A vida contada de A. J. Fikry – Gabrielle Zevin

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Um viúvo recente e relativamente jovem tenta sobreviver à ausência da esposa, mantendo o negócio que fundaramem conjunto. Para além de beber demasiado quase todas as noites, a perda recente fá-lo ser mal humorado para clientes e fornecedores. Esta não é, de todo, a descrição de um livro que me costume captar o interesse – mas, este caso é especial! Envolve livros e livrarias!

É que o viúvo vive na mesma casa onde tem o negócio que é um livraria – o que é quase o mesmo que viver numa biblioteca. Na livraria apenas vende o que gosta e é um crítico implacável, que dispensa clichés e dá grande valor à narrativa:

Ele é um leitor e aquilo em que acredita é na construção. Se aparecer uma arma no primeiro ato, é melhor que essa arma dispare até ao ato três. Ou seja, aquilo em que A. J. acredita é na narrativa.

O livro abre com uma pequena referência crítica ao célebre conto de Roald Dahl, Cordeiro à matança. A partir daí vamos conhecendo os acontecimentos que mudam radicalmente a vida de A. J. , intercaladas com outras pequenas críticas. O seu estilo de vida decadente muda radicalmente quando lhe roubam um livro raro de Poe. E é este roubo que vai levar, indirectamente, a que lhe deixem uma bebé na livraria – porque não existirá melhorar lugar para educar alguém do que numa livraria.

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O livreiro mal humorado, até mal educado, que conhecemos nas primeiras páginas vai-se acalmando, criando na sua livraria grupos de leitura e arranjando livros para os diversos clientes – mas sempre com forte posição em relação aos livros que vende.

Apesar dos acontecimentos trágicos que vão rodeando a vida do livreiro, o humor irónico e as constantes referências aos livros vão aliviando o ambiente, tornando-se numa história engraçada de pequenas reviravoltas onde a leitura tem um papel bastante importante.

Resumo de Leituras – Fevereiro de 2016 (2)

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21 – Wolverine: Logan – Vaughan, Risso – Volume essencial na história de Wolverine que relata a transformação da personagem no Japão, durante a Segunda Guerra Mundial. Graficamente com bons momentos (não consigo gostar da capa, que é, a meu ver, a mais fraca imagem do volume), contem uma pequena história com alguma linearidade;

22 – Dois anos, oito meses e vinte e oito noites – Salman Rushdie – Uma leitura divertida com fortes elementos fantásticos, partindo de uma génio que se cruza com Averróis gerando uma descendência sem fim que, passados alguns séculos se encontra dispersa pelo planeta. Para além de não possuírem lóbulos das orelhas, têm poderes mágicos adormecidos, que começam a surgir quando os caminhos entre os dois mundos voltam a aparecer. Complexo, com várias personagens mas divertido e com múltiplas referências a outros livros;

23 – Número zero – Umberto Eco – Com menos páginas do que os volumes anteriores, apresenta uma história no mesmo estilo de outras obras do autor, com teorias de conspiração, informações cruzadas e pequenos episódios mirabolantes que dão um aspecto cómico a puxar para o nonsense;

24 – Low Vol.1 – Remender, Tocchini – Apesar do traço rabiscado possui excepcionais imagens. Apesar da premissa algo inverosímil, apresenta um futuro onde a espécie humana está perto do fim. Obrigada a fundar cidades no fundo dos oceanos por não se ter descoberto outro planeta habitável, a humanidade está decadente e deprimida. Contrabalançando este sentimento, encontramos uma personagem com um optimismo que não chega a tornar-se irritante. Com tudo isto (e apesar de tudo isto) achei excelente.

Golems – Alain Delbe

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A figura do Golem é das mais antigas no fantástico, associando-se comummente aos judeus. Apesar da palavra surgir no Talmude em associação com Adão (descrevendo-o como um boneco animado de barro), as histórias em torno desta figura terão ganho especial destaque na época Medieval, sendo várias as histórias de rabinos com golems como servos, indicador de prestígio e sabedoria. O ritual difere entre histórias mas em quase todas a escrita da palavra “verdade” na testa é essencial para que a forma humana ganhe vida. Apagar a primeira letra da palavra transforma-a na palavra “morte” e o golem inactiva-se.

Descrito por vezes como figura estúpida, de compreensão limitada e cumprindo as ordens à letra, noutras, como uma figura calada mas com algumas capacidades cognitivas, tem especial destaque na obra de Gustav Meyrink, Der Golem, que descreve o episódio em que o rabino Bezalel se terá esquecido de desactivar o seu golem e este terá provocado desacatos na cidade de Praga.

É esta obra de Gustav Meyrink que tem especial destaque em Golems de Alain Delbe. A acção passa-se em vários tempos e com várias personagens – se por um lado temos um rapaz que recebeu um livro ilustrado sobre o holocausto que lhe provoca pesadelos, por outro vamos conhecendo a forma como o destino de três jovens se entrelaça na cidade de Praga: um jovem judeu que se encontra na cidade para estudar, uma jovem francesa a fazer tese com os escritores Kafka e Gustav Meyrink e um alemão, espião, que se faz passar por estudioso de religiões.

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O jovem judeu é dono de uma memória prodigiosa mas não é rico, pelo que facilmente acede a um pedido do alemão para lhe ensinar algumas coisas sobre a sua religião. Na mesma pensão, vive a jovem francesa que acabará por ser o grande amor do estudante judeu. Nesta época a ameaça nazi é ainda uma realidade distante, um eco que se propaga pela Europa sem que seja devidamente tomado a sério. Não é pois de estranhar que o judeu acabe por revelar mais do que devia, principalmente à namorada, mostrando-lhe o grande segredo que terá ocupado a sua grande memória: o ritual para animar um Golem.

A história vai ganhando forma através da correspondência da jovem francesa com o tutor, do espião alemão com a base, intercalada com os sonhos do rapaz que pegou no livro ilustrado, e o acompanhar do estudante judeu. As linhas narrativas são demasiadas e em demasiados formatos, quebrando a regra do “show, don’t tell”, sem que acrescentem grande coisa à história. A história prosseguiria sem alterações desconhecendo-se a correspondência do alemão, por exemplo.

A história tem um bom ritmo, introduzindo constantemente novas ideias que lhe vão dando fulgor para virar rapidamente novas páginas. É uma história de leitura acelerada que não nos deixa respirar – e não poderia ser de outra forma. Os episódios encaixam-se sem deixar lugar à imaginação, e as reviravoltas e coincidências são demasiadas, não deixando espaço para mais nada.

Não que seja uma má leitura. A tese da jovem francesa é sobre Kafka e Meyrink, expressando interessantes ideias sobre as obras destes autores, e existe alguma exploração rocambolesca de teorias nazistas. As personagens não nos captam especialmente, mas o ritmo é acelerado, constituindo uma boa leitura para descontrair.

Por Universos Nunca Dantes Navegados – Vários autores

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Há pouco mais de 10 anos surgia um projecto com intenção de publicar antologias em português, do qual resultou este Por Universos Nunca Dantes Navegados. Lançado em 2007 durante o Fórum Fantástico, o livro reúne contos de autores brasileiros e portugueses de ficção científica e de fantasia. Sendo o meio dos escritores de ficção científica reduzido, não é de estranhar que encontremos nomes conhecidos como Telmo Marçal, João Ventura, Octávio Aragão ou Carlos Orsi. Ao todo, são 14 contos de temática diversa em que irei realçar apenas os que mais gostei.

A antologia abre precisamente com um conto de João Ventura, Resíduos Sólidos Urbanos, uma distopia onde os seres humanos podem aparecer como lixo para triagem, sendo submetidos a análises de funcionalidade para decidirem que rumo lhe dar – desmontagem para utilização das partes, ou reintegração. Neste caso, o resíduo é um velhote que lentamente perdeu o lugar no lar, substituído por um modelo robótico, mas que mantém algumas capacidades activas. Uma história irónica e bem construída que tem o enquadramento q.b. para brincar com as prioridades da sociedade.

Esta não é a única presença de João Ventura, com outro conto, a meio do conjunto, Assassinos de Sobreiros.Se noutras antologias as histórias do autor nem sempre me tinham captado, neste caso, adorei ambas – para quando uma antologia? Neste caso, apresenta-se-nos um ecossistema florestal onde cada elemento é muito mais do que poderia parecer à primeira vista, agindo conjuntamente para se defenderem eficazmente da ameaça humana de uma forma rápida, limpa e eficaz.

Para tudo se acabar na Quarta-feira de Octavio Aragão, é um conto movimentado onde não faltam os episódios de intensa acção com direito a murros e tiros. Com viagens no tempo e inúmeras realidades, utiliza-se o propício ambiente criminoso para fazer crescer e testar potenciais líderes.

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Em Littleton de Jorge Candeias a premissa é engraçada – um homem no que parece ser um futuro distante e vivendo noutro planeta, resolve tirar umas férias incorporando um bandido numa experiência completa do faroeste. Imaginativo e movimentado, gostava que tivesse tido um final mais decisivo.

O Nevoeiro que desvendou realidades de Sofia Vilarigues é um conto de fantasia que explora o impacto do mundo rural e inacessível que mantém alguma magia natural com o mundo citadino, barulhento e movimentado – o preço do progresso. Simpático e até carinhoso, recorre a algumas técnicas subtis dos contos para depositar a sua mensagem.

O conto de Maria Helena Bandeira, Ponte Frágil sobre o nada, vale pela premissa, apresentando-nos um mundo onde os seres humanos deixando de comunicar pela voz. Os poucos que o têm de fazer são considerados deficientes. É neste mundo que uma mulher tenta criar o filho, um dos que usa a voz para comunicar. A perspectiva é interessante, o mundo que criou também, não gostei da saída que encontrou.

(o conto de Telmo Marçal é um bom conto, com a frieza e violência que lhe é característica, mas já o tinha lido noutro livro).

Esta antologia organizada por Luís Filipe Silva e Jorge Candeias peca em termos visuais pelo tamanho da letra – não tão pequeno que não se consiga ler, mas o suficiente para se tornar incómoda. Mas é de perceber, sendo este um factor determinante no número de páginas e provavelmente no preço.

Omiti vários contos, mas não por os ter achado maus. Aliás, não encontrei nenhum conto que achasse mau, mas sim alguns com premissas já conhecidas ou que não me envolveram. É pena perceber que este projecto não tenha tido forças para lançar mais antologias, como tantos outros que apareceram e rapidamente desapareceram. Fica-nos esta antologia com vários contos interessantes e de boa qualidade.

À espera de… (lançamentos internacionais)

Ano novo, novos lançamentos pelos quais aguardar impacientemente.

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Apesar de ter publicado recentemente um romance, The Grace of Kings (que estou a ler lentamente há alguns meses), Ken Liu é mais conhecido por ser tradutor de várias obras chinesas, e ainda mais pelas suas histórias curtas, tendo ganho Nebulas e Hugos (entre muitos outros).  Em Portugal foi publicado recentemente, o conto Vidas de Papel, na Bang! #19.

Do pouco que conheço, gostei. The Bookmaking habits of select species é um conto em forma de enciclopédia, compilando como várias espécies alienígenas produzem os seus peculiares livros. No final, queria mais. In the loop é um excelente conto bélico de ficção científica que se centra sobretudo nas consequências emocionais e psicológicas da guerra, mesmo que à distância. Por sua vez, The Ussuri Bear consegue cruzar com sucesso ficção científica com alguma fantasia, numa história cativante e surpreendente. Estas são apenas algumas das histórias de que me recordo, razões pela qual assim que vi este lançamento, fiquei ansiosa pelo lançamento. Para os interessados, eis uma lista de conteúdo.

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Para quem gosta de ficção científica e fantasia, o site io9 é de passagem obrigatória. Mas o que tem isto a ver com o livro? É que Charlie Jane Anders é a principal editora do site. O livro em questão terá temática apocalíptica e é um dos mais aguardados lançamentos do ano:

Childhood friends Patricia Delfine and Laurence Armstead didn’t expect to see each other again, after parting ways under mysterious circumstances during middle school. After all, the development of magical powers and the invention of a two-second time machine could hardly fail to alarm one’s peers and families.

But now they’re both adults, living in the hipster mecca San Francisco, and the planet is falling apart around them. Laurence is an engineering genius who’s working with a group that aims to avert catastrophic breakdown through technological intervention. Patricia is a graduate of Eltisley Maze, the hidden academy for the world’s magically gifted, and works with a small band of other magicians to secretly repair the world’s every-growing ailments. Little do they realize that something bigger than either of them, something begun years ago in their youth, is determined to bring them together–to either save the world, or plunge it into a new dark ages.

Resumo de Leituras – Dezembro de 2015 (2)

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145 – A Chinela Turca – Machado de Assis – Este pequeno livrinho reúne três bons contos. O primeiro é um incómodo que se transforma em pesadelo, enquanto que o segundo, O Espelho, é um pouco filosófico demais, e o último, A Igreja do Diabo é uma cómica história onde o Diabo resolve fundar a sua própria Igreja com culto, livro sagrado e seguidores.

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146 – Antologia de ficção científica Fantasporto – Vários autores – Esta antologia reúne histórias de autores conhecidos no género, bem como de autores participantes no concurso do Fantasporto. Algumas histórias são muito boas, outras são razoáveis, o que dá ao conjunto um sentido pouco constante de qualidade. Ainda assim, é uma antologia recomendável por alguns dos bons contos que tem.

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147 – Can & Can’tankerous – Harlan Ellison – Após Deathbird stories estava à espera de histórias fortes e chocantes. Bastante menos corpóreas, as histórias desta antologia não me agradaram da mesma forma, ainda que tenha algumas muito memoráveis.

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148 – The Private Eye – Brian K. Vaughan – Uma excelente distopia futurística de cores garridas. Na realidade apresentada, a forma de interagir com a tecnologia mudou drasticamente quando as informações de todas as clouds foi tornada pública – desde fotos a históricos de navegação. A solução para o escãndalo global? Desligar a internet bem como todos os aparelhos relacionados e passar a usar máscaras para proteger a identidade de cada um.

Promoções antes da Black Friday

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Com descontos que podem ir até aos 50%, a promoção da FNAC disponibiliza vários livros da D. Quixote. Entre os livros em promoção podemos encontrar vários de Gabriel Garcia Marquez, Philip Roth ou Thomas Mann. O que me interessou? O primeiro volume da colecção Idade Média, organizada por Umberto Eco.

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Também na FNAC encontramos a promoção de Natal, com 40% em livros de Afonso Cruz (como os volumes da Enciclopédia da Estória Universal) ou em livros de Haruki Murakami (como Crónica do Pássaro de Corda, O Impiedoso país das maravilhas e do fim do mundo ou Kafka à beira-mar), ou 30% em livros como O Marciano de Andy Weir, os vários volumes das Crónicas de Gelo e Fogo de George R. R. Martin,

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Na Wook encontramos vários livros com 50% de desconto imediato, destacando-se os livros de Bernard Cornwell, Clube de Patifes de Dan Simmons, As Brumas de Avalon de Marion Zimmer Bradley, O Pistoleiro de Stephen King ou John Carter de Edgar Rice Burroughts,

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Aliciando com o “Até 50%”, a campanha da Bertrand parece-me a menos interessante, com descontos mínimos em Antigas e Novas Andanças do Demónio de Jorge de Sena ou Flores de Afonso Cruz, mas preços mais interessantes em Auto-da-fé de Elias Canetti, Os níveis da Vida de Julian Barnes ou O Homem que perseguia o tempo de Diane Setterfield,

Favoritos VII

Favoritos anteriores

  1. Ray Bradbury
  2. Colleen McCullough
  3. China Miéville
  4. Umberto Eco
  5. Amin Maalouf
  6. Ursula le Guin
  7. Neil Gaiman
  8. Guy Gavriel Kay
  9. Michal Ajvaz
  10. Station Eleven
  11. His Dark Materials
  12. The Preacher

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13 – Dino Buzzati

Apesar de O Deserto dos Tártaros ser o livro mais conhecido de Dino Buzzati, foi através de O Segredo do Bosque Velho que conheci o autor e é este, de todas as obras que dele li, aquele que mais apreciei. Utilizando elementos naturais humanizados bem como génios, contrasta a maldade de um homem que utiliza o vento como carrasco, com a magia do Bosque. São de realçar os detalhes fantásticos como a música feita propositadamente pelo vento usando o bosque como instrumento.

Este livro belíssimo, carregado de elementos fantásticos e até inocentes, contrasta com O Deserto dos Tártaros, um livro que gostei igualmente, mas que é implacável. Livro mais sólido e menos imaginativo, centra-se num homem destacado para um forte que se mente a si próprio quanto à data em que será substituído, criando gosto pela rotina, e abrindo espaço para um diálogo mais introspectivo.

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Se O Segredo do Bosque Velho e O Deserto dos Tártaros são histórias bastante diferentes, o mesmo se pode dizer de O Grande Retrato, uma história que se pode enquadrar na ficção científica, que apresenta um projecto em curso num local ermo (mas suficientemente perto de uma aldeia para gerar rumores) em que se cria um computador capaz de recolher dados do que o rodeia, com base em sensores que mimetizam os cinco sentidos.

Projecto interessante, não fosse o computador ter personalidade, mais especificamente o da mulher de um dos cientistas, fútil e caprichosa. Esta personalidade é incongruente com o objectivo para o qual foi construído, e gera lentamente um fantasmas tenebroso.

Os sete mensageiros, Pânico no Scala e A Derrocada da Baliverna constituem três compilações de contos que não apreciei na sua totalidade – alguns contos não me parecem histórias fechadas. Ainda assim possuem histórias memoráveis, com elementos fantásticos que se centram bastante no destino.

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14 – Shirley Jackson

A verdade é que li muito pouco desta autora. Para além do livro Sempre vivemos no castelo, li o The Lottery, um conto distópico brutal que me reavivou a memória do livro. Mais recentemente, recordei esta autora, com o destaque na última edição da revista Bang!.

O livro é excepcional, contendo fortes traços de malvadez, fobia e solidão. A história centra-se numa rapariga que vive no casarão da família, outrora enorme, mas da qual só restam três elementos: ela própria, a irmã e um tio. Encarregue de todas as tarefas e responsabilidades, é recebida na aldeia com olhares de soslaio e desconfiados nas suas custosas visitas.

A forma como desapareceu a família, ou as razões pelas quais a rapariga é assim recebida desconhecemos no início. A acção centra-se no ponto de vista da rapariga que vai sendo cada vez mais reclusa da casa, por sua própria iniciativa (ou fobia) e cujos pensamentos são pouco lineares e agradáveis.

Já o conto distópico consegue arrastar-se em detalhes de um ritual anual sem aborrecer o leitor, já que nos é dada uma perspectiva de mero observador, desconhecendo o que se encontra por detrás do nervosismo de algumas personagens. A tensão aumenta ao longo do conto, para terminar de uma forma brutal e horripilante.

Eis uma autora da qual ainda não li tudo o que existe publicado e que espero explorar nos próximos tempos.

Bang! N.º 19 – Não ficção

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Cada lançamento de um novo número da revista é uma celebração. De distribuição gratuita e impressão a cores, peca em formato apenas no grande tamanho da página que dificulta o transporte e a leitura em qualquer sítio que não seja a nossa casa. Mas passemos ao conteúdo. É de realçar o texto introdutório de George R. R. Martin à antologia recentemente publicada, Histórias de Aventureiros e Patifes, bem como o texto de João Seixas sobre Ray Bradbury. Encontramos, também, interessantes referências a Shirley Jackson e Lovecraft.

A revista inicia-se com uma introdução mais política de Safaa Dib, fruto dos tempos que ocorrem, relacionando esta temática com a ficção científica. A esta, segue-se o usual texto do editor Luís Corte Real sobre a colecção Bang! que auspicia boas novidades para os apreciadores de ficção científica: Annihilation de Jeff Vandermeer (Hooray), A Balada de Antel (vencedor do prémio Bang|) e a publicação de Terrarium de Luís Filipe Silva e João Barreiros numa nova edição revista. Ficou apenas a faltar a referência a uma data prevista para The Fifteen Lives of Harry August, livro que a editora chegou a anunciar o pré-lançamento para o retirar de imediato. Esperemos, então, um pouco mais.

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Uma das mais belas e simples capas de Annihilation

Ainda que me entusiasmem mais os lançamentos de ficção científica, não é de esquecer os próximos de fantasia, com a antologia, já publicada entretanto, Histórias de Aventureiros e Patifes, organizada por George R. R. Martin; ou The Witcher de Andrej Sapkowski. A estas futuras publicações seguem-se sugestões de outras obras, como o The Martian, ou o Estação Onze (um excelente lançamento da Editorial Presença).

A Arquitecturas da loucura em que Jorge Palinhos fala um pouco de cinema de horror (bem a propósito do Halloween) segue-se um texto de Fernando Ribeiro, vocalista dos Moonspell, Metais pesados. Ocupando uma página disserta sobre o snobismo da literatura dita séria em comparação com a literatura de género, escondida e marginalizada. Uma discussão que dá pano para muitas mangas – até porque quem se esconde da FC são essencialmente leitores de best-sellers que do género pouco ou nada sabem. Esta temática será novamente vislumbrada no artigo de João Seixas, em enquadramento distinto.

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A componente de não ficção continua com um bom artigo sobre Banda Desenhada por João Lameiras, sobre Simon du Fleuve, o herói da série de Claude Auclair, e com um artigo sobre cinema de horror de António Monteiro onde disserta sobretudo em torno do The Omen.

Todos adoram um patife é a próxima secção, o nome que foi dado para a transcrição do prefácio de Histórias de Aventureiros e Patifes, escrita por George R. R. Martin, um dos organizadores da antologia. Neste texto, George R. R. Martin aproveita para apresentar alguns bons vilões de cinema e de literatura que, decerto, farão o leitor procurar por alguns destes filmes e livros.

Apesar de não ser particularmente fã dos Iron Maiden (aprecio de algumas músicas, mas a globalidade da sua obra não corresponde aos meus gostos), achei interessante o artigo de Ricardo S. Amorim onde se destacam alguns dos temas literários integrados nos álbuns do grupo. Encontram-se assim referências tão variadas como Poe, Lovecraft ou C. S. Lewis, sobretudo de títulos de horror e ficção científica que terão sido aproveitados quer nas letras, quer nas capas.

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Seguem-se várias críticas a um dos mais recentes lançamentos fantásticos da Saída de Emergência, Rainha Vermelha de Victoria Aveyard, uma entrevista à autora e exposição de alguns factos e personagens que permitem introduzir à obra, cuja premissa exposta me recordou A Trilogia do Mágico Negro de Trudi Canavan (publicada em Portugal há alguns anos).

O Mythos Lovecraftiano nos jogos narrativos de Pedro Lisboa, debruça-se sobre um dos mestres do horror para dissertar sobre a influência nos vários meios que nos rodeiam, dando especial realce aos RPG’s.

De seguida, destaca-se o longo artigo sobre Ray Bradbury de João Seixas, O Futuro é hoje: alimentando as chamas, destruindo o cânone. Como não gostar de um artigo que, expondo alguns factos da vida do escritor, está carregado de referências às suas obras mais emblemáticas?

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Depois deste artigo, ponto algo da revista, os restantes surgem menos iluminados. O Trio Fantástico Carey, Durham e Hobb apresenta uma análise a três das sagas fantásticas que não me interessou o suficiente, o género de análise que possui variáveis como grau de paixão ou conflito que,  dissecando um pouco as séries, não é alto que goste de ler.

Figuras Clássicas do Terror traz-nos um conjunto interessante de ilustrações de monstros conhecidos, de diversos autores que referem um pouco sobre o método de criação da ilustração. Gostei particularmente do Olharapo e do Skeleton Army.

No final uma surpresa. A secção de Sugestões FNAC que já trouxe algumas referências insípidas, sugere agora Shirley Jackson, a autora de obras como Sempre vivemos no castelo ou The Lottery.

Em suma. Após 19 edições a Bang! continua de boa saúde e recomenda-se. Se considerarmos que a revista é gratuita, ainda mais. Notam-se novos nomes nos artigos, o que vai garantindo a introdução de novas ideias e conteúdos, mas nota-se, também, o aumento do conteúdo de propaganda às próprias obras da editora, Saída de Emergência. O que gostava que houvesse de diferente? Maior exposição do que se vai fazendo lá fora, e que quase não chega a Portugal.

Resumo de Leituras – Novembro de 2015 (2)

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129 – Trigger Warning – Neil Gaiman – Apesar de pouco coesa em género em conteúdo, formato ou tom, esta antologia é um lugar negro onde encontramos excelentes histórias, desde poemas fantásticos à reinvenção de alguns contos de fadas, passando por histórias de heróis conhecidos como Sherlock Holmes ou Dr. Who.

130 – Nighmare Magazine – Novembro de 2015 – Organizada por John Joseph Adams (responsável pela Lightspeed Magazine e por diversas e boas antologias), esta revista de ficção negra está longe de ser perfeita, apresentando histórias de boa qualidade, mas poucas, e uma secção de não ficção fraquita.

131 – A loja dos suicídios – Jean Teulé Destinado a um público mais juvenil é uma história engraçada sobre uma família cuja fonte de rendimentos advém de uma loja que vende tudo o que precisar para cometer um suicídio – boas e resistentes cordas para aguentar com o peso de uma pessoa suspensa pelo pescoço, rápidos e infalíveis venenos ou pedras para se atirar ao rio de uma ponte elevada. Tudo corre bem. Até nascer o filho mais novo que, ao contrário da restante família, não está constantemente deprimido.

132 – Saga Vol. 3Se tinha achado que o segundo volume era bastante mais calmo e menos interessante que o primeiro, este recupera em grande. Carregado de acção e com novas personagens, contem algumas reviravoltas drásticas e inesperadas que tornam a espera do próximo volume insuportável.

Outubro de 2015

Estranha, mas felizmente, este mês parecem abundar as críticas a livros de ficção científica, com destaque para os recentes Arranha-céus de J.G. Ballard e Estação onze de Emily St. John Mandel. É bom que assim seja – são dois dos mais recentes lançamentos do género em Portugal e, apesar de não terem sido particularmente anunciados como tal, alimenta alguma chama de esperança de ver fortalecer o género por cá.

Por outro lado, foram, também, várias as críticas a livros muito mais antigos e quase esquecidos como A Guerra Eterna de Joe Haldeman ou a antologia Com a cabeça na Lua.

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Lançamentos nacionais relevantes

O Papiro de César – R. Goscinny e A. Uderzo – Edições Asa;

Arranha-céus – J.G. Ballard – Elsinore;

Os últimos na terra – Robert C. O’Brien – Editorial Presença;

Os assaltos à Padaria – Haruki Murakami e Kat Menschik – Casa das letras;

– Colecção Marvel – Salvat;

Esquadrão da Luz – Peter Tomasi e Peter Snejbjerg – G Floy;

Saga Volume 3 – Brian Vaughan e Fiona Staples – G Floy;

Fatale Volume 3 – Ed Brubaker e Sean Phillips – G Floy;

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Críticas interessantes

Ficção científica

Stand on Zanzibar – John Brunner – Intergalacticrobot;

Arranha-céus – J.G. Ballard – Deus me Livro, As leituras do Corvo, Roda dos Livros;

The day of the Triffids – John Wyndham – Que a estante nos caia em cima;

O Marciano – Andy Weir – Letras sem fundo;

Comandante Serralves – vários autores – My very own lines;

Com a cabeça na Lua – vários autores – Leitora de fim-de-semana;

Solarpunk – vários autores – Nível Épico;

A Guerra Eterna – Joe Haldema – D’Magia;

Estação onze – Emily St. John Mandel – As leituras do Corvo, Viajar pela leitura;

The Hungry City Chronicles – Philip Reeve – Biblioteca mil;

Almanaque Steampunk – vários autores – Intergalacticrobot;

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Fantasia

Rainha Vermelha – Victoria Aveyard – Pedacinho literário;

A Terra das Lágrimas – Terry Goodkind – Deus me Livro;

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Banda desenhada

Demolidor: partes de um todo – David Mack – As Leituras do Pedro;

Living Will #1 – André Oliveira – Que a estante nos caia em cima;

The Walking Dead Vol.12 – Robert Kirkman, Charlie Adlard, Cliff Rathburn – aCalopsia;

Astérix e o Papiro de César – R. Goscinny e A. Uderzo – Leituras de BD, Máquina de escrever;

– Revista H-Alt 1 – aCalopsia;

Homem-aranha: regresso às origens – J. Michael Straczynski – As Leituras do Pedro;

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Outros

Lisboa triunfante – David Soares – My very own lines, Nuno Ferreira;

O livro dos seres imaginários – Jorge Luís Borges – Deus me Livro;

Sete minutos depois da meia-noite – Patrick Ness – Floresta de Livros;

A sombra sobre Lisboa – vários autores – Nuno Ferreira;

Sr. Bentley, O Enraba Passarinhos – Ágata Ramos Simões – My very own lines;

O feiticeiro e a bola de cristal – Stephen King – Nuno Ferreira;

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Outros artigos

– Graphic Novels, ou a banalização de uma denominação – Leituras de BD;

– Quarenta andares de caos – Máquina de escrever (sobre o recente livro do Ballard);

– O Super-homem já não é Clark Kent. E é camionista – Observador;

– O Futuro é Agora –  Revista Estante;

– À noite, no Gerês, quem quer andar pelos caminhos das bruxas – Público;

– Prémio Hernâni Cidade para obra de João Rogaciano – Cultura ao minuto;

– Anúncio do vencedor do Prémio Divergência 2015;

– Festa chama três mil visitantes a aldeia com 17 moradores – DN;

– O Porto tem três novas livrarias e todas elas diferentes – Público;

Eventos nacionais

– FOLIO – DN;

Ciclo de conversas – confesso que li;

– Alice 150 anos;

– Recordar os Esquecidos;

Resumos nacionais anteriores

Setembro 2015

Julho / Agosto 2015

Junho 2015

 

 

Das coisas que acho incríveis … (páginas de editoras)

Aqui vai um pequeno desabafo.

Das coisas que acho incríveis é não encontrar informação sobre um livro que tenho em mãos na página da editora. Nada, nem sequer um registozinho. É como se o livro não existisse e não tivesse sido publicado. Nem depois de fazer “próxima página” até ter calos no dedo. Sim, porque existem páginas de editoras sem a opção pesquisar. E como tal, é mais lento encontrar alguma coisa do que nos antigos registos de uma biblioteca.

E quando se encontra, mas ao invés de se ter uma entrada por livro, o que existe é um índice com um link para se ver só a capa, um link para se ver só a sinopse (em .pdf porque não dá para consultar sem descarregar um ficheiro). Já ouviram falar em informação integrada? Em facilidade de navegação? Quase parece que nos estão a fazer a nós um favor em sequer disponibilizarem alguma coisa.

Quando não destacam nem as suas próprias novidades, então? Maravilha. Para quê? Os livros vendem-se sozinhos, é atirá-los para o meio de um monte profundo e todos os possíveis leitores sabem por obra e graça que o livro apareceu e correm desalmadamente para o comprar. Mesmo quando nem a editora disponibiliza informação suficiente sobre ele.

Eventos: Inauguração Livraria Distopia

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Num dos locais mais privilegiados da cidade irá ser inaugurada, hoje, uma livraria de nome peculiar: Distopia. Esta nova livraria irá ter, para além de livros recentes, uma secção de usados e uma secção de livros em inglês.

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Mas não vendem só livros e não prevêm ter um papel passivo na venda de livros. Terão também música à venda, e prevê-se que dinamizem eventos literários como lançamentos, leituras infantis ou tertúlias temáticas.

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Curiosos? Eu estou. Para além de bem localizado, o espaço parece agradável e passarei por lá assim que tiver oportunidade. Para mais detalhes sobre o espaço e a sua localização exacta, podem consultar a página oficial.

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Lighspeed Magazine – Maio 2015

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Se a Lighspeed já era uma das minhas revistas de ficção especulativa favoritas por trazer boas histórias de ficção científica, fantástico e horror, esta preferência tem-se vincado ainda mais com os volumes mais recentes, organizados por John Joseph Adams, conhecido pelas excelentes antologias que constrói.

Esta edição começa, no entanto, com uma história irritante – Time Bomb Time de C.C. Finlay. Ainda que o conceito não seja original, a execução é original, mas estende-se por demasiado tempo: a possibilidade de voltar atrás no tempo e de refazer pequenos episódios. A história centra-se na primeira tentativa, sendo que o cientista que explora o novo engenho tenta conquistar a simpatia de uma colega, tendo várias versões da mesma conversa sobre a experiência que pretende fazer (mas que já está secretamente a realizar). É uma história inteligente mas que repete a premissa demasiadas vezes, sendo que, algumas versões da conversa pouco divergem e, às tantas, ficamos aliviados por finalmente assistirmos à conversa final.

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Imagem de Galen Dara, realizada especificamente para o conto Time Bomb Time na Lightspeed Magazine online, onde podem ler o conto (basta clicar na imagem)

O segundo conto, Goodnight Earth de Annie Bellet relembrou-me a história de Windup Girl, de Paolo Bacigalupi, quer pelo cenário (subida das águas pelo aquecimento global), quer pela origem. Este conto terá sido publicado no tríptico de contos apocalípticos, mais especificamente no volume The End Has Come, e apresenta dois contrabandistas que aceitam transportar um casal e seus três sobrinhos. Um dos contrabandistas estranha a postura das crianças e acaba por confirmar as suspeitas – tal como ele, as crianças são seres humanos alterados por nanobots, pequenas e eficientes armas de guerra. Ainda que soe incompleta (espero que exista a continuação da história no terceiro volume do tríptico) e possua poucas personagens e um cenário bastante restrito (um barco) consegue envolver o leitor.

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Em The Myth of Rain de Seanan McGuire é também explorado o tema apocalíptico. Com o aquecimento global aumentam as zonas desertas e os seres humanos (os ricos, claro) possuem agora um único local para onde se podem dirigir e tentar viver mais algum tempo em bom clima. Um grupo de biólogos tenta salvar os últimos espécimes da floresta resistente antes que a destruam para a construção de prédios – mas o trabalho que desenvolvem é quase impossível perante os prazos apertados. Fornecendo os detalhes suficientes para a compreensão da história, mas sem se alongar em demasia, consegue cativar o leitor e fornecer uma perspectiva dolorosa do impacto do aquecimento global. A história foi publicada, também, na recente antologia Loosed Upon the World.

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A próxima história, de 1993, é Ghost of the Fall de Sean Williams, o melhor conto apocalíptico do conjunto onde, a subida das águas em conjunto com uma guerra brutal, deixou um pequeno de seres humanos sobreviventes no topo dos maiores prédios. Uma geração depois, as águas são tóxicas e a comunidade persiste graças à chuva. Isolada, desconfiada de qualquer contacto possível com outras comunidades exteriores, está claramente em extinção. O grupo é pequeno, as mulheres são poucas, os nascimentos ainda inferiores, e as torres terão uma vida limitada. Ainda assim a comunidade tenta persistir, reactivando alguns elementos de tecnologia (como painéis solares). Excelente na apresentação da realidade apocalíptica e em centrá-la numa personagem que nunca conheceu o antes da guerra, desenvolve bem as poucas personagens com as quais tem de lidar e dá-nos um cenário pouco auspicioso de melhores dias.

A secção de fantasia começa com Sun’s East, Moon’s West de Merrie Haskell, um bom conto de fadas que cruza influências de contos de várias origens – desde a rapariga que transforma palha em oiro, a um deus-urso capaz de curar aves feridas, a um príncipe encantado preso por uma maldição tecida por uma ogre furiosa. O seguimento entre alguns episódios é, por vezes, forçado mas o príncipe amaldiçoado não é nenhum galã de cinema, antes um homem que, mesmo após quebrado o feitiço continua prepotente e egoísta, e a rapariga que tece oiro prefere matar dragões. São estas imperfeições nas personagens que distinguem o conto.

Mouth, de Helena Bell é mais um conto de horror que propriamente de fantasia. Começa quando uma menina resolve calar o irmão, bebé chorão, retirando-lhe a boca como que por magia, usando apenas as mãos. Sem perceber o que aconteceu os pais recorrem aos melhores médicos para realizar a reconstrução facial enquanto a verdadeira boca seca num guarda-jóias da menina. Esta capacidade de retirar, de forma indolor, pedaços de outras pessoas nunca a abandona. Com passagens muito arrepiantes mas sem um final conclusivo, eis um bom conto de terror fantástico.

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Breaking the spell de R.C. Loenen-Ruiz tem várias histórias entrelaçadas, com o intuito de explicar uma maldição de forma pouco convencional. Enquanto que, numa cave, uma menina descobre os pequenos mundos que o pai mantém sob redomas, num outro mundo uma menina questiona-se sobre um castelo nas nuvens onde dormirá uma princesa, aguardando o príncipe encantado. Ainda que funcione isoladamente, gostaria de ter lido uma versão mais longa da história onde seriam mais explicados os pequenos mundos na cave.

A secção de fantasia encerra com The Blood of a Dragon de Matthew Hughes, uma história que decorre no Universo fantástico de uma saga fantástica do autor, Tale of Henghis Hapthorn. Neste conto apresenta-se sucintamente a geração do mecanismo que controla esta realidade, um mecanismo criado por um poderoso mago que se alimenta da força de vontade das pessoas. Mesmo após a morte do mago o mecanismo persiste por possuir parte da sua essência. Este conto centra-se na destruição desse mecanismo. Coeso e desafiante, é um conto que consegue, no pouco espaço que tem, explicar o necessário do mundo onde ocorre para que o leitor consiga acompanhá-lo. Se há anos que estou interessada em ler esta saga fantástica, este conto veio ainda mais aguçar a curiosidade.

Segue-se a novela desta edição, The Mill de Paul di Filippo, uma história que foi publicada pela primeira vez em 1991 em Amazing Stories. Gostei tanto desta novela que acabei por lhe dedicar uma entrada separada no blogue. Com algumas semelhanças de premissa com The Carpet Makers de Andreas Eschbach, mas sem a sua estrutura fragmentada, apresenta-nos um mundo explorado por um Império intergaláctico cuja economia está estruturada em torno da confecção de tecidos. É de realçar a construção de personagens, que nos vão apresentando e convencendo das várias perspectivas, ainda que de forma inconsciente. O final possui um único defeito – não nos deixar vislumbrar mais do que se encontra por detrás do Império.

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Tal como noutras edições, segue-se uma componente que evito – a dos excertos, neste caso de The Water Knife de Paolo Bacigalupi e Magonia de Maria Dahvana Headley, e a das entrevistas. A componente das críticas possui sugestões interessantes (ainda que tenha gostado mais das apresentadas na Apex Magazine). Revision de Andrea Philipps encontra-se disponível apenas em formato ebook / POD parece conter uma ideia engraçada, mas que talvez se esgote em algo maior do que um conto, descrevendo a possibilidade de editar a realidade quando se edita uma espécie de enciclopédia online.

Amber in the Ashes de Sabaa Tahir parece ser uma leitura interessante para os próximos tempos. A crítica conseguiu despertar-me a atenção ao usar um isco demasiado fácil – uma das personagens principais faria com que Cersei Lannister parecesse uma mãe extremosa. A partir daqui são vários os factores que me interessaram, desde os elementos de mitologia árabe (como génios) ou a comparação com um livro excelente, City of Stairs.

Para fechar a edição encontra-se a galeria de Li Shuxing, o responsável pela capa, com várias imagens fascinantes pela sua complexidade.

Aquisições digitais (algumas gratuitas)

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Eis um conjunto de livros interessante por preço variável – Pague o que quiser. O género deste conjunto é a ficção científica, mas a que é escrita por mulheres. Ainda que a autoria feminina não seja o factor decisivo para ter adquirido o conjunto, os nomes que o compõem foram decisivos – Cat Rambo, Nancy Kress, Linda Nagata e Catherine Asaro. Do conjunto fazem parte muitos mais livros, mas apenas se pagarmos acima de um determinado limite e, neste caso, todos os que me interessavam, estavam abaixo. No mesmo site (StoryBundle) encontram conjuntos de aventura e banda desenhada.

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O conceito não é novo e StoryBundle não é o único site a utilizá-lo. No VODO podem encontrar outra oferta semelhante que reúne os três primeiros volumes de The Apex Book of World SciFi (colectâneas conhecidas por trazerem histórias de origem diversa) bem como uma subscrição (de um ano) da revista Apex.

stories for chip

Recentemente descobri o NetGalley, um site que permite às editoras disponibilizar cópias gratuitas a quem deseje escrever críticas ou a quem pertencer a livrarias. Apesar de ser portuguesa, resolvei inscrever-me e a verdade é que me são vários os livros que me foram disponibilizados. Entre eles, o excelente Collected Fiction de Hannu Rajaniemi, o peculiar The Very Best of Kate Elliott, ou o recentemente famoso Uprooted de Naomi Novik. Entre as cópias digitais que ainda tenho por ler encontra-se este Stories for Chip, bem como Falling in Love with Hominids de Nalo Hopkinson, ou The Collected Short Stories of Conrad Aiken.

Últimas aquisições

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Da Família de Valério Romão foi o livro que fiquei com vontade de ler depois de assistir ao lançamento. Tendo-me deslocado ao local por curiosidade em relação ao livro de Joana Bértholo, gostei bastante do conto que o autor leu – uma história negra com uma boa dose de ironia que me pareceu bem construída. Deixo aqui a sinopse:

Um dos mais desafiantes escritores da actualidade regressa com um conjunto de 11 contos, alguns deles anteriormente publicados em revistas como Grantaou Egoísta. Em estilo de grande crueza lírica, expande aqui  o  seu  universo  para  o  tema  omnipresente  da  família,  desenhando  com  inusitada  autenticidade extraordinárias personagens e ambientes apocalípticos.Na capa, um pequeno espelho, que o tempo e o uso riscarão, lembra que ninguém, nenhum dos incautos leitores, consegue escapar do retrato de família, uma qualquer família. «O nascimento do Rogério foi a coisa mais bonita a acontecer-nos enquanto casal, diria mesmo que o foi o momento pelo qual ambos esperávamos como se de um crisma se tratasse e ele viesse de frança, do céu, do bico de uma cegonha, cansada daqueles três quilos e oitocentos confirmar  finalmente  a  nossa  união,  por  não  podermos  nunca  mais,  desde  o  advento  do  cristianismo, sermos só e apenas dois: a unidade é a trindade, repetia-me a Marta, no lusco-fusco, quando esgotados  e satisfeitos de muitas formas distintas caíamos, um em cima do outro, fruta madura num alguidar de linho à espera do consolo da noite e do silêncio.»

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Aventuras de João Sem Medo de José Gomes Ferreira é um dos livros do Plano Nacional de Leitura, contando as aventuras fantásticas de um rapaz que deixa a sua aldeia para viver o mundo. Explorando conscientemente os clichés das lendas e dos contos de fadas, Aventuras de João Sem Medo permite uma dupla leitura das histórias que contem, uma mais inocente onde nos rimos da audácia de João Sem Medo, e uma segunda de crítica social e política, sob as mais variadas formas de estilo. Um livro extraordinário para jovens e graúdos que decerto agradará a muitos.

O próximo livro, Inventário do Pó, é então o mais recente lançamento de Joana Bértholo, autora cujo trabalho conheço apenas das publicações em parceria com outros autores, pela Prado. Baseando-se na obra de René Bértholo, a autora desenvolveu várias histórias ficcionais, dispondo-se o texto de acordo com o seu conteúdo, sempre em letras da cor do pó. Sim, todo o interior, letras ou imagens, possuem a mesma cor que a capa.

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Uma Mentira Mil Vezes Repetida de Manuel Jorge Marmelo é um daqueles livros que ando há anos para comprar, mas não tendo apanhado, até ao momento, uma promoção que tornasse o preço mais aliciante, me tenho inibido de adquirir. Recentemente, a FNAC lançou uma promoção com 30% de desconto em todos os livros. E aproveitei para adquirir. A história parece borgiana, mas apenas saberei quando o puder ler:

Para escapar ao anonimato de uma vida comum, à solidão da escrita e ao esquecimento dos futuros leitores, o narrador de “Uma Mentira Mil Vezes Repetida” inventou uma obra monumental, um autor – um judeu húngaro com uma vida aventurosa – e uma miríade de personagens e de histórias que narra entusiasticamente a quem ao pé dele se senta nos transportes públicos. Assim vai desfiando as andanças literárias de Marcos Sacatepequez e o seu singular destino, a desgraça do Homem-Zebra de Polvorosa, o caos postal de Granada, a maldição do marinheiro Albrecht e as memórias do velho Afonso Cão, amigo de Cassiano Consciência, advogado e proprietário do único exemplar conhecido de Cidade Conquistada, a obra-prima de Oscar Schidinski. Enquanto o autocarro se aproxima de Cedofeita, ou pára na rua do Bolhão, quem o escuta viaja do Belize a Budapeste, passando pelas Honduras, por estâncias alpinas, por Toulon ou por Lisboa. Mas se o nosso narrador não encontrou a glória – senão por breves momentos e na mente alheada de quem cumpre uma rotina – talvez tenha encontrado o amor. Ou será ele também inventado?

Apesar de Há Sempre Tempo Para Mais Nada ser apenas o segundo livro, Filipe Homem Fonseca não é um novato na escrita, sendo mais conhecido mais conhecido para os textos que escreve para a televisão ou para o teatro, escreveu também ficção num formato curto (relembro a participação na Antologia de Ficção Científica Fantasporto. A sinopse (que deixo abaixo) já me tinha despertado a curiosidade, mas acabei por aproveitar a tal promoção da FNAC.

O mundo anda faminto de qualquer coisa que não sabe o que é. Mãos estendidas, estômagos vazios, gente que morre à espera. “Há Sempre Tempo Para Mais Nada” é uma história de perda colectiva e individual, pombos e pilotos suicidas, mosquitos assassinos, macacos raivosos, e rostos sem corpo. A extinção pessoal de um viúvo, embalado numa dança de miséria irresistível que faz da distância um pormenor. Uma viagem de Lisboa a Varanasi, na Índia, terra de morte definitiva num tempo em que nem todas o são, onde o viúvo espera consumar, afundada no rio Ganges, a mais triste das despedidas.

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Do lado esquerdo, o resultado da mais recente parceria da Levoir com o Pùblico, uma colecção de banda desenhada em capa dura e a preço acessível. Do lado direito, um dos lançamentos da Image deste ano, Outcast. De ambiente negro, este volume inicia uma história misteriosa e inquietante onde a apatia da personagem principal, traumatizada por vários acontecimentos na infância, contagia o leitor, conferindo um sentimento de anestesia perante a violência de algumas cenas – talvez por ser mais subtil, e termos conhecimento dos acontecimentos sem necessariamente os visualizarmos, a sensação com que ficamos é a de que este primeiro volume é suficiente para intrigar, mas talvez não para viciar e cativar o leitor para os próximos. Deixo-vos a sinopse:

Kyle Barnes has been plagued by demonic possession all his life and now he needs answers. Unfortunately, what he uncovers along the way could bring about the end of life on Earth as we know it.

Aventuras de João Sem Medo – José Gomes Ferreira

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Enquadrado no Plano Nacional de Leitura, Aventuras de João sem medo é um excelente e surpreendente conjunto de histórias em torno de um rapaz que parte por terras encantadas, esperando todos os habituais clichés das aventuras com fadas e monstros com um espírito crítico que confere à narrativa um interessante aspecto cómico, muitas vezes em tom de comentário social ou político.

João sem medo nasceu na aldeia Chora-Que-Logo-Bebes, um lugar onde todos os habitantes passam os dias a chorar por tudo e por nada. Cansado desta forma de viver, João jurou não ter medo de nada (ou pelo menos não o mostrar) e decide-se a partir em aventura apesar dos receios generalizados em o deixar passar a fronteira.

É proibida a entrada a quem não andar espantado de existir

Com esta frase inicia-se a grande aventura de João que logo tem de fazer uma escolha entre o caminho a seguir: o asfaltado ou o de pedregulhos. O primeiro, caminho de fácil pavimento, conduz à felicidade, mas no final terá de perder a cabeça (literalmente). Já o outro prevê-se difícil, mas ao menos irá manter o cérebro no lugar.

Esta é apenas a primeira de muitas escolhas que João terá de fazer e que o irão conduzir por caminhos inusitados onde terá de demonstrar as suas características bondosas e a coragem – não de forma inocente. João espera todas estas provas, sabendo que fazem parte das grandes aventuras mágicas e vai fazendo pequenas tiradas irónicas ou insolentes:

O descabeçado, de cigarrilha na boca do estômago, expôs-lhe então com paciência burocrática:

– Ninguém pode seguir o caminho asfaltado que leva a Felicidade Completa sem se sujeitar a este programa bem óbvio. Primeiro: consentir que lhe cortem a cabeça para não pensar, não ter opinião nem criar piolhos ou ideias perigosas. Segundo e último: trazer nos pés e as mãos correntes de ouro…

João Sem Medo ouriçou-se numa reacção instintiva:

– Nunca! Bem se vê que não tens a cabeça no seu lugar.

(…)

– Deixá-lo. Prefiro tudo a viver sem cabeça. Nem calculas a falta que ela me faz.

Este episódio inicial demonstra facilmente a dupla leitura que a maioria destas aventuras permite, metáforas de um comentário social e político, muitas deles retratando aspectos do regime Salazarista. Entre príncipes que se julgam demasiado belos para contemplar, cidades viradas do avesso e fadas travestis, João Sem Medo vai resistindo a cada aventura até que se decide voltar a casa – mas só metade!