O Grande Retrato – Dino Buzzati

Escritor e jornalista, Dino Buzzati é o autor de livros como O Segredo do Bosque Velho e O Deserto dos Tártaros, duas obras excelentes, mas bastante diferentes, a primeira quase um conto fantástico, a segunda um relato implacável e melancólico de uma vida eternamente adiada.  O Grande Retrato é o mais recente livro publicado em Portugal do autor, pela Cavalo de Ferro, que se inicia com uma cronologia de cerca de vinte páginas, onde se expõe alguns marcos da vida amorosa e profissional de Buzzati.

O Grande Retrato inicia-se com um mistério: o professor Ermanno Ismani, cientista, é convidado a comparecer no Ministério da defesa, perante o coronel Giaguinto, chefe do Gabinete de Estudos. Receoso, Ermanno dirige-se rapidamente ao ministério, passando de oficial a oficial, todos vagos e amedrontados após a visualização do convite que transporta. Finalmente, chega ao gabinete, mas ao contrário do que seria de esperar, as incertezas adensam-se quando é convidado a integrar um projecto científico militar, em local incerto, com objectivo não revelado.

Ainda que reticente, a perspectiva de um novo desafio científico faz com que Ermanno se decida a viajar com a mulher,  para a base militar onde terá de viver isolado durante alguns anos. Chegado ao destino, um local ermo no meio das montanhas, as dúvidas adensam-se quando ouve, no posto militar, relatos de estranhos barulhos oriundos da montanha. Só no dia seguinte tomará conhecimento do objectivo do projecto, que afinal não tem os contornos tenebrosos que esperava: a invenção e manutenção de um enorme computador, capaz de recolher e integrar a informação do que o rodeia através de sensores que mimetizam os cinco sentidos. Para além dos cálculos complicados, o computador simula a personalidade de uma mulher, a falecida esposa de um dos cientistas, fútil e caprichosa.

De ritmo pausado e ambiente misterioso, as cenas oscilam entre o cómico e o temor: acompanhado por uma esposa prática, Ermanno Ismani é um homem inseguro que se arrende a cada passo da decisão que tomou. Mas ainda que acompanhemos o casal desde o início da narrativa, é Laura a personagem principal que justifica a história, a simulação de uma mulher, uma figura frustrante, simultaneamente presente e ausente que nunca poderá corresponder às expectativas, recordando A Invenção de Morel de Adolpho Bioy Casares. Ao integrar uma personalidade, o engenho torna-se incongruente com o objectivo analítico para o qual foi construído, e desta forma a história evolui em direcção ao caos.

Uma versão mais condensada deste comentário foi publicada na Bang 8!, agora disponível online (download gratuito).

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