Finch – Jeff Vandermeer

Passaram-se 100 anos desde Shriek, e os gray caps dominam verdadeiramente Ambergris, a cidade que nos  tinha sido apresentada em City of Saints and Madmen.  Aproveitando as informações captadas ao longo de séculos, utilizam agora o medo como forma de controlar a população.

Para os que conhecem Ambergris dos livros anteriores, a cidade continua com a mesma aura de mistério e estranheza, carregada de micoses e cogumelos, agora agravada pelo domínio explícito dos gray caps, seres semelhantes aos humanos, provindos de uma outra realidade, com moral e hábitos próprios.

Finch é um inspector, um agente controlado pelos gray caps, escolhido para investigar o aparecimento de dois corpos num apartamento, um gray cap e um ser humano de identidade desconhecida, que apresentam marcas de ter sofrido uma grande queda. De forma a descobrir o que lhes terá acontecido, Finch terá de comer os cogumelos de memórias que se formam nos cadáveres. No entanto, estes não transmitem apenas recordações, também alguns aspectos da personalidade que irão transtornar Finch.

Durante a investigação, vamos descobrindo os acontecimentos dos últimos anos que terão moldado a cidade, e assistindo à transformação a que está a ser alvo – duas enormes torres estão em construção pelos gray caps, enquanto prédios inteiros são contaminados e substituídos por estruturas micóticas. Tal como os edifícios, também os seres humanos apresentam sinais de micoses, e a tecnologia dos gray caps rivaliza com a dos humanos, distinguindo-se pelas texturas orgânicas.

Mais sombrio que Shriek ou City of Saints and Madmen, Finch fecha a história de Ambergris, revelando a causa de vários acontecimentos que decorrem nos primeiros livros, desde o Silêncio, que terá marcado a cidade desde a sua fundação, à guerra entre duas poderosas fracções, ao desaparecimento de Shriek.

Melancólico e movimentado, Finch apresenta-nos um mundo inseguro em degradação que está prestes a desabar, centrando-se numa única personagem em colapso, de passado obscuro e deslocado. Se, nalgumas obras, a centralização poderia ser um aspecto negativo, neste caso, a introdução de outras personagens principais apenas iria servir para alienar o leitor ao sobrecarregar a acção.

Apesar de fechar a história dos volumes anteriores, Finch é uma história separada que pode ser enquadrado em vários géneros: mistério, fantasia ou ficção científica. Sem me arrebatar totalmente, gostei imenso. Ainda que a leitura não tenha sido muito rápida, a acção é constante, não deixando esmorecer o interesse pelos acontecimentos, pois existem sempre novos elementos que vão captando o leitor de forma diferente, desde tecnologia orgânica que é simultaneamente arrepiante e fascinante, a decisões que, embora compreensíveis, são inesperadas.

O Adamastor

Uma ideia ganhou recentemente raízes e tornou-se num Projecto, o Projecto Adamastor. Em que consiste? Na criação de uma biblioteca online de ficção especulativa, onde serão recolhidas obras que se encontrem no domínio público ou as autorizadas pelos detentores dos direitos autorais. Enquanto o projecto não arranca, decorre uma sondagem com o intuito de ter uma ideia do apoio e da utilidade desta iniciativa.

Sabendo que existem boas obras de ficção de autores portugueses há muito esquecidas, eis uma oportunidade para as rever e disponibilizar, mostrando que a ficção especulativa portuguesa não surgiu apenas nesta década.

The Windup Girl – Paolo Bacigalupi

The Windup Girl é a primeira história longa de Paolo Bacigalupi, um autor conhecido pelos contos em mundos arrasados por desastres ecológicos. Nomeado para os prémios Hugo e Nebula, a história ocorre num mundo futuro de recursos esgotados, em que os combustíveis fósseis foram substituídos pela força motriz de seres humanos ou animais, acumulada em baterias especiais. Para além dos recursos energéticos, também a maioria dos espécies animais e vegetais se extinguiram, devido a alterações climáticas e pragas dizimadoras, que atingiram os seres humanos sob a forma de doenças hemorrágicas de rápida propagação.

A Tailândia é um dos poucos países que se manteve intacto, em parte pela existência de diques que impedem o avançar das águas (cujo nível subiu), em parte por manter uma força semi-militar que trava a propagação de pragas através de medidas drásticas, ou impede a importação de transgénicos que poderão desestabilizar o frágil equilíbrio ecológico. Jaideee é o chefe de uma destas forças semi-militares, um camisa branca,  um dos poucos que é honesto, o que lhe valerá poderosos inimigos.

Os limitados recursos energéticos contrastam com uma extensa capacidade biotecnológica, e para além de elefantes melhorados e espécies vegetais reinventadas encontramos seres humanos artificiais. Manipulados geneticamente, estes seres humanos foram aperfeiçoados para determinadas funções, domésticas ou militares, mantendo uma característica comum que os identifica, uma falha constante na fluidez dos movimentos, que justifica a alcunha de pessoas de corda.

Emiko é uma rapariga de corda, construída para colmatar a falta de mulheres no Japão, foi programada para servir, constituindo a companheira perfeita: dócil, obediente e fiel. Para além de cuidar da casa e executar as tarefas de secretária, será a companheira sexual perfeita do seu dono. Abandonada na Tailândia, vê-se reduzida a prostituta, onde os seus movimentos pouco fluídos são aproveitados num humilhante espectáculo. Ainda que humilhada, não pode fugir do bordel por ser considerada, na Tailândia, apenas um objecto biologicamente nocivo.

Parcialmente isolada, a Tailândia terá acolhido milhares de refugiados chineses, designados por cartões amarelos. Hock Seng é um deles. Apesar de trabalhar como coordenador, procura recuperar o estatuto social perdido desviando dinheiro. Desconhece, no entanto, que a fábrica onde trabalha é uma fachada, uma forma de o gestor, o demónio branco, Anderson, procurar na Tailândia o banco genético que permite ao país produzir algumas espécies vegetais supostamente extintas.

De ritmo pausado, The Windup Girl é uma história excelente, que se diferencia da maioria da ficção científica por se debruçar sobre temas ecológicos. Num mundo de recursos energéticos esgotados, os seres humanos recorreram a alternativas tecnologicamente interessantes, provocando um contraste irónico entre o extenso conhecimento científico e a regressão das condições em que vive a humanidade.

Bastante melancólico, explora a saudade por um mundo saudável de grande diversidade animal e vegetal ao mesmo tempo que nos descreve uma realidade monótona em sabores, cores e vida. Esta é a visão das próprias personagens que, embora interessantes, nem sempre captam o leitor. Alguns dos seus pensamentos são-nos revelados, mas existe um afastamento constante, uma alienação, que resulta num envolvimento incompleto na história.

Em suma, apesar de ter gostado imenso da forma como o autor nos apresentou um apocalipse ecológico, ficou a sensação de que, não fosse a forma como as personagens foram desenvolvidas, e esta obra poderia ser um clássico do género.

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Uma versão mais curta deste comentário foi publicada na Bang 8!, agora disponível online (download gratuito).

Esta semana

11-12-2010

- Heavenly - Jennifer Laurens (As Leituras do Corvo)

- Tratado de Vampirologia – Abraham Van Helsing, Éduoard Brasey (Clube dos Livros)

13-12-2010

- O Veneno de Ofiúsa – Francisco Dionísio (Floresta de Livros)

- Em Chamas – Suzanne Collins (Sombra dos Livros)

14-12-2010

- Hicksville – Dylan Horrocks (Intergalactic Robot

- Perfeitos – Scott Westerfeld (Pedacinho Literário)

- O Evangelho do Enforcado – David Soares (The Tale of the Bamboo Cutter)

15-12-2010

- Market Forces – Richard Morgan (Manuscritos Malditos)

- Anjo Caído – Lauren Kate (Bela Lugosi is Dead)

- A Corte do Ar – Stephen Hunt (Porta VIII)

16-12-2010

- O Beijo das Sombras – Richelle Mead (As Histórias de Elphaba)

17-12-2010

- Queen Of Blood – Bryan Smith (Intergalactic Robot)

18-12-2010

- As Tribos do Sul - Madalena Santos (As Leituras do Corvo)

- Anjo Caído – Lauren Kate (Páginas com Memória)

Esta semana

04-12-2010

- A rapariga que roubava livros – Markus Zusak (Blog D’Magia)

- Mr. Arashi’s Amazing Freak Show - Suehiro Maruo (Intergalactic Robot)

- Perfeitos – Scott Westerfeld (Bela Lugosi is Dead)

- The Walking Dead – Volume 5 – Robert Kirkman e Charlie Adlard (Floresta de Livros)

- The Walking Dead – Volume 6 – Robert Kirkman e Charlie Adlard (Floresta de Livros)

- Boneshaker – Cherie Priest (Illusionary Pleasure)

- Lua Azul – Alyson Noel (O cantinho do Bookholic)

05-12-2010

- A Luz Miserável – David Soares (N Livros)

06-12-2010

- Revista Bang! n.º 8 (Estante de Livros)

- Beijo Gelado – Richelle Mead (As Histórias de Elphaba)

07-12-2010

- Os Corvos - Douglas Preston e Lincoln Child (As Leituras do Corvo)

- Grimm Fairy Tales – Volume 1 – Joe Tyler e Ralph Tadesco (Floresta de Livros)

- Grimm Fairy Tales – Volume 2 – Joe Tyler e Ralph Tadesco (Floresta de Livros)

- Eternidade – Alyson Noël (Os devaneios da Jojo)

08-12-2010

- A Bestiary of the Bizarre – Christopher Dell (Intergalactic Robot)

- Os Leões de Al-Rassan – Guy Gavriel Kay (Bela Lugosi is Dead)

- A Caixa em forma de coração – Joe Hill (Manuscritos Malditos)

09-12-2010

- Children Of The Night – Dan Simmons (Intergalactic Robot)

- Vaporpunk – Vários Autores (I Dream in Infrared)

- Immortal – Love Stories with Bite – Vários Autores (As Leituras do Corvo)

- A Cidade das Cinzas - Cassandra Clare (As Histórias de Elphaba)

- Insaciável – Meg Cabot (As Leituras do Corvo)

10-12-2010

- A Dama Pé-de-Cabra – Alexandre Herculano (As Leituras do Corvo)

- Grimm Fairy Tales – Volume 3 - Joe Tyler e Ralph Tadesco (Floresta de Livros)

- Highlander – Amante Imortal – Karen Marie Moning (Pedacinho Literário)

11-12-2010

- Hex Hall – Rachel Hawkins (Clube dos Livros)

Novembro Fantástico – Parte 3 (Fórum Fantástico)

Depois do lançamento da Bang! 8 e do colóquio Mensageiro das Estrelas, ainda tivemos o Fórum Fantástico no mês de Novembro, nos dias 12, 13 e 14, na Biblioteca de Telheiras.

12 de Novembro, Sexta-Feira:

17:00 – Painel “Arte Fantástica”, com Victor Lages, Bruno Krippahl e Tiago Lobo Pimentel, moderado por Ana Maria Baptista.

Visualmente interessante, neste painel mostraram-se imagens que têm o fantástico como tema, algumas das quais que integram jogos de computador. Neste sentido, desenrolou-se um pequeno debate entre os apresentadores e alguns dos membros da plateia sobre o significado de arte: seriam as imagens de Photoshop arte? E o que dizer dos jogos de computador? Será que podem, também, ser considerados arte?

18:30 – Lançamento “A Simbólica do Espaço em O Senhor dos Anéis”, com a autora Maria do Rosário Monteiro.

Maria do Rosário Monteiro apresentou A Simbólica do Espaço em O Senhor dos Anéis, um ensaio em torno da obra de Tolkien, onde a autora explora os distintos palcos da história. Este foi um lançamento bastante interessante, onde se notou o quão habituada a autora está a expor as suas ideias. No final, as perguntas não paravam, e não fosse por falta de tempo a apresentação ter-se-ia alongado mais.

13 de Novembro, Sábado:

15:00 – Painel “Lisboa Fantástica”, moderado por Rui Tavares, com João Barreiros, David Soares e Octávio dos Santos.

Excelentemente moderado, este painel apresentou a noção da cidade que cada um dos autores possui: luminosa ou escura, escondida ou revelada. Se Octávio dos Santos expande a cidade, João Barreiros já a explodiu por diversas vezes nas suas histórias, e David Soares escolhe uma Lisboa pré-terramoto caracterizada por ruelas pouco iluminadas e um ambiente mais soturno.

16:00 – Cinema Fantástico Português – Curtas (“A Audição”, de Francisco Campos e Henrique Bagulho; “Nocturna”, de Francisco Carvalho; “A Aposta”, de Vasco Sequeira).

Apenas assisti à curta A Audição, mas acostumada às pasteladas do cinema português achei esta curta bastante melhor, quer em termos de imagem e som, quer em termos de história.

17:30 – Lançamento “A Luz Miserável”, com o autor David Soares.

A Luz Miserável, de páginas pretas e letras brancas (e odor indescritível), traz-nos três novas histórias negras do autor David Soares, que terão relação com os seus últimos três romances: do suspense ao splatterpunk. Como sempre uma apresentação interessante e inteligente do autor. O livro esse, aguarda a leitura de Lisboa Triunfante e de O Evangelho do Enforcado, pelo que não poderei comentá-lo – por enquanto.

18:00 – À Conversa com Ricardo Pinto, por Rogério Ribeiro.

Ricardo Pinto é o autor da trilogia fantástica lançada pela Editorial Presença, A Dança de Pedra do Camaleão. Após longos anos de espera, o terceiro e último volume foi publicado recentemente. Uma espécie de purga psicológica do autor luso-descendente, a história decorre num ambiente fantástico diferente do usual, numa sociedade patriarcal onde os nobres nunca tiram as máscaras. Um ambiente interessante que me recordo de gostar, apesar de ainda não ter lido o último volume.

Durante a conversa Ricardo Pinto revelou algumas características da sua vivência familiar que terão sido exploradas nos livros, e falou sobre a experiência de escrita. No final, revelou que, depois de outros projectos que tem em curso, talvez volte a escrever algo passado no mesmo mundo.

18:30 – À Conversa com Stephen Hunt, por Luís Corte-Real.

Enquadrados no género Steampunk, os livros de Stephen Hunt terão sido dos primeiros do género a obter uma grande exposição comercial. A Corte do Ar é o primeiro de uma série, onde cada um dos volumes pode ser lido independentemente.

19:00 – À Conversa com Peter V. Brett, por Pedro Reisinho.

A série fantástica de Peter V. Brett é uma das mais viciantes dos últimos tempos. Apresentando uma realidade onde a tecnologia terá sido esquecida e os demónios sobem das profundezas todas as noites para caçar humanos, Peter V. Brett explora o desenvolvimento de um Messias que irá expulsar os demónios. Até agora as personagens têm-se revelado humanas, ou seja, não são inteiramente boas ou más, ainda que de vez em quando as suas acções possam ser interpretadas como tal. Para um dos próximos volumes, o autor prometeu explorar o lado dos demónios.

14 de Novembro, Domingo:

15:00 – Sugestões de Leitura, com Ana Cristina Alves e João Barreiros.

João Barreiros fala com um entusiasmo contagiante! Entre os livros referidos encontramos Kraken de China Miéville, Finch de Vandermeer, Locke & Key de Gabriel Rodriguez  e Joe Hill, The Quantum Thief de Hannu Rajaniemi ou The Passage de Justin Cronin.

15:30 – Painel “Banda-Desenhada”, com Filipe Melo, Nuno Duarte, Osvaldo Medina, Rui Ramos, Fil, André Oliveira e Diogo Carvalho.

Este quase que já pode ser considerado O Painel Anual de Banda Desenhada, onde os autores apresentam os seus novos projectos (existem algumas presenças constantes). Ainda que tenha gostado das apresentações, acho que gostaria de ter visto alguns daqueles projectos mais esmiuçados, ou seja, seria interessante dar mais tempo aos lançamentos deste ano, com rubrica própria no horário ao invés de concentrados na mesma meia hora. Isto porque… começam a ser projectos a mais para apresentar em tão pouco tempo. Ou foi esta a sensação com que fiquei.

17:00 – Painel “Fantástico como forma literária”, moderado por João Morales, com Afonso Cruz e João Pedro Duarte.

Com uma moderação impecável e perspicaz João Morales aproveitou as obras dos autores para lhes colocar perguntas sobre o género, desenvolvendo-se uma conversa interessante e inteligente.

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Para os interessados, existe uma página no facebook onde se reúnem vídeos e opiniões do evento.

O Grande Retrato – Dino Buzzati

Escritor e jornalista, Dino Buzzati é o autor de livros como O Segredo do Bosque Velho e O Deserto dos Tártaros, duas obras excelentes, mas bastante diferentes, a primeira quase um conto fantástico, a segunda um relato implacável e melancólico de uma vida eternamente adiada.  O Grande Retrato é o mais recente livro publicado em Portugal do autor, pela Cavalo de Ferro, que se inicia com uma cronologia de cerca de vinte páginas, onde se expõe alguns marcos da vida amorosa e profissional de Buzzati.

O Grande Retrato inicia-se com um mistério: o professor Ermanno Ismani, cientista, é convidado a comparecer no Ministério da defesa, perante o coronel Giaguinto, chefe do Gabinete de Estudos. Receoso, Ermanno dirige-se rapidamente ao ministério, passando de oficial a oficial, todos vagos e amedrontados após a visualização do convite que transporta. Finalmente, chega ao gabinete, mas ao contrário do que seria de esperar, as incertezas adensam-se quando é convidado a integrar um projecto científico militar, em local incerto, com objectivo não revelado.

Ainda que reticente, a perspectiva de um novo desafio científico faz com que Ermanno se decida a viajar com a mulher,  para a base militar onde terá de viver isolado durante alguns anos. Chegado ao destino, um local ermo no meio das montanhas, as dúvidas adensam-se quando ouve, no posto militar, relatos de estranhos barulhos oriundos da montanha. Só no dia seguinte tomará conhecimento do objectivo do projecto, que afinal não tem os contornos tenebrosos que esperava: a invenção e manutenção de um enorme computador, capaz de recolher e integrar a informação do que o rodeia através de sensores que mimetizam os cinco sentidos. Para além dos cálculos complicados, o computador simula a personalidade de uma mulher, a falecida esposa de um dos cientistas, fútil e caprichosa.

De ritmo pausado e ambiente misterioso, as cenas oscilam entre o cómico e o temor: acompanhado por uma esposa prática, Ermanno Ismani é um homem inseguro que se arrende a cada passo da decisão que tomou. Mas ainda que acompanhemos o casal desde o início da narrativa, é Laura a personagem principal que justifica a história, a simulação de uma mulher, uma figura frustrante, simultaneamente presente e ausente que nunca poderá corresponder às expectativas, recordando A Invenção de Morel de Adolpho Bioy Casares. Ao integrar uma personalidade, o engenho torna-se incongruente com o objectivo analítico para o qual foi construído, e desta forma a história evolui em direcção ao caos.

Uma versão mais condensada deste comentário foi publicada na Bang 8!, agora disponível online (download gratuito).

Vaporpunk – Vários Autores (Parte II)

(esta é a segunda parte do comentário a Vaporpunk - link para a parte I)

Jorge Candeias traz-nos Unidade em Chamas, onde explora as unidades militares que lutam nas passarolas. Com homens mais pequenos que as outras unidades militares (há que poupar o peso numa passarola), distinguem-se por os seus elementos poderem evoluir na carreira independentemente da sua origem social. O ambiente é de tensão, provocado pela aproximação da Guerra, e piorado pela descoberta da existência de outra base militar de passarolas nas colónias. Os preconceitos são imensos, e nem a camaradagem a bordo de uma passarola irá conseguir sarar completamente as diferenças raciais e culturais. Bastante diferente das restantes, é uma aventura bastante centrada no preconceito que nos apresenta as vantagens e desvantagens da utilização das passarolas nos confrontos militares.

A Extinção das Espécies de Carlos Orsi, é uma das histórias mais fantásticas do conjunto, explorando várias vertentes tecnológicas baseadas no vapor. Temos, assim, nanotecnologia, invenções frankensteinianas, utilização de energia solar – máquinas de construção e máquinas de destruição; tudo isto pelo mundo inteiro numa época em que estas tecnologias se apresentam inexplicáveis, suscitando medo nos que interagem com estas novidades.

Com uma vertente mais sobrenatural temos a história de Eric Novello, O Dia da Besta, uma aventura interessante que decorre num Brasil tecnologicamente desenvolvido, onde D. Pedro II terá direccionado o investimento para as ciências, descurando os luxos da corte. É no Jardim Botânico que se inicia a história, o mesmo local onde estará aprisionado um monstro de origem desconhecida, um ser estranho praticamente invencível.  Esta é uma aventura engraçada e envolvente que se distingue das restantes ao explorar o sobrenatural em simultâneo com as tecnologias a vapor.

A última história é a de João Ventura, O Sol é que alegra o dia, que se baseia num homem português que terá nascido nos finais do século XIX: o padre Himalaya. Este terá inventado um aparelho capaz de captar a energia solar, o Pyrheliophero (ou Pirelióforo), atingindo a temperatura de 3500ºC fundindo metais e rochas. Infelizmente, este mecanismo não terá sido aproveitada pelos grandes investidores, que se encontram mais interessados em explorar o petróleo ou o carvão.  A história apresenta-nos uma realidade alternativa a esta, onde as invenções de Padre Himalaya terão tido relevância na época, acabando por ser utilizadas na indústria automóvel, apesar das tentativas de sabotagem pelos exploradores do petróleo. Centrando-se na exploração desta realidade alternativa, O Sol é que Alegra o Dia, é uma história que nos leva a pensar: onde estaria a humanidade se todas estas ideias tivessem sido aproveitadas e não descuradas ?

Apresentando noveletas ao invés de contos, o que é pouco usual numa antologia, Vaporpunk apresenta-nos um conjunto de histórias diverso e excelente, onde se exploram várias vertentes do género. Temos monstros ao lado de invenções impensáveis, em histórias alternativas. A qualidade é bastante acima do normal, não me recordando de nenhuma história que tenha achado banal ou desinteressante.

Imagem para a capa de Vaporpunk por Erick Santos

 

Vaporpunk – Vários autores (Parte I)

Organizada por Gerson Lodi-Ribeiro e Luis Filipe Silva esta antologia publicada pela Editora Draco possui participações de autores portugueses e brasileiros, tendo estado à venda em Portugal em eventos como Mensageiros das Estrelas ou Fórum Fantástico. De aspecto gráfico impressionante e interior cuidado, apresenta 8 noveletas que não se limitam, como nalgumas histórias do género, a apresentar gadgets num ambiente londrino.

Na primeira história, A Fazenda-Relógio, de Octavio Aragão, exploram-se as consequências da industrialização nas fazendas brasileiras. Com a invenção de máquinas debulhadores milhares de escravos vêem-se libertados, mas sem ocupação que lhes permita sustentar-se. É desta forma que resolvem vingar-se nas fazendas, destruindo as máquinas que os libertaram subitamente, e se vêm parte de um plano político que se aproveita da sua existência. Interessante e coesa, é uma noveleta que explora o lado humano da industrialização.

Segue-se Os Oito Nomes Do Deus sem Nome, por Yves Robert, uma história de espionagem onde os agentes ingleses e franceses tentam descobrir a arma secreta que terá permitido construir um império. Ainda que possuam um objectivo comum, estes agentes competem entre eles, exibindo as maravilhas tecnológicas inventadas em cada um dos Impérios: enquanto os ingleses se dedicam a desenvolver a tecnologia, os franceses exploram as artes mentais que lhes permitem abrir janelas, ou comunicar mentalmente. Uma noveleta divertida com invenções interessantes, possui uma reviravolta final inteligente que consegue dar-lhe o brilho necessário para não decepcionar.

Os primeiros Aztecas na lua, de Flávio Medeiros Jr., é a terceira história, também uma aventura de espionagem, onde um agente duplo tenta descobrir a localização da invenção inglesa que permitirá levar homens à Lua. Ainda que possua partes excelentes, tem algumas pontas soltas que não me permitiram apreciar completamente a história. Talvez fosse uma das que teria beneficiado de um formato ainda maior para a tornar mais coesa.

Consciência de ébano, de Gerson Lodi-Ribeiro, distingue-se das restantes histórias por nos apresentar seres semelhantes a vampiros, velhos, inteligentes e sedentos de sangue, que serão utilizados como arma por uma sociedade secreta. Por ser neto de um dos membros desta sociedade, João recebe a proposta de ingressar nesta sociedade, cuja função principal é tratar de um destes seres, chamado de Dentes Compridos. Mas João é também neto de um caçador que terá tentado matar Dentes Compridos, e ainda que adira à sociedade, luta contra a sua consciência por considerar Dentes Compridos um ser maléfico. Com poucos elementos de Steampunk, a noveleta poderia enquadrar-se mais no sobrenatural que propriamente no género da antologia, constituindo uma aventura engraçada que não me fascinou grandemente.

Esta semana

28-11-2010

- Harry Potter E Os Talismãs Da Morte – J.K. Rowling (Blog D’Magia)

- A Rapariga dos Pés de Vidro – Ali Shaw (Clube dos Livros)

- Eternidade – Alyson Noel (Blog D’Magia)

- A Marca de Kushiel – Jacqueline Carey (Blog D’Magia)

- Campos de Odelberon – Escritos dos Ancestrais – Rodrigo McSilva (Clube dos Livros)

- O Dardo de Kushiel – Jacqueline Carey (Blog D’Magia)

- Perfeitos – Scott Westerfeld (Clube dos Livros)

- Monstro – Catarina Araújo (I Dream in Infrared)

- Cornos – Joe Hill (Clube dos Livros)

29-11-2010

- Meio-Dia Azul – Scott Westerfeld (As Histórias de Elphaba)

- O Homem do Castelo Alto – Philip K. Dick (Bela Lugosi is Dead)

- O Pássaro Pintado – Jerzy Kosinski (Intergalacticrobot)

- Anjos Pistoleiros – Paul McAuley (Estante de Livros)

30-11-2010

- The simulacra – Philip K. Dick (Manuscritos Malditos)

01-12-2010

- A Mecânica do Coração – Mathias Malzieu (Floresta de Livros)

- Heart-Shaped Box – Joe Hill (Intergalacticrobot)

- Cages – Dave McKean (Intergalacticrobot)

- Orbias – O Demónio Branco – Fábio Miguel Ventura (Páginas com memória)

- O Beijo das Sombras – Richelle Mead (As Leituras do Corvo)

02-12-2010

- Eternidade - Alyson Noel (As Histórias de Elphaba)

- O Evangelho do Enforcado – David Soares (Intergalacticrobot)

- Tratado de Vampirologia do Dr. Abraham van Helsing – Édouard Brasey (As Leituras do Corvo)

03-12-2010

- Possessão - Jennifer Armintrout (As Histórias de Elphaba)

- Herbert West: Reanimador – H.P. Lovecraft (Floresta de Livros)

- O Beijo das Sombras – Richelle Mead (Bela Lugosi is Dead)

A Boneca de Kokoschka – Afonso Cruz

Para os mais distraídos este é o último livro de Afonso Cruz, o autor que nos surpreendeu recentemente com A Enciclopédia da Estória Universal ou Os livros que devoraram o meu Pai, o primeiro sem dúvida entre os melhores livros que li este ano.

A Boneca de Kokoscha é bem distinto destes dois: se em A Enciclopédia da Estória Universal podemos encontrar uma enciclopédia de referências ficcionais que envolvem pedaços reais, ou em Os livros que devoraram o meu Pai conhecemos a história de um rapaz cujo pai se terá embrenhado demasiado na leitura, acabando dentro dos livros; em A Boneca de Kokoschka apresenta-se uma história maior que as suas partes, composta por histórias mais pequenas que se cruzam de formas distintas.

O livro começa com a morte de um rapaz por um soldado, que cai sobre o pé do parceiro de bola Isaac. Este, assustado, foge e acaba por se esconder num esconderijo na loja de Bonifaz Vogel, que deve imenso à inteligência. Desconhecendo a existência do esconderijo, Bonifaz começa a ouvir uma voz que o aconselha nos negócios, sem nunca questionar a origem dos conselhos.

Mais tarde, quando a cidade de Dresden é bombardeada, Bonifaz surpreende-se ao ver Isaac ao sair do esconderijo, e fogem juntos. Na fuga encontram uma rapariga, Tsilia, outra sobrevivente do bombardeamento e os três prosseguem juntos. Sem nunca abandonar Bonifaz, que vai degenerando mentalmente, Isaac junta-se a Tsilia. O seu andar ficará sempre marcado pelo arrastar de uma perna, provocado não por uma lesão, mas pelo peso da cabeça do amigo.

No início do livro foi-me difícil embrenhar no texto, em parte por causa da forma como está exposto. No entanto, com a progressão, a história deixa a aparente simplicidade inicial da forma e do conteúdo, e vai envolvendo o leitor no enredo. Uma história linear torna-se um labirinto de acontecimentos, que vão ganhando volume com as diferentes perspectivas.

Partindo de uma narração simples, a história ramifica-se e são-nos apresentadas histórias de amor quebradas, homens avarentos, esposas ciumentas e famílias desconexas assim como personagens de mentalidade simples e bondosa. Tudo isto envolto numa aura de quase inocência. No final, gostei.

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