A rentrée literária de uma realidade quase alternativa

Quando se olha para a compilação de lançamentos publicada pelos grandes jornais fica-se com a impressão que aqui neste pequeno canto ibérico apenas se publica literatura séria – muito séria e para gente ainda mais séria. A seriedade é tanta que quase morremos de tédio.

Felizmente este retorno ao quotidiano depois das férias de Verão é marcado, também, por bons lançamentos de ficção especulativa que não têm lugar entre estas listas de peso esmagador e quase parecem pertencer a uma qualquer realidade alternativa imaginada. Quase. Se fosse imaginada decerto que os lançamentos na ficção especulativa esmagariam os de quaisquer outro género.

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Vencedor do prémio Costa, Santuário, de título original The Loney, é um dos grandes lançamentos de terror deste mês no mercado nacional. Sem fontes de sangue nem cenários de violência extrema, assenta sobretudo num ambiente de particular estranheza que aposta na expectativa dos acontecimentos que sabemos que irão decorrer nas páginas seguintes. E mesmo assim consegue criar um ambiente de particular suspense e horror, apesar do tom pausado e da perspectiva religiosa:

Dois irmãos. Um, mudo; o outro, o seu protetor. Todos os anos, a família visita o santuário que fica na desolada faixa de costa conhecida apenas como «Loney», desesperadamente à espera de uma cura. Durante as longas horas de espera, os rapazes são deixados sozinhos. E não conseguem resistir à passagem que se vislumbra a cada mudança da maré, à velha casa que se ergue ao longe… Muitos anos mais tarde, Hanny é um homem feito e já não precisa dos cuidados do irmão. Mas depois descobre-se o cadáver de uma criança, morta há muito. O Loney acaba sempre por dar à costa os seus segredos.

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Apresento-vos uma antologia cyperbunk que reúne histórias de vários autores portugueses, com introdução de João Barreiros. Proxy será lançado no próximo fim-de-semana no Fórum Fantástico, mas, em colaboração com a editora, já tive oportunidade de ler. É um conjunto de histórias que vale bem a pena adquirir em que se denota a crescente qualidade das publicações da Editorial Divergência:

Proxy é o culminar de vários anos de trabalho e de estudo em leitura psico-criativa. Seis mentes, seis futuros que nunca existiram. Seis mundos. Os pináculos de Nova Oli e as entranhas de VitaVida. Modulações eléctrico-sonoras e o dilema da artificialidade. O poder da máquina e o desmoronar de uma simples equação.

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Publicado pela primeira vez no mercado nacional como volume integrante da colecção Admiráveis Mundos da Ficção Científica (em parceria com o jornal Público) As primeiras quinze vidas de Harry August volta agora como integrando a colecção Bang da editora Saída de Emergência e torna-se um dos mais importantes lançamentos do género este ano:

Harry August não é um homem normal. Porque os homens normais, quando a morte chega, não regressam novamente ao dia em que nasceram, para voltarem a viver a mesma vida mas mantendo todo o conhecimento das vidas anteriores. Não interessa que feitos alcança, decisões toma ou erros comete, Harry já sabe que quando morrer irá tudo voltar ao início. Mas se este acumular de experiências e conhecimento podem fazer dele um quase semideus, algo continua a atormentar Harry: qual a origem do seu dom e será que há mais pessoas como ele?

A resposta para ambas as perguntas parece chegar aquando da sua décima primeira morte, com a visita de uma menina que lhe traz uma mensagem: o fim do mundo aproxima-se.

Esta é a história do que Harry faz a seguir, do que fez anteriormente, e ainda de como tenta salvar um passado que não consegue mudar e um futuro que não pode deixar que aconteça.

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A parceria entre a Levoir e o jornal Público tem trazido bons volumes de banda desenhada ao mercado nacional, mas nada como a novidade prevista para esta rentrée – Sandman. A série original escrita por Neil Gaiman composta por 11 volumes será lançada em edição de colecionador de capa dura. Eis um lançamento fabuloso para o mercado nacional que já tratei de reservar.

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Pela G Floy chega mais um volume da série de detectives mais mirabolante e nojenta de sempre – Tony Chu, o detective caníbal. Criando super-poderes relacionados com a comida para as suas personagens, e uma crise na comercialização da carne de aves por conta da Gripe A, a realidade apresentada torna-se divertida, inusitada e capaz de virar muitos estômagos – mas sempre numa perspectiva descontraída.

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O herói, criado em 1954 como Marvelman por Mick Anglo, foi alvo de novas aventuras a partir de 1982 com Alan Moore e mais tarde com Neil Gaiman. São estas aventuras que serão lançadas pela G Floy: um volume que reunirá as produzidas por Alan Moore, e três volumes para as produzidas por Neil Gaiman. É sobretudo nestas últimas que estou interessada, não só pela referência a Neil Gaiman, como pela apresentação de uma utopia em transformação por tecnologia alienígena, e governada por Miracleman e outros seres com poderes.

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Sem deixar de publicar a série de banda desenhada The Walking Dead, a Devir lançou recentemente o primeiro volume de Sex Criminals, uma das séries publicadas pela Image que ganhou um prémio Eisner, que tem uma premissa bastante… peculiar:

Suzie tem um segredo. Para ela, o sexo faz com que, em seu redor, o mundo pare – literalmente. Jon tem um problema. Odeia a sua vida, o seu trabalho, e também a peculiar maldição que o torna igual a Suzie. Rapariga encontra rapaz, rapariga engata rapaz. E pela primeira vez nas suas vidas encontram-se sozinhos, mas juntos. Portanto, fazem o mesmo que faria qualquer casal jovem e recente que desfrutasse de sexo e da capacidade de paralisar o tempo: põem-se a assaltar bancos.

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Pela Arte de Autor é lançado Como Viaja a água de Juan Díaz Canales, autor conhecido pela série Blacksad:

Aos 83 anos, Aniceto tem muito poucos incentivos para se levantar todas as manhãs. Com o seu pequeno grupo de amigos octogenários, decide animar um pouco a sua rotineira existência dedicando-se à venda e tráfico de artigos roubados. O que começa quase como um passatempo torna-se inesperadamente numa tragédia quando os companheiros de Aniceto começam a aparecer mortos em estranhas e violentas circunstâncias.

The Atrocity Archives – Charles Stross

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Um informático choninhas enquadrado nas funções de agente secreto só pode trazer o desastre. Principalmente num Universo onde as leis da física estão de tal forma distorcidas que houve a necessidade de criar uma entidade que lidasse com os fenómenos que podem provocar o colapso daquela realidade – como  a simples publicação do trabalho de Turing, ou como a mais complexa possessão por entidades doutros Universos que se aproveitam da electricidade para transitarem para um novo corpo.

Entre os bytes e os bites escondem-se, também, armas de longo alcance que podem corromper a mente humana, enquanto seres tentaculares tentam criar portais suficientemente grandes para nos poderem invadir. Enquanto não o conseguem, estes seres lovecraftianos divertem-se a emergir parcialmente e a raptar vítimas estratégicas.

Pelo caminho encontramos velhos militares nazis transformados em múmias por lhes terem sugado toda a energia, homens possuídos através da electricidade (e rapidamente eliminados), tramas de agentes secretos e chefes obsessivos com a organização ao ponto de enlouquecerem qualquer um – inclusivé eles próprios.

Sem ser uma obra prima da ficção científica é uma história repleta de elementos inusitados e divertidos, com mirabolantes episódios de acção, uma pitada de romance e muito pensamento geek.

Ficção especulativa em Julho de 2016

As férias e o calor não ajudam nem aos lançamentos, nem às críticas – depois da euforia da Feira do Livro este foi sem dúvida um mês mais calmo mas destaca-se a maior quantidade de críticas a ficção científica, principalmente de Aniquilação de Jeff Vandermeer.

Lançamentos nacionais relevantes

A canção de Susannah – Stephen King – Bertrand Editora;

Os tambores de Outono – Diana Gabaldon – Casa das Letras;

Guia para a vida de Tyrion Lannister – Lambert Oaks – Self;

Visão de Prata – Anne Bishop – Saída de Emergência;

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Críticas interessantes

Ficção científica

The dramaturgues of Yan – John Brunner – Intergalacticrobot – “Apesar de assente num intrigante e convincente mundo ficcional,  e numa narrativa bem estruturada que revela os mistérios ao ritmo certo,  é um livro demasiado normal, dentro dos parâmetros da FC. “;

– 2084 – Boualem Sensal – Máquina de escrever – “Entre heranças da fonte de inspiração maior e ecos de acontecimentos do nosso tempo, constrói uma distopia que merece já um lugar entre as mais importantes expressões do género”;

Aniquilação – Jeff Vandermeer – Leituras do Fiacha – “deixando-nos com uma sensação de constante medo e alerta e que nos acaba por fazer questionar sobre várias questões entre as quais o que leva estes membros a aceitar ir nesta expedição depois do que aconteceu nas anteriores ?”

Cinzas de um novo Mundo – Rafael Loureiro – As Leituras do Corvo – “Intenso, intrigante, misterioso. E emotivo, para além de tudo o que esperava. É, pois, esta a imagem que fica destas Cinzas de um Novo Mundo: a de uma viagem a um futuro tenebroso, mas onde sempre, e apesar de tudo, ainda há heróis. Brilhante.”;

Ready Player One – Ernest Cline – As Histórias de Elphaba – “Com uma criatividade extraordinária, Ernest Cline oferece-nos uma aventura que se desenvolve, paralelamente, onde ainda batem corações acelerados e no espaço virtual. “;

Aniquilação – Jeff Vandermeer – Uma Biblioteca em Construção – “Mas conforme vamos passando tempo e explorando a Área X, percebemos que normalidade é algo que não pertence àquele local. “;

Sundiver – David Brin – Livros, livros e mais livros – “Tem uma premissa tão boa, mas desperdiça-a para se focar num mistério desinteressante e algo simplista.”;

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Fantasia

A vingança do Assassino – Robin Hobb – Nuno Ferreira – “Pela qualidade de escrita e de credibilidade apresentadas, custa-me dar uma pontuação tão baixa, mas foi um livro extremamente chato de ler.”;

Outros

Erotosofia – António de Macedo – Intergalacticrobot – “Em evidência fica o peculiar imaginário de Macedo, entre o conhecimento gnóstico, saber científico, reconhecimento tecnológico, colisão entre o imaginário de raiz popular com os mitos da literatura fantástica temperado com muito bom humor, com particular homenagem a Lovecraft e aos seus Mythos.”;

Crash – J. G. Ballard – Máquina de escrever – “A história do livro centra-se num pequeno grupo de personagens que têm como fétiche sexual acidentes de automóvel e as suas possibilidades eróticas, explorando uma parte do espetro das psicopatologias humanas, nomeadamente a morbidez sexual.”;

A rapariga que sabia demais – M. R. Carey – Uma Biblioteca em Construção – “A realidade que este livro apresenta é assustadora. Faz pensar sobre a evolução da vida e sobre como tudo está em constante mudança. “;

A Burglar’s Guide to the City – Geoff Manaught – Intergalacticrobot – “De uma forma divertida, Manaugh leva-nos a repensar os conceitos de arquitectura e espaço urbano explorando as façanhas e as metodologias dos assaltantes. “;

Outros artigos

– Missões tripuladas a Marte? Para já existem as de ler … (1) – Máquina de escrever;

– 12 Clássicos que os jovens adultos devem ler – Revista Estante;

– Domínio Filipino – Simetria;

– Quando a imaginação desceu em Marte – Máquina de escrever;

– Entrevista Rafael Loureiro – Revista Estante;

– Contos completos de Beatrix Potter editados pela primeira vez em Portugal – Diário de Notícias;

Eventos

– Scifi-Lx – Imaginauta;

Destaque: Santuário – Andrew Michael Hurley

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A provar que o mercado editorial português ainda é capaz de trazer para solo nacional excelentes livros temos o lançamento de Santuário de Andrew Michael Hurley,  para início de Setembro. Com o título The Loney, foi um dos grandes lançamentos de horror de 2015 (mais voltado para o horror psicológico, suspense) tendo ganho o prémio Costa.

Publicado inicialmente na peculiar Tartarus Press (que só lança edições reduzidas e quase exclusivas) foi mais tarde publicado por diversas editoras e tornou-se um dos livros mais falados nos últimos tempos. Já o li (podem ler o comentário completo) e posso dizer que é excelente! Enquanto esperam pelo lançamento, deixo-vos a sinopse:

Dois irmãos. Um, mudo; o outro, o seu protetor. Todos os anos, a família visita o santuário que fica na desolada faixa de costa conhecida apenas como «Loney», desesperadamente à espera de uma cura. Durante as longas horas de espera, os rapazes são deixados sozinhos. E não conseguem resistir à passagem que se vislumbra a cada mudança da maré, à velha casa que se ergue ao longe… Muitos anos mais tarde, Hanny é um homem feito e já não precisa dos cuidados do irmão. Mas depois descobre-se o cadáver de uma criança, morta há muito. O Loney acaba sempre por dar à costa os seus segredos.

 

 

Parque Chas – Ricardo Barreiro e Eduardo Risso

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Apesar da colecção Novela Gráfica ser uma referência bastante positiva desta leitura, peguei em Parque Chas sem grande ideia do que iria encontrar, tendo-me convencido a antecipar a leitura deste volume aos outros da colecção por conta da aspecto gráfico.

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O que encontrei… foi uma excelente surpresa! O livro começa como a história de um local que a personagem principal se dedica a aprofundar, o Parque Chas. Tendo sido alvo de um desses episódios estranhos resolve-se a compilar os constantes fenómenos que relembram uma espécie de Triângulo das Bermudas, onde aparecem e desaparecem pessoas e meios de transporte.

A sucessão de episódios quase soltos evoluem rapidamente para uma série de aventuras entre realidades paralelas onde a ficção se cruza com a realidade, e as personagens vão parar a mundos literários e encontram personagens lendárias como Casonova ou Corto Maltese.

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Entre lutas infantis de final heróico, túneis de fuga esquecidos no lugar labiríntico que é o parque, carros assassinos e rápidos caminhos para outros tempos e lugares, adensa-se a névoa do desconhecido explorado pela personagem principal, uma projecção do autor.

Afinal o  que parece uma alusão a mundos fantásticos com um toque fantasmagórico revela-se ficção científica, fazendo com que os episódios mirabolantes quase culminem numa cena clássica de salvação da femme fatale, a verdadeira razão para a personagem perseguir os peculiares fenómenos.

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Quase. E aqui está o segredo. Os episódios mirabolantes funcionam bem isoladamente mas ainda melhor como peças de um mosaico construindo uma história maior, carregada de reviravoltas e surpresas, onde os clichés vão sendo adoptados e adaptados. O resultado é uma história movimentada de detalhes sombrios que consegue a peripécia de ser, simultaneamente, inteligente e divertida.

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Parque Chas é um dos volumes publicados na colecção Novela Gráfica pela Levoir em parceria com o jornal Público.

Fables – Wolves of the Heartland – Bill Willingham, Craig Hamilton, Jim Fern, Ray Snyder e Mark Farmer

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Uma aldeia carregada de lobisomens é a ideia por detrás deste volume em que o Lobo Mau é peça fundamental na justificação do conceito. Lobisomem poderoso, filho do vento do Norte, o Lobo Mau encontra-se em missão à procura de um novo local para criar nova cidade para as personagens dos contos de fadas que se refugiaram no nosso mundo quando se depara com lobisomens jovens em caçada.

Curioso, é capturado e levado para a cidade de lobisomens, encontrando um velho amigo que julgava morto e com o qual terá lutado contra o regime nazi durante a Segunda Guerra Mundial. Mas não é só o amigo que encontra – casado com uma cientista nazi, terão sido os criadores daquela cidade.

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Percebendo o sangue quente dos lobisomens, o Lobo Mau percebe que a cidade se encontra em ponto de ruptura – a necessidade de caçar, e de se afirmarem como machos alfa, bem como a elevada densidade populacional são três factores determinados na elevada violência, exacerbados com a chegada do mítico Lobo Mau, elevado à categoria divina por ter dado, inadvertidamente, origem àquela cidade.

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Entre as míticas e espalhafatosas batalhas entre lobisomens encontramos a típica associação nazi a experiências com monstros, não faltando cientistas loucos que se dedicam a reavivar Frankenstein e que pretendem usar o sangue do Lobo Mau para fabricar os próximos soldados implacáveis.

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Volume que pode ser lido facilmente sem o enquadramento da série Fables, não é particularmente interessante do ponto de vista narrativo, mas apresenta vários episódios mirabolantes onde a figura do lobisomem é explorada à exaustão com sucesso.

Retrovirus – Justin Gray e Jimmy Palmiotti

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Zoe Mallace é uma conceituada virologista que, apesar da figura esbelta, consegue singrar num meio científica misógino mostrando-se uma pessoa pouco submissa. Conhecida pelas suas capacidades, não é de estranhar que receba uma boa e misteriosa proposta de uma entidade privada para investigar um vírus desconhecido.

As instalações nas quais deve conduzir a investigação são na Antártida e, apesar do entusiasmo, assim que chega percebe que algo está errado – o tal vírus já contagiou todos os cientistas e sendo transmitido pelo ar, infectou-a também, e ao bebé que carrega.

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O vírus terá sido recriado por engano aquando da reconstrução de um neandertal, clonagem que terá sido possível preenchendo as componentes desconhecidas com DNA de um ser humano. Felizmente estes detalhes científicos são pouco debatidos e realçados, ou a narrativa ter-se-ia tornado bastante irritante pela quantidade de erros e ideias que derivam de uma perspectiva errónea em relação a alguns conceitos base.

Os neandertais também se encontram na base, contidos, num espaço que recria uma floresta. Estes seres revelam-se capazes de uma brutalidade sem limites, fortes e mais inteligentes do que deveriam ser. A partir daqui o que se pode esperar é expectável – os neandertais escapam do recinto e iniciam uma verdadeira chacina.

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Uma leitura engraçada mas banal que se destaca sobretudo pelas pranchas movimentadas onde apresenta os Neandertais – enormes, brutos, mas mais inteligentes do que parecem, artefactos que conferem à história movimento e o factor de fascínio mas que pouco servem a narrativa.

Alternando páginas graficamente esplendorosas carregadas de detalhes e acção, com outras insípidas em que as posturas parecem algo forçadas, Retrovirus apresenta uma narrativa bastante linear focada em três personagens tipo – a nossa heróina, destemida mas frágil, o vilão capitalista que pretende vender armas biológicas, e o herói, forte e apaixonado que aparece na hora certa para salvar o dia.

Inferno – August Strindberg

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História de loucura por quem dela sofre, Inferno relata os momentos psicologicamente angustiantes sofridos pelo autor após a separação da esposa. Orgulhoso, acreditando ser o alvo de diversas teorias de conspiração, algumas que pensa poderem ter consequências fisicamente dramáticas, o autor descreve em Inferno as sucessivas visões e crises paranoicas.

Acreditando-se capaz de atingir grandes descobertas na alquimia, o autor descreve actividades básicas em torno de alguns materiais, empenhando meios financeiros e tempo em experiências vãs e sem sentido.

A ilusão combinada com a obsessão, a mania da perseguição e o orgulho, impedem-no de procurar ajuda monetária ou médica para os vários problemas de saúde de que vai padecendo em que acreditar é a palavra chave pois, por mais rocambolesca que seja a teoria, o autor não só se torna obcecado como age de forma estranha em fuga de quem o persegue.

As insónias são outro mal de que padece, pensando que estas serão uma consequência propositada de quem lhe quer mal, criando campos de electricidade estática (ao deixar equipamento metálico no andar superior ao que se encontra), ou fazendo barulhos em momentos chave.

De leitura interessante pela perspectiva apresentada pelo próprio perante a loucura (que ignora possuir) Inferno revela como pode uma pessoa tornar-se a origem do seu próprio tormento, perseguindo pensamentos e sentimentos vãos que se adensam em ilusões cada vez mais mirabolantes.

Inferno foi publicado em Portugal pela Sistema Solar.

Eu, Assassino – Antonio Altarriba e Keko

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Um assassino comum é um homem que segue um modus operandi fixo e que, normalmente, deixa a sua assinatura nas vítimas. Ou recolhe troféus. No caso de Enrique Rodríguez, um professor de História de Arte, a alternância de métodos constitui a base dos crimes, considerando cada morte uma obra de arte.

Ainda que possam existir alguns elementos de improviso, cada assassinato é meticulosamente planeado, de acordo com as viagens a trabalho no decorrer da sua carreira académica. Os assassinatos podem ser brutais mas é nas interacções académicas que percebemos uma brutalidade mais refinada, em que as rivalidades passam facilmente do desprezo ao ódio e descobrimos que Enrique não é o único monstro.

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Apesar do casamento descendente, a carreira parece desenvolver-se em bom ritmo, assente nos estudos sob o título “Arte e crueldade”, uma temática que o fascina mas que encontra, entre os seus pares alguma repulsa. Mesmo assim acredita encontrar-se no bom caminho para o cargo de reitor – não fossem as amizades serem mais comprometedoras do que as rivalidades.

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Realçando o papel da violência e da crueldade na arte ao longo da história humana, Eu, Assassino apresenta uma perspectiva fria e calculista dos assassinatos, transparecendo a própria visão da personagem principal, em que os seres humanos com os quais se cruza têm essencialmente uma função utilitária na montagem da próxima obra, e o escorrer do sangue tem sobretudo uma função estética.

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A montagem a preto, branco e vermelho destaca, com sucesso, a componente estética dos crimes, criando páginas onde a brutalidade se alia à arte para fortalecer a visão do próprio assassino.

Eu, Assassino foi publicado em Portugal pela Arte de Autor.

Comentários a outras obras do autor

Resumo de Leituras – Julho de 2016 (5)

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177 – Eu, Assassino – Antonio Altarriba e Keko – Quando um psicopata é um professor de arte, tenta fazer, das suas vítimas, a próxima peça da sua exposição imaginária. Tal como na arte em que cada peça é única, a cada vítima corresponde um método diferente, acompanhado, por vezes, por elementos de improviso, mas quase sempre em cenários meticulosamente planeados. Para além desta faceta sangrenta, o professor tem de lidar com um meio académico que se revela implacável;

177 – Altemente Vol,1 – Mosi – Pequeno livro publicado pela ComicHeart, apresenta a primeira parte de um projecto artístico no qual a autora, conjuntamente com um grupo de colegas, durante o qual passaram duas semanas numa pequena aldeia no concelho de Loulé;

179 – Pyongyang – Guy Delisle – Qualquer distopia é arrepiante. Neste caso o arrepiante é saber que é uma sociedade real, um país que persiste semi isolado do resto do Mundo, criando a sua própria realidade. O tom bem humorado e descontraído torna o relato surreal, uma história de viagens em que não ocorre propriamente nenhum evento relevante, mas que se torna interessante pelos elementos que revela;

180 – Flowers for Algernon – Daniel Keyes Um homem de baixo QI mas esforçado e minimamente auto-suficiente é levado para um laboratório com o objectivo de realizar um tratamento inovador que lhe irá aumentar as capacidades cognitivas. A história vai sendo apresentada a partir do diário que é obrigado a apresentar à equipa científica. O despertar de novas capacidades não será tão pacífico e agradável quanto julga pois só agora percebe que aqueles que julgava amigos afinal se servem dele como palhaço, e finalmente recorda a família que o abandonou. Um livro excelente que, apesar de ter uma história previsível, se excede pelo lado humano;

Promoções: Cavalo de Ferro – Campanha de Verão

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Ainda está a decorrer a campanha da Cavalo de Ferro que coloca alguns títulos a 40% de desconto. Entre os 20 títulos escolhidos encontramos alguns fabulosos (outros também o serão, mas refiro apenas os que conheço):

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Publicado originalmente em 1967 (quatro anos depois de O Jogo do Mundo – Rayuela), inédito até hoje me Portugal, A Volta ao dia em 80 Mundos, é uma obra de literatura total, uma espécie de enciclopédia pessoal do autor, que nela incluiu  imagens, contos, poesia, ensaios, comen­tários humorísticos e autobiográficos. Um conjunto de «alianças fulminantes», usando um termo do próprio, com efeitos de improvisação e de digressão ao longo de oitenta mundos, onde Jules Verne e o Jazz combinam harmoniosamente entre si. Uma das obras fundamentais e incontornáveis de Julio Cortázar.

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Um dos meus livros favoritos, Sempre vivemos no castelo é uma obra dura, chocante com vários toques de demência espalhados na narrativa e um excelente e perturbante final:

Último romance publicado pela autora, considerado uma obra fundamental da literatura norte-americana, «Sempre vivemos no castelo» narra-nos a história da extravagante família Blackwood, ou do que dela restou. O cenário de fundo é uma pequena localidade do interior do Estados Unidos, num lugar onde nada se passa e em que a única actividade parece ser a de espiar os vizinhos.

Por entre dias rotineiros e tranquilos Merricat, uma jovem sonhadora, que acredita no sortilégio dos objectos e em palavras mágicas, vive em harmonia com a sua irmã Constance, com o seu tio Julian e com o seu gato Jonas. Até ao dia em que o primo Charles os resolve visitar. E num crescendo de tensão precipitado pelo desencadear inesperado dos acontecimentos, Merricat sabe que apenas ela poderá fazer tudo que se encontra ao seu alcance para proteger o seu pequeno mundo isolado.

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Ainda que não tenho lido Obra Reunida, Juan Rulfo é uma referência na literatura sul-americana que terá inspirado alguns dos mais conhecidos autores, um dos primeiros a utilizar um género de realismo mágico onde algumas regras do mundo real se suspendem:

Este livro oferece ao leitor português, num único volume, o conjunto da obra de Juan Rulfo. Os livros que o compõem, O Llano em Chamas (1953), Pedro Páramo (1955), e a novela póstuma O Galo de Ouro (1980), foram revistos tendo em conta a sua edição crítica mais recente.

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Sendo Zoran Zivkovic um dos meus autores favoritos não poderia deixar de realçar a presença de um dos seus livros nesta promoção. Saindo novamente do formato em mosaico, O Último livro apresenta a investigação de vários crimes que se revelam fantásticos:

Algo de terrível está a acontecer na Livraria Papyrus! O senhor Todorović, um dos mais fiéis clientes, morreu inesperadamente, enquanto, sentado numa das poltronas da livraria, folheava tranquilamente um livro. Causa da morte: desconhecida. Vera Gavrilović, uma das proprietárias, está preocupada. Até porque este é apenas o início: a esta primeira morte sucede outra, e depois outra, e outra ainda. Todas elas sem motivo aparente. Este estranho caso parece talhado à medida do bibliófilo Inspector Dejan Lukić. Dejan, com a ajuda de Vera, dará início a uma desconcertante investigação, que se adensará cada vez mais, ao ponto de envolver a polícia secreta. Isto até se depararem com O último livro

Um romance brilhante, imaginativo, subtil e fascinante que conquistou os leitores de todo o mundo.

Eventos: Lançamento de Sobressaltos em Oeiras

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Sobressaltos é um volume com várias histórias de banda desenhada que foram expostas, pela primeira vez, numa sessão de Sustos às sextas. De acordo com a temática do evento são pequenas histórias de terror, contadas em duas pranchas, com estilos para todos os gostos, passando pelo terror psicológico, pelo divertido e pelo monstruoso.

Lançado pela primeira vez no Festival de Beja, vai haver novo evento de lançamento na FNAC de Oeiras, no próximo Sábado, dia 23 de Julho, pelas 21h30. Na sessão estarão presentes alguns dos autores: Osvaldo Medina, Álvaro Santos, Filipe Alves e Nuno Lourenço Rodrigues; bem como o coordenador do projecto José Hartvig de Freitas.

Últimas aquisições

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Passando por uma Bertrand e deparando-me com um volume de design peculiar (e instigada por uma amiga) lá trouxe mais um desterrado para casa – The Legend of Sleepy Hollow. O volume contém não só o mais conhecido conto do autor, mas também vários outros fantásticos.

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Os dois volumes da Antígona foram adquiridos na última promoção da FNAC de 20% em todos os livros. 3 Contos Fantásticos apresenta 3 histórias sombrias em que os elementos fantásticos são, também, de horror, numa espécie de ambiente mais gótico em que o horror se faz sentir, não pelos actos violentos (ainda que os possa haver) mas pelas circunstâncias e pela expectativa da sucessão de episódios que antevemos mas dos quais não conseguimos desviar o olhar.

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Muladona é um dos mais recentes lançamentos da Tartarus Press, uma editora que publica sobretudo horror, centrando-se em clássicos do género (ainda que publique, também, autores e obras recentes, como o aclamado The Loney). Este Muladona apresenta-nos a cidade do Texas em plena Febre Espanhola, no final da Primeira Guerra Mundial. Mas nenhum destes eventos é o causador do horror – antes as visitas de uma alma condenada que, todas as noites obriga um rapaz a ouvir histórias horríveis.

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Depois de V de Vingança, estes são os três volumes que se seguiram na colecção Novela Gráfica de 2016. Dos três Presas fáceis foi aquele ao qual não consegui resistir uma imediata leitura e deparei-me com uma excelente obra, com o tom peculiar de Miguelanxo Prado, aqui mais contido em humor mas sem poupar a densa crítica em que constrói a investigação de um crime que tem sabor a justiça.

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À esquerda encontramos um dos volumes da colecção Graphic Novels (que espero atacar em breve) enquanto à direita encontramos A vida oculta de Fernando Pessoa, uma versão alternativa da vida do escritor onde os heterónimos ganham um significado sobrenatural.

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Les Techonoperes contém, num só, os quatro primeiros volumes de uma saga de aspecto futurístico à qual não consegui escapar. Este vai ser outro de leitura bem lenta (o francês não é uma língua que pratique). Eu, Assassino é um dos mais recentes livros de Altarriba publicado em Portugal pela Arte de Autor. Já comecei a ler e pelo que vejo é um livro sombrio em que um académico de artes faz, da morte, do homicídio, a sua peça artística.

A vida oculta de Fernando Pessoa – André F. Morgado e Alexandre Leoni

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Os heterónimos de Fernando Pessoa já deram azo a muitas e diversas teorias sobre estas diferentes personagens sob o nome das quais escrevia expressando estilos e pontos de vista bem diferentes. Em A Vida Oculta de Fernando Pessoa os heterónimos têm uma origem e explicação sobrenaturais.

Tudo começou na infância, quando o pai faleceu. Foi aí que tomou conhecimento de uma sociedade secreta responsável por eliminar o mal que grassa infectando homens e mulheres que devem ser eliminados antes de se transformarem em seres acéfalos e perigosos.

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Conhecendo cada pessoa antes de a eliminar, Fernando Pessoa encontra nos heterónimos uma forma de se expiar, e de honrar a pessoa, transmitindo para a escrita, a filosofia de cada um dos que eliminou. Assim se explicam as tão diferentes perspectivas que se apresentam em cada texto.

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Melancólico e sombrio, A vida oculta de Fernando Pessoa apresenta uma perspectiva engraçada e sobrenatural do escritor que entra, lentamente, numa espiral de culpa e depressão. Acompanhando estes sentimentos, cada vez mais fortes, encontramos os episódios que progressivamente deixam de conter insinuações e referências à doença para passar a apresentar episódios cada vez mais demonstrativos.

Resumo de Leituras – Julho de 2016 (4)

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173 – Presas fáceis – Miguelanxo Prado Se Miguelanxo Prado consegue retratar, de forma divinal as caricaturas sociais expondo diversos episódios irónicos numa construção em mosaico ou em camadas, esta capacidade torna-se dura crítica numa história muito humana onde explora uma situação condenável à qual não foram atribuídas culpas palpáveis – a quebra de confiança no sistema bancário, a falha das entidades reguladoras, as indemnizações milionárias não para quem foi vítima, mas para quem foi incompetente;

174 – Breakfast of champions – Kurt Vonnegut – Um retrato, por vezes demasiado verdadeiro (e duro na forma como expõe), da mentalidade americana, carregado de curtos episódios cómicos e mirabolantes, onde um autor de ficção científica apenas vê os seus contos publicados em revistas pornográficas, o autor participa quase como personagem (mas consciente do seu poder sobre as restantes), um empresário sofre de doença mental e hostiliza (brutaliza) todos os que encontra, ou um profissional de saúde aliena-se dos americanos enquanto pessoas… Não achei que do ponto de vista narrativo fosse excepcional (pouco acontece) mas consegue ter as melhores afirmações sobre os americanos;

175 – Inferno – August Strindberg – Esqueçam o Inferno enquanto concepção religiosa e eterna, mas fiquem com o tormento. Em Inferno o autor descreve o seu próprio – as insónias, a fobia da perseguição, a crença na sua grandiosidade científica, a alienação para com os que o rodeiam. August Strindberg espelha os problemas mentais que se depara após a separação da mulher que o levam à miséria apesar da produção artística que lhe podia ter concedido alguma estabilidade financeira;

176 – Lisa – Le train  des orphélins Vol.3 – Philippe Charlot e Xavier Fourquemin – O terceiro volume centra-se em dois dos órfãos que, antecipando um futuro negro na terriola em que foram adoptados, fogem – o pequeno rapaz em busca do irmão mais velho, a jovem tentando passar despercebida para evitar abusos. Este é o primeiro volume de um ciclo, sendo que cada ciclo apresenta a história, em simultâneo, de duas personagens. Ainda que esteja a ler em francês (logo mais lentamente) pretendo ler o volume seguinte nos próximos dias.

Eventos: Sci-FI LX

Robots, viagens no espaço, impressões 3D ! Um evento para qualquer geek digno desse nome – É já este fim-de-semana que decorre o maior evento em Portugal dedicado exclusivamente à ficção científica, seja sob a forma cinematográfica, sejam palestras e workshops sobre os mais diversos (e futurísticos) temas.

Contando com um espaço comercial (onde encontramos a Bookshop Bivar, a Kingpin Books, e a Imaginauta, entre outros) e exposições (sobretudo de banda desenhada) vamos ter, também oportunidade de assistir a um duelo steampunk ou a impressões 3D.

a vida oculta

Para visualizarem todas as actividades inerentes ao Sci-fi LX podem consultar a página oficial, enquanto que aqui irei falar daquelas que me despertam mais interesse. Entre elas estão, claro, as exposições de banda desenhada, com especial destaque para Carlos Pedro, Miguel Montenegro, Ricardo Venâncio ou H-alt. De realçar que estes autores estarão num painel a decorrer pelas 19h00 de Sábado e que decorrerá uma sessão de autógrafos de A Vida Oculta de Fernando Pessoa com André Morgado.

mensageiros

Entre a apresentação do Projecto Mensageiros das Estrelas (que tem trazido alguns autores de ficção científica a Portugal como Geoff Ryman) , encontramos palestras sobre Viagens no tempo (a necessidade de viver além do presente), a ficção científica em videojogos, FC em Universo Transnacional (com destaque para a presença de Luís Filipe Silva e Teresa Botelho) e zombies.

TIC

Para actividades mais interactivas temos Impressões em 3D (TIC em 3D) durante os dois dias, crochet (nada como um Yoda de crochet), pintura, duelos, jogos de tabuleiro, cosplay ou torneios de robots.

Claro que não falei de muita coisa, apenas das que mais me interessavam. Há vários eventos temporalmente sobrepostos pelo que se não vos interessar algo em particular podem aproveitar a restante programação nos outros espaços do evento.

3 contos fantásticos – Ludwig Tieck

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Este volume, publicado pela Antígona, reúne três histórias de fantasia negra bastante distintas em ambiente e circunstâncias mas onde reina a sombra, seja no formato físico, seja no formato psicológico.

No primeiro conto as acções do passado assombram o presente e o futuro de um casal  que, para lidar com a culpa, acaba por se enveredar em mais desgraças. Aqui os elementos fantásticos dispõem-se em torno de uma bruxa que acolhe uma criança fugida a troco da lida da casa quando se ausenta e deixa para trás as suas riquezas.

Já o segundo tem uma narrativa bastante colada aos contos de fadas em que uma criança, aliciada pela beleza e alegria destes seres, permanece por breve momentos. Quando retorna ao seu mundo, fazendo uma promessa para nunca falar sobre as fadas, decorreram já 7 anos.

No último conto é o amor entre dois jovens que impulsiona a desgraça. O homem, abastado, viaja com um amigo que apenas se quer divertir, de ocupações breves e mente saltitante. Zangando-se pela pouca atenção recebida pelo amigo, permanece em casa aspirando a visão da sua amada numa casa próxima. Mas o que acaba por ver é a materialização de um pesadelo que irá assombrar a sua restante existência.

Bem escritos, de tom pausado, estes contos contém aquele ambiente clássico das histórias fantásticas com pequenos detalhes de horror utilizados para explorar as fraquezas humanas sem grandes cenários de violência ou reviravoltas mirabolantes. Aliás, dir-se-ia que, no seguimento da história, os elementos de horror são quase previsíveis mas, nem por isso, retiram força à história.

Bang! #20

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O número 20 da próxima Bang! já tem capa – e é alusiva ao Annihilation (publicado por cá como Aniquilação) de Jeff Vandermeer, o grande lançamento de ficção científica de 2016 até ao momento, pela Saída de Emergência. Não será apenas a capa que possui aspecto gráfico alusivo ao livro, mas também o seu interior.

A revista será distribuída este mês, a partid de dia 19, pelas lojas FNAC – mas por enquanto resta-nos roer as unhas à espera.

 

Ficção especulativa em Junho de 2016

Por vários motivos (entre os quais o tempo) esta rubrica tem estado ausente do blogue há alguns meses. Não que tenha desistido. A última vez que lhe peguei comecei um resumo de três meses que falhei em gravar antes de fechar o browser. Esqueçamos o que está para trás – o melhor é começar novamente a partir do último mês. A novidade é a separação da banda desenhada (uma área que consegue ter muitos mais lançamentos, críticas e eventos num mês que a ficção especulativa num ano). Espero fazer depois um só sobre banda desenhada.

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Lançamentos nacionais relevantes

Este mês foi forte em publicação, em parte por conta da Feira do Livro de Lisboa, local onde ocorreu o lançamento de alguns destes livros:

Cinzas de um novo Mundo – Rafael Loureiro – Editorial Presença;

O Livro – Zoran Zivkovic – Cavalo de Ferro;

A Canção de Shannara – Terry Brooks – Saída de Emergência;

2396 – Criada para Matar – Catarina Marçal Pereira – Verso da Kapa;

Crash – J. G. Ballard – Elsinore;

Histórias de Vigaristas e canalhas – vários autores – Saída de Emergência;

A Rapariga que sabia demais – M. R. Carey – Nuvem de tinta;

Ouve a canção do vento e Fliper, 1973 – Haruki Murakami;

Os 100: Regresso a Casa – Kass Morgan – Topseller;

Illuminae – Amie Kaufman e Jay Kristoff – Nuvem de Letras;

Terra Fresca – João Leal – Quetzal editores;

Críticas interessantes

Este mês marca o regresso do Inner Space com um comentário a um livro português!

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Ficção científica

Portugal, e o futuro – Manuel da Silva Ramos – Inner Space;

Lembranças da Terra – Ângelo Brea – Intergalacticrobot;

A História de uma Serva – Margaret Atwood – Bloco de Devaneios;

The Water Knife – Paolo Bacigalupi – Floresta de Livros;

Cinzas de um novo mundo – Rafael Loureiro – Uma Biblioteca em construção;

O restaurante no fim do Universo – Douglas Adams – A Lâmpada Mágica;

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Fantasia

Antigas e Novas Andanças do Demónio – Jorge de Sena – Intergalacticrobot;

Alex 9: A Magia dos Ventos – Bruno Martins Soares – A Lâmpada Mágica;

Príncipe dos Espinhos – Trilogia dos Espinhos – Nuno Ferreira | Uma biblioteca em construção;

O trono dos crânios – Peter V. Brett – Leituras do Fiacha;

Uprooted – Naomi Novik – Leitora de fim-de-semana – e eu que pensava que era a única a ter achado que a autora se tinha perdido a meio da história;

O Cisne Selvagem e outros contos – Michael Cunningham – Máquina de Escrever;

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Outras obras

A Colecção Privada de Acácio Nobre – Patrícia Portela – Bibliotecário de Babel | Deus me Livro | Cadeirão Voltaire;

O Livro – Zoran Zivkovic – A Roda dos Livros;

Illuminae – Amie Kaufman e Jay Kristoff – Pedacinho literário | Uma biblioteca em construção;

O escritor-fantasma – Zoran Zivkovic – A Roda dos Livros;

Outros artigos

– +18: Um brevíssimo update – Bladerunner;

Ficção científica na RTP (Carlos Silva e Inês Montenegro);

– Conversa com Zoran Zivkovic (Parte 1 | Parte 2)

– Qual o futuro dos livros – Dinheiro vivo;

– Frenesi – um pavilhão de tesouros na Feira do Livro de Lisboa – O Corvo;

– É um pecado maior não ler um livro do que o roubar – Diário de Notícias;

– Escorraçar o diabo com a galinha preta e o banho santo – Público;

Eventos nacionais

Recordar os Esquecidos;

Zoran Zivkovic em Lisboa;

Os Marcianos somos nós na Feira do Livro;

Devoradores de Livros.

Resumo de Leituras – Julho de 2016 (1)

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157 – 161 – Living Will 1-5 – André Oliveira, Joana Afonso e Pedro SerpaA história centra-se num velhote que, tendo perdido todos os que criavam sentido na sua vida, se decide a tentar remendar o passado e reatar amizades. Se nalguns casos encontra a expiação por acções passadas, noutros encontra rancor e aprofunda memórias negativas. Uma história que, não sendo original, consegue gerar empatia e interesse;

162 – Thimblestar – M. J. WestleyA grande aventura de uma pequena fada que partiu em demanda para conseguir um ingrediente que confere, aos da sua espécie, a invisibilidade. Se a história já reflecte o quão estranho e assustador lhe parece o Mundo, a sombra adensa-se com o tom shakesperiano e as rimas e auspícios de desgraçadas várias;

163 – Escavação – Andrei Platonov – Negra distopia alusiva à luta de classes que toda a diferença quer eliminar e que acaba por sugar todos os que investem as suas energias em projectos irrealistas de objectivos demasiado distantes;

164 – The Wolves of Willloughby Chase – Joan Aiken  – História juvenil em Universo alternativo que começa por utilizar bem a premissa que distingue esse Mundo, para a ignorar quase completamente decorridos os episódios iniciais. Com alguns detalhes sombrios, mas não em demasia, consegue dosear a condescendência;