conhecido no fantástico alemão, conhecendo agora tradução para inglês do primeiro volume da sua trilogia, Dwarves. O resumo recorda fantasia do género tolkiano, um épico que parece centrar-se numa personagem:

For countless millennia, the dwarves of the Fifthling Kingdom have defended the stone gateway into Girdlegard. Many and varied foes have hurled themselves against the portal and died attempting to breach it. No man or beast has ever succeeded. Until now…Abandoned as a child, Tungdil the blacksmith labours contentedly in the land of Ionandar, the only dwarf in a kingdom of men. Although he does not want for friends, Tungdil is very much aware that he is alone ? indeed, he has not so much as set eyes on another dwarf. But all that is about to change. Sent out into the world to deliver a message and reacquaint himself with his people, the young foundling finds himself thrust into a battle for which he has not been trained. Not only his own safety, but the life of every man, woman and child in Girdlegard depends upon his ability to embrace his heritage. Although he has many unanswered questions, Tungdil is certain of one thing: no matter where he was raised, he is a true dwarf. And no one has ever questioned the courage of the Dwarves.

The Windup Girl é a primeira novela de Paolo Bacigalupi, o autor de Pump Six and Other Stories. Neste livro retorna-se ao mesmo mundo de duas das suas histórias premiadas, The Calorie Man e Yellow Card Man. O resumo é simples e directo:

What Happens when bio-terrorism becomes a tool for corporate profits? And what happens when said bio-terrorism forces humanity to the cusp of post-human evolution?

Do mesmo autor de O Último Unicórnio, ou We Never Talk About My Brother esta antologia pode ser dividida em três partes, duas de contos e uma de pequenas crónicas ou ensaios. A segunda secção é composta por alguns dos primeiros contos do autor, como Telephone Call, a primeira história pela qual terá sido pago; enquanto que a primeira parte possui histórias mais amadurecidas e mais características de Peter S. Beagle.

Ainda que os contos iniciais que compõe a segunda parte me tenham parecido algo desprovidos de sentido ou com falta de objectividade, as histórias das primeiras 120 páginas são excepcionais, relembrando alguma da originalidade que se pode ler em We Never Talk About My Brother.

Professor Gottesman and The Indian Rhinoceros é a história que abre o livro, sendo também aquela onde se origina o título da antologia. Gottesman é um professor de filosofia na Universidade, e visitado pela família, resolve conhecer o zoo com a sobrinha, fascinada por tigres. Mas à sobrinha apenas interessam esses felinos de grande porte, e é com espanto que Gottesman inicia conversa com um rinoceronte que se apresenta como unicórnio. O culto rinoceronte irá segui-lo até casa e com ele partilhar longos serões de debate.

Segue-se Come Lady Death, um conto em que uma aristocrata inglesa se aborrece com as sucessivas e esplendorosas festas, sempre semelhantes às anteriores, e resolve ter como convidada principal, a Morte. Mas esta não possui o aspecto fúnebre e tenebroso que se esperava, assemelhando-se antes a uma tímida e bela jovem que todos encanta.

Em Lila The Werewolf um rapaz descobre que a namorada é um lobisomem, quando, numa noite que esta passa fora de casa, um lobo aparece no quarto manchado de sangue e se transforma na rapariga que conhece. Ainda que tente esquecer esta estranha característica da namorada, é recordado todos os meses quando descobre que os cães da vizinhança morrem às dentadas de um lobo.

Julie’s Unicorn é o quarto conto, uma pequena história em que uma jovem liberta um unicórnio de um quadro medieval, um ser tão pequeno quanto um gato bebé, que busca incessantemente algo ou alguém e mais não sabe senão balir.  Esta é outra história com unicórnios, que parecem constituir uma obsessão do autor e aparecem sempre de forma diferente. O unicórnio ora é descrito como uma criatura indefesa, ora como um rinoceronte disfarçado, ou ainda como um cavalo branco, orgulhoso e imortal que habita o interior de densas florestas.

Estas foram, para mim, as histórias mais significativas da antologia – quatro belíssimas histórias que não são balanceadas pelas restantes páginas, mas que valem a aquisição do pequeno livro; bastante díspares em premissa, mas sempre com algo de fantástico ou surreal, com uma exploração original das comuns figuras míticas.

Há livros que desejamos ler assim que lemos a sinopse – este foi um desses casos. À semelhança de outras livros recentemente lançados (como o The City & The City de Mieville) The Other City fala de cidades dentro de outras cidades, outras realidades entrelaçadas com aquela em que vivemos, por vezes fascinantes pela sua beleza, outras vezes fascinantes pelos horrores que nelas habitam.

The Other City é uma obra checa que decorre em Praga, na qual existem indícios de uma outra cidade – descobrem-se livros repletos de outro dialecto, no fundo dos nossos quartos ignoram-se os monstros de infância, ou um carro verde rapta pessoas que nunca mais serão vistas, senão em reflexos de uma janela.

Alguns dos habitantes dessa outra cidade são-no também de Praga, protegendo as fronteiras ou escondendo as pistas de uma outra realidade, onde prevalecem os cultos, os monstros ou os peixes voadores. A cidade oculta esconde tanto maravilhas como feitos perversos e horripilantes, provindos de um raciocínio dispare ao que estamos habituados.

Ainda que se inicie lentamente, o leitor é sugado para o estranho mundo onde se sucedem os cenários surreais, desde um peixe voador às catacumbas de uma biblioteca que lentamente se transforma numa selva com seres que imitam as páginas de um livro ou as palavras de uma página – sendo esta, para mim, uma das melhores cenas do livro.

Na realidade, as primeiras páginas, compostas por longos e densos parágrafos, são difíceis de ultrapassar. Não possuem, no entanto, factos desnecessários, e com o desenrolar dos acontecimentos, a história ganha interesse e prossegue ao seu próprio ritmo, num tom surreal que rodeia toda a narrativa, tornando-se numa das melhores histórias que li nos últimos tempos.

Este mês, pela Gailivro, chega-nos mais um livro de Christopher Moore - Guia Prático Para Cuidar de Demónios; cujo títulos nos faz antever mais uma obra de humor peculiar:

Nesta engenhosa narrativa de Moore encontramos um dos pares mais dissonantes de que há memória nos anais da Literatura. O bem parecido é um exseminarista e académico «de estrada», de cem anos de idade, Travis OHearn. O verde é Catch, um demónio com o péssimo hábito de comer praticamente todas as pessoas que conhece. Por detrás da falsa fachada Tudor de Pine Cove, Catch vê um bufete de quatro estrelas. E Travis julga ter descoberto a forma de se livrar do seu companheiro de viagem, de dentes aguçados. Mas, entretanto, os bêbados, as neo-pagãs e os sedutores caloteiros de Pine Cove têm outros planos. E ninguém está minimamente preparado, quando o inferno estoira!

Pela Saída de Emergência, foi lançado, ontemCom a Cabeça na Lua, uma antologia comemorativa dos 40 anos da chegada à Lua:

Em 20 de Julho de 1969, Neil Armstrong tornava-se o primeiro homem a pisar o solo lunar e, consequentemente, o primeiro ser humano a visitar um outro mundo que não a Terra. O feito, desde então inigualado, permanece como o maior desafio tecnológico a que a Humanidade se propôs. Antes, porém, de o Programa Apollo ter proporcionado o célebre pequeno passo para o Homem, um salto de gigante para a Humanidade, inúmeros autores de Ficção Científica – até então considerada um género menor – tinham levado o Homem à Lua pelos mais variados meios e pelos mais diversos motivos.

Segundo o organizador, João Seixas, as histórias estarão organizadas em torno do trio do autor Robert A. Heinlein – O Homem que Vendeu a Lua, Umas Férias Na Lua e Requiem. Para além destes três podemos encontrar histórias de Vic Phillips, Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, Frank M. Robinson, Poul Anderson, H. B. Fyfe e Thomas M. Disch.

A Livros de Areia, por sua vez, lança Buracos Negros de Lázaro Covadlo,  o mesmo autor de Criatura da Noite, publicado em português pela mesma editora:

Após cortar a pata de um gafanhoto numa noite de Verão, um homem perde, ao longo da vida, todos os seus membros. Um outro crê que num sonho de infância, algures no País das Maravilhas, teria estado o acesso à fortuna que nunca veio. Outro ainda vê a sua vida desenrolar-se no ecrã de uma decadente sala de cinema das Caraíbas. E um outro acredita que o homem que o impediu de suicidar-se, certa noite em Mar del Plata, era o Diabo…

Também pela Saída de Emergência, continua a publicação da Série Sangue Fresco, com Dívida de Sangue. Para os interessados a editora tem, como já vem sendo habitual, um excerto disponível para leitura.

All the Windwracked Stars foi daqueles livros que me intrigou assim que saiu. A sinopse fala de uma Valquíria, a única sobrevivente de uma longa batalha, Muire, conjuntamente com uma montada alada, Kasimir. Muire não é uma guerreira verdadeira, antes uma estudiosa e historiadora que se terá acobardado e fugido da guerra.

Mingan é a terceira grande personagem desta história, filho de deuses e mais velho do que o Mundo onde vive, acompanha-o um sentimento de ódio e frustração, resultado dos anos vividos como espectador do ciclo de renovação do planeta.

Na última cidade de um Mundo decadente, onde reina a Tecnomancer, Muire descobre o rasto de Mingan, e resolver persegui-lo. Nesta busca incessante descobre velhos conhecidos, renascidos nesta época de transformação.

Apesar de pertencer a uma trilogia, All the Windwracked Stars é uma história isolada, um épico onde se conta uma batalha imortal num mundo que morre e renasce, palco do encontro e desencontro de deuses desgastados e figuras míticas. Como tal, a história não é feliz – as personagens estão desgastadas pela sua longa vivência, e carregam consigo recordações que as prendem, conhecimentos e receios alienígenas a qualquer mortal. Nesse sentido, All the Windwracked Stars recorda Viriconium, de Harrison.

All the Windwracked Stars não é excepcional, mas é uma boa e pausada leitura – o ritmo é lento, e é difícil entranhar a história nas primeiras páginas. Somos obrigados a prosseguir devagar, mas terminado o livro fica um buraco na mente causado pela sua ausência.

Fábulas do Tempo e da Eternidade é uma pequena colectânea de Cristina Lasaitis, que reune 12 contos de Ficção Científica e Fantasia. Publicada pela Tarja Livros, espero le-lo em breve.

O livro que se segue, The Palace of Dreams, é da autoria de Kadare (escritor albanês) – uma alegoria ao totalitarismo que decorre na capital do Império Otomano, escrito (conjuntamente com outras obras) como um ataque às doutrinas do regime comunista.

As cidades alternativas, fantásticas e duplas estão decididamente na moda no estilo fantástico. A par com The City & The City (de China Mieville), The Other City de Michal Ajvaz tem sido um dos livros mais referidos ultimamente.

No livro de Mieville, duas cidades co-existem espacialmente, mantendo-se separadas apenas porque os habitantes são forçados a ignorar tudo o que faça parte da outra cidade. The Other City baseia-se também na existência de uma cidade alternativa sob outra cidade, neste caso uma Praga surreal:

Borgesian cohort of freakish creatures, talking birds and eccentric city dwellers lurk on the margins of an alternative Prague. An unnamed protagonist learns that a book written in an unearthly language is an opening to a dangerous world that is just around the corner from normal life. More and more frequently, the protagonist stumbles across scenes from the other city—he spies on an inscrutable religious service, is treated to a lecture on the subject of Latest Discoveries about the Great Battle in the Bedrooms.

Greg Bear é o autor de Blood Music, um excelente livro de Ficção Científica que faz parte da colecção 8 Future Classics. Em busca de algo mais do mesmo autor, resolvi-me por Sleepside, uma colectânea de 9 contos que inclui histórias como Petra ou The White Horse Child.

The Rhinoceros Who Quoted Nietzsche and Other Odd Acquaintances é também uma colectânea, mas de Peter Beagle. Este é o terceiro livro que leio este ano do autor, e ainda que não o mais famoso dele, The Last Unicorn, não me tenha fascinado, gostei bastante das histórias curtas de We Never Talk About My Brother.

Este é o livro que estou a ler.

Vencedor do Crawford Award, e finalista do Mythopoeic Award, Pandemonium retorna aos anos 50, modificando a realidade da época. A premissa é simples – várias pessoas são possuídas por entidades estranhas com peculiares poderes, entre elas Philip K. Dick.

All the Windwracked Stars é o meu primeiro livro de Elizabeth Bear, o início de uma trilogia, ainda que possa ser lido isoladamente. Em resumo, é um épico – a história de uma batalha infinita num mundo que renasce após cada apocalipse, palco do encontro e desencontro de deuses e figuras míticas. Com bases na mitologia nórdica não é uma história feliz – as personagens são mais velhas do que o próprio mundo e consigo carregam recordações, conhecimentos e medos alienígenas a qualquer mortal.

Tim Lebbon é outros daqueles famosos autores de horror fantástico que desconheço. As the Sun Goes Down contém várias histórias, cujo único ponto em comum será o potencial para perturbar o leitor, corrompendo as noções de amor, vida, natureza, beleza ou inocência. A total lista de conteúdos pode ser visualizada no site da editora.

Também dentro do género horror encontra-se Chaos, pela Underland Press – um thriller psicológico, do qual se encontram alguns excertos disponíveis para leitura. Escober não é verdadeiramente o nome do autor, mas o nome pelo qual escreve o casal Berry Verhoef e Esther Verhoef.

Seguem-se mais dois livros do género horror – The Imago Sequence e The Strain. O primeiro é um conjunto de nove histórias, algumas nomeadas para o World Fantasy Award ou para o International Horror Guild Award. The Strain foi o livro terminado recentemente. Da autoria de Guillermo del Toro e Chuck Hogan, é o início de uma trilogia que recorda filmes de horror de série B. Os vampiros existem, mas com características bem diferentes daquelas às que estamos acostumados. Sem romantismos, com mandíbulas tão flexíveis quanto as das serpentes, são na verdade mortos vivos de baixa complexidade biológica movidos pela sede de sangue. Um velho vampiro invade os Estados Unidos e rapidamente converte vários humanos com os quais constroi um exército.

Guillermo del Toro é mais conhecido pelos seus filmes de horror fantástico como Labirinto do Fauno, El Dspinazo del Diablo ou Chronos, iniciando-se agora no mundo da escrita com The Strain, o seu primeiro livro, escrito em conjunto com Chuck Hogan.

Este é mais um livro de vampiros, mas bem diferente da vaga de vampiragem romântica que está tão em voga, relembrando antes os filmes de horror com muito sangue e acção. A premissa é simples – no dia do eclipse solar, um avião aterra misteriosamente, e todos os seus passageiros parecem mortos. Descobrem-se meia dúzia de sobreviventes, restos de dejectos numa cabina, e os corpos desaparecem misteriosamente da morgue.

Os passageiros do avião foram convertidos em vampiros, seres de mandíbula flexível e probóscis sugador,  mortos vivos de baixa complexidade biológica movidos pela sede de sangue. A conversão em massa é na verdade um plano de invasão de um vampiro antigo ajudado por um velho milionário, que terá planeado a viagem através do Atlântico.

Claro que do lado inverso existem os bons, neste caso um pequeno grupo que pretende exterminar os seres sugadores – o guru, um velho que há muitos anos persegue vampiros e possui o conhecimento e as armas adequadas; o especialista em exterminar pestes, um caçador de ratos que cedo se apercebe das mudanças na cidade; e o homem que luta pela sobrevivência da sua família, um especialista em epidemias que chefia o primeiro grupo a entrar no avião.

De leitura leve, The Strain é, como já esperava, um livro muito visual carregado de acção, quase o guião de um filme de terror que ao invés de zombies tem vampiros meio mortos que se arrastam e que por pouco não esticam os braços e dizem sangue (e não brains). As cenas macabras proliferam – pequenos pormenores no método de propagação e desenvolvimento da doença ou cabeças cortadas e linfa branca e viscosa.

O primeiro volume de uma trilogia, The Strain é um livro engraçado e de leitura divertida para quem gosta do género, quase uma leitura de Verão.

Depois de anunciados os finalistas, foram recentemente nomeados os vencedores:

  • Science Fiction Novel: Anathem, Neal Stephenson
  • Fantasy Novel: Lavinia, Ursula K. Le Guin (Harcourt)
  • First Novel: Singularity’s Ring, Paul Melko (Tor)
  • Young-Adult Book: The Graveyard Book, Neil Gaiman
  • Novella: “Pretty Monsters”, Kelly Link
  • Novelette: “Pump Six”, Paolo Bacigalupi
  • Short Story: “Exhalation”, Ted Chiang
  • Anthology: The Year’s Best Science Fiction: Twenty-Fifth Annual Collection, Gardner Dozois, ed.
  • Collection: Pump Six and Other Stories, Paolo Bacigalupi

A obra de Neal Stephenson tem sido uma das mais referenciadas desde o seu lançamento, e talvez por isso a sua nomeação não me espantou. Idem aspas para a categoria Young-Adult Novel, ainda que ao lado de The Graveyard Book estivesse Little Brother.

De entre os nomeados ainda não tive oportunidade de pegar em nenhum, mas City at the End of Time, Anathem, The Dragons of Babel e The Graveyard Book são aqueles que me despertaram maior interesse.

Espantar, espantar, espantou-me Paolo Bacigalupi que conseguiu arrebatar dois prémios, um pela Novela Pump-Six (sobre a qual já tinha falado há alguns meses),  e outra pela colectânea que contém esta mesma novela.