Últimas aquisições

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Este grupo começa com duas aquisições que há muito se encontravam na minha “lista de desejos”, As histórias de terror do tio Montague e Uma Biblioteca da Literatura Universal de Herman Hesse. O primeiro é um livro juvenil de horror – curiosamente parece que só se publica neste género para jovens:

Edgar não resiste às cativantes histórias de terror que o seu tio Montague lhe conta quando o vai visitar, do outro lado do bosque. Mas qual será a ligação do seu tio a estas histórias sinistras? Prepara-te para morreres de medo quando descobrires que o tio Montague é, afinal, o protagonista da história mais terrífica de todas. Um livro assustador… Terás coragem para o ler?

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The Loney de Andrew Michael Hurley foi inicialmente publicado pela Tartarus Press, numa edição limitada que esgotou em pouco tempo. Como é habitual nas edições da Tartarus, neste momento apenas se encontra disponível pela módica quantia de 600 libras. Bem mais barata foi esta edição, mais recente em capa dura deste livro de terror que foi um dos mais falados de 2015 no género.

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Os Luminares de Eleanor Catton é um daqueles livros que nunca pensei adquirir, mas comecei a lê-lo numa livraria e, não só gostei da escrita, como do mistério e espírito que rodeava as primeiras páginas . Já disse que os sofás nas livrarias são a melhor invenção desde a roda? Estou a exagerar claro, mas dão para pegar em livros curiosos e tirar dúvidas de aquisição. Deixo-vos a sinopse:

Um mistério por resolver no século XIX na cidade de Hokitika, Nova Zelândia, que reagrupa o destino de doze personagens – e inovador pela estrutura reinventada dos romances vitorianos. A corrida ao ouro, o tráfico de ópio, a prostituição e a expiação do passado de cada uma das personagens, além de um grandioso mistério por resolver, relevam a singularidade desta obra: é um thriller e um romance histórico, iluminado por referências astrológicas e chaves simbólicas orientadoras do destino das personagens. Surpreendente e viciante, eis ficção ao mais alto nível literário.

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Depois das habituais aquisições periódicas (da Colecção Marvel da Salvat e dos Heróis DC da Levoir em conjunto com o jornal Público), encontram-se as aquisições de banda desenhada em língua francesa e um volume da Kingpin books. O primeiro, pela sinopse diria que é uma história com uma pitada de FC e de horror, enquanto Meta-baron apresenta um cenário totalmente futurista que me pareceu interessante.

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O melhor do primeiro trimestre de 2016

Estes três primeiros meses foram prolíferos em leituras, com 80 livros lidos, dos quais 38 são banda desenhada em inglês, português e até francês (ver Leituras 2016). Eis um resumo com os favoritos do primeiro trimestre, por ordem de leitura:

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1 – História Universal da Pulhice Humana – Vilhena – publicado pela E-primatur, uma das primeiras leituras do ano revelou-se um conjunto de episódios históricos transformados em alusões cómicas e satíricas à sociedade em geral, e à portuguesa em particular, com desenhos peculiares a acompanhar.

 

cavaleiro sueco

2 – O Cavaleiro Sueco – Leo Perutz – publicado pela Cavalo de ferro, é história fantástica com detalhes que recordam as histórias mais populares envolvendo o diabo, apresenta um dois homens que atravessam as terras geladas em busca de comida e abrigo – um nobre que terá desertado do exército e um pobre ladrão que se revela mais correcto moralmente do que o nobre. Por uma partida, acabam por trocar destinos, mas com as reviravoltas da vida irão endireitar o caminho de ambos.

dois anos

3 – Dois anos, oito meses e vinte oito dias – Salam Rushdie – Não tendo lido nada do autor antes deste livro, surpreendi-me pela premissa fantástica, e pelo seu desenvolvimento. Apesar de deambular em excesso nalguns episódios, está carregado de reminiscências de histórias conhecidas, com ecos de contos, lendas e histórias fantásticas, apresentando várias histórias cujo destino se cruza. Em  Portugal foi publicado pela Dom Quixote.

low

4 – Low – Vol.1 – Remender, Tochini – Banda desenhada de ficção científica que nos apresenta um futuro distante em que a humanidade foi obrigada a abrigar-se em cidades no fundo dos oceanos. Após várias gerações o ar não aguenta novas renovações, e as sondas enviadas à procura de planetas habitáveis não retornam. Ainda assim, neste mar de pessimismo deprimente , a personagem principal é a eterna optimista, a força que faz andar a história.

contos maravilhoso

5 – Contos Maravilhosos – Herman Hesse – Com estrutura base semelhante a contos populares, de figuras caracterizadas e de moral, estes contos elegantes e coesos possuem um objectivo claro – mas nem por isso o autor descura a criação de ambiente, envolvendo o leitor em cada história. Em Portugal este livro foi publicado pela Dom Quixote.

emphyrio

6 – Emphyrio Jack Vance – Clássico de ficção científica, apresenta uma sociedade distópica num cenário quase medieval ainda que tecnologicamente a humanidade seja capaz de viagens intergalácticas e domine as técnicas da biologia molecular. Mas neste planeta os comuns são mantidos sob uma economia rigidamente controlada, uma forma de manter a sociedade estagnada e dócil.

saga gosta

7 – A Saga de Gosta Berling – Selma Lagerlof – Aqui está, uma leitura mirabolante, carregada de reviravoltas dementes, de personagens irresponsáveis, sonhadoras e inconstantes – tudo envolto por elementos surreais. Pactos com o diabo sorrateiro, donzelas inocentes (ou nem tanto) que se deixam tentar, mulheres poderosas caídas em desgraça por se afirmar a verdade que já todos sabem, castigos com impacto prolongado – ao longo de quase 400 páginas vamos conhecendo a forma como se interligam os destinos destas pessoas numa sucessão de desgraças e poucas alegrias. Em Portugal foi publicado pela Cavalo de Ferro.

descender

8 – Descender – Vol.1 – Jeff Lemire – Banda desenhada de ficção científica que recorda Battlestar Galactica ou A.I. , apresentando um futuro onde algumas máquinas se assemelham a humanos e se revoltaram. A acção é centrada num pequeno robot que tem o aspecto de um rapaz, que estava adormecido na altura da revolta. Anos depois, acorda e tem como único objectivo encontrar a sua família. Infelizmente é uma peça importante no entendimento da revolta.

wytches

9 – Wytches – Vol.1 – Scott Snyder – banda desenhada de horror, pega em terrores antigos e profundos, retomando como cenário uma floresta deserta onde seres sobrenaturais, as bruxas se escondem. Estas bruxas concedem desejos a troco de vidas em cenários negros, misteriosos e sangrentos.

contrato com deus

10 – Um contrato com Deus – Will Eisner – Dizem-me que os livros de Will Eisner são todos semelhantes e que as histórias se repetem em tom e estilo. Bem, a vantagem é que li muito pouco de Will Eisner. O que destaca este volume é trazer-nos o ambiente da América de há algumas décadas, em histórias que retratam os factos daquela vida e daquele quotidiano, centrando-se sobretudo em personagens pobres ou remediadas que vivem na esperança de conseguirem algo melhor. Em Portugal este volume foi lançado pela Levoir em parceria com o jornal Público, na colecção de Novelas Gráficas.

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11 – O Comboio dos órfãos – Jim e Harvey – Philippe Charlot e Xavier Fourquemin – Era para ficar pelas tradicionais 10 referências, mas tinha de citar este livro. Tomando inspiração nos anos 20 da América, acompanha os órfãos (ou crianças abandonadas) que eram recolocadas no interior do país para terem novas famílias e se afastarem de uma vida de vícios. De boas intenções está o inferno cheio – as crianças nem sempre são aceites com boas intenções, e os supostos benfeitores que patrocinam a distribuição das crianças deixam-se levar pela superioridade moral em que se envolvem. Em Portugal este volume foi publicado pela Arcádia.

Últimas aquisições

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No topo encontra-se um volume curioso de um estudioso brasileiro publicado pela Letra Livre (e que encontre na Almedina, conjuntamente com outros livros da mesma colecção) – O Bibliófilo Aprendiz.  Neste livro, um verdadeiro bibliófilo fala sobre a forma como se deve construir uma verdadeira colecção de edições antigas de livros raros, falando, não só do processo de aquisição, como se conservação, não faltando, claro, os episódios quase cómicos como algumas edições se perderam, ou particularidades profissionais do processo de edição que permitem distinguir, várias décadas depois, as diferentes edições.

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Segue-se Os Marcianos somos nós de Nuno Galopim, um livro comentado de forma bastante positiva por Artur Coelho e que me convenceu a dar uma oportunidade assim que tivesse oportunidade (ou promoção). Deixo-vos a sinopse:

Marte desperta a curiosidade desde há séculos. As descobertas científicas que se têm vindo a fazer em muito contribuem para manter aceso o interesse sobre o planeta vermelho. Dos tempos em que era apenas um ponto avermelhado nos céus ao momento em que uma sonda descobriu água no solo deste astro, a história da nossa relação com Marte somou séculos de fantasias e descobertas. Ao que se conhece do passado, associa-se o que se espera do futuro, onde parece abrir-se um mundo de possibilidades. É a oportunidade de viajar até lá, no momento presente, através de páginas cheias de referências, exemplos e histórias, que este livro oferece.

As visões dos invasores de H. G. Wells ou dos seres imaginados por Edgar Rice Burroughs cativaram muitos jovens para a ciência. Mas se Marte continua a despertar a ficção, capta igualmente o interesse de cientistas, cujas observações têm permitido acumular conhecimento sobre o planeta.

Carl Sagan defendeu que para contar a história de Marte é preciso juntar a ciência e a imaginação. Este livro faz essa reunião de modo convincente. O olhar do autor cruza as sondas Viking ou Mariner com as Crónicas Marcianas de Ray Bradbury, as canções de David Bowie com o hilariante Marte Ataca!, de Tim Burton. E fornece bons motivos para manter o leitor atento às páginas, incluindo pequenos marcianos que chegam à Terra maldispostos e colónias humanas que encontram em Marte uma nova casa.

O Cavaleiro Sueco de Leo Perutz foi um dos mais recentes lançamentos da Cavalo de Ferro que tive oportunidade de ler e de apreciar. Em O Cavaleiro Sueco encontramos algumas das características dos contos e lendas tradicionais num modo mais literário de escrita que resulta numa história de aventura curiosa.

E se a palavra curiosa diz pouco como caracterização, na verdade o que queria dizer era única e peculiar – a personagem principal não é  um herói imaculado, mas um homem que, seguindo uma moral própria e algo distorcida, tenta escapar ao destino. E como ao destino não se pode escapar, o que ele acaba por fazer é adiar um caminho sabendo agora tudo o que perde da vida.

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Mas o livro que aqui vos mostro não é O Cavaleiro Sueco. Esse já li e gostei tanto que aproveitei rapidamente outra promoção para arranjar outro livro do mesmo autor, O Judas de Leonardo.

Lendas, mitos, contos populares – desde sempre que este é um tema que me entusiasma, e o fascínio, que estava dormente, foi reactivado pelo livro Sobre o conto de fadas de Italo Calvino. E como um livro puxa outro, foi nessa sequência que me aconselharam os livros de Francisco Vaz da Silva, tendo escolhido este entre os vários que já publicou.

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Estar à espera de amigos, tendo uma hora para gastar, e estar perto de uma livraria – eis uma combinação perigosa. Neste caso saí de lá com dois livros de banda desenhada, o primeiro volume de Serenity (que está na minha lista de aquisições há alguns anos) e um livro da Panini Brasil. Serenity – those left behind apresenta aventuras que decorrem entre a série Firefly e a série Serenity. Apesar de cumprir o seu papel em termos de nos apresentar acontecimentos entre os dois segmentos, não consegue captar o espírito peculiar das personagens que era uma grande mais valia. No final, deixa a saudade e a vontade de rever a série (para comentário mais detalhado, vejam o tópico).

Matiné é um livro de banda desenhada que ando há muito para comprar. Não me parece ser exactamente o meu tipo de leitura, mas nada como sair, de vez em quando, da nossa zona de conforto:

AS TRÊS HISTÓRIAS QUE COMPÕEM ESTE MATINÉ têm por inspiração o velho e bom cinema de acção e aventura e são temperadas com cirúrgicas pitadas de sangue e humor. Mas isto não é pura e simples pancadaria, com alta dose de adrenalina à mistura. Os enquadramentos escolhidos ajudam a ambientar a acção, os ângulos, a movimentação e a velocidade das cenas transformam estas páginas em algo parecido com os filmes de Quentin Tarantino. Não sabendo o que se passa antes, ficamos no entanto a saber que acaba por estar tudo de alguma forma interligado. Atenção, pois, ao final. Matíné funciona como cartão de visita dos gémeos Magno e Marcelo Costa e seus convidados: Marcio Moreno, Magenta King e Dalts. Tudo boa gente da nova geração de autores de banda desenhada brasileira.

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Não sei se perceberam, mas estou lentamente a adquirir as coisas de André Oliveira. Sem achar que estejam perfeitas (das que li, faltavam alguns detalhes para garantir a total coesão da história, e uma melhor caracterização de personagens) são normalmente livros com uma história definida, onde se percebe a existência de um fio condutor. E, normalmente, a história combina bem com os diferentes estilos de desenho que o acompanham.

Classificado com o melhor desenho de álbum português de 2015, Erzsébet é a mítica condessa húngara que se banharia no sangue de jovens:

Erzsébet Bathory, a infame condessa húngara contemporânea de Shakespeare, ao contrário deste, incarnou como poucos o lado negro e animalesco do ser humano. São-lhe atribuídos centenas de crimes inomináveis que lhe grangearam alcunhas como “Tigreza de Csejthe” ou “Condessa sanguinária” e que a colocam no mesmo lendário patamar de bestas humanas como Gilles De Rais ou Vlad, o Impalador. Por detrás do seu rosto pálido, de olhar impassível e melancólico ocultava-se o próprio demónio, Ördög.

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Mais interessante pelo aspecto gráfico do que propriamente pela história, Ruins consegue, mesmo assim surpreender. Com duas, quase três histórias paralelas, acompanha sobretudo um casal americano que se mudou para o México e uma borboleta que circula pelo mundo. Simultaneamente, encontramos algumas páginas do livro que a jovem americana estaria a escrever. A metáfora é óbvia, trata-se de uma viagem de transformação, tanto para o casal como para a borboleta, uma viagem que os levará a perceber o que querem da vida. Ainda assim consegue apresentar algumas características menos turísticas do México, num conjunto engraçado (para comentário mais detalhado sobre o livro, com imagens, vejam o seguinte tópico).

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Últimas aquisições

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Os dois volumes mais claros, um de capa mole, e outro de capa cozida, correspondem às mais recentes aquisições da Tartarus Press, uma editora conhecida pelos seus exemplares de pequena edição que rapidamente se tornam numa raridade.

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No campo da banda desenhada portuguesa adquiri duas pequenas bandas desenhadas. A da esquerda é da autoria de José Carlos Fernandes e é um pequeno conjunto de demências, algumas socialmente reconhecíveis, estereotipos comuns. Outras são exageros ao género da caricatura que se tornam interessantes e engraçados.

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Agentes do C.A.O.S é um lançamento da Kingpin Books de anos anteriores, que já me tinha despertado interesse e que, no seguimento de uma promoção aproveitei. Deixo-vos a sinopse:

O maior atentado de sempre em território português. Um julgamento mediático em tempo recorde. Um veterano polícia amargo e semi-aposentado empurrado para uma última missão. Um plano urdido ao pormenor que poderá fazer desmoronar os frágeis alicerces do sistema instalado. Esta é a historia de Agentes do CAOS: Nova ORDEM; mas, no fundo, é sobre muito mais do que apenas isso. É sobre velhos terroristas com velhos sonhos e novos terroristas com métodos actuais. É sobre velhos polícias com velhos hábitos e jovens polícias com outros hábitos. É sobre velhos hábitos que não mudam e novos hábitos que teimam em ficar na mesma. No fundo, é sobre o velho fado português e canções intemporais que permanecem actuais; e sobre autores actuais que se reinventam e que se recusam a estagnar.

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Para além do habitual volume da colecção de Super-heróis DC, as minhas aquisições de banda desenhada não se ficaram por aqui. À esquerda encontram o terceiro volume de The Looking Glass Wars, histórias onde o Universo do País das Maravilhas se cruza com o nosso, e onde assassinos a soldo e agente secretos são enviados para o nosso mundo com estranhas e hediondas missões, em que a Alice tem um papel central. Os volumes anteriores já os tinha comentado há alguns anos (Volume 1 | Volume 2).

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Estas são as duas últimas aquisições de banda desenhada desta fornada, Ardalén de Miguelanxo Prado e o segundo volume de A Pior Banda do Mundo de José Carlos Fernandes.

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O resultado de andar entre estantes mais escondidas das livrarias é encontrar coisas publicadas há muito que despertam peculiar interesse. Foi o caso de A viagem dos sete demónios de Manuel Mujica Lainez que tem uma premissa no mínimo curiosa:

O Diabo está furioso com os setes demónios que tutelam os setes pecados capitais por levarem no Interno uma vida ociosak, mais não fazendo do que discutir “como se fossem teólogos”. E porque o Inferno é “um instituto penal que deve assentar em bases sérias”, os demónios são enviados à terra para cumprirem a sua missão: infernizar os que cá andam. Lúcifer, negro e despido como a noite, é a Soberba; Satanás, imenso crustáceo vermelho com asas de abutre é a Ira; Mamon, andrajoso e esquelético, a Avareza; Asmodeo, fauno de focinho de porco, a Luxúria; Belzebu, devorador insaciável, a Gula; Leviatã, grande almirante e chefe supremo das heresias, a Inveja; e Belfregor, fêmea roliça sustida por quatro animais alados, é a Preguiça. Esta missão não será, no entanto, tarefa fácil, já que a cada um corresponde um assunto que não cabe na sua especialidade. Sobre todos eles gravita um corrosivo Mujica Lainez que compõe com esta parábola uma autêntica aguarela dos vícios e das paixões humanas.

À direita encontram Mausuléu, um livro de contos enviado pelo autor, Duda Falcão, no seguimento do comentário ao seu conto decorrido no Museu do Terror, Universo sobre o qual pretendia ler mais alguma coisa.

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A Saga de Gosta Berling tornou-se um dos livros favoritos dos últimos tempos. Foi em resultado desta leitura que me convenci a adquirir a mais recente edição de O Livro das Lendas, apesar de não gostar do aspecto renovado da colecção (também não era grande apreciadora da anterior, mas se na foto as duas cores parecem conviver pacificamente, ao vivo, os meus olhos não têm a mesma reacção).

As mais belas fábulas africanas é um livro que vem responder à minha paixão por contos, mitos e histórias tradicionais das mais diversas, tendo expectativa de ler histórias que reflictam as diferenças da vivência africana.

The Water Knife – Paolo Bacigalupi

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Paolo Bacigalupi é, com toda a certeza, um dos meus autores de ficção científica preferidos. Mesmo depois de ter lido este livro. Não é por acaso que, há muitos anos, quando li Pump Six, a história me ficou facilmente na cabeça – um cenário apocalíptico em que a água vai ficando contaminada e a humanidade cai na imbecilidade. Para mostrar este caminho sem volta o autor cria vários episódios que são comicamente idiotas, mas desesperados e deprimentes em tom, auspiciando o declínio inevitável das civilizações.

Bem, dizem que quando existe necessidade de falar de outros livros é porque o livro em questão não é bom. Talvez porque já li quase tudo do autor, achei que falharam os pontos fortes da sua escrita neste livro, ficando a descoberto as manias constantes que vemos em quase todos os livros. Não posso deixar de comparar com o The Windup Girl, um livro que nos apresenta também um cenário apocalíptico mas onde se cria uma realidade tão carregada de detalhes que se torna fascinante – a subida das águas leva à extinção da maioria das espécies vegetais e animais, deixando os seres humanos na penúria calórica. Para compensar, os humanos dedicam-se à extensa engenharia genética.

Em qualquer das histórias, The Windup Girl ou The Water Knife destaca-se a culpa dos seres humanos na situação, e o desespero das populações que leva a actos horrendos, numa espécie de declínio moral da espécie. O que difere são os detalhes. The Windup Girl centra-se em várias personagens e consegue, em pequenos episódios contar os diferentes percursos apresentando diferentes visões de uma mesma realidade. Neste, o esforço para mover os acontecimentos e forçar a reunião das personagens é tal, que se perde a visão independente de cada uma e não se exploram os detalhes desta realidade – as personagens tornam-se peões, secundárias aos acontecimentos.

Aliás, dá-se tanto espaço à acção que os actos de pancadaria, tortura e frieza deixam de ter grande significado – ao contrário de The Windup Girl onde se impunha a empatia pela personagem antes de a estilhaçar. A acção é tanta que, por momentos, parecia que tinha um livro de Richard Morgan nas mãos. E esta acção intensa não deixa espaço para muito mais.

Não se entenda que a história é má – simplesmente para quem já leu quase tudo do autor, pareceu insuficiente. A lógica da história é simples e, como não podia deixar de ser, apresenta-nos um apocalipse ecológico. Num período de seca mundial as cidades americanas lutam entre si pelos direitos à água mas são as grandes empresas que controlam esses direitos, recorrendo a toda a espécie de artimanhas – como agentes secretos que não olham a meios para concluir as suas missões.

Sem os detalhes que enriquecem outros mundos, e sem a criação do mesmo nível de empatia, evidenciam-se alguns vícios de escrita do autor, mais especificamente na caracterização. É comum apresentar uma personagem que se achava na crista da onda da crise apenas para ser esmagado pela força da ondulação e agora recorda os áureos tempos. Mas existirá alguém, mais espero e mais adaptado, implacável, que agora conseguirá manter-se à toa. Até quando?

Little Queen, i was rich. I pulled mid-six figures, easy. I was doing good. I had houses building. I had a plan (…).

Maria sat with that, considering its implications. Toomie had fooled himself the way the father had. Somehow they hadn’t been able to see something that was plain as day, coming straight at them.

O mundo de The Water Knife é sangrento, desesperado, corrupto e degradante. A economia basea-se no controlo da água, e são as companhias que a gerem, em guerras de alta escala onde tudo vale. As populações são empurradas e encurraladas, impossibilitadas de se deslocar livremente e acabam em campos de refugiados. A palavra de ordem é o desespero.

A premissa é simples e directa, sem grandes detalhes tecnológicos, seja de teor genético ou mecânico. As personagens acabam por ser secundárias aos acontecimentos e, apesar de se investir nalguns episódios de elevada interacção, não se cria uma grande empatia. De acção carregada, é uma leitura rápida ainda que extensa, que tem pontos interessantes mas não me conseguiu cativar como outras obras do autor.

Fevereiro de 2016

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Lançamentos nacionais relevantes

Para além das colecções de banda desenhada em curso (da Marvel pela Salvat, e dos Heróis DC pela Levoir em parceria com o jornal Público) eis os lançamentos nacionais que mais me interessaram:

Por sorte o leite – Neil Gaiman – Editorial Presença;

Extinção – Kazuaki Takano – Casa das Letras;

– O livro da selva – Rudyard Kipling – Bertrand Editora;

O barão trepador – Italo Calvino – Dom Quixote;

Filho Dourado – Pierce Brown – Editorial Presença;

O herói das eras – Brandon Sanderson – Saída de Emergência;

O trono dos crânios – Peter V. Brett – Edições Asa;

Críticas interessantes

Se no mês passado constatei que o número de blogues com excelentes críticas de FC era cada vez menor (citando alguns de exemplo que não dão sinal de vida há largos meses), este mês outros houve que anunciaram fecho. Mais palavras para quê? Aqui fica o apanhado das críticas que achei mais interessantes ao longo de Fevereiro.

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Ficção científica

Analog Science Fiction and Fact – Setembro 2014 – Intergalacticrobot – A revista é uma das mais conhecidas no meio, e uma das melhores formas de se descobrir ficção em formato mais curto;

The young world – Chris Weitz – As leituras do corvo – um clássico cenário pós-apocalíptico, com todos os inevitáveis dilemas da vida adolescente;

Confessions d’un automate mangeur d’opium – Fabrice Colin & Mathieu Gaborit – Intergalacticrobot – quando a ficção steampunk tem preocupações mais estéticas do que narrativas;

12.22.63 – Stephen King – D’Magia – história de viagem no tempo com ritmo imparável apoiada numa pesquisa exaustiva sobre 22 de Novembro de 1963;

Rendez-vous com Rama – Arthur C. Clarke – Ler y Criticar – clássicao do género centra-se no primeiro contacto com vida extraterrestre;

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Fantasia

A porta no muro – H. G. Wells – A Lâmpada Mágica – Um dos livros da colecção dirigida por Jorge Luís Borges apresenta uma faceta mais fantástica do autor de A Guerra dos Mundos;

O Vento nos Salgueiros – Kenneth Grahame – Deus me Livro – um clássido da literatura juvenil, “história de amizade e mudança, de lendas e mitos”;

Monsters of Men – Patrick Ness – Floresta de Livros – último volume da trilogia com “personagens intensas, sem momentos mortos e com uma escrita veloz”;

A rainha vermelha – Victoria Aveyard – Letras sem fundo – jovens saídas da puberdade, capacidades mágicas e triângulos amorosos num esquema narrativo distópico;

The sleeper and the spindle – Neil Gaiman – Leitora de fim-de-semana – a união de dois contos, A Bela Adormecida e Branca de Neve, resulta numa história bem diferente;

A guardiã da espada – Alex 9 – Bruno Martins Soares – A Lâmpada Mágica – Romance demasiado ambicioso de frenética sucessão de cenas, com várias descrições de combates e batalhas;

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Banda desenhada

A louca do Sacré-Coeur – Moebius & Jodorowsky – A Lãmpada Mágica – gozo ao intelectualismo oco, às crises masculinas de meia-idade e ao misticismo new age;

Tony Chu: Enfarda-Brutos – Layman & Guillory – As leituras do Pedro – “original e “nojentamente divertido””

A agência de viagens Lemming – José Carlos Fernandes – aCalopsia | As leituras do Pedro;

Cruelle – Florence Dupré La Tour – As leituras do Pedro;

– Foi assim a guerra das trincheiras – Tardi – A Lâmpada Mágica – retrato revoltante e comovente da guerra, com exposição das grandezas e misérias da espécie humana;

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Outros

Connections – James Burke – Intergalacticrobot – livro não ficcional de divulgação científica, que possuirá uma abordagem pouco usual para explicar a evolução tecnológica;

O poço e o pêndulo – Edgar Allan Poe – Nuno Ferreira – conto de horror de escrita envolvente onde se destaca a capacidade de subtilmente transmitir sensações;

As horas invisíveis – David Mitchell – Ler y Criticar – o último livro do autor publicado em Portugal tem um ritmo lento, mas é original e ambicioso;

Oriente, Ocidente – Salman Rushdie – Pedro Cipriano – depois de ter lido um livro do autor, fiquei curiosa com este, um livro de contos;

Frankenstein – Mary Shelley – Virtual Illusion – “um rasgo de pura criatividade que se veio a tornar num ícone dos mundos de ficção”;

Outros artigos

Literatura de ficção

– O umbigo do Mundo de Umberto Eco era em Portugal – Observador;

– Franz Kafka: A obra em chamas – Deus me Livro;

– As fantasias irrealistas de David Mitchell – Observador;

– Umberto Eco: A insuportabilidade do silêncio – aCalopsia;

– Eternamente Tom Sawyer – Revista Estante;

– O bibliotecário e o nome da rosa – Observador;

– O homem que inventou Dan Brown – Observador – apesar do título (infeliz, a meu ver, que quase dá maior importância a Brown) tem alguns parágrafos interessantes;

Banda desenhada

– Os heróis também usam BI – Mafalda – Deus me Livro;

– Hermann: Um grande clássico – aCalopsia;

– Príncipe Valiente: 1957 – 1960 – As leituras do Pedro;

– Artigos sobre BD, Os meus – cuto “O Mosquito” – Divulgando Banda Desenhada;

– Crítica e divulgação de BD: Antes e depois da Internet – aCalopsia;

– 2016: Arranque em grande para os autores portugueses no estrangeiro – As leituras do Pedro;

– Super-heróis à francesa II: O Universo fantástico da Lug – Leituras de BD;

– A mansão assombrada da Disney por Joshua Williamson e Jorge Coelho – aCalopsia;

Eventos

– Correntes d’Escritas – Deus me Livro (23, 24, 25, 26, 27);

Sustos às sextas;

– Reportagem – 380º encontro da Tertúlia BD de Lisboa – Kuentro 2;

Recordar os Esquecidos;

– Exposição comemorativa do 80º Aniversário d’O Mosquito – Kuentro 2;

A vida contada de A. J. Fikry – Gabrielle Zevin

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Um viúvo recente e relativamente jovem tenta sobreviver à ausência da esposa, mantendo o negócio que fundaramem conjunto. Para além de beber demasiado quase todas as noites, a perda recente fá-lo ser mal humorado para clientes e fornecedores. Esta não é, de todo, a descrição de um livro que me costume captar o interesse – mas, este caso é especial! Envolve livros e livrarias!

É que o viúvo vive na mesma casa onde tem o negócio que é um livraria – o que é quase o mesmo que viver numa biblioteca. Na livraria apenas vende o que gosta e é um crítico implacável, que dispensa clichés e dá grande valor à narrativa:

Ele é um leitor e aquilo em que acredita é na construção. Se aparecer uma arma no primeiro ato, é melhor que essa arma dispare até ao ato três. Ou seja, aquilo em que A. J. acredita é na narrativa.

O livro abre com uma pequena referência crítica ao célebre conto de Roald Dahl, Cordeiro à matança. A partir daí vamos conhecendo os acontecimentos que mudam radicalmente a vida de A. J. , intercaladas com outras pequenas críticas. O seu estilo de vida decadente muda radicalmente quando lhe roubam um livro raro de Poe. E é este roubo que vai levar, indirectamente, a que lhe deixem uma bebé na livraria – porque não existirá melhorar lugar para educar alguém do que numa livraria.

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O livreiro mal humorado, até mal educado, que conhecemos nas primeiras páginas vai-se acalmando, criando na sua livraria grupos de leitura e arranjando livros para os diversos clientes – mas sempre com forte posição em relação aos livros que vende.

Apesar dos acontecimentos trágicos que vão rodeando a vida do livreiro, o humor irónico e as constantes referências aos livros vão aliviando o ambiente, tornando-se numa história engraçada de pequenas reviravoltas onde a leitura tem um papel bastante importante.

Resumo de Leituras – Fevereiro de 2016 (2)

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21 – Wolverine: Logan – Vaughan, Risso – Volume essencial na história de Wolverine que relata a transformação da personagem no Japão, durante a Segunda Guerra Mundial. Graficamente com bons momentos (não consigo gostar da capa, que é, a meu ver, a mais fraca imagem do volume), contem uma pequena história com alguma linearidade;

22 – Dois anos, oito meses e vinte e oito noites – Salman Rushdie – Uma leitura divertida com fortes elementos fantásticos, partindo de uma génio que se cruza com Averróis gerando uma descendência sem fim que, passados alguns séculos se encontra dispersa pelo planeta. Para além de não possuírem lóbulos das orelhas, têm poderes mágicos adormecidos, que começam a surgir quando os caminhos entre os dois mundos voltam a aparecer. Complexo, com várias personagens mas divertido e com múltiplas referências a outros livros;

23 – Número zero – Umberto Eco – Com menos páginas do que os volumes anteriores, apresenta uma história no mesmo estilo de outras obras do autor, com teorias de conspiração, informações cruzadas e pequenos episódios mirabolantes que dão um aspecto cómico a puxar para o nonsense;

24 – Low Vol.1 – Remender, Tocchini – Apesar do traço rabiscado possui excepcionais imagens. Apesar da premissa algo inverosímil, apresenta um futuro onde a espécie humana está perto do fim. Obrigada a fundar cidades no fundo dos oceanos por não se ter descoberto outro planeta habitável, a humanidade está decadente e deprimida. Contrabalançando este sentimento, encontramos uma personagem com um optimismo que não chega a tornar-se irritante. Com tudo isto (e apesar de tudo isto) achei excelente.

Golems – Alain Delbe

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A figura do Golem é das mais antigas no fantástico, associando-se comummente aos judeus. Apesar da palavra surgir no Talmude em associação com Adão (descrevendo-o como um boneco animado de barro), as histórias em torno desta figura terão ganho especial destaque na época Medieval, sendo várias as histórias de rabinos com golems como servos, indicador de prestígio e sabedoria. O ritual difere entre histórias mas em quase todas a escrita da palavra “verdade” na testa é essencial para que a forma humana ganhe vida. Apagar a primeira letra da palavra transforma-a na palavra “morte” e o golem inactiva-se.

Descrito por vezes como figura estúpida, de compreensão limitada e cumprindo as ordens à letra, noutras, como uma figura calada mas com algumas capacidades cognitivas, tem especial destaque na obra de Gustav Meyrink, Der Golem, que descreve o episódio em que o rabino Bezalel se terá esquecido de desactivar o seu golem e este terá provocado desacatos na cidade de Praga.

É esta obra de Gustav Meyrink que tem especial destaque em Golems de Alain Delbe. A acção passa-se em vários tempos e com várias personagens – se por um lado temos um rapaz que recebeu um livro ilustrado sobre o holocausto que lhe provoca pesadelos, por outro vamos conhecendo a forma como o destino de três jovens se entrelaça na cidade de Praga: um jovem judeu que se encontra na cidade para estudar, uma jovem francesa a fazer tese com os escritores Kafka e Gustav Meyrink e um alemão, espião, que se faz passar por estudioso de religiões.

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O jovem judeu é dono de uma memória prodigiosa mas não é rico, pelo que facilmente acede a um pedido do alemão para lhe ensinar algumas coisas sobre a sua religião. Na mesma pensão, vive a jovem francesa que acabará por ser o grande amor do estudante judeu. Nesta época a ameaça nazi é ainda uma realidade distante, um eco que se propaga pela Europa sem que seja devidamente tomado a sério. Não é pois de estranhar que o judeu acabe por revelar mais do que devia, principalmente à namorada, mostrando-lhe o grande segredo que terá ocupado a sua grande memória: o ritual para animar um Golem.

A história vai ganhando forma através da correspondência da jovem francesa com o tutor, do espião alemão com a base, intercalada com os sonhos do rapaz que pegou no livro ilustrado, e o acompanhar do estudante judeu. As linhas narrativas são demasiadas e em demasiados formatos, quebrando a regra do “show, don’t tell”, sem que acrescentem grande coisa à história. A história prosseguiria sem alterações desconhecendo-se a correspondência do alemão, por exemplo.

A história tem um bom ritmo, introduzindo constantemente novas ideias que lhe vão dando fulgor para virar rapidamente novas páginas. É uma história de leitura acelerada que não nos deixa respirar – e não poderia ser de outra forma. Os episódios encaixam-se sem deixar lugar à imaginação, e as reviravoltas e coincidências são demasiadas, não deixando espaço para mais nada.

Não que seja uma má leitura. A tese da jovem francesa é sobre Kafka e Meyrink, expressando interessantes ideias sobre as obras destes autores, e existe alguma exploração rocambolesca de teorias nazistas. As personagens não nos captam especialmente, mas o ritmo é acelerado, constituindo uma boa leitura para descontrair.

Por Universos Nunca Dantes Navegados – Vários autores

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Há pouco mais de 10 anos surgia um projecto com intenção de publicar antologias em português, do qual resultou este Por Universos Nunca Dantes Navegados. Lançado em 2007 durante o Fórum Fantástico, o livro reúne contos de autores brasileiros e portugueses de ficção científica e de fantasia. Sendo o meio dos escritores de ficção científica reduzido, não é de estranhar que encontremos nomes conhecidos como Telmo Marçal, João Ventura, Octávio Aragão ou Carlos Orsi. Ao todo, são 14 contos de temática diversa em que irei realçar apenas os que mais gostei.

A antologia abre precisamente com um conto de João Ventura, Resíduos Sólidos Urbanos, uma distopia onde os seres humanos podem aparecer como lixo para triagem, sendo submetidos a análises de funcionalidade para decidirem que rumo lhe dar – desmontagem para utilização das partes, ou reintegração. Neste caso, o resíduo é um velhote que lentamente perdeu o lugar no lar, substituído por um modelo robótico, mas que mantém algumas capacidades activas. Uma história irónica e bem construída que tem o enquadramento q.b. para brincar com as prioridades da sociedade.

Esta não é a única presença de João Ventura, com outro conto, a meio do conjunto, Assassinos de Sobreiros.Se noutras antologias as histórias do autor nem sempre me tinham captado, neste caso, adorei ambas – para quando uma antologia? Neste caso, apresenta-se-nos um ecossistema florestal onde cada elemento é muito mais do que poderia parecer à primeira vista, agindo conjuntamente para se defenderem eficazmente da ameaça humana de uma forma rápida, limpa e eficaz.

Para tudo se acabar na Quarta-feira de Octavio Aragão, é um conto movimentado onde não faltam os episódios de intensa acção com direito a murros e tiros. Com viagens no tempo e inúmeras realidades, utiliza-se o propício ambiente criminoso para fazer crescer e testar potenciais líderes.

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Em Littleton de Jorge Candeias a premissa é engraçada – um homem no que parece ser um futuro distante e vivendo noutro planeta, resolve tirar umas férias incorporando um bandido numa experiência completa do faroeste. Imaginativo e movimentado, gostava que tivesse tido um final mais decisivo.

O Nevoeiro que desvendou realidades de Sofia Vilarigues é um conto de fantasia que explora o impacto do mundo rural e inacessível que mantém alguma magia natural com o mundo citadino, barulhento e movimentado – o preço do progresso. Simpático e até carinhoso, recorre a algumas técnicas subtis dos contos para depositar a sua mensagem.

O conto de Maria Helena Bandeira, Ponte Frágil sobre o nada, vale pela premissa, apresentando-nos um mundo onde os seres humanos deixando de comunicar pela voz. Os poucos que o têm de fazer são considerados deficientes. É neste mundo que uma mulher tenta criar o filho, um dos que usa a voz para comunicar. A perspectiva é interessante, o mundo que criou também, não gostei da saída que encontrou.

(o conto de Telmo Marçal é um bom conto, com a frieza e violência que lhe é característica, mas já o tinha lido noutro livro).

Esta antologia organizada por Luís Filipe Silva e Jorge Candeias peca em termos visuais pelo tamanho da letra – não tão pequeno que não se consiga ler, mas o suficiente para se tornar incómoda. Mas é de perceber, sendo este um factor determinante no número de páginas e provavelmente no preço.

Omiti vários contos, mas não por os ter achado maus. Aliás, não encontrei nenhum conto que achasse mau, mas sim alguns com premissas já conhecidas ou que não me envolveram. É pena perceber que este projecto não tenha tido forças para lançar mais antologias, como tantos outros que apareceram e rapidamente desapareceram. Fica-nos esta antologia com vários contos interessantes e de boa qualidade.

À espera de… (lançamentos internacionais)

Ano novo, novos lançamentos pelos quais aguardar impacientemente.

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Apesar de ter publicado recentemente um romance, The Grace of Kings (que estou a ler lentamente há alguns meses), Ken Liu é mais conhecido por ser tradutor de várias obras chinesas, e ainda mais pelas suas histórias curtas, tendo ganho Nebulas e Hugos (entre muitos outros).  Em Portugal foi publicado recentemente, o conto Vidas de Papel, na Bang! #19.

Do pouco que conheço, gostei. The Bookmaking habits of select species é um conto em forma de enciclopédia, compilando como várias espécies alienígenas produzem os seus peculiares livros. No final, queria mais. In the loop é um excelente conto bélico de ficção científica que se centra sobretudo nas consequências emocionais e psicológicas da guerra, mesmo que à distância. Por sua vez, The Ussuri Bear consegue cruzar com sucesso ficção científica com alguma fantasia, numa história cativante e surpreendente. Estas são apenas algumas das histórias de que me recordo, razões pela qual assim que vi este lançamento, fiquei ansiosa pelo lançamento. Para os interessados, eis uma lista de conteúdo.

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Para quem gosta de ficção científica e fantasia, o site io9 é de passagem obrigatória. Mas o que tem isto a ver com o livro? É que Charlie Jane Anders é a principal editora do site. O livro em questão terá temática apocalíptica e é um dos mais aguardados lançamentos do ano:

Childhood friends Patricia Delfine and Laurence Armstead didn’t expect to see each other again, after parting ways under mysterious circumstances during middle school. After all, the development of magical powers and the invention of a two-second time machine could hardly fail to alarm one’s peers and families.

But now they’re both adults, living in the hipster mecca San Francisco, and the planet is falling apart around them. Laurence is an engineering genius who’s working with a group that aims to avert catastrophic breakdown through technological intervention. Patricia is a graduate of Eltisley Maze, the hidden academy for the world’s magically gifted, and works with a small band of other magicians to secretly repair the world’s every-growing ailments. Little do they realize that something bigger than either of them, something begun years ago in their youth, is determined to bring them together–to either save the world, or plunge it into a new dark ages.

Resumo de Leituras – Dezembro de 2015 (2)

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145 – A Chinela Turca – Machado de Assis – Este pequeno livrinho reúne três bons contos. O primeiro é um incómodo que se transforma em pesadelo, enquanto que o segundo, O Espelho, é um pouco filosófico demais, e o último, A Igreja do Diabo é uma cómica história onde o Diabo resolve fundar a sua própria Igreja com culto, livro sagrado e seguidores.

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146 – Antologia de ficção científica Fantasporto – Vários autores – Esta antologia reúne histórias de autores conhecidos no género, bem como de autores participantes no concurso do Fantasporto. Algumas histórias são muito boas, outras são razoáveis, o que dá ao conjunto um sentido pouco constante de qualidade. Ainda assim, é uma antologia recomendável por alguns dos bons contos que tem.

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147 – Can & Can’tankerous – Harlan Ellison – Após Deathbird stories estava à espera de histórias fortes e chocantes. Bastante menos corpóreas, as histórias desta antologia não me agradaram da mesma forma, ainda que tenha algumas muito memoráveis.

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148 – The Private Eye – Brian K. Vaughan – Uma excelente distopia futurística de cores garridas. Na realidade apresentada, a forma de interagir com a tecnologia mudou drasticamente quando as informações de todas as clouds foi tornada pública – desde fotos a históricos de navegação. A solução para o escãndalo global? Desligar a internet bem como todos os aparelhos relacionados e passar a usar máscaras para proteger a identidade de cada um.

Promoções antes da Black Friday

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Com descontos que podem ir até aos 50%, a promoção da FNAC disponibiliza vários livros da D. Quixote. Entre os livros em promoção podemos encontrar vários de Gabriel Garcia Marquez, Philip Roth ou Thomas Mann. O que me interessou? O primeiro volume da colecção Idade Média, organizada por Umberto Eco.

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Também na FNAC encontramos a promoção de Natal, com 40% em livros de Afonso Cruz (como os volumes da Enciclopédia da Estória Universal) ou em livros de Haruki Murakami (como Crónica do Pássaro de Corda, O Impiedoso país das maravilhas e do fim do mundo ou Kafka à beira-mar), ou 30% em livros como O Marciano de Andy Weir, os vários volumes das Crónicas de Gelo e Fogo de George R. R. Martin,

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Na Wook encontramos vários livros com 50% de desconto imediato, destacando-se os livros de Bernard Cornwell, Clube de Patifes de Dan Simmons, As Brumas de Avalon de Marion Zimmer Bradley, O Pistoleiro de Stephen King ou John Carter de Edgar Rice Burroughts,

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Aliciando com o “Até 50%”, a campanha da Bertrand parece-me a menos interessante, com descontos mínimos em Antigas e Novas Andanças do Demónio de Jorge de Sena ou Flores de Afonso Cruz, mas preços mais interessantes em Auto-da-fé de Elias Canetti, Os níveis da Vida de Julian Barnes ou O Homem que perseguia o tempo de Diane Setterfield,

Favoritos VII

Favoritos anteriores

  1. Ray Bradbury
  2. Colleen McCullough
  3. China Miéville
  4. Umberto Eco
  5. Amin Maalouf
  6. Ursula le Guin
  7. Neil Gaiman
  8. Guy Gavriel Kay
  9. Michal Ajvaz
  10. Station Eleven
  11. His Dark Materials
  12. The Preacher

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13 – Dino Buzzati

Apesar de O Deserto dos Tártaros ser o livro mais conhecido de Dino Buzzati, foi através de O Segredo do Bosque Velho que conheci o autor e é este, de todas as obras que dele li, aquele que mais apreciei. Utilizando elementos naturais humanizados bem como génios, contrasta a maldade de um homem que utiliza o vento como carrasco, com a magia do Bosque. São de realçar os detalhes fantásticos como a música feita propositadamente pelo vento usando o bosque como instrumento.

Este livro belíssimo, carregado de elementos fantásticos e até inocentes, contrasta com O Deserto dos Tártaros, um livro que gostei igualmente, mas que é implacável. Livro mais sólido e menos imaginativo, centra-se num homem destacado para um forte que se mente a si próprio quanto à data em que será substituído, criando gosto pela rotina, e abrindo espaço para um diálogo mais introspectivo.

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Se O Segredo do Bosque Velho e O Deserto dos Tártaros são histórias bastante diferentes, o mesmo se pode dizer de O Grande Retrato, uma história que se pode enquadrar na ficção científica, que apresenta um projecto em curso num local ermo (mas suficientemente perto de uma aldeia para gerar rumores) em que se cria um computador capaz de recolher dados do que o rodeia, com base em sensores que mimetizam os cinco sentidos.

Projecto interessante, não fosse o computador ter personalidade, mais especificamente o da mulher de um dos cientistas, fútil e caprichosa. Esta personalidade é incongruente com o objectivo para o qual foi construído, e gera lentamente um fantasmas tenebroso.

Os sete mensageiros, Pânico no Scala e A Derrocada da Baliverna constituem três compilações de contos que não apreciei na sua totalidade – alguns contos não me parecem histórias fechadas. Ainda assim possuem histórias memoráveis, com elementos fantásticos que se centram bastante no destino.

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14 – Shirley Jackson

A verdade é que li muito pouco desta autora. Para além do livro Sempre vivemos no castelo, li o The Lottery, um conto distópico brutal que me reavivou a memória do livro. Mais recentemente, recordei esta autora, com o destaque na última edição da revista Bang!.

O livro é excepcional, contendo fortes traços de malvadez, fobia e solidão. A história centra-se numa rapariga que vive no casarão da família, outrora enorme, mas da qual só restam três elementos: ela própria, a irmã e um tio. Encarregue de todas as tarefas e responsabilidades, é recebida na aldeia com olhares de soslaio e desconfiados nas suas custosas visitas.

A forma como desapareceu a família, ou as razões pelas quais a rapariga é assim recebida desconhecemos no início. A acção centra-se no ponto de vista da rapariga que vai sendo cada vez mais reclusa da casa, por sua própria iniciativa (ou fobia) e cujos pensamentos são pouco lineares e agradáveis.

Já o conto distópico consegue arrastar-se em detalhes de um ritual anual sem aborrecer o leitor, já que nos é dada uma perspectiva de mero observador, desconhecendo o que se encontra por detrás do nervosismo de algumas personagens. A tensão aumenta ao longo do conto, para terminar de uma forma brutal e horripilante.

Eis uma autora da qual ainda não li tudo o que existe publicado e que espero explorar nos próximos tempos.

Bang! N.º 19 – Não ficção

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Cada lançamento de um novo número da revista é uma celebração. De distribuição gratuita e impressão a cores, peca em formato apenas no grande tamanho da página que dificulta o transporte e a leitura em qualquer sítio que não seja a nossa casa. Mas passemos ao conteúdo. É de realçar o texto introdutório de George R. R. Martin à antologia recentemente publicada, Histórias de Aventureiros e Patifes, bem como o texto de João Seixas sobre Ray Bradbury. Encontramos, também, interessantes referências a Shirley Jackson e Lovecraft.

A revista inicia-se com uma introdução mais política de Safaa Dib, fruto dos tempos que ocorrem, relacionando esta temática com a ficção científica. A esta, segue-se o usual texto do editor Luís Corte Real sobre a colecção Bang! que auspicia boas novidades para os apreciadores de ficção científica: Annihilation de Jeff Vandermeer (Hooray), A Balada de Antel (vencedor do prémio Bang|) e a publicação de Terrarium de Luís Filipe Silva e João Barreiros numa nova edição revista. Ficou apenas a faltar a referência a uma data prevista para The Fifteen Lives of Harry August, livro que a editora chegou a anunciar o pré-lançamento para o retirar de imediato. Esperemos, então, um pouco mais.

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Uma das mais belas e simples capas de Annihilation

Ainda que me entusiasmem mais os lançamentos de ficção científica, não é de esquecer os próximos de fantasia, com a antologia, já publicada entretanto, Histórias de Aventureiros e Patifes, organizada por George R. R. Martin; ou The Witcher de Andrej Sapkowski. A estas futuras publicações seguem-se sugestões de outras obras, como o The Martian, ou o Estação Onze (um excelente lançamento da Editorial Presença).

A Arquitecturas da loucura em que Jorge Palinhos fala um pouco de cinema de horror (bem a propósito do Halloween) segue-se um texto de Fernando Ribeiro, vocalista dos Moonspell, Metais pesados. Ocupando uma página disserta sobre o snobismo da literatura dita séria em comparação com a literatura de género, escondida e marginalizada. Uma discussão que dá pano para muitas mangas – até porque quem se esconde da FC são essencialmente leitores de best-sellers que do género pouco ou nada sabem. Esta temática será novamente vislumbrada no artigo de João Seixas, em enquadramento distinto.

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A componente de não ficção continua com um bom artigo sobre Banda Desenhada por João Lameiras, sobre Simon du Fleuve, o herói da série de Claude Auclair, e com um artigo sobre cinema de horror de António Monteiro onde disserta sobretudo em torno do The Omen.

Todos adoram um patife é a próxima secção, o nome que foi dado para a transcrição do prefácio de Histórias de Aventureiros e Patifes, escrita por George R. R. Martin, um dos organizadores da antologia. Neste texto, George R. R. Martin aproveita para apresentar alguns bons vilões de cinema e de literatura que, decerto, farão o leitor procurar por alguns destes filmes e livros.

Apesar de não ser particularmente fã dos Iron Maiden (aprecio de algumas músicas, mas a globalidade da sua obra não corresponde aos meus gostos), achei interessante o artigo de Ricardo S. Amorim onde se destacam alguns dos temas literários integrados nos álbuns do grupo. Encontram-se assim referências tão variadas como Poe, Lovecraft ou C. S. Lewis, sobretudo de títulos de horror e ficção científica que terão sido aproveitados quer nas letras, quer nas capas.

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Seguem-se várias críticas a um dos mais recentes lançamentos fantásticos da Saída de Emergência, Rainha Vermelha de Victoria Aveyard, uma entrevista à autora e exposição de alguns factos e personagens que permitem introduzir à obra, cuja premissa exposta me recordou A Trilogia do Mágico Negro de Trudi Canavan (publicada em Portugal há alguns anos).

O Mythos Lovecraftiano nos jogos narrativos de Pedro Lisboa, debruça-se sobre um dos mestres do horror para dissertar sobre a influência nos vários meios que nos rodeiam, dando especial realce aos RPG’s.

De seguida, destaca-se o longo artigo sobre Ray Bradbury de João Seixas, O Futuro é hoje: alimentando as chamas, destruindo o cânone. Como não gostar de um artigo que, expondo alguns factos da vida do escritor, está carregado de referências às suas obras mais emblemáticas?

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Depois deste artigo, ponto algo da revista, os restantes surgem menos iluminados. O Trio Fantástico Carey, Durham e Hobb apresenta uma análise a três das sagas fantásticas que não me interessou o suficiente, o género de análise que possui variáveis como grau de paixão ou conflito que,  dissecando um pouco as séries, não é alto que goste de ler.

Figuras Clássicas do Terror traz-nos um conjunto interessante de ilustrações de monstros conhecidos, de diversos autores que referem um pouco sobre o método de criação da ilustração. Gostei particularmente do Olharapo e do Skeleton Army.

No final uma surpresa. A secção de Sugestões FNAC que já trouxe algumas referências insípidas, sugere agora Shirley Jackson, a autora de obras como Sempre vivemos no castelo ou The Lottery.

Em suma. Após 19 edições a Bang! continua de boa saúde e recomenda-se. Se considerarmos que a revista é gratuita, ainda mais. Notam-se novos nomes nos artigos, o que vai garantindo a introdução de novas ideias e conteúdos, mas nota-se, também, o aumento do conteúdo de propaganda às próprias obras da editora, Saída de Emergência. O que gostava que houvesse de diferente? Maior exposição do que se vai fazendo lá fora, e que quase não chega a Portugal.

Resumo de Leituras – Novembro de 2015 (2)

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129 – Trigger Warning – Neil Gaiman – Apesar de pouco coesa em género em conteúdo, formato ou tom, esta antologia é um lugar negro onde encontramos excelentes histórias, desde poemas fantásticos à reinvenção de alguns contos de fadas, passando por histórias de heróis conhecidos como Sherlock Holmes ou Dr. Who.

130 – Nighmare Magazine – Novembro de 2015 – Organizada por John Joseph Adams (responsável pela Lightspeed Magazine e por diversas e boas antologias), esta revista de ficção negra está longe de ser perfeita, apresentando histórias de boa qualidade, mas poucas, e uma secção de não ficção fraquita.

131 – A loja dos suicídios – Jean Teulé Destinado a um público mais juvenil é uma história engraçada sobre uma família cuja fonte de rendimentos advém de uma loja que vende tudo o que precisar para cometer um suicídio – boas e resistentes cordas para aguentar com o peso de uma pessoa suspensa pelo pescoço, rápidos e infalíveis venenos ou pedras para se atirar ao rio de uma ponte elevada. Tudo corre bem. Até nascer o filho mais novo que, ao contrário da restante família, não está constantemente deprimido.

132 – Saga Vol. 3Se tinha achado que o segundo volume era bastante mais calmo e menos interessante que o primeiro, este recupera em grande. Carregado de acção e com novas personagens, contem algumas reviravoltas drásticas e inesperadas que tornam a espera do próximo volume insuportável.

Outubro de 2015

Estranha, mas felizmente, este mês parecem abundar as críticas a livros de ficção científica, com destaque para os recentes Arranha-céus de J.G. Ballard e Estação onze de Emily St. John Mandel. É bom que assim seja – são dois dos mais recentes lançamentos do género em Portugal e, apesar de não terem sido particularmente anunciados como tal, alimenta alguma chama de esperança de ver fortalecer o género por cá.

Por outro lado, foram, também, várias as críticas a livros muito mais antigos e quase esquecidos como A Guerra Eterna de Joe Haldeman ou a antologia Com a cabeça na Lua.

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Lançamentos nacionais relevantes

O Papiro de César – R. Goscinny e A. Uderzo – Edições Asa;

Arranha-céus – J.G. Ballard – Elsinore;

Os últimos na terra – Robert C. O’Brien – Editorial Presença;

Os assaltos à Padaria – Haruki Murakami e Kat Menschik – Casa das letras;

– Colecção Marvel – Salvat;

Esquadrão da Luz – Peter Tomasi e Peter Snejbjerg – G Floy;

Saga Volume 3 – Brian Vaughan e Fiona Staples – G Floy;

Fatale Volume 3 – Ed Brubaker e Sean Phillips – G Floy;

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Críticas interessantes

Ficção científica

Stand on Zanzibar – John Brunner – Intergalacticrobot;

Arranha-céus – J.G. Ballard – Deus me Livro, As leituras do Corvo, Roda dos Livros;

The day of the Triffids – John Wyndham – Que a estante nos caia em cima;

O Marciano – Andy Weir – Letras sem fundo;

Comandante Serralves – vários autores – My very own lines;

Com a cabeça na Lua – vários autores – Leitora de fim-de-semana;

Solarpunk – vários autores – Nível Épico;

A Guerra Eterna – Joe Haldema – D’Magia;

Estação onze – Emily St. John Mandel – As leituras do Corvo, Viajar pela leitura;

The Hungry City Chronicles – Philip Reeve – Biblioteca mil;

Almanaque Steampunk – vários autores – Intergalacticrobot;

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Fantasia

Rainha Vermelha – Victoria Aveyard – Pedacinho literário;

A Terra das Lágrimas – Terry Goodkind – Deus me Livro;

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Banda desenhada

Demolidor: partes de um todo – David Mack – As Leituras do Pedro;

Living Will #1 – André Oliveira – Que a estante nos caia em cima;

The Walking Dead Vol.12 – Robert Kirkman, Charlie Adlard, Cliff Rathburn – aCalopsia;

Astérix e o Papiro de César – R. Goscinny e A. Uderzo – Leituras de BD, Máquina de escrever;

– Revista H-Alt 1 – aCalopsia;

Homem-aranha: regresso às origens – J. Michael Straczynski – As Leituras do Pedro;

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Outros

Lisboa triunfante – David Soares – My very own lines, Nuno Ferreira;

O livro dos seres imaginários – Jorge Luís Borges – Deus me Livro;

Sete minutos depois da meia-noite – Patrick Ness – Floresta de Livros;

A sombra sobre Lisboa – vários autores – Nuno Ferreira;

Sr. Bentley, O Enraba Passarinhos – Ágata Ramos Simões – My very own lines;

O feiticeiro e a bola de cristal – Stephen King – Nuno Ferreira;

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Outros artigos

– Graphic Novels, ou a banalização de uma denominação – Leituras de BD;

– Quarenta andares de caos – Máquina de escrever (sobre o recente livro do Ballard);

– O Super-homem já não é Clark Kent. E é camionista – Observador;

– O Futuro é Agora –  Revista Estante;

– À noite, no Gerês, quem quer andar pelos caminhos das bruxas – Público;

– Prémio Hernâni Cidade para obra de João Rogaciano – Cultura ao minuto;

– Anúncio do vencedor do Prémio Divergência 2015;

– Festa chama três mil visitantes a aldeia com 17 moradores – DN;

– O Porto tem três novas livrarias e todas elas diferentes – Público;

Eventos nacionais

– FOLIO – DN;

Ciclo de conversas – confesso que li;

– Alice 150 anos;

– Recordar os Esquecidos;

Resumos nacionais anteriores

Setembro 2015

Julho / Agosto 2015

Junho 2015

 

 

Das coisas que acho incríveis … (páginas de editoras)

Aqui vai um pequeno desabafo.

Das coisas que acho incríveis é não encontrar informação sobre um livro que tenho em mãos na página da editora. Nada, nem sequer um registozinho. É como se o livro não existisse e não tivesse sido publicado. Nem depois de fazer “próxima página” até ter calos no dedo. Sim, porque existem páginas de editoras sem a opção pesquisar. E como tal, é mais lento encontrar alguma coisa do que nos antigos registos de uma biblioteca.

E quando se encontra, mas ao invés de se ter uma entrada por livro, o que existe é um índice com um link para se ver só a capa, um link para se ver só a sinopse (em .pdf porque não dá para consultar sem descarregar um ficheiro). Já ouviram falar em informação integrada? Em facilidade de navegação? Quase parece que nos estão a fazer a nós um favor em sequer disponibilizarem alguma coisa.

Quando não destacam nem as suas próprias novidades, então? Maravilha. Para quê? Os livros vendem-se sozinhos, é atirá-los para o meio de um monte profundo e todos os possíveis leitores sabem por obra e graça que o livro apareceu e correm desalmadamente para o comprar. Mesmo quando nem a editora disponibiliza informação suficiente sobre ele.

Eventos: Inauguração Livraria Distopia

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Num dos locais mais privilegiados da cidade irá ser inaugurada, hoje, uma livraria de nome peculiar: Distopia. Esta nova livraria irá ter, para além de livros recentes, uma secção de usados e uma secção de livros em inglês.

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Mas não vendem só livros e não prevêm ter um papel passivo na venda de livros. Terão também música à venda, e prevê-se que dinamizem eventos literários como lançamentos, leituras infantis ou tertúlias temáticas.

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Curiosos? Eu estou. Para além de bem localizado, o espaço parece agradável e passarei por lá assim que tiver oportunidade. Para mais detalhes sobre o espaço e a sua localização exacta, podem consultar a página oficial.

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Lighspeed Magazine – Maio 2015

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Se a Lighspeed já era uma das minhas revistas de ficção especulativa favoritas por trazer boas histórias de ficção científica, fantástico e horror, esta preferência tem-se vincado ainda mais com os volumes mais recentes, organizados por John Joseph Adams, conhecido pelas excelentes antologias que constrói.

Esta edição começa, no entanto, com uma história irritante – Time Bomb Time de C.C. Finlay. Ainda que o conceito não seja original, a execução é original, mas estende-se por demasiado tempo: a possibilidade de voltar atrás no tempo e de refazer pequenos episódios. A história centra-se na primeira tentativa, sendo que o cientista que explora o novo engenho tenta conquistar a simpatia de uma colega, tendo várias versões da mesma conversa sobre a experiência que pretende fazer (mas que já está secretamente a realizar). É uma história inteligente mas que repete a premissa demasiadas vezes, sendo que, algumas versões da conversa pouco divergem e, às tantas, ficamos aliviados por finalmente assistirmos à conversa final.

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Imagem de Galen Dara, realizada especificamente para o conto Time Bomb Time na Lightspeed Magazine online, onde podem ler o conto (basta clicar na imagem)

O segundo conto, Goodnight Earth de Annie Bellet relembrou-me a história de Windup Girl, de Paolo Bacigalupi, quer pelo cenário (subida das águas pelo aquecimento global), quer pela origem. Este conto terá sido publicado no tríptico de contos apocalípticos, mais especificamente no volume The End Has Come, e apresenta dois contrabandistas que aceitam transportar um casal e seus três sobrinhos. Um dos contrabandistas estranha a postura das crianças e acaba por confirmar as suspeitas – tal como ele, as crianças são seres humanos alterados por nanobots, pequenas e eficientes armas de guerra. Ainda que soe incompleta (espero que exista a continuação da história no terceiro volume do tríptico) e possua poucas personagens e um cenário bastante restrito (um barco) consegue envolver o leitor.

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Em The Myth of Rain de Seanan McGuire é também explorado o tema apocalíptico. Com o aquecimento global aumentam as zonas desertas e os seres humanos (os ricos, claro) possuem agora um único local para onde se podem dirigir e tentar viver mais algum tempo em bom clima. Um grupo de biólogos tenta salvar os últimos espécimes da floresta resistente antes que a destruam para a construção de prédios – mas o trabalho que desenvolvem é quase impossível perante os prazos apertados. Fornecendo os detalhes suficientes para a compreensão da história, mas sem se alongar em demasia, consegue cativar o leitor e fornecer uma perspectiva dolorosa do impacto do aquecimento global. A história foi publicada, também, na recente antologia Loosed Upon the World.

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A próxima história, de 1993, é Ghost of the Fall de Sean Williams, o melhor conto apocalíptico do conjunto onde, a subida das águas em conjunto com uma guerra brutal, deixou um pequeno de seres humanos sobreviventes no topo dos maiores prédios. Uma geração depois, as águas são tóxicas e a comunidade persiste graças à chuva. Isolada, desconfiada de qualquer contacto possível com outras comunidades exteriores, está claramente em extinção. O grupo é pequeno, as mulheres são poucas, os nascimentos ainda inferiores, e as torres terão uma vida limitada. Ainda assim a comunidade tenta persistir, reactivando alguns elementos de tecnologia (como painéis solares). Excelente na apresentação da realidade apocalíptica e em centrá-la numa personagem que nunca conheceu o antes da guerra, desenvolve bem as poucas personagens com as quais tem de lidar e dá-nos um cenário pouco auspicioso de melhores dias.

A secção de fantasia começa com Sun’s East, Moon’s West de Merrie Haskell, um bom conto de fadas que cruza influências de contos de várias origens – desde a rapariga que transforma palha em oiro, a um deus-urso capaz de curar aves feridas, a um príncipe encantado preso por uma maldição tecida por uma ogre furiosa. O seguimento entre alguns episódios é, por vezes, forçado mas o príncipe amaldiçoado não é nenhum galã de cinema, antes um homem que, mesmo após quebrado o feitiço continua prepotente e egoísta, e a rapariga que tece oiro prefere matar dragões. São estas imperfeições nas personagens que distinguem o conto.

Mouth, de Helena Bell é mais um conto de horror que propriamente de fantasia. Começa quando uma menina resolve calar o irmão, bebé chorão, retirando-lhe a boca como que por magia, usando apenas as mãos. Sem perceber o que aconteceu os pais recorrem aos melhores médicos para realizar a reconstrução facial enquanto a verdadeira boca seca num guarda-jóias da menina. Esta capacidade de retirar, de forma indolor, pedaços de outras pessoas nunca a abandona. Com passagens muito arrepiantes mas sem um final conclusivo, eis um bom conto de terror fantástico.

philippine

Breaking the spell de R.C. Loenen-Ruiz tem várias histórias entrelaçadas, com o intuito de explicar uma maldição de forma pouco convencional. Enquanto que, numa cave, uma menina descobre os pequenos mundos que o pai mantém sob redomas, num outro mundo uma menina questiona-se sobre um castelo nas nuvens onde dormirá uma princesa, aguardando o príncipe encantado. Ainda que funcione isoladamente, gostaria de ter lido uma versão mais longa da história onde seriam mais explicados os pequenos mundos na cave.

A secção de fantasia encerra com The Blood of a Dragon de Matthew Hughes, uma história que decorre no Universo fantástico de uma saga fantástica do autor, Tale of Henghis Hapthorn. Neste conto apresenta-se sucintamente a geração do mecanismo que controla esta realidade, um mecanismo criado por um poderoso mago que se alimenta da força de vontade das pessoas. Mesmo após a morte do mago o mecanismo persiste por possuir parte da sua essência. Este conto centra-se na destruição desse mecanismo. Coeso e desafiante, é um conto que consegue, no pouco espaço que tem, explicar o necessário do mundo onde ocorre para que o leitor consiga acompanhá-lo. Se há anos que estou interessada em ler esta saga fantástica, este conto veio ainda mais aguçar a curiosidade.

Segue-se a novela desta edição, The Mill de Paul di Filippo, uma história que foi publicada pela primeira vez em 1991 em Amazing Stories. Gostei tanto desta novela que acabei por lhe dedicar uma entrada separada no blogue. Com algumas semelhanças de premissa com The Carpet Makers de Andreas Eschbach, mas sem a sua estrutura fragmentada, apresenta-nos um mundo explorado por um Império intergaláctico cuja economia está estruturada em torno da confecção de tecidos. É de realçar a construção de personagens, que nos vão apresentando e convencendo das várias perspectivas, ainda que de forma inconsciente. O final possui um único defeito – não nos deixar vislumbrar mais do que se encontra por detrás do Império.

amber in the ashes

Tal como noutras edições, segue-se uma componente que evito – a dos excertos, neste caso de The Water Knife de Paolo Bacigalupi e Magonia de Maria Dahvana Headley, e a das entrevistas. A componente das críticas possui sugestões interessantes (ainda que tenha gostado mais das apresentadas na Apex Magazine). Revision de Andrea Philipps encontra-se disponível apenas em formato ebook / POD parece conter uma ideia engraçada, mas que talvez se esgote em algo maior do que um conto, descrevendo a possibilidade de editar a realidade quando se edita uma espécie de enciclopédia online.

Amber in the Ashes de Sabaa Tahir parece ser uma leitura interessante para os próximos tempos. A crítica conseguiu despertar-me a atenção ao usar um isco demasiado fácil – uma das personagens principais faria com que Cersei Lannister parecesse uma mãe extremosa. A partir daqui são vários os factores que me interessaram, desde os elementos de mitologia árabe (como génios) ou a comparação com um livro excelente, City of Stairs.

Para fechar a edição encontra-se a galeria de Li Shuxing, o responsável pela capa, com várias imagens fascinantes pela sua complexidade.