A Caixa – Richard Matheson

Eis um livro de horror que poderá agradar até aos que não apreciam o género.

Mais conhecido por ser o autor de Eu Sou a Lenda,  Richard Matheson publicou vários contos de horror, que se destacaram com os prémios Bram Stoker e World Fantasy. Este conjunto reúne alguns desses excelentes contos, explorando o horror de diversas formas. Com reviravoltas irónicas e fantásticas, que não recorrem à violência excessiva, os contos são na sua maioria originais e inteligentes. Alguns exploram o terror psicológico, aproveitando a imaginação e a antecipação do leitor, noutros o autor cria situações fantásticas onde as personagens duvidam dos sentidos ou mesmo da realidade das situações em que se encontram.

Quase todas as história possuem finais trágicos mas interessantes, e podemos encontrar vários géneros: desde as premissas originais e fantásticas, aos contos de horror que recorrem aos típicos fantasmas ou seres sobrenaturais. Em quase todos os contos existe um distanciamento para com as personagens, mas não é impeditivo de gostarmos da história, pelo contrário: neste caso este distanciamento permite sentir a ironia da situação que nos é descrita.

Entre as histórias que gostaria de realçar encontra-se aquela que empresta o título ao conjunto, A Caixa, onde é apresentado a um casal a possibilidade de lucrar com a morte de alguém que não conhecem e à qual não terão de assistir, bastando clicar num botão. Com uma reviravolta final engraçada, a história apresenta a luta moral do casal, enquanto pensam na proposta absurda. Depois de explorar as fobias de andar de avião, a integração de uma caloira, e um rapaz obcecado em se tornar vampiro, aparece outra história bastante interessante, Grilos. Neste conto um homem inferniza o fim-de-semana romântico de um casal, expondo a teoria de que os grilos terão uma linguagem codificada, emitindo o nome da próxima pessoa a desaparecer. Ainda que seja previsível e se enquadre no típico cenário de filmes de horror, agrada pela apresentação dos acontecimentos.

Em Fúria Íntima,  a raiva com que um homem vive diariamente, atirando com os objectos, praguejando e maltratando a esposa, vira-se contra ele. A vingança aparece de onde menos espera. A Casa de Slaughter poderia ser um típico conto de terror centrado numa casa assombrada. Alimentando o sonho de infância em adquirir um casarão, dois irmãos concretizam o desejo, decidindo-se a manter a casa sem electricidade ou outras modernices. Mas pouco tempo depois ambos de começam a aperceber de outras presenças na casa, que mudam os seus comportamentos.

Em suma, um conjunto interessante de contos que julgo interessantes para os que gostem de uma boa história.

The Windup Girl – Paolo Bacigalupi

The Windup Girl é a primeira história longa de Paolo Bacigalupi, um autor conhecido pelos contos em mundos arrasados por desastres ecológicos. Nomeado para os prémios Hugo e Nebula, a história ocorre num mundo futuro de recursos esgotados, em que os combustíveis fósseis foram substituídos pela força motriz de seres humanos ou animais, acumulada em baterias especiais. Para além dos recursos energéticos, também a maioria dos espécies animais e vegetais se extinguiram, devido a alterações climáticas e pragas dizimadoras, que atingiram os seres humanos sob a forma de doenças hemorrágicas de rápida propagação.

A Tailândia é um dos poucos países que se manteve intacto, em parte pela existência de diques que impedem o avançar das águas (cujo nível subiu), em parte por manter uma força semi-militar que trava a propagação de pragas através de medidas drásticas, ou impede a importação de transgénicos que poderão desestabilizar o frágil equilíbrio ecológico. Jaideee é o chefe de uma destas forças semi-militares, um camisa branca,  um dos poucos que é honesto, o que lhe valerá poderosos inimigos.

Os limitados recursos energéticos contrastam com uma extensa capacidade biotecnológica, e para além de elefantes melhorados e espécies vegetais reinventadas encontramos seres humanos artificiais. Manipulados geneticamente, estes seres humanos foram aperfeiçoados para determinadas funções, domésticas ou militares, mantendo uma característica comum que os identifica, uma falha constante na fluidez dos movimentos, que justifica a alcunha de pessoas de corda.

Emiko é uma rapariga de corda, construída para colmatar a falta de mulheres no Japão, foi programada para servir, constituindo a companheira perfeita: dócil, obediente e fiel. Para além de cuidar da casa e executar as tarefas de secretária, será a companheira sexual perfeita do seu dono. Abandonada na Tailândia, vê-se reduzida a prostituta, onde os seus movimentos pouco fluídos são aproveitados num humilhante espectáculo. Ainda que humilhada, não pode fugir do bordel por ser considerada, na Tailândia, apenas um objecto biologicamente nocivo.

Parcialmente isolada, a Tailândia terá acolhido milhares de refugiados chineses, designados por cartões amarelos. Hock Seng é um deles. Apesar de trabalhar como coordenador, procura recuperar o estatuto social perdido desviando dinheiro. Desconhece, no entanto, que a fábrica onde trabalha é uma fachada, uma forma de o gestor, o demónio branco, Anderson, procurar na Tailândia o banco genético que permite ao país produzir algumas espécies vegetais supostamente extintas.

De ritmo pausado, The Windup Girl é uma história excelente, que se diferencia da maioria da ficção científica por se debruçar sobre temas ecológicos. Num mundo de recursos energéticos esgotados, os seres humanos recorreram a alternativas tecnologicamente interessantes, provocando um contraste irónico entre o extenso conhecimento científico e a regressão das condições em que vive a humanidade.

Bastante melancólico, explora a saudade por um mundo saudável de grande diversidade animal e vegetal ao mesmo tempo que nos descreve uma realidade monótona em sabores, cores e vida. Esta é a visão das próprias personagens que, embora interessantes, nem sempre captam o leitor. Alguns dos seus pensamentos são-nos revelados, mas existe um afastamento constante, uma alienação, que resulta num envolvimento incompleto na história.

Em suma, apesar de ter gostado imenso da forma como o autor nos apresentou um apocalipse ecológico, ficou a sensação de que, não fosse a forma como as personagens foram desenvolvidas, e esta obra poderia ser um clássico do género.

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Uma versão mais curta deste comentário foi publicada na Bang 8!, agora disponível online (download gratuito).

Novembro Fantástico – Parte 3 (Fórum Fantástico)

Depois do lançamento da Bang! 8 e do colóquio Mensageiro das Estrelas, ainda tivemos o Fórum Fantástico no mês de Novembro, nos dias 12, 13 e 14, na Biblioteca de Telheiras.

12 de Novembro, Sexta-Feira:

17:00 – Painel “Arte Fantástica”, com Victor Lages, Bruno Krippahl e Tiago Lobo Pimentel, moderado por Ana Maria Baptista.

Visualmente interessante, neste painel mostraram-se imagens que têm o fantástico como tema, algumas das quais que integram jogos de computador. Neste sentido, desenrolou-se um pequeno debate entre os apresentadores e alguns dos membros da plateia sobre o significado de arte: seriam as imagens de Photoshop arte? E o que dizer dos jogos de computador? Será que podem, também, ser considerados arte?

18:30 – Lançamento “A Simbólica do Espaço em O Senhor dos Anéis”, com a autora Maria do Rosário Monteiro.

Maria do Rosário Monteiro apresentou A Simbólica do Espaço em O Senhor dos Anéis, um ensaio em torno da obra de Tolkien, onde a autora explora os distintos palcos da história. Este foi um lançamento bastante interessante, onde se notou o quão habituada a autora está a expor as suas ideias. No final, as perguntas não paravam, e não fosse por falta de tempo a apresentação ter-se-ia alongado mais.

13 de Novembro, Sábado:

15:00 – Painel “Lisboa Fantástica”, moderado por Rui Tavares, com João Barreiros, David Soares e Octávio dos Santos.

Excelentemente moderado, este painel apresentou a noção da cidade que cada um dos autores possui: luminosa ou escura, escondida ou revelada. Se Octávio dos Santos expande a cidade, João Barreiros já a explodiu por diversas vezes nas suas histórias, e David Soares escolhe uma Lisboa pré-terramoto caracterizada por ruelas pouco iluminadas e um ambiente mais soturno.

16:00 – Cinema Fantástico Português – Curtas (“A Audição”, de Francisco Campos e Henrique Bagulho; “Nocturna”, de Francisco Carvalho; “A Aposta”, de Vasco Sequeira).

Apenas assisti à curta A Audição, mas acostumada às pasteladas do cinema português achei esta curta bastante melhor, quer em termos de imagem e som, quer em termos de história.

17:30 – Lançamento “A Luz Miserável”, com o autor David Soares.

A Luz Miserável, de páginas pretas e letras brancas (e odor indescritível), traz-nos três novas histórias negras do autor David Soares, que terão relação com os seus últimos três romances: do suspense ao splatterpunk. Como sempre uma apresentação interessante e inteligente do autor. O livro esse, aguarda a leitura de Lisboa Triunfante e de O Evangelho do Enforcado, pelo que não poderei comentá-lo – por enquanto.

18:00 – À Conversa com Ricardo Pinto, por Rogério Ribeiro.

Ricardo Pinto é o autor da trilogia fantástica lançada pela Editorial Presença, A Dança de Pedra do Camaleão. Após longos anos de espera, o terceiro e último volume foi publicado recentemente. Uma espécie de purga psicológica do autor luso-descendente, a história decorre num ambiente fantástico diferente do usual, numa sociedade patriarcal onde os nobres nunca tiram as máscaras. Um ambiente interessante que me recordo de gostar, apesar de ainda não ter lido o último volume.

Durante a conversa Ricardo Pinto revelou algumas características da sua vivência familiar que terão sido exploradas nos livros, e falou sobre a experiência de escrita. No final, revelou que, depois de outros projectos que tem em curso, talvez volte a escrever algo passado no mesmo mundo.

18:30 – À Conversa com Stephen Hunt, por Luís Corte-Real.

Enquadrados no género Steampunk, os livros de Stephen Hunt terão sido dos primeiros do género a obter uma grande exposição comercial. A Corte do Ar é o primeiro de uma série, onde cada um dos volumes pode ser lido independentemente.

19:00 – À Conversa com Peter V. Brett, por Pedro Reisinho.

A série fantástica de Peter V. Brett é uma das mais viciantes dos últimos tempos. Apresentando uma realidade onde a tecnologia terá sido esquecida e os demónios sobem das profundezas todas as noites para caçar humanos, Peter V. Brett explora o desenvolvimento de um Messias que irá expulsar os demónios. Até agora as personagens têm-se revelado humanas, ou seja, não são inteiramente boas ou más, ainda que de vez em quando as suas acções possam ser interpretadas como tal. Para um dos próximos volumes, o autor prometeu explorar o lado dos demónios.

14 de Novembro, Domingo:

15:00 – Sugestões de Leitura, com Ana Cristina Alves e João Barreiros.

João Barreiros fala com um entusiasmo contagiante! Entre os livros referidos encontramos Kraken de China Miéville, Finch de Vandermeer, Locke & Key de Gabriel Rodriguez  e Joe Hill, The Quantum Thief de Hannu Rajaniemi ou The Passage de Justin Cronin.

15:30 – Painel “Banda-Desenhada”, com Filipe Melo, Nuno Duarte, Osvaldo Medina, Rui Ramos, Fil, André Oliveira e Diogo Carvalho.

Este quase que já pode ser considerado O Painel Anual de Banda Desenhada, onde os autores apresentam os seus novos projectos (existem algumas presenças constantes). Ainda que tenha gostado das apresentações, acho que gostaria de ter visto alguns daqueles projectos mais esmiuçados, ou seja, seria interessante dar mais tempo aos lançamentos deste ano, com rubrica própria no horário ao invés de concentrados na mesma meia hora. Isto porque… começam a ser projectos a mais para apresentar em tão pouco tempo. Ou foi esta a sensação com que fiquei.

17:00 – Painel “Fantástico como forma literária”, moderado por João Morales, com Afonso Cruz e João Pedro Duarte.

Com uma moderação impecável e perspicaz João Morales aproveitou as obras dos autores para lhes colocar perguntas sobre o género, desenvolvendo-se uma conversa interessante e inteligente.

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Para os interessados, existe uma página no facebook onde se reúnem vídeos e opiniões do evento.

Listas Best of 2009 – Literatura

Mesmo antes do fim do ano de 2009 alguns sites publicaram listagens com as melhores leituras do ano. Aqui ficam as principais listas, principalmente de Ficção Científica e Fantasia:

- Suvudu –  Lista de Fantasia e Ficção Científica, encabeçada por The Angel’s Game (O Jogo do Anjo de Carlos Ruiz Zafon, publicado em Portugal pela D. Quixote), possui também The City & The City (de China Miéville, para mim um dos livros mais decepcionantes do ano), Drood (de Dan Simmons, um dos livros que gostava de ter tido oportunidade de ler), e The Warded Man (de Peter V. Brett, publicado em Portugal pela Gailivro como O Homem Pintado).

- Of Blog of the Fallen – o autor do blog optou para apresentar várias listagens:

- Pat’s Fantasy Hotlist – Lista encabeçada por Dust of Dreams de Steven Erikson, contém algumas referências interessantes como O Jogo do Anjo (de Carlos Ruiz Zafon), Cyberabad Days (de Ian McDonald), Best Served Cold (Joe Abercrombie) ou The Windup Girl (Paolo Bacigalupi).

- Fantasy Book Critic – Tal como no ano passado, cada contribuidor apresenta a sua própria lista

  • Mihir com The Warded ManNights of Villjamur de Mark C. Newton ou The Crown Conspiracy de Michael Sullivan
  • Liviu com várias listas, a de SFF é encabeçada por Transition de Ian M. Bankgs, a de antologias por The Babylonian Trilogy e Nocturnes de Kazuo Ishiguro
  • Cindy’s Top 2009 Book List – com espaço reservado para Young Adult, realça obras como Edge of the World de Kevin Anderson ou Avempartha de Michael J. Sullivan
  • Liviu’s 2009 Remarkable Small Press Reads – espaço dedicado às pequenas editoras onde destaca The Babylonian Trilogy de Doubinsky de Avempartha de Sullivan

- The Werzone – iniciada por Best Served Cold de Joe Abercombrie, Retribution Falls de Chris Wooding e The City and The City de China Mieville, contém alguns títulos inesperados como Triumff: Her Majesty’s Hero de Dan Abnett (Warhammer 40,000)

- Amazon - A Amazon também nos apresenta várias listas:

  • TOP 100 que reúne livros de todos os géneros (destacando-se O Jogo do Anjo de Carlos Ruiz Zafon, The Girl Who Played with Fire de Stieg Larsson e Chronic City de Jonathan Lethem;
  • Graphic Novels e Comics, onde podem encontrar Asterios Polyp ou The Umbrella Academy
  • Top 10 Books: Science Fiction & Fantasy, com a presença de Palimpsest (Catherynne M. Valente), American Fantastic Tales (Peter Straub), Boneshaker (Cherie Priest) ou The Other City (Michal Ajvaz)

- The BookSpotCentral – traz-nos listas variadas

- Forbidden Planet International – Tal como Fantasy Book Critic, várias listas:

- SF Signal  - apresenta-nos várias listas separadas em 5 tópicos

  • Parte 1 - Adam Roberts, Mike Resnick, Paul DiFilippo, Kaaron Warren, John C. Wright, Jesse Willis, Alastair Reynolds, Linnea Sinclair, Jeff Patterson, Danie Ware (nestas listas encontram-se alguns livros que gostava de ter lido, como The Best of Michael Swanwick, The Best of Lucius Shepard, The Windup Girl, ou Songs Of The Dying Earth)
  • Parte 2 - Jack McDevitt, Cat Sparks, Ian Sales, Paul Graham Raven, Scott A. Cupp, Cheryl Morgan, Jack Skillingstead, Lucius Shepherd, Heather Massey, William Schafer (Cloud Atlas, Let the right one in, Caryatids, The Devil’s Alphabet, Horns)
  • Parte 3 - Paolo Bacigalupi, Lawrence Person, A.M. Dellamonica, Mickey Zucker Reichert, Sue Lange (nestas listas existem alguns livros que me eram desconhecidos, mas que me parecem interessantes) 
  • Parte 4 - Elizabeth Bear, Colin Harvey, Kristine Kathryn Rusch , Gary Gibson, Brenda Cooper, Mike Brotherton, Jay Garmon e Karen Burnham (algumas referências a The Love We Share Without Knowing, um livro que gostei mas não achei fantástico; à colectânea Poe de Ellen Datlow; The Magicians de Lev Grossman, The Alchemy of Stone de Ekaterina Sedia, Boneshaker de Cherie Priest, The Terror de Dan Simmons, e Cat’s Cradle de Kurt Vonnegut ou Red Seas Under Red Skies de Scott Lynch)
  • Parte 5 - Sandra McDonald, Michael Boatman (com The Terror e The Road)

Big Dumb Object – contos e livros:

  • Short Fiction
  • Livros (Spook Country de William Gibson, The Left Hand Of Darkness de Ursula K. Le Guin, The Yiddish Policeman’s Union de Michael Chabon)

Io9 – apresenta-nos principalmente listas de filmes

- Publishers Weekly - Um top bem recheado - Lovecraft Unbound, The Windup Girl, The Devil’s Alphabet, The City & the City, Boneshaker

- Los Angeles Times – Para além de uma lista genérica, apresenta-nos uma lista de SF

Também em Portugal alguns sites e blogs colocaram as suas listagens de melhores livros do ano

- As Leituras do Corvo –  com referência a O Nome do Vento, A Guerra é para Velhos e Os Jogos da Fome.

- Correio Fantástico – entre os escolhidos podemos encontrar Os Jogos da Fome e Brinca Comigo.

- O Cantinho do Bookoholic -  lista encabeçada por Equador, onde também podemos encontrar O Nome do Vento (Patrick Rothfuss), O Homem Pintado (Peter V. Brett) ou Stardust (Neil Gaiman).

- Lâmpada Mágica – pequeno top 3 com referências interessantes

Retrospectiva 2009 – As melhores leituras

Mantendo a congruência para com os anos anteriores (2008, 2007 e 2006), aqui fica a minha pequena lista de melhores leituras de 2009 (para uma listagem completa do que li ao longo desse ano, consultar a página L09):

The Secret History of Moscow (Ekaterina Sedia), The Other City (Michal Ajvaz) e The City & The City (China Mieville) são três livros do género fantástico que nos revelam uma cidade sob outra cidade.

O livro de Ekaterina Sedia é engraçado e interessante, mas não o achei extraordinário – a história nunca nos chega a envolver totalmente, e o final desprega-nos da história de uma forma insonsa. Para The City & The City as expectativas eram altas, ou não fosse o seu autor o badalado China Miéville. Centrado em duas cidades sobrepostas, a premissa é engraçada, mas a história revela-se um romance policial demasiado inocente e pouco credível.

Finalmente, The Other City foi, destes três, aquele que mais apreciei. Do autor checo Michal Ajvaz, descreve-nos uma outra face da cidade de Praga para onde desaparecem alguns dos seus habitantes.

Apesar de sentir alguma curiosidade pelo livro de Peter Beagle O Último Unicórnio, este foi o ano em que tive oportunidade para ler o livro. Não o achei fascinante, mas resolvi pegar em mais dois livros de contos do mesmo autor, We Never Talk About My Brother e The Rhinoceros Who Quoted Nietzsche and Other Odd Acquaintances. Gostei de ambos, mas o primeiro possui alguns dos melhores contos que li este ano, desde a história de um anjo que se torna a musa inspiradora e obsessão  de um pintor, a um conto com laivos de mitologia japonesa.

Master and Margarita é a obra mais conhecida de MikhailBulgakov, mas enquanto esta aguarda na prateleira por uma oportunidade de leitura, peguei em The Heart of a Dog, um livro mais curto, de ficção científica, que me recordou outras histórias como Frankenstein ou Dr. Jekyll and Mr. Hyde. A personagem principal é um cão vadio, adoptado por um médico que decide realizar uma operação que o irá humanizar e transformar numa personagem peculiar.

Enquanto The Yiddish Policement’s Union é um romance de história alternativa, Gentlemen of the Road é um livro que facilmente se pode tornar um clássico centrando-se nas aventuras de dois judeus aventureiros, heróis humanos e imperfeitos, nem sempre corajosos que às vezes fogem aos seus próprios ideais.

The Man Who Was Thursday é um clássico do início do século XX, um livro que é muito mais do que uma história de detectives, uma paródia ou alegoria à sociedade e à estratificação social, que nos faz pensar no que nos rodeia, através de uma personagem estranha, um cavaleiro que é quase inocente na sua forma de pensar e de agir, que induz aos que o rodeiam a animação que faz da sua própria vida, mesmo nos momentos  mais obscuros.

Enquadrado na colecção Fantasy Masterworks, The Dragon Waiting, de John M. Ford, cativou-me. A história pressupõe a existência de uma Europa ameaçada pelo Império Bizantino, o que leva à convergência, num mesmo grupo, de personagens díspares em ideologia: um médico, um feiticeiro e um vampiro. Apesar de existirem vários aspectos que poderiam ter impossibilitado a minha leitura (as personagens são quase insonsas, existem demasiadas particularidades e informações a reter ao longo da história, e o rumo é demasiado mirabolante), de alguma forma o conjunto de factores funcionou e gostei do livro.

Pandemonium é o primeiro livro de Daryl Gregory e, para mim, um dos melhores lançamentos fantásticos deste ano. Num mundo em tudo semelhante ao nosso, as possessões por demónios são quase banais e induzem episódios repetitivos de loucura nos hospedeiros. A personagem principal foi possuída em criança, e após um acidente volta a apresentar sintomas suspeitos. Escrito de forma simples e directa, baseado numa premissa original, a história possui pequenos twists coerentes que o tornam numa das melhores histórias que já li.

Se em Metamorfose, de Kafka, um rapaz acorda transformado em barata, em Kockroach – A Metamorfose, uma barata acorda transformada em homem, mas sem abandonar alguns dos seus hábitos de insecto. Por vezes arrepiante, por vezes asqueroso, sem passagens paradas ou mortas, sem comoções, um livro sobre os poderes dos seres humanos, entre os quais uma reles barata singra.

As the Sun Goes Down de Tim Lebbon é um livro de contos de horror que exploram hipóteses negras nos acontecimentos mais vulgares – um casal que espera reatar o relacionamento amoroso durante uma viagem, um homem que se salva da queda de um avião (mas que terá de pagar um preço demasiado caro) ou um rapaz que face à queda de um amigo num buraco negro na floresta, explora a possibilidade de herdar os brinquedos. Não existem assassinos de faca na mão ou monstros escorregadios – apenas pessoas reais que optam pelo caminho maldoso, por vezes sem qualquer razão lógica.

Primeiro volume de uma trilogia The Lies of Locke Lamora era um dos livros pelo qual nutria as mais elevadas expectativas, e não fiquei desiludida. A personagem principal é um ladrão atrevido, Locke, que tece elaborados planos para roubar fortunas às personagens mais proeminentes da sociedade. Estruturado, sem se perder em detalhes, o livro lê-se rapidamente. Não é o melhor de fantasia que já li, mas encontra-se entre os melhores do ano de 2009, principalmente pela capacidade de divertir o leitor.

Como já referi inúmeras vezes, As atribulações de Jacques Bonhomme encontra-se entre os melhores livros de ficção científica publicados em Portugal nos últimos tempos. Escrito por um autor português, e publicado pela Gailivro, possui vários contos de final abrupto que consistem na visão estreita de uma só personagem. O que poderia nalguns casos ser um defeito, torna-se aqui uma vantagem. Algumas das histórias no livro não são FC, nem fantasia… na realidade não se enquadram em nenhum género – são histórias que poderiam acontecer nas nossas ruas, amigos traídos, agentes à paisana confundidos com delinquentes ou criminosos em despique. Esqueçam o optimismo e os finais felizes – as histórias retratam a selva da vida real.

Há livros estranhos e The Last Dragon será um dos mais estranhos livros que já li. Violência e tramas políticas são misturadas com magia para levar a cabo vários planos intercruzados de vingança. Intercalando os relatos de vários personagens, a história é um puzzle cujas peças só unimos no final quando os acontecimentos convergem e conseguimos obter a ordem cronológica das várias linhas narrativas.

Kurt Vonnegut foi uma das minhas mais recentes descobertas literárias, e Slaughterhouse five foi o segundo livro do autor. É considerado anti-guerra não porque disserte sobre a guerra, mas pela forma como a apresenta, retratando os soldados como jovens imberbes, que pouco ou nada sabem da vida, com corpos e mentes imperfeitas, e que, sem saberem muito bem como, se encontram nas trincheiras. Para além da guerra existe ainda lugar para viagens no tempo e extraterrestres – a personagem principal, Billy, não vive num fio de acontecimentos temporalmente sucessivos, mas saltanto de época em época, de criança a velhote, de homem a bebé.

To say nothing of the dog é um livro de cerca de 500 páginas cuja acção decorre entre a época vitoriana e um futuro no qual as viagens no tempo são possíveis. Do mesmo modo que a acção alterna entre épocas, alterna igualmente o ritmo da prosa, entre pausado na época victoriana, e um ritmo alucionante no futuro. Esta história uma paródios que reúne vários elementos cómicos e até ridículos: um historiador que procura um objecto nas suas viagens no tempo, vê-se obrigado a viajar para a época victoriana para relaxar; a mecenas do instituto de investigação de história transforma os historiadores em seus empregados, conferindo-lhes missões que pouco ou nada têm a ver com os seus objectivos; uma jovem da época victoriana procura o gato perdido e um gato aparece numa cesta de uma historiadora após uma viagem ao passado.

A Sombra do Vento foi das obras que mais apreciei este ano. Há quem o considere bom, mas não excelente – para mim possui vários elementos que o aproximam da perfeição: a acção decorre na cidade de Barcelona, e os livros possuem um papel fulcral no desenrolar da história.

Entre o romance e o mistério, a história decorre durante a ditadura de Franco, um tempo caracterizado pelo medo e a desinformação, o que confere à história um ambiente nublado. Como não poderia deixar de ser, assuntos como a Guerra Civil e a opressão são uma sombra constante  na vida das personagens.

Zoran Zivkovic tem-se tornado um dos meus autores favoritos, mais um daqueles a cujas histórias retorno, tal como Gabriel Garcia Marquez, Italo Calvino, Borges, Buzzati ou Umberto Eco. Seven Touches of Music é uma das colectâneas de contos que tive a oportunidade de ler do autor. Edição de luxo, reúne histórias em que a música tem um papel fulcral, parecendo retratar a perfeição do Universo e, em última análise, a expressão de um Criador, um músico perfeito. Um dos aspectos mais interessantes dos contos, para além da música, é o captar de gestos e sentimentos que compõem o nosso quotidiano: acções rotineiras pouco lógicas, mas que nos conferem conforto; sonhos que nos deixam entorpecidos pela manhã, ou pequenos acontecimentos inexplicáveis que geram os mais variados rumores.

Organizado por Ekaterna Sedia, Paper Cities é capaz de ser das melhores e mais equilibradas colectâneas de contos que já tive oportunidade de ler, reunindo histórias fantásticas em cenário medieval, realismo mágico e até histórias de fantasmas.

Ainda que não se encontrem entre as melhores leituras deste ano, gostei do estranhamente irritante All the Windwracked Stars: demasiado lamechas e rodeado por um fatalismo excessivo, por alguma razão estou com vontade de adquirir e ler o próximo volume; adorei Darwinia, um livro enquadrado na história alternativa que, no início do século XIX substitui o continente europeu por uma terra inóspita povoada de monstros estranhos; achei piada a Lathe of Haven, em que um homem muda a realidade consoante os seus sonhos e a A Mecânica do Coração, um romance curto com pitadas de steampunk; diverti-me com o surreal The Wind-up Bird Chronicle, e o absurdo The Stupidest Angel; deliciei-me com Clube de Patifes e o Best of de Michael Moorcock.

Poucos foram os livros que não gostei este ano, quanto muito houve alguns que se ficaram pela nota “normal” – esta é sobretudo uma lista pessoal que revela a minha tendência para ler principalmente em inglês, dentro dos géneros fantástico e SF, sem dispensar algum horror ou romance históricos  e ficcionais.

Caso tenha tempo, pretendo ainda fazer um pequeno post sobre os melhores contos e um pequeno resumo sobre Graphic novels / BD.

Alguns lançamentos internacionais em Portugal – 2009 (Fantasia, Ficção Científica e Horror)

Para além dos poucos lançamentos nacionais de Fantasia, Ficção científica e horror, gostaria de realçar o lançamento de algumas obras traduzidas:

- As Crónicas de Gelo e Fogo (George R. R. Martin) – a série continua a ser publicada pela Saída de Emergência, mantendo o formato adoptado desde o início. Resta aguardar que o autor termine de escrever o próximo volume.

- Darwinia (Robert Charles Wilson) – enquadrado no género da história alternativa, centra-se no desaparecimento do continente Europa no início do século XX, substituindo-o por uma terra inóspita, povoada por monstros desconhecidos. Em Portugal foi publicado pela Saída de Emergência na colecção Bang (post sobre o livro).

- A Estirpe (Guillermo del Toro) – não é um grande livro, mas é um livro divertido que recorda filmes de terror de série B. Lançado pela Objectiva, deu origem a um interessante debate sobre literatura de vampiros, patrocinado pela própria editora (post sobre o livro)

- A Guerra é para Velhos (John Scalzi) – se actualmente para a guerra vão os mais jovens e saudáveis, no futuro descrito por Scalzi, a guerra é um meio dos mais velhos atingirem o descanso da reforma. Em Portugal foi incluído na colecção 1001 livros da Gailivro.

- A Guilda dos Mágicos (Trudi Cannavan) – publicado pela Bertrand, este é o primeiro volume de uma trilogia fantástica direccionada para um público mais juvenil, que se tem tornado cada vez mais popular. Do livro posso apenas dizer que é de fácil e rápida leitura, tendo rapidamente engolido as primeiras 100 páginas, enquanto aguardava num café FNAC.

- O Homem Pintado (Peter V. Brett) – este é o primeiro de uma trilogia, com uma premissa bastante interessante: a sociedade humana, tecnologicamente evoluída, encontra-se reduzida a uma segunda Idade Média, pelos incessantes ataques de demónios com poderes mágicos, que se alimentam de seres humanos. Em Portugal, foi lançado na colecção 1001 Mundos pela Gailivro.

- O Nome do Vento (Patrick Rothfuss) – primeiro volume de uma trilogia, o livro foi publicado em inglês em 2007, após rejeição de várias editoras, tornando-se num best seller bastante premiado. Em Portugal foi lançado na colecção 1001 Mundos pela Gailivro (a capa é que me agrada muito pouco, mas enfim).

- Onde os últimos pássaros cantaram (Kate Wilhelm) – incluído na colecção SF Masterworks da Gollancz e publicado pela Gailivro, retrata o fim da humanidade como a conhecemos, substituindo-a por clones sem identidade individual. Pode ser encontrado na colecção 1001 Mundos da Gailivro (post sobre o livro).

- O Senhor da Guerra dos Céus (Michael Moorcock) – publicado pela Saída de Emergência e inserido na colecção Bang, pode ser enquadrado entre os géneros história alternativa e Steampunk, sendo o primeiro volume de uma trilogia, ainda que autónomo (post sobre o livro)

- O Sindicato dos Polícias Iídiches (Michael Chabon) – publicado pela Oficina do Livro, este é outro livro de história alternativa que se centra na possibilidade de a maioria dos judeus ter escapado ao holocausto, formando uma colónia no Alasca (post sobre o livro).

- Temeraire (Naomi Novik) – a Editorial Presença continua a publicação da Saga Temeraire, um misto entre fantástico e história alternativa, onde podemos encontrar dragões no meio das batalhas napoleónicas.

- O Terror (Arthur Machen) – do mesmo autor de O Grande Deus Pã, reúne três contos e pertence à colecção Bang da Saída de Emergência.

Menos conhecidos, mas também interessantes, são dignos de nota A Mecânica do Coração (post sobre o livro) e Os Jogos da Fome de Suzanne Collins (que não li, mas tem sido alvo de várias críticas positivas).

Esta lista não pretende ter tudo o que foi publicado no género em Portugal durante este ano, apenas aqueles que achei mais interessantes. Destes não tive oportunidade de ler todos, embora alguns tivesse já lido na versão original. Houve ainda alguns que incorporaram a minha lista de futuras compras. Estejam à vontade para discordar, concordar, ou apresentar as vossas escolhas.

Lançamentos portugueses 2009 (Fantasia, Ficção Científica e Horror)

Há-de faltar muita coisa, mas à imagem de um resumo feito para a ficção científica brasileira, pretendo com este post fazer um pequeno resumo do que por cá (Portugal) se publicou durante este ano, em fantasia, ficção científica e horror.

Ainda que a publicação de autores portugueses continue escassa, até fiquei bastante contente com o tamanho da lista:

- Alex 9 - Martin S. Braun – O nome do autor é o pseudónimo de Bruno Martins, e o livro é um dos primeiros volumes da colecção Teen, uma colecção fantástica direccionada para os jovens.

- As atribulações de Jacques Bonhomme - Telmo Marçal (a minha opinião) – livro de contos publicado pela Gailivro na colecção 1001 Mundos, é sem dúvida, um dos melhores lançamentos portugueses deste ano

-  Brinca Comigo – João Barreiros, David Soares, Luís Filipe Silva e João Ventura – pequeno livro que reúne quatro contos de quatro conhecidos autores portugueses. Ler, ainda não li, mas as expectativas são altas.

- Contos de Vampiros – colectânea de contos lançada pela Porto Editora, onde se incluem autores como Agualusa, Miguel Esteves Cardoso, Rui Zink ou Gonçalo M. Tavares.

- O Escolhido – Samuel Pimenta –  publicado pela Planeta, podem ler alguns excertos no blog do autor.

- Espíritos das Luzes - Octávio dos Santos – incluído na colecção 1001 Mundos da Gailivro, encontra-se descrito como o primeiro livro de steampunk português: naves e robots coexistem na Lisboa de Marquês de Pombal.

- O Fado da Sombra – Filipe Faria – sexto volume das Crónicas de Allaryia, pela Editorial Presença.

- Illusya - Bruno Matos – Outros dos primeiros livros da colecção TEEN, transporta-nos para uma realidade paralela

- Imaginarios - colecção de contos fantásticos, ficção científica e terror, pela editora brasileira Draco, para a qual foram já seleccionados alguns autores portugueses (João Barreiros, Jorge Candeias e Luís Filipe Silva).

Memórias de um Vampiro – Rafael Loureiro – livro sobre vampiros, publicado pela presença e extensamente criticado e debatido.

- Mucha – David Soares , Osvaldo Medina e Mário Freitas

- Orbias – As Guerreiras da Deusa – Fábio Ventura – lançado pela Casa das Letras, dirige-se a um público jovem e enquadra-se no género fantástico

- Uma Noite Não são dias – Mário Zambujal – uma história que ocorre num futuro pouco distante, 2044, pretende parodiar as evoluções da sociedade a partir de tendências que podemos já hoje observar (palavras do próprio autor)

- Um Pinguim na Garagem – Luís Caminha (a minha opinião) – um livro em que a premissa da clonagem serve para explorar o relacionamento de um jovem com o pai

- A Sacerdotisa dos Penhascos – Sandra Carvalho – quinto volume d’ A Saga das Pedras Mágicas, publicada pela Editorial Presença

- Vingança do Lobo – Vitor Frazão – O segundo lançamento na colecção Mundo Fantástico, pela Chiado Editora

Alguns dos livros lançados parecem-me bastante fraquinhos e não se incluem na lista de possíveis leituras dos próximos tempos. Realçaria, sem surpresas, o livro do Telmo Marçal (que irá constar na lista de melhores do ano), os livros de contos Imaginarios e Brinca Comigo, assim como Um Pinguim na Garagem e Mucha. Os lançamentos juvenis da colecção Teen também me parecem bastante interessantes, ainda que não pense lê-los.

Quase de certeza que esta lista não se encontra completa, pelo que agradeço quaisquer referências que se encontrem em falta.

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