Eu, Assassino – Antonio Altarriba e Keko

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Um assassino comum é um homem que segue um modus operandi fixo e que, normalmente, deixa a sua assinatura nas vítimas. Ou recolhe troféus. No caso de Enrique Rodríguez, um professor de História de Arte, a alternância de métodos constitui a base dos crimes, considerando cada morte uma obra de arte.

Ainda que possam existir alguns elementos de improviso, cada assassinato é meticulosamente planeado, de acordo com as viagens a trabalho no decorrer da sua carreira académica. Os assassinatos podem ser brutais mas é nas interacções académicas que percebemos uma brutalidade mais refinada, em que as rivalidades passam facilmente do desprezo ao ódio e descobrimos que Enrique não é o único monstro.

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Apesar do casamento descendente, a carreira parece desenvolver-se em bom ritmo, assente nos estudos sob o título “Arte e crueldade”, uma temática que o fascina mas que encontra, entre os seus pares alguma repulsa. Mesmo assim acredita encontrar-se no bom caminho para o cargo de reitor – não fossem as amizades serem mais comprometedoras do que as rivalidades.

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Realçando o papel da violência e da crueldade na arte ao longo da história humana, Eu, Assassino apresenta uma perspectiva fria e calculista dos assassinatos, transparecendo a própria visão da personagem principal, em que os seres humanos com os quais se cruza têm essencialmente uma função utilitária na montagem da próxima obra, e o escorrer do sangue tem sobretudo uma função estética.

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A montagem a preto, branco e vermelho destaca, com sucesso, a componente estética dos crimes, criando páginas onde a brutalidade se alia à arte para fortalecer a visão do próprio assassino.

Eu, Assassino foi publicado em Portugal pela Arte de Autor.

Comentários a outras obras do autor

Resumo de Leituras – Julho de 2016 (5)

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177 – Eu, Assassino – Antonio Altarriba e Keko – Quando um psicopata é um professor de arte, tenta fazer, das suas vítimas, a próxima peça da sua exposição imaginária. Tal como na arte em que cada peça é única, a cada vítima corresponde um método diferente, acompanhado, por vezes, por elementos de improviso, mas quase sempre em cenários meticulosamente planeados. Para além desta faceta sangrenta, o professor tem de lidar com um meio académico que se revela implacável;

177 – Altemente Vol,1 – Mosi – Pequeno livro publicado pela ComicHeart, apresenta a primeira parte de um projecto artístico no qual a autora, conjuntamente com um grupo de colegas, durante o qual passaram duas semanas numa pequena aldeia no concelho de Loulé;

179 – Pyongyang – Guy Delisle – Qualquer distopia é arrepiante. Neste caso o arrepiante é saber que é uma sociedade real, um país que persiste semi isolado do resto do Mundo, criando a sua própria realidade. O tom bem humorado e descontraído torna o relato surreal, uma história de viagens em que não ocorre propriamente nenhum evento relevante, mas que se torna interessante pelos elementos que revela;

180 – Flowers for Algernon – Daniel Keyes Um homem de baixo QI mas esforçado e minimamente auto-suficiente é levado para um laboratório com o objectivo de realizar um tratamento inovador que lhe irá aumentar as capacidades cognitivas. A história vai sendo apresentada a partir do diário que é obrigado a apresentar à equipa científica. O despertar de novas capacidades não será tão pacífico e agradável quanto julga pois só agora percebe que aqueles que julgava amigos afinal se servem dele como palhaço, e finalmente recorda a família que o abandonou. Um livro excelente que, apesar de ter uma história previsível, se excede pelo lado humano;

Promoções: Cavalo de Ferro – Campanha de Verão

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Ainda está a decorrer a campanha da Cavalo de Ferro que coloca alguns títulos a 40% de desconto. Entre os 20 títulos escolhidos encontramos alguns fabulosos (outros também o serão, mas refiro apenas os que conheço):

a volta

 

Publicado originalmente em 1967 (quatro anos depois de O Jogo do Mundo – Rayuela), inédito até hoje me Portugal, A Volta ao dia em 80 Mundos, é uma obra de literatura total, uma espécie de enciclopédia pessoal do autor, que nela incluiu  imagens, contos, poesia, ensaios, comen­tários humorísticos e autobiográficos. Um conjunto de «alianças fulminantes», usando um termo do próprio, com efeitos de improvisação e de digressão ao longo de oitenta mundos, onde Jules Verne e o Jazz combinam harmoniosamente entre si. Uma das obras fundamentais e incontornáveis de Julio Cortázar.

sempre vivemos

Um dos meus livros favoritos, Sempre vivemos no castelo é uma obra dura, chocante com vários toques de demência espalhados na narrativa e um excelente e perturbante final:

Último romance publicado pela autora, considerado uma obra fundamental da literatura norte-americana, «Sempre vivemos no castelo» narra-nos a história da extravagante família Blackwood, ou do que dela restou. O cenário de fundo é uma pequena localidade do interior do Estados Unidos, num lugar onde nada se passa e em que a única actividade parece ser a de espiar os vizinhos.

Por entre dias rotineiros e tranquilos Merricat, uma jovem sonhadora, que acredita no sortilégio dos objectos e em palavras mágicas, vive em harmonia com a sua irmã Constance, com o seu tio Julian e com o seu gato Jonas. Até ao dia em que o primo Charles os resolve visitar. E num crescendo de tensão precipitado pelo desencadear inesperado dos acontecimentos, Merricat sabe que apenas ela poderá fazer tudo que se encontra ao seu alcance para proteger o seu pequeno mundo isolado.

juan rulfo

Ainda que não tenho lido Obra Reunida, Juan Rulfo é uma referência na literatura sul-americana que terá inspirado alguns dos mais conhecidos autores, um dos primeiros a utilizar um género de realismo mágico onde algumas regras do mundo real se suspendem:

Este livro oferece ao leitor português, num único volume, o conjunto da obra de Juan Rulfo. Os livros que o compõem, O Llano em Chamas (1953), Pedro Páramo (1955), e a novela póstuma O Galo de Ouro (1980), foram revistos tendo em conta a sua edição crítica mais recente.

o ultimo livro

Sendo Zoran Zivkovic um dos meus autores favoritos não poderia deixar de realçar a presença de um dos seus livros nesta promoção. Saindo novamente do formato em mosaico, O Último livro apresenta a investigação de vários crimes que se revelam fantásticos:

Algo de terrível está a acontecer na Livraria Papyrus! O senhor Todorović, um dos mais fiéis clientes, morreu inesperadamente, enquanto, sentado numa das poltronas da livraria, folheava tranquilamente um livro. Causa da morte: desconhecida. Vera Gavrilović, uma das proprietárias, está preocupada. Até porque este é apenas o início: a esta primeira morte sucede outra, e depois outra, e outra ainda. Todas elas sem motivo aparente. Este estranho caso parece talhado à medida do bibliófilo Inspector Dejan Lukić. Dejan, com a ajuda de Vera, dará início a uma desconcertante investigação, que se adensará cada vez mais, ao ponto de envolver a polícia secreta. Isto até se depararem com O último livro

Um romance brilhante, imaginativo, subtil e fascinante que conquistou os leitores de todo o mundo.

Eventos: Lançamento de Sobressaltos em Oeiras

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Sobressaltos é um volume com várias histórias de banda desenhada que foram expostas, pela primeira vez, numa sessão de Sustos às sextas. De acordo com a temática do evento são pequenas histórias de terror, contadas em duas pranchas, com estilos para todos os gostos, passando pelo terror psicológico, pelo divertido e pelo monstruoso.

Lançado pela primeira vez no Festival de Beja, vai haver novo evento de lançamento na FNAC de Oeiras, no próximo Sábado, dia 23 de Julho, pelas 21h30. Na sessão estarão presentes alguns dos autores: Osvaldo Medina, Álvaro Santos, Filipe Alves e Nuno Lourenço Rodrigues; bem como o coordenador do projecto José Hartvig de Freitas.

Últimas aquisições

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Passando por uma Bertrand e deparando-me com um volume de design peculiar (e instigada por uma amiga) lá trouxe mais um desterrado para casa – The Legend of Sleepy Hollow. O volume contém não só o mais conhecido conto do autor, mas também vários outros fantásticos.

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Os dois volumes da Antígona foram adquiridos na última promoção da FNAC de 20% em todos os livros. 3 Contos Fantásticos apresenta 3 histórias sombrias em que os elementos fantásticos são, também, de horror, numa espécie de ambiente mais gótico em que o horror se faz sentir, não pelos actos violentos (ainda que os possa haver) mas pelas circunstâncias e pela expectativa da sucessão de episódios que antevemos mas dos quais não conseguimos desviar o olhar.

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Muladona é um dos mais recentes lançamentos da Tartarus Press, uma editora que publica sobretudo horror, centrando-se em clássicos do género (ainda que publique, também, autores e obras recentes, como o aclamado The Loney). Este Muladona apresenta-nos a cidade do Texas em plena Febre Espanhola, no final da Primeira Guerra Mundial. Mas nenhum destes eventos é o causador do horror – antes as visitas de uma alma condenada que, todas as noites obriga um rapaz a ouvir histórias horríveis.

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Depois de V de Vingança, estes são os três volumes que se seguiram na colecção Novela Gráfica de 2016. Dos três Presas fáceis foi aquele ao qual não consegui resistir uma imediata leitura e deparei-me com uma excelente obra, com o tom peculiar de Miguelanxo Prado, aqui mais contido em humor mas sem poupar a densa crítica em que constrói a investigação de um crime que tem sabor a justiça.

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À esquerda encontramos um dos volumes da colecção Graphic Novels (que espero atacar em breve) enquanto à direita encontramos A vida oculta de Fernando Pessoa, uma versão alternativa da vida do escritor onde os heterónimos ganham um significado sobrenatural.

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Les Techonoperes contém, num só, os quatro primeiros volumes de uma saga de aspecto futurístico à qual não consegui escapar. Este vai ser outro de leitura bem lenta (o francês não é uma língua que pratique). Eu, Assassino é um dos mais recentes livros de Altarriba publicado em Portugal pela Arte de Autor. Já comecei a ler e pelo que vejo é um livro sombrio em que um académico de artes faz, da morte, do homicídio, a sua peça artística.

A vida oculta de Fernando Pessoa – André F. Morgado e Alexandre Leoni

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Os heterónimos de Fernando Pessoa já deram azo a muitas e diversas teorias sobre estas diferentes personagens sob o nome das quais escrevia expressando estilos e pontos de vista bem diferentes. Em A Vida Oculta de Fernando Pessoa os heterónimos têm uma origem e explicação sobrenaturais.

Tudo começou na infância, quando o pai faleceu. Foi aí que tomou conhecimento de uma sociedade secreta responsável por eliminar o mal que grassa infectando homens e mulheres que devem ser eliminados antes de se transformarem em seres acéfalos e perigosos.

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Conhecendo cada pessoa antes de a eliminar, Fernando Pessoa encontra nos heterónimos uma forma de se expiar, e de honrar a pessoa, transmitindo para a escrita, a filosofia de cada um dos que eliminou. Assim se explicam as tão diferentes perspectivas que se apresentam em cada texto.

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Melancólico e sombrio, A vida oculta de Fernando Pessoa apresenta uma perspectiva engraçada e sobrenatural do escritor que entra, lentamente, numa espiral de culpa e depressão. Acompanhando estes sentimentos, cada vez mais fortes, encontramos os episódios que progressivamente deixam de conter insinuações e referências à doença para passar a apresentar episódios cada vez mais demonstrativos.

Resumo de Leituras – Julho de 2016 (4)

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173 – Presas fáceis – Miguelanxo Prado Se Miguelanxo Prado consegue retratar, de forma divinal as caricaturas sociais expondo diversos episódios irónicos numa construção em mosaico ou em camadas, esta capacidade torna-se dura crítica numa história muito humana onde explora uma situação condenável à qual não foram atribuídas culpas palpáveis – a quebra de confiança no sistema bancário, a falha das entidades reguladoras, as indemnizações milionárias não para quem foi vítima, mas para quem foi incompetente;

174 – Breakfast of champions – Kurt Vonnegut – Um retrato, por vezes demasiado verdadeiro (e duro na forma como expõe), da mentalidade americana, carregado de curtos episódios cómicos e mirabolantes, onde um autor de ficção científica apenas vê os seus contos publicados em revistas pornográficas, o autor participa quase como personagem (mas consciente do seu poder sobre as restantes), um empresário sofre de doença mental e hostiliza (brutaliza) todos os que encontra, ou um profissional de saúde aliena-se dos americanos enquanto pessoas… Não achei que do ponto de vista narrativo fosse excepcional (pouco acontece) mas consegue ter as melhores afirmações sobre os americanos;

175 – Inferno – August Strindberg – Esqueçam o Inferno enquanto concepção religiosa e eterna, mas fiquem com o tormento. Em Inferno o autor descreve o seu próprio – as insónias, a fobia da perseguição, a crença na sua grandiosidade científica, a alienação para com os que o rodeiam. August Strindberg espelha os problemas mentais que se depara após a separação da mulher que o levam à miséria apesar da produção artística que lhe podia ter concedido alguma estabilidade financeira;

176 – Lisa – Le train  des orphélins Vol.3 – Philippe Charlot e Xavier Fourquemin – O terceiro volume centra-se em dois dos órfãos que, antecipando um futuro negro na terriola em que foram adoptados, fogem – o pequeno rapaz em busca do irmão mais velho, a jovem tentando passar despercebida para evitar abusos. Este é o primeiro volume de um ciclo, sendo que cada ciclo apresenta a história, em simultâneo, de duas personagens. Ainda que esteja a ler em francês (logo mais lentamente) pretendo ler o volume seguinte nos próximos dias.

Eventos: Sci-FI LX

Robots, viagens no espaço, impressões 3D ! Um evento para qualquer geek digno desse nome – É já este fim-de-semana que decorre o maior evento em Portugal dedicado exclusivamente à ficção científica, seja sob a forma cinematográfica, sejam palestras e workshops sobre os mais diversos (e futurísticos) temas.

Contando com um espaço comercial (onde encontramos a Bookshop Bivar, a Kingpin Books, e a Imaginauta, entre outros) e exposições (sobretudo de banda desenhada) vamos ter, também oportunidade de assistir a um duelo steampunk ou a impressões 3D.

a vida oculta

Para visualizarem todas as actividades inerentes ao Sci-fi LX podem consultar a página oficial, enquanto que aqui irei falar daquelas que me despertam mais interesse. Entre elas estão, claro, as exposições de banda desenhada, com especial destaque para Carlos Pedro, Miguel Montenegro, Ricardo Venâncio ou H-alt. De realçar que estes autores estarão num painel a decorrer pelas 19h00 de Sábado e que decorrerá uma sessão de autógrafos de A Vida Oculta de Fernando Pessoa com André Morgado.

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Entre a apresentação do Projecto Mensageiros das Estrelas (que tem trazido alguns autores de ficção científica a Portugal como Geoff Ryman) , encontramos palestras sobre Viagens no tempo (a necessidade de viver além do presente), a ficção científica em videojogos, FC em Universo Transnacional (com destaque para a presença de Luís Filipe Silva e Teresa Botelho) e zombies.

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Para actividades mais interactivas temos Impressões em 3D (TIC em 3D) durante os dois dias, crochet (nada como um Yoda de crochet), pintura, duelos, jogos de tabuleiro, cosplay ou torneios de robots.

Claro que não falei de muita coisa, apenas das que mais me interessavam. Há vários eventos temporalmente sobrepostos pelo que se não vos interessar algo em particular podem aproveitar a restante programação nos outros espaços do evento.

3 contos fantásticos – Ludwig Tieck

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Este volume, publicado pela Antígona, reúne três histórias de fantasia negra bastante distintas em ambiente e circunstâncias mas onde reina a sombra, seja no formato físico, seja no formato psicológico.

No primeiro conto as acções do passado assombram o presente e o futuro de um casal  que, para lidar com a culpa, acaba por se enveredar em mais desgraças. Aqui os elementos fantásticos dispõem-se em torno de uma bruxa que acolhe uma criança fugida a troco da lida da casa quando se ausenta e deixa para trás as suas riquezas.

Já o segundo tem uma narrativa bastante colada aos contos de fadas em que uma criança, aliciada pela beleza e alegria destes seres, permanece por breve momentos. Quando retorna ao seu mundo, fazendo uma promessa para nunca falar sobre as fadas, decorreram já 7 anos.

No último conto é o amor entre dois jovens que impulsiona a desgraça. O homem, abastado, viaja com um amigo que apenas se quer divertir, de ocupações breves e mente saltitante. Zangando-se pela pouca atenção recebida pelo amigo, permanece em casa aspirando a visão da sua amada numa casa próxima. Mas o que acaba por ver é a materialização de um pesadelo que irá assombrar a sua restante existência.

Bem escritos, de tom pausado, estes contos contém aquele ambiente clássico das histórias fantásticas com pequenos detalhes de horror utilizados para explorar as fraquezas humanas sem grandes cenários de violência ou reviravoltas mirabolantes. Aliás, dir-se-ia que, no seguimento da história, os elementos de horror são quase previsíveis mas, nem por isso, retiram força à história.

Bang! #20

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O número 20 da próxima Bang! já tem capa – e é alusiva ao Annihilation (publicado por cá como Aniquilação) de Jeff Vandermeer, o grande lançamento de ficção científica de 2016 até ao momento, pela Saída de Emergência. Não será apenas a capa que possui aspecto gráfico alusivo ao livro, mas também o seu interior.

A revista será distribuída este mês, a partid de dia 19, pelas lojas FNAC – mas por enquanto resta-nos roer as unhas à espera.

 

Ficção especulativa em Junho de 2016

Por vários motivos (entre os quais o tempo) esta rubrica tem estado ausente do blogue há alguns meses. Não que tenha desistido. A última vez que lhe peguei comecei um resumo de três meses que falhei em gravar antes de fechar o browser. Esqueçamos o que está para trás – o melhor é começar novamente a partir do último mês. A novidade é a separação da banda desenhada (uma área que consegue ter muitos mais lançamentos, críticas e eventos num mês que a ficção especulativa num ano). Espero fazer depois um só sobre banda desenhada.

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Lançamentos nacionais relevantes

Este mês foi forte em publicação, em parte por conta da Feira do Livro de Lisboa, local onde ocorreu o lançamento de alguns destes livros:

Cinzas de um novo Mundo – Rafael Loureiro – Editorial Presença;

O Livro – Zoran Zivkovic – Cavalo de Ferro;

A Canção de Shannara – Terry Brooks – Saída de Emergência;

2396 – Criada para Matar – Catarina Marçal Pereira – Verso da Kapa;

Crash – J. G. Ballard – Elsinore;

Histórias de Vigaristas e canalhas – vários autores – Saída de Emergência;

A Rapariga que sabia demais – M. R. Carey – Nuvem de tinta;

Ouve a canção do vento e Fliper, 1973 – Haruki Murakami;

Os 100: Regresso a Casa – Kass Morgan – Topseller;

Illuminae – Amie Kaufman e Jay Kristoff – Nuvem de Letras;

Terra Fresca – João Leal – Quetzal editores;

Críticas interessantes

Este mês marca o regresso do Inner Space com um comentário a um livro português!

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Ficção científica

Portugal, e o futuro – Manuel da Silva Ramos – Inner Space;

Lembranças da Terra – Ângelo Brea – Intergalacticrobot;

A História de uma Serva – Margaret Atwood – Bloco de Devaneios;

The Water Knife – Paolo Bacigalupi – Floresta de Livros;

Cinzas de um novo mundo – Rafael Loureiro – Uma Biblioteca em construção;

O restaurante no fim do Universo – Douglas Adams – A Lâmpada Mágica;

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Fantasia

Antigas e Novas Andanças do Demónio – Jorge de Sena – Intergalacticrobot;

Alex 9: A Magia dos Ventos – Bruno Martins Soares – A Lâmpada Mágica;

Príncipe dos Espinhos – Trilogia dos Espinhos – Nuno Ferreira | Uma biblioteca em construção;

O trono dos crânios – Peter V. Brett – Leituras do Fiacha;

Uprooted – Naomi Novik – Leitora de fim-de-semana – e eu que pensava que era a única a ter achado que a autora se tinha perdido a meio da história;

O Cisne Selvagem e outros contos – Michael Cunningham – Máquina de Escrever;

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Outras obras

A Colecção Privada de Acácio Nobre – Patrícia Portela – Bibliotecário de Babel | Deus me Livro | Cadeirão Voltaire;

O Livro – Zoran Zivkovic – A Roda dos Livros;

Illuminae – Amie Kaufman e Jay Kristoff – Pedacinho literário | Uma biblioteca em construção;

O escritor-fantasma – Zoran Zivkovic – A Roda dos Livros;

Outros artigos

– +18: Um brevíssimo update – Bladerunner;

Ficção científica na RTP (Carlos Silva e Inês Montenegro);

– Conversa com Zoran Zivkovic (Parte 1 | Parte 2)

– Qual o futuro dos livros – Dinheiro vivo;

– Frenesi – um pavilhão de tesouros na Feira do Livro de Lisboa – O Corvo;

– É um pecado maior não ler um livro do que o roubar – Diário de Notícias;

– Escorraçar o diabo com a galinha preta e o banho santo – Público;

Eventos nacionais

Recordar os Esquecidos;

Zoran Zivkovic em Lisboa;

Os Marcianos somos nós na Feira do Livro;

Devoradores de Livros.

Resumo de Leituras – Julho de 2016 (1)

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157 – 161 – Living Will 1-5 – André Oliveira, Joana Afonso e Pedro SerpaA história centra-se num velhote que, tendo perdido todos os que criavam sentido na sua vida, se decide a tentar remendar o passado e reatar amizades. Se nalguns casos encontra a expiação por acções passadas, noutros encontra rancor e aprofunda memórias negativas. Uma história que, não sendo original, consegue gerar empatia e interesse;

162 – Thimblestar – M. J. WestleyA grande aventura de uma pequena fada que partiu em demanda para conseguir um ingrediente que confere, aos da sua espécie, a invisibilidade. Se a história já reflecte o quão estranho e assustador lhe parece o Mundo, a sombra adensa-se com o tom shakesperiano e as rimas e auspícios de desgraçadas várias;

163 – Escavação – Andrei Platonov – Negra distopia alusiva à luta de classes que toda a diferença quer eliminar e que acaba por sugar todos os que investem as suas energias em projectos irrealistas de objectivos demasiado distantes;

164 – The Wolves of Willloughby Chase – Joan Aiken  – História juvenil em Universo alternativo que começa por utilizar bem a premissa que distingue esse Mundo, para a ignorar quase completamente decorridos os episódios iniciais. Com alguns detalhes sombrios, mas não em demasia, consegue dosear a condescendência;

Últimas aquisições

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Joan Aiken é um daqueles raros casos em que toda a família (ou quase) é composta por famosos escritores, começando com o pai, Conrad Aiken (vencedor do Pullitzer). Talvez por isso nunca chegou a iniciar os estudos universitários, tendo uma das suas histórias aceites para publicação logo aos 16 anos. As histórias que produziu são sobretudo juvenis de história alternativa e ganhou diversos prémios como o Edgar Allan Poe em 1972.

Desta autora bastante conceituada optei por pegar num dos seus livros mais conhecidos, The Wolves of Willoughby Chase que decorre numa Inglaterra alternativa do início do século XIX onde os lobos da Europa e da Rússia migraram aos milhares para Inglaterra.

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À esquerda encontra-se The Guns of Ivrea, ganho num dos últimos passatempos do SF Signal antes de fechar portas. Primeiro volume de uma saga fantástica, envolve ladrões, mercenários, piratas e monges numa grande conspiração religiosa num mundo fantástico que, pela descrição, me parece de estilo Medieval.

No último Recordar os Esquecidos saí com pelo menos dois livros que pretendia adquirir: Com a arma de Bogart e De Moscovo a Petuchki (já tenho a obra conjunta de Juan Rulfo publicada pela Cavalo de Ferro bem como Uma conspiração de estúpidos por ler). Apenas o primeiro se encontrava disponível na Almedina.

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A nova colecção RTP tem a vantagem de apresentar livros a preço excelente em edições de capa dura e de aspecto gráfico simples mas eficaz. Não tendo, ainda, lido qualquer livro de Mario Vargas Llosa, corri a adquirir este pelos motivos anteriores. Já Inferno de August Strindberg foi dos poucos livros que me apeteceu ler pelas referências de Biblioteca de Pedro Mexia.

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Para quem gosta de ler, livros sobre livros são perigosos. Pelo menos para a carteira. Este Auto-de-fé e Mistérios, ambos da Cavalo de Ferro, são dois livros que me ficaram na cabeça depois de ler Bibliotecas cheias da fantasmas. O autor fala com tal entusiasmo dos livros que foi impossível ficar indiferente.

Por último, deixo-vos dois volumes da colecção da Salvat, um deles, um dos mais esperados, Eternos, ou não fosse de Neil Gaiman.

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À espera de … (lançamentos internacionais)

Eis alguns livros para os próximos tempos que me entusiasmam!

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Enquanto que, em Portugal, Zoran Zivkovic está a ser lentamente publicado pela Cavalo de Ferro (em belíssimas edições), no mundo anglo-saxónico uma nova editora, a Cadmus Press, tem planeada a republicação de todos os seus livros ficcionais (21). O primeiro será The Fiver Wonders of the Danube, previsto para finais de Julho / Agosto. Deixo-vos a capa, bem como a sinopse:

On five bridges over the Danube, five strange and remarkable tales are told: tales of the sacrifices that are made for Art. For the painter, the sculptor, the writer and the composer, creation is inextricably entwined with violence, suffering and the darkest reaches of the psyche, and the bridge to enlightenment is the hardest of all to cross. Yet through the innocence of a dog all can be redeemed, in the miraculous climax of this complex and exotic fable.

Perhaps his finest work to date, The Five Wonders of the Danube is another of his famous “mosaic” novels, cleverly weaving multiple narrative threads into a tapestry of surrealism, reaching a magnificent conclusion in the final tale. Readers eager for more of his unique stories, combining simplicity of language and structure with thought-provoking explorations of life and death and reality will reread this one again and again.

the big book

Finalmente com capa para alimentar a expectativa, The Big Book of Science Fiction, organizado por Ann e Jeff Vandermeer, reúne histórias de ficção científica publicadas durante o século XX de 29 países diferentes. Entre os autores encontramos alguns clássicos (se olharem para a capa só encontramos referências sonantes) mas, também, e ainda mais interessante, autores menos conhecidos na publicação anglosaxónica (com autores japoneses, mexicanos, franceses, russos, brasileiros, ucranianos, finlandeses… ). Podem encontrar uma lista completa no iO9.

how to talk

Quem me conhece sabe que, de há muitos anos, qualquer coisa que venha de Neil Gaiman é de leitura obrigatória. Então uma parceria com Fábio Moon e Gabril Bá para criar uma banda desenhada entra directamente para o topo da lista de futuras aquisições:

Two teenage boys are in for a tremendous shock when they crash a party where the girls are far more than they appear!

jerusalem

Outro autor de leitura obrigatória é Alan Moore, criador de livros como From Hell, V de Vingança (publicado recentemente em português), ou Watchmen. Jerusalem é a sua próxima criação:

n the half a square mile of decay and demolition that was England’s Saxon capital, eternity is loitering between the firetrap tower blocks. Embedded in the grubby amber of the district’s narrative among its saints, kings, prostitutes, and derelicts a different kind of human time is happening.

An opulent mythology for those without a pot to p*ss in, through the labyrinthine streets and pages of JERUSALEM tread ghosts that sing of wealth and poverty; of Africa, and hymns, and our threadbare millennium. They discuss English as a visionary language from John Bunyan to James Joyce, hold forth on the illusion of mortality post-Einstein and insist upon the meanest slum as Blake’s eternal holy city.

Fierce in its imagining and stupefying in its scope, JERUSALEM is the tale of everything, told from a vanished gutter.

tales from the darkside

Depois de Locke & Key, Tales from the Darkside é o novo lançamento da parceria Joe Hill e Gabriel Rodriguez. Publicado antes apenas como um conjunto de histórias foi adaptado para banda desenhada:

Joe Hill’s nerve-shredding re-imagining of Tales from the Darkside never made it to your TV set…but the dead are restless and refuse to stay buried! This summer, IDW releases DARKSIDE, a four-issue comic-book adaptation of the episodes written by Hill and illustrated here by Locke & Key co-creator Gabriel Rodriguez! Three stories of the macabre and malevolent! One coulda-been, shoulda-been TV epic on paper with pictures that don’t move! Step out of the warm, sunlit world you think of as reality and get ready to take a chilling walk… on the DARKSIDE.

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Depois de ter adorado The Other City e The Golden Age de Michal Ajvaz, ansiava há muito por novo livro. Muitos anos depois (seis parece uma eternidade) eis finalmente novo trabalho do autor:

In a junkyard on the outskirts of Prague, a painter stumbles across a mysterious wooden object. As he begins to notice the object s strange shape reproduced in various places around the city, he realizes that it holds the key to uncovering the truth about the recent disappearance of a young girl. His attempts to understand the meaning of the object bring him into contact with an array of characters, and the stories they tell him widen the vortex of uncertainty that the object has opened. Will the increasingly intricate web of clues eventually lead him to the truth? “Empty Streets” is both a thrilling fantasy and a philosophical meditation on the search for meaning in modern life.”

Resumo de Leituras – Junho de 2016 (6)

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153 – Alias Vol.1 – Bendis e Gaydos – sem apresentar imagens deslumbrantes, Alias consegue surpreender pela envolvência que cria a partir de um cenário quase cliché de uma mulher que, dedicando-se à profissão de detective, apresenta todas as características típicas da profissão – melancolia e alcoolismo. O que ultrapassa estas características base e torna a história interessante são os escassos super poderes que a tornam mais do que um ser humano normal sem a incluir nos super heróis típicos, a baixa auto-estima, e o agir correctamente por mais desesperada que pareça a situação;

154 – Realms – 2 – Vários – esta antologia reúne vários contos que foram publicados na Clarkesworld Magazine entre 2009 e 2010. De qualidade variável, encontramos várias histórias banais bem como outras excelentes, originais e interessante – muita história alternativa, humor negro peculiar e muitas referências literárias;

155 – Gentleman – André Oliveira e Ricardo Reis – Gostei do ambiente apocalíptico onde se denotam as características típicas: algum desprendimento e algum desespero onde a personagem principal age violenta e correctamente. Infelizmente, até pelo tamanho do livro, a sensação que fica é a de termos assistido a um episódio de algo maior e não propriamente de termos lido uma história completa;

156 – Borda d’água – Miguel Rocha – O autor parece ter captado, nesta pequena história, o sentido de pobreza mental: miúdos que andam na rua fazendo tropelias, sem respeitar quem quer que seja, temendo apenas os seus pais de quem se mostram menos temerários em frente aos amigos. A preto e branco, apresenta o traço reconhecível de Beterraba e alguma da mesma perspectiva fechada demonstrada pelas personagens.

Thimblestar – M. J. Westley

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Esta minha recente leitura de fantasia foi recomendada por João Barreiros. Estranho, dizem vocês? É que, para quem conhece o escritor, referências a fantasias fofinhas com fadas e seres iluminados não lhe são habituais.

E claro, nem esta é uma leitura de fantasia típica, fofinha e juvenil. Muito pelo contrário. O tom é negro, quase catastrófico, pesado em auspícios de desgraças várias, e escrito como se de um livro de Shakespeare se tratasse, numa linguagem clássica de trabalhosa leitura.

A personagem principal é uma fada – uma jovem criatura que parte em demanda para comprar folhas de chá que conferem, à sua espécie, a invisibilidade. Ser pequeno e frágil, sem a protecção das folhas percepciona o Mundo como um lugar ainda mais ameaçador e difícil de navegar, entre o medo e a apreensão por se encontrar longe da família e por lugares desconhecidos.

Pelo caminho encontra várias outras criaturas que se revelam, ou vítimas de alguma desgraça natural (o jogo da presa e do predador é constante na Natureza) ou doidas varridas discorrendo em rimas e auspícios duvidosos, falando em obstáculos duvidosos ou usando a voz do falecido pai.

Entre episódios horríveis e outros simplesmente estranhos (mas não menos tenebrosos), a fada vai contando a sua demanda em busca de umas meras folhas de chá, enfrentando as mais diversas e complicadas situações. Uma leitura engraçada, lenta por conta das expressões shakesperianas, mas interessante pela perspectiva.

Destaque: Colecção de Clássicos Alêtheia

Colecção de clássicos aletheia

A Colecção de Clássicos Alêtheia destaca-se por conter novas edições de vários clássicos de ficção especulativa (fantástico, ficção científica e horror) com capas bastante aliciantes. Encontramos, portanto, nesta colecção obras como:

metamorfose

A Metamorfose é a mais célebre novela de Franz Kafka e uma das mais importantes de toda a história da literatura. O texto coloca o leitor diante de Gregor Samsa, transformado em inseto monstruoso. A partir daí, a história é narrada com um realismo inesperado que associa o inverosímil e o sentido de humor ao que é trágico, grotesco e cruel na condição humana — tudo no estilo transparente e perfeito desse mestre inconfundível da ficção universal.

A ILHA do dr

Em 1887, o navio Lady Vain naufraga no Pacífico. À deriva e sem esperanças de sobreviver em alto mar, Charles Prendick é resgatado por um navio, chefiado pelo doutor Montgomery, com uma missão invulgar: levar algumas espécies de animais selvagens para uma pequena ilha do Pacífico. Ainda debilitado, Prendick é obrigado a desembarcar na ilha, onde conhece a estranha figura do dr. Moreau, um cientista que, exilado em consequência de controversas pesquisas em Inglaterra, realiza experiências macabras com animais.

frankenstein

Romance gótico visionário, esta obra-prima de Mary Shelley é um dos grandes marcos da literatura de ficção científica.

Frankenstein conta a história de Victor Frankenstein, cientista obcecado com a descoberta do segredo da criação da vida que se envolve no jogo dos deuses quando, a partir de matéria inanimada, constrói um ser pensante. As consequências da sua criação provocam, ainda hoje, uma profunda reflexão sobre o que significa ser humano, qual a origem e sentido da vida e que responsabilidades decorrem das nossas ações, desde as mais espontâneas, como a de amar, às mais complexas, como a de criar.

contos de grimm

Desde há dois séculos, as histórias de magia e de fantásticas personagens recolhidas pelos irmãos Grimm têm sido parte do que as crianças — e os adultos — aprendem sobre as vicissitudes do mundo real. Cinderela, Branca de Neve, Hansel e Gretel e Capuchinho Vermelhos são apenas algumas das dezenas de personagens inesquecíveis que figuram nestes contos e dos quais se apresentam nesta obra que a Alêtheia agora edita uma seleção.

 

fantasmas

O Fantasma de Canterville e Outras Histórias é um volume que reúne três dos mais populares contos do muito admirado e controverso Oscar Wilde. São histórias cuja originalidade, sentido de humor e rumos surpreendentes nos conduzem a um mundo de beleza e arte.

coracao de cao

Uma sátira mordaz ao «homem novo» soviético, Coração de Cão, escrito em 1925, apenas pôde ser publicado na União Soviética em 1987, com a perestroika.
Um eminente cientista, especializado em rejuvenescimento humano, enceta uma experiência a um cão vadio das ruas de Moscovo, Charik, depois de o levar para o seu apartamento e ganhar a sua confiança. O respeitável professor transplanta-lhe a hipófise e testículos de um indivíduo acabado de morrer, e o resultado é inesperado: o cão transforma-se em homem, mas um da pior espécie – arrogante, bêbado, desagradável, apoiante do proletariado, que se passou a chamar Poligraf Poligrafovitch Charikov. E assim o professor vê-se perseguido por todo o género de comités e comissões estatais e proletárias que não suportava, deslumbrados com o cão que se transformara em homem numa experiência de laboratório.

dom casmurro

História clássica de amor e ciúme, em Dom Casmurro é narrada a história de Bento e do seu amor de sempre, Capitu. Os dois ultrapassam a relutância que os pais têm na sua união, mas os ciúmes de Bento levam-no a suspeitar que o filho do casal não é dele. Apesar da trama linear, o narrador joga com as expectativas do leitor e comenta a estrutura da história, esbatendo a linha entre ficção e realidade de uma forma bastante atual.

Facas – Valério Romão

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Facas é um livro minúsculo, não chega a ultrapassar o tamanho da minha mão, mas tal como não devemos julgar os livros pelas capas, também não o devemos fazer pelo tamanho. Apesar de pequeno e curto, é um livro que consegue satisfazer na sua totalidade, entregando, em três contos, histórias fortes e sangrentas que ora descem à decadência total do ser humano, ora ascendem a um espírito irónico mas não menos violento, com pequenos elementos surreais.

Facas na solidão é uma das histórias que mais explora o lado negro do ser humano – o pai aleijado assiste impotente ao adultério cometido diariamente pela esposa, à vista de todos, encontrando no filho um objectivo para a vida degradada e degradante que lhe resta. Talvez pela passividade do pai, talvez pelas actividades indiscretas da mãe, o filho cresce e rapidamente gera a sua própria família, família essa que rapidamente cairá por conta dos actos indescritíveis do filho. Actos que aquele homem acabado e desesperado não quer acreditar que tenham sido cometidos pelo filho e que acabam com todas as razões para viver.

A força decadente deste conto não provém apenas dos actos quotidianos descritos, mas, também, da linguagem bruta, brusca e directa com que tudo nos é narrado – forma que quase nos faz sentir asco pelas personagens, pelas circunstâncias, pelas acções que sabemos existirem mas que aqui são postas a nú.

Em Sete pequenos canivetes apresentam-se sete usos violentos para esses objectos, numa prosa musical de tom ligeiramente perverso, maldoso e horripilante. Homens que aspirando a escultores usam a faca não só como talhantes, mas para fins mais artísticos, homens que usam canivetes para provocar a relaxação total ou para responder à frustração do amor que apenas o dinheiro lhes consegue comprar.

O último conto, Faca seiseiseis, traz-nos uma série de episódios violentos que parecem ocorrer por transmissão entre os sucessivos herdeiros de uma determinada família que recebem uma faca como herança. Predestinados a acontecimentos mirabolantes (e fatais), os elementos desta família acabam sempre esvaídos de sangue, mesmo que tenham as vivências mais pacíficas.

Livro de leitura rápida reúne, sob um tema comum, três histórias bastante diferentes – se no primeiro assistimos à dura realidade de um homem que, não construindo nada para si, vê desabar a sua vivência e as suas perspectivas, num final de puro horror fantástico; o segundo é quase uma sucessão de psicopatas ou demências, maleitas psicológicas que pela faca dão azo às suas taras; enquanto que o terceiro nos apresenta o destino com toda a sua carga irónica.

Facas foi publicado pela editora Companhia das Ilhas.

Outros livros do autor

Resumo de Leituras – Junho de 2016 (2)

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137 – This census-taker – China Miéville – Pequeno livro de China Miéville que possui uma história linear apesar das várias referências dispersas a algo mais. Talvez por ter uma grande expectativa associada ao nome do autor, não fiquei particularmente satisfeita com esta leitura;

138 – Sobressaltos – Vários autores – Recentemente foi inaugurada uma exposição no eventos Sustos às sextas onde foram reunidas várias histórias de terror em duas páginas. As histórias são tão diversas em estilo e tom quanto a quantidade de autores convidados e o conjunto possui contos para todos os gostos;

139 – Os Marcianos somos nós – Nuno Galopim –  Nuno Galopim disserta sobre o planeta Marte, ora associado à mitologia de várias civilizações, ora associado a espaço de oportunidades ilimitadas na ficção científica (até claro, ao momento em que foi possível vislumbrar a superfície árida). Um livro interessante que passa essencialmente pela literatura, pela música e pelo cinema;

140 – A Provocadora Realidade dos Mundos Imaginários – António de Macedo – Este livro reúne os textos de António de Macedo que foram sendo publicados na revista Bang!. Os textos centram-se em temas variados da Literatura Especulativa, passando pelas cidades imaginárias, pelos livros inexistentes (ou existentes e míticos), por uma batalha entre dois livros (um de ficção especulativa) e termina apresentando uma história da ficção especulativa em Portugal. Aconselhável aos que gostam do tema e que pretendem ter algumas referências lusitanas sobre a literatura especulativa.

A Provocadora Realidade dos Mundos Imaginários – António de Macedo

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Apesar de ser mais conhecido como cineasta e escritor, António de Macedo exerceu ainda outras actividades, como arquitecto e docente em várias Universidades e especializou-se na investigação e estudo das religiões comparadas, da filosofia ou das formas literárias e fílmicas da ficção especulativa.

É uma das personalidades que mais contribuiu para a produção portuguesa na ficção especulativa e uma das mais injustamente esquecidas figuras do cenário cultural português. Do seu vasto currículo destaco, mais a propósito, os vários livros de literatura fantástica e de ficção científica e os recentes artigos que tem publicado na revista Bang! sobre a ficção especulativa.

A Provocadora Realidade dos Mundos Imaginários, publicado recentemente numa chancela da Saída de Emergência, reúne exactamente esses textos publicados na Bang! onde o autor disserta ora sobre cidades imaginárias (tema de preferência da ficção), ora sobre livros (míticos, falsos, inexistentes ou fugidios), ora resumidamente sobre a história da ficção portuguesa.

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Passando por cidades históricas e míticas, parando nas cidades claustrofóbicas que servem de cenário ao horror fantástico, António de Macedo refere a proporção perfeita na geometria transformada espaço urbano (nem que seja em desenho) ou o espaço urbano transformado pesadelo em Lovecraft, ou local maravilhoso com Randolph Carter.

Transposto esse grande tema fantástico que são as cidades, os textos seguintes centram-se no livro enquanto objecto místico, inexistente mas imaginários, existentes mas ilegíveis, existentes mas desaparecidos no tempo. Em Livros Míticos ou Biblioteca (quase) invisível encontramos os que não querem ser escritos e vivem apenas como perspectiva inconcretizada de um autor, os que se materializaram apenas como citação nalguma obra de ficção, ou os que, existindo, nunca se revelam, escondendo o seu conteúdo por detrás de alguma cifra complexa.

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Já em Mais alguns livros míticos e vários outros (falsos ou não), começa por se falar de conspirações como forma de introduzir livros como o Diário de Hitler que, tendo aparecido há muitos anos, se revelou uma farsa, ou Magia: História, Teoria, Prática de Ernst Schertel que será uma obra bem real da qual existe um exemplar anotado por Hitler. Para além destes, outros livros marcaram lugar na história por serem eles próprios uma farsa aproveitada por quem pretendia disseminar teorias mirabolantes e aproveitar-se delas. Teria sido o caso de Protocolos dos Sábios de Sião ou de Monita Secreta.

Passando de livros que não existem e de livros que existem mas cujo conteúdo é miticamente duvidoso, à luta de géneros, António de Macedo ensaia um combate entre A Sibila e Alraune, comparando eventos e personagens. Esta luta antecipa uma pequena viagem por Os Mundos Imaginários do Fantástico Português, com referência a vários autores (alguns mais conhecidos que outros, alguns desaparecidos do espaço editorial – Luís Filipe Silva, Daniel Tércio, João Barreiros, Maria de Menezes, José Manuel Morais ou João Botelho da Silva).

se acordar barreiros

Ainda que conhecesse alguns dos textos das revistas Bang!, é sempre um prazer ler sobre cidades fantásticas e livros míticos, achando o texto sobre a história da literatura especulativa em Portugal particularmente interessante, até porque, tanto a elevada publicação como os eventos de Cascais decorreram antes de ter nascido ou numa altura em que, já tendo descoberto a ficção científica, nem sabia que existiam mais leitores por cá.