Janeiro de 2016

Como já é usual, eis o resumo do que mais interessante se passou da ficção especulativa em Portugal, durante o mês de Janeiro – eventos, notícias e críticas.

Doze de inglaterra banner

Lançamentos nacionais relevantes

Depois da pausa de Dezembro, o ano ainda está a arrancar. Deste mês é de destacar Os Doze de Inglaterra no seguimento do aniversário da revista Mosquito, e As Horas Insivíveis, já aconselhado por João Barreiros no Fórum Fantástico. Sobre os lançamentos de Janeiro, para obterem mais informação, podem clicar no nome da editora correspondente.

Drácula – Bram Stoker – Girassol;

Os Doze de Inglaterra – Eduardo Teixeira Coelho – Gradiva;

As horas invisíveis – David Mitchell – Editorial Presença;

As pedras élficas de Shannara – Terry Brooks – Saída de Emergência;

The young world: O Mundo novo – Chris Weitz – Editorial Presença;

Críticas interessantes

Recentemente fiz um apanhado dos blogues que costumava seguir há meia dúzia de anos. Conclui que a maioria dos bons blogues de ficção científica, responsáveis por algumas das melhores críticas se foram apagando. Restam alguns, sim, mas são poucos – recordo Blade Runner, Inner Space, I dream in Infrared, Stranger in a strange land. Alguns ainda dão sinais de vida anualmente. Não que existam actualmente boas críticas, mas são mais escassas.

serralves banner

Ficção científica

Sejam críticas positivas ou negativas, é bom ver que as obras nacionais continuam a ser lidas e comentadas. Abaixo, três: Espíritos das Luzes, Comandante Serralves e Os números que venceram os nomes.

Nostrillia – Cordwainer Smith – Intergalacticrobot;

Espíritos das Luzes – Octávio dos Santos – A Lâmpada Mágica;

Comandante Serralves – Vários autores – Intergalacticrobot;

Sally – Isaac Asimov – Nuno Ferreira;

Dune – Frank Herbert – Papéis e Letras;

Os números que venceram os nomes – Samuel Pimenta – Letras sem fundo;

Por mundos divergentes – vários autores – My very own lines;

Estação Onze – Emily St. Mendel – Ler y criticar;

Gene Mapper – Taiyo Fujii – Intergalacticrobot;

sete notas musicais banner

Fantasia

Enquanto se espera pelo lançamento do próximo livro de Zoran Zivkovic,  continuam a aparecer novos leitores.

O Dragão de sua majestade – Naomi Novik – Que a estante nos caia em cima;

O bobo – Christopher Moore – Leitora de fim-de-semana;

Firmin – Sam Savage – Folhas do Mundo;

Sete notas musicais – Zoran Zivkovic – D’Magia;

Rainha Vermelha – Victoria Aveyard – As Leituras do Corvo;

As reencarnações de Pitágoras – Afonso Cruz – Bibliotecário de Babel;

umbrella academy banner

Banda desenhada

Bando de dois – Danilo Beyruth – A Lâmpada Mágica;

Old Pa Anderson – Yves H. , Hermann – As Leituras do Pedro;

The Wicked + The Divine Vol.1 – Kieron Gillen – Que a estante nos caia em cima;

Habibi – Craig Thompson – Virtual Illusion;

Wolverine: Origem e Logan (vários volumes) – As Leituras do Pedro;

FreakAngels – Vol.2 e 3 – Warren Ellis e Paul Duffield – Intergalacticrobot;

The Umbrella Academy: Suite do Apocalipse – Gerard Way, Gabriel Sá e Dave Stewart – Deus me Livro;

Talco de vidro – Marcello Quintanilha – Bibliotecário de Babel;

The arrival – Shaun Tan – Que a estante nos caia em cima;

the rest of us banner

Outras obras

Berenice – Edgar Allan Poe – Nuno Ferreira;

The Chtullu Encryption – Brian Stableford – Intergalacticrobot;

Dagon – H. P. Lovecraft – Nuno Ferreira;

The rest of us just live here – Patrick Ness – Pedacinho Literário;

Outros artigos

– A aventura espacial, em novas visões aos quadradinhos – Máquina de escrever;

– Verdade e fantasia nas histórias – IGN;

– Criador e criatura de FC – Simetria;

– 2015, entre os herdeiros de George Orwell – Máquina de escrever;

– Pyongyang, quando o real não chega – Virtual Illusion;

– Torroselo: Um lugar nada ruim – Quilómetros que contam;

– Under the cover – Jornal i;

– Estará a Ficção Especulativa a morrer em Portugal? – Pedro Cipriano;

– 500 anos depois, o sentido de Utopia não se perdeu – Público;

– O mundo mágico de Tolkien ao vivo e a cores – Visão;

– Sobre a utopia, alguns apontamentos – Público;

– Clube Português de BD – A partir de 16 Jan – Divulgando Banda Desenhada;

– Gradiva com BD «Os Doze de Inglaterra» – Diário Digital;

– Exposições BD avulsas – “O Mosquito” na Biblioteca Nacional de Portugal – Divulgando Banda Desenhada;

Os melhores romances escritos em língua portuguesa – Resultados do Inquérito;

Eventos nacionais

– Sustos às sextas – Intergalacticrobot | Rascunhos;

– Recordar os Esquecidos – Rascunhos;

Resumos mensais anteriores

Dezembro de 2015;

Novembro de 2015;

Outubro de 2015.

Últimas aquisições

IMG_1204

Há algum tempo a Gradiva fez algumas promoções, com livros a preços fantásticos como 3 e 4 euros. Claro que aproveitei para fazer uma encomenda mas, como me esqueci de a pagar só este mês é que a recebi. Entre os livros escolhidos, aproveitei duas bandas desenhadas de Will Eisner, Fagin o Judeu e John Law Detective. Eis a sinopse de Fagin, o Judeu:

Em Fagin, o Judeu, Will Eisner denuncia a presença de estereótipos negativos sobre o povo judaico num grande clássico da literatura, provando uma vez mais que é não apenas um mestre da narrativa ilustrada como também um arguto crítico social e literário. Depois de examinar as edições originais de Oliver Twist e as respectivas ilustrações, Eisner decidiu recontar a célebre história, usando as informações resultantes das suas pesquisas para nos oferecer um novo olhar sobre Fagin. O famoso vilão criado por Charles Dickens revela-se aqui um homem atormentado e cheio de contradições, e a empatia de Eisner com esta personagem injustiçada empresta uma riqueza extraordinária à sua arte, sempre evocativa e complexa.

 

IMG_1248

Sem contar com esta encomenda, encontrei o The Ice Dragon numa FNAC, um livro que despertou interesse por causa do autor, mas em que foram as imagens de Luis Royo o factor decisivo para o trazer.

IMG_1236

No primeiro Sustos às sextas deste ano Vanessa Fidalgo foi uma das convidadas, tendo apresentado um pouco da história por detrás dos livros, e o conteúdo que distribuiu ao longo destes. O Seres Mágicos em Portugal despertou-me especial atenção por compilar histórias com as figuras que podem ser encontradas nas histórias tradicionais contadas nas pequenas terriolas.

IMG_1213

Finalmente Contos Capitais e Adão no Éden adquiri numa das últimas visitas à Bertrand, aproveitando as boas promoções. O primeiro contem histórias de vários autores que conheço, entre eles Valério Romão, Pedro Medina Ribeiro e Joana Bértholo, todos boas razões para adquirir o livro. Por sua vez, Adão no Éden, é do mesmo autor de Contos sobrenaturais.

IMG_1215

Resumo de Leituras – Janeiro de 2016 (4)

IMG_1382

13 – Por Universos nunca dantes navegados – vários autores – Antologia de ficção especulativa que reúne algumas boas histórias de língua portuguesa. De autoria portuguesa e brasileira, os contos são sobretudo de ficção científica, destacando-se os de João Ventura, Octavio Aragão e Sofia Vilarigues. Para mais detalhe sobre os melhores contos, podem consultar o link para o comentário.

14 – O Cavaleiro Sueco – Leo Perutz – Contendo ecos das histórias que envolvem as patranhas do diabo, mostra como o destino de dois homens se confunde, concedendo-lhes vidas bastante diferentes das expectativas iniciais: um nobre medroso e fanfarrão e um ladrão de moral pouco linear mas corajoso e desenvolto. No link encontram comentário mais detalhado.

15 – The Ice Dragon – George R. R. Martin – História juvenil engraçada de George R. R. Martin onde o frio do Inverno tem um lugar de destaque. A história ganha especial dimensão com as espectaculares imagens de Luis Royo, que ocupam a quase totalidade das páginas. Para verem o interior do livro e lerem um comentário mais detalhado, podem seguir o link.

16 – Golems – Alain Delbe – Com demasiadas linhas narrativas e em demasiados formatos, apresenta uma história em vários épocas onde a figura fantástica do Golem tem especial destaque. Nazis, romances, cabalas e segredos familiares – são várias as reviravoltas e as ideias que vão sendo introduzidas, permitindo uma leitura rápida de uma história que diz mais do que mostra. De leitura agradável, propícia a desligar o cérebro, possui episódios interessantes e de bastante acção mas não é um livro excelente. No link encontram comentário mais detalhado.

O Cavaleiro Sueco – Leo Perutz

IMG_1257

Com apenas dois livros disponíveis em português (este, O Cavaleiro Sueco publicado pela Cavalo de Ferro e O Judas de Leonardo pela Caleidoscópio) Leo Perutz é conhecido pelas suas obras de horror e fantástico. Nascido em Praga (essa cidade fantástica que não paro de encontrar nas minhas leituras), publicou várias obras onde se reconhecem alguns detalhes bastante evoluídos para o seu tempo.

Ainda que não evoque a figura física do diabo, O cavaleiro sueco recorda algumas das histórias de aventureiros tradicionais que se vêm a mãos com o diabo, tentados pela fortuna fácil e pela via da esperteza marreca a ganhar a vida, sem perceber que automaticamente se estão a condenar ao fogo eterno. Ainda que, neste caso, a figura do diabo não seja visível, encontramos também uma figura sobrenatural que irá catalizar acções e determinar o rumo das nossas personagens.

A história começa com dois jovens a atravessar, em pleno Inverno, terrenos que não lhes são acolhedores. Um, de origem nobre, terá fugido do exército e procura agora juntar-se ao Rei Sueco. O que o acompanha, bem mais corajoso, é um ladrão de profissão que, ainda de torta moral, consegue ter mais honra e dignididade do que o pobre. É num moinho aparentemente abandonado que os seus destinos se confundem. Espera-os uma mesa farta que o nobre fanfarrão se apreça a consumir, enquanto o ladrão, desconfiado, se recorda de ser este o moinho do moleiro fantasma.

É o destino que vai dar a conhecer ao ladrão uma propriedade negligenciada a cargo de uma jovem inocente que espera o seu prometido – por azar o nobre conhecido do ladrão. Ainda que enviado pelo nobre para se resgatar ao dono do moinho, o ladrão esconde os seus intuitos ao ver que a jovem se iria sacrificar sem medida e retorna ao moinho sem cumprir a promessa feita.

Esta é a primeira grande mentira que irá decidir o futuro de ambos – o nobre vai para as minas e o ladrão, liberto e manhoso, faz-se chefe de uma pequena pandilha para assaltar igrejas que acumulam fortunas sem uso. Apesar das sucessivas acções desonradas, o ladrão, astuto, tem um objectivo maior – retornar um dia à propriedade da bela jovem e endireitar tudo o que de lá viu de errado. Mas claro que o passado o persegue – sejam as mentiras trocadas com o nobre que o levam a assumir uma identidade alheia, sejam as acções perpetuadas com os seus companheiros da má vida.

Tanto ladrão como nobre acabam, por vias tortas, por concretizar parte dos seus sonhos, mas com grandes consequências para ambos – o ladrão não pode revelar quem é e quem foi, o nobre quase se esquece de quem é. Ambos acabam, de forma diferente, por conhecer o esplendor e a queda, em reviravoltas que relembram as melhores histórias do conflito Diabo – Deus.

Apesar do enredo ter algumas semelhanças com histórias tradicionais de esperteza e engano, possui um desenvolvimento das personagens que lhe confere maior dimensão. É que o ladrão não é simplesmente um jovem astuto, mas o fruto das circunstâncias, um jovem de intenções até honradas, mas que age de acordo com os comportamentos que conhece. Também os bandidos que chefia são personagens menores que evoluem e geram alterações na vida do ladrão, e até a pequena filha acaba por ter um papel muito importante no desenrolar da história.

Para além disso, a história tem ainda uma outra leitura podendo passar por ser fruto da imaginação de uma criança esperançosa que vê, nos seus sonhos, um conforto familiar. E o que dizer do moleiro que não assume nunca as suas possíveis características sobrenaturais deixando pairar a dúvida? Apesar de ter um enredo familiar, nada é, nesta história, tão simples quanto parece.

Teremos sempre Paris – Ray Bradbury

IMG_0938

Ray Bradbury foi, sem dúvida, um mestre. Escrevendo em diversos géneros, ficou conhecido por obras bastante distintas como Fahrenheit 451 (distopia), As Crónicas Marcianas (ficção científica) ou Algo maligno vem aí (que eu classificaria como horror). Este Teremos sempre Paris, publicado por cá pela Bizâncio, é um conjunto excepcional de contos com referências de género mais subtis.

O livro abre com Massinello Pietro, um conto em torno de uma personagem com o mesmo nome, um homem que perdeu tudo e que por todos foi atraiçoado, e que encontra nos animais a sua companhia predilecta. Acumulando, na pequena propriedade citadina, vários companheiros, é alertado pelas autoridades diversas vezes. Recusando-se a abdicar da companhia fiel dos animais, está disposto a ir, até às últimas consequências. Uma caricatura carregada de vivacidade onde se explora um pouco da mesquinhez humana num caminho de inevitável desgraça.

always paris

Entre contos de encontros e desencontros, encontramos outra das minhas histórias favoritas do conjunto, um conto que tem uma pitada de horror – O Homicídio. Nesta história um homem é levado a apostar em como nunca seria capaz de matar alguém. Após o acordo, começam as incertezas – principalmente quando descobre que não é o primeiro a fazer a aposta.

Também com uma pitada de horror e de fantasia, A Mamã Perkins veio para ficar apresenta uma casa americana típica, onde a esposa submissa fica em casa, sozinha, fazendo os trabalhos domésticos e aguardando ansiosamente pelo marido. Um dia, o homem não encontra apenas a mulher, mas uma personagem fictícia que se terá materializado a partir do rádio, uma presença insuportável e intrometida que será a companhia da esposa nas longas horas de solidão.

always paris 2

Se em Anti-conversa de almofada um rapaz e uma rapariga, amigos que terão tido uma descaída amorosa decidem ter uma antítese da típica conversa com o intuito de continuarem apenas amigos, em Pater Caninus um cão faz as vezes do padre nas confissões, deixando em paz os doentes terminais que veem na sua presença uma redenção.

Chegadas e Partidas também se destacou, apresentando um casal de idosos que permanece fechado na sua casa, dia após dia. Um dia resolvem sair os dois, e vivem umas horas de intensa emoção, relembrando antigos conhecidos, fazendo planos para teatro e cinema, e pensando nas razões pelas quais não costumam sair mais.

Contos de encontros e desencontros, possuem alguns elementos fantásticos mas sobretudo como ferramentas para explorar a natureza humana, ora na comodidade do que é conhecido, ora na irreverência da exploração que é tão característica dos homens. Dizer que este é mais um excelente conjunto de histórias de Ray Bradbury não é, de todo, minimizar a qualidade deste conjunto, mas sim realçar que poucas são as histórias que nos deixam indiferentes.

Assim foi: Sustos às sextas – 15 de Janeiro

sustos as sextas programa

Ano novo, novo ciclo de Sustos às sextas ! Já faltava o Inverno com sustos ao crepitar da lareira. Após apresentação sucinta do novo ciclo, eis que a sessão começa com interpretação, a quatro mãos (Mariana Soares e Manuela Fonseca) de Danse Macabre de Saint-Saens, após introdução de Prof. Fernando Serafim.

laurie-lipton-danse-macabre

Laurie Lipton – Danse Macabre (de destacar que existem duas personagens não esqueléticas)

Peça curiosa, bem enquadrada na temática, que terá tido origem numa velha superstição francesa na qual, durante o Halloween, a Morte chamará os mortos para dançarem enquanto toca violino.Durante a peça, passaram-se algumas imagens alusivas, como esta de Laurie Lipton. Deixo-vos a peça interpretada por dois pianistas que, claro, não se compara à possibilidade de ouvir ao vivo.

A esta interpretação, seguiu-se a apresentação de Vanessa Fidalgo onde terá tido oportunidade de explicar como terá iniciado a sua incursão nas histórias sobrenaturais portuguesas. Tudo terá começado numa reportagem que terá levado a uma reunião com a editora que lhe propôs a oportunidade de escrever sobre o tema.

IMG_0717

E após uma única foto, a bateria foi-se…

A partir daí, a autora terá procurado contactos em Portugal, de pessoas diversas que tivessem histórias para contar, desde antigos acontecimentos associados a terras e construções, a lendas com figuras sobrenaturais portuguesas, de preferência com referência a pessoas que tivessem existido. O resultado desta pesquisa foi a publicação de três livros: 101 locais para ter medo em Portugal, Histórias de um Portugal assombrado e seres mágicos em Portugal. Pelo meio, houve ainda espaço para algumas histórias associadas ao local onde estávamos: o Palácio dos Aciprestes.

Deliciosas bolachinhas em formato de fantasma e de morcego com café – após um curto intervalo segue-se a leitura do conto de horror Vultos na escuridão, por António Monteiro e da autoria do mesmo, uma história pausada com referências negras, onde o horror é mais uma presença sombria do que algo palpável.

Edições anteriores:

13 de Fevereiro de 2015

– 13 de Março de 2015

– 17 de Abril de 2015

– 15 de Maio de 2015

Outcast Vol.2 – Kirkman & Azaceta

IMG_0682

Se no primeiro volume pareciam estar reunidas as condições para fazer arrancar a série, este segundo vem adiar este arranque, com pouca acção, e poucas revelações. Se já se tinha percebido que os possuídos abundavam, aqui percebe-se que aqueles que se julgava tratados, afinal estão piores.

O outcast é uma personagem que tem a capacidade de exorcitar, rápida e eficazmente, os possuídos, conseguindo identificá-los facilmente pelo toque – automaticamente o possuído se retrai, como se tivesse levado um choque eléctrico. Aliado ao padre, visita alguns daqueles que este terá exorcitado, descobrindo que não só continuam possuídos, como estão bastante pior, e apresentam grande divergência de personalidade.

Ao exorcitar uma rapariga que apresenta todos estes sintomas, esta entre em coma, percebendo-se que, para aqueles que estão contaminados há mais tempo, não existe verdadeira cura possível. Para os mais recentes, o nosso herói deprimido consegue actuar sem deixar sinais do que ocorreu.

IMG_0688

Mas será mesmo exorcismo a acção perpetuada pelo outcast sobre os possuídos? Esta é a pergunta que se vai fazendo ouvir cada vez mais alto e ganhando força com os pequenos episódios onde se encontram possuídos, falando do outcast como uma peça fundamental para os seus planos.

Apesar de sentir alguma curiosidade em perceber o enredo que se esconde por detrás dos possuídos e da estranha figura que é o outcast, a história arrasta-se lentamente, centrado em duas personagens com as quais sinto poucas empatia: um homem deprimente e deprimido, que oscila entre certezas e insegurança de uma forma estranha; e um padre que, até agora, não me convenceu.

O que gostaria de ver nos próximos volumes para melhorar a minha opinião? Mais episódios centrados noutras personagens, nem que fossem personagens possuídas (neste volume já existem algumas, mas são demasiado escassas e rápidas). Maior diversidade de cenários – entre as casas isoladas e os raros episódios na cidade, o tom escuro e pouco diverso faz-me percepcionar pouca diferença entre episódios. Menor incerteza das personagens – entre um herói traumatizado e o padre inseguro, ambos duvidando das suas capacidades e papeis, resta pouco espaço para alguma acção concreta e contínua.

IMG_0690

Depois deste parágrafo parece que tudo é mau. Nem por isso. Encontramos um vilão misterioso que parece comandar ou pelo menos supervisionar vários possuídos e que tem espaço para um bom desenvolvimento. Encontramos, também, uma temática interessante que se nota esconder um bom segredo para o qual já formulei algumas teorias. Com um bom seguimento, poderá tornar-se interessante. Quando arrancar. Espero que brevemente.

A Chinela Turca – Machado de Assis

IMG_0268

Este pequeno livrinho reúne três bons contos de Machado de Assis: A Chinela Turca, O Espelho e A Igreja do Diabo.

O primeiro apresenta-nos um jovem enamorado que se prepara para encontrar a apaixonada num baile. Impaciente, é impossibilitado de sair de casa por um major, seu conhecido, que o escolheu para ler o romance recentemente escrito, consequência da ocupação que escolheu para se entreter após a vida militar.

A impaciência dá lugar à irritação e, talvez por isso, a crítica que faz ao major é bastante negativa, quase insultuosa em modos. A partir daí assistimos a um episódio de horror por expectativa, com o jovem a ser arrastado de sua casa, acusado de um roubo por homens que afinal não o levam para a esquadra.

No segundo, O Espelho, outro jovem visita uma tia, que face ao sucesso do seu sobrinho, lhe dá todos os mimos e elogios, até ao dia em que tem de se ausentar da quinta. Sem sentido de autoridade e demasiado mimado, o jovem não está preparado para manter a ordem na quinta perante os criados.

O último, A Igreja do Diabo, é a mais cómica e interessante história dos três, levando-nos ao dia em que o Diabo decide fundar uma Igreja, com livro sagrado, locais de culto oficiais e seguidores. Mas logo descobre que não é da natureza humana manter-se no mesmo rumo durante muito tempo.

Este pequeno e barato livro fornece bons momentos de entretenimento com três contos bem escritos e interessantes que podem ser enquadrados no género do horror, sem necessidade de apresentar cenários gore.

The Strange Library – Haruki Murakami

IMG_0482

The Strange Library é uma das obras mais recentes de Haruki Murakami, uma novela que, à semelhança de Os Assaltos à Padaria, usa aspectos gráficos para dar maior ênfase a alguns episódios da história. Mas se, em Os Assaltos à Padaria, as imagens permaneciam separadas do texto, neste volume elas contêm, ou são contidas pelo texto, numa interacção proveitosa para o leitor.

IMG_0484

A história pode ser enquadrada no horror juvenil, apresentando um rapaz curioso que, questionando-se como se faria a colecta de impostos no Império Otomano, se dirige à biblioteca para requisitar alguns livros que o elucidem. Na recepção é atendido por uma funcionária mentalmente ausente que lhe indica uma porta que desconhecia.

IMG_0485

Por detrás da porta existe um velhote que, prontamente, encontra três grossos e velhos volumes sobre a recolha de impostos, de vários pontos de vista. Mas estes volumes só podem ser lidos na biblioteca, que está quase a fechar. Ainda que curioso, o rapaz sente alguma reticência em permanecer na biblioteca após o horário de fecho.

A custo, lá é convencido pelo velhote, a consultar os livros ainda naquele dia. O rapaz lá segue o homem, por corredores negros, através de um labirinto que tem, no final, uma jaula. Lá deverá permanecer durante o período de um mês, para decorar os grossos volumes. Caso falhe na tarefa, os seus miolos serão devorados pelo velhote.

IMG_0498

Durante o encarceramento é visitado por um homem, que, a medo do velhote, lhe traz comida e garante a prisão. De vez em quando aparece, também, uma jovem rapariga, uma visitante de um mundo paralelo que pensa, com ele, escapar daquele estranho e fantástico espaço.

IMG_0503

Visualmente estimulante, a curta história deste volume possui diversos elementos de horror fantástico pouco usuais – descrições de pequenos castigos que se tornam horrores mais pelo que se imagina do que propriamente pelo que encontramos descrito.Não que sejam castigos muito pesados, mas é arrepiante imaginar que nos fecham num frasco cheio de lagartas peludas.

Sombria, esta pequena novela consegue ter algumas reviravoltas desagradáveis em que, sem acontecer nada de explicitamente horroroso, faz perceber que alguma coisa espreita para sempre nas trevas, conferindo inquietude ao final que é muito menos pacífico do que pode parecer.

Dezembro de 2015

Sim, o resumo do mês de Dezembro sai depois do resumo de 2015 – por conta das críticas e artigos que, para compensar os lançamentos, foram bastantes. Ocorreram as Conversas Imaginárias (em substituição parcial do Fórum Fantástico) e o lançamento de Nos Limites do Infinito, que deu muito que falar. A nível das críticas, este mês foi bastante movimentado, com bastante destaque da produção nacional. Nos artigos, há a destacar o mais recente lançamento de Umberto Eco e uma entrevista ao escritor João Barreiros.

antologia steampunk banner

Críticas interessantes

Ficção científica

Antologia Steampunk 2015 – Intergalacticrobot;

A Cidade do Céu – Curt Siodmak – A Lâmpada Mágica;

Tis the season – China Miéville – Nuno Ferreira;

Arranha-céus – J. G. Ballard – Ler y Criticar;

Os vespões de ouro – Peter Randa – A Lâmpada Mágica;

– A Lição de Anatomia do temível Dr. Louison – Enéias Tavares – Intergalacticrobot;

O Último Europeu – Miguel Real – Que a estante nos caia em cima;

O tempo do impossível – John D. MacDonald – A Lâmpada Mágica;

Cair da noite – Isaac Asimov – Intergalacticrobot;

Passaporte para o eterno – J. G. Ballard – A Lâmpada Mágica;

Nemesis Games – James S. A. Corey – Intergalacticrobot;

cavaleiro sueco banner

Fantasia

O cavaleiro sueco – Leo Perutz – Deus me Livro;

Histórias das terras e lugares lendários – Umberto Eco – Intergalacticrobot;

Histórias de aventureiros e patifes – vários autores – Nuno Ferreira;

O anjo mais estúpido – Christopher Moore – Que a estante nos caia em cima;

Ashram – Ana Luiz – The fond reader;

Contos a Oeste – Ana Cristina Luz – A Lâmpada Mágica;

As reencarnações de Pitágoras – Afonso Cruz – Deus me Livro;

O herói das eras – Brandon Sanderson – Nuno Ferreira;

– A alvorada dos Deuses – Filipe Faria – As Leituras do Corvo;

Fontiçaria – Terry Pratchett – Leitora de fim-de-semana;

sharaz de banner

Banda desenhada

Batman: The Doom that came to GothamIntergalacticrobot;

Sharaz-DeQue a estante nos caia em cima;

Fatale vol.3aCalopsia;

– Tony Chu – Diário Digital;

– Batman Noir – As Leituras do Pedro;

Fell: Cidade Selvagem – Intergalacticrobot;

O esquadrão da LuzaCalopsia;

O Livro do Mr. Natural – Robert Crumb – A Lâmpada Mágica;

resurreicao

Outros

Contos de aprendiz – Carlos Drummond de Andrade – Deus me Livro;

Nos limites do infinito – vários autores – Intergalacticrobot; As leituras do corvo; O Senhor Luvas;

O diabo e eu – Alcimar Frazão – My very own lines;

A Loucura de Deus – Juan Miguel Aguilera – A Lâmpada Mágica;

A celebração – H. P. Lovecraft – Nuno Ferreira;

Colecção Barbante – vários autoresIntergalacticrobot;

Outros artigos

– João Barreiros, Portuguese Writer, Editor, Translator and Critic Interviewed by Cristian Tamas – Europa SF;

– A dupla vida de Alix – Máquina de escrever;

– Livros com utopia – Visão;

– Um escritor do outro Mundo – Observador (sobre Philip K. Dick);

– Os lugares mágicos e lendários de Umberto Eco – Diário de Notícias;

– Levar «As crónicas de gelo e fogo» de George R. R. Martin nos bolsos das nossas calças – Diário Digital;

– A ler: História das Terras e dos lugares lendários – Estante;

– Notas sobre uma resurreição – Máquina de escrever;

Eventos nacionais

– Lançamento: Nos Limites do Infinito – Intergalacticrobot, Que a estante nos caia em cima, Especular;

– The Padawan Wars – Que a estante nos caia em cima;

– Comic Con 2015 – As Leituras do Pedro, Leituras de BD, D’Magia;

– Conversas Imaginárias – Intergalacticrobot, Que a estante nos caia em cima, aCalopsia;

Resumos mensais anteriores

Novembro

– Outubro 2015

Setembro 2015

Retrospectiva 2015 – Resumo literário

Depois de um pequeno apanhado sobre a ficção especulativa em Portugal durante o ano de 2015, eis a normal lista de melhores do ano, com algumas estatísticas para enquadramento.

2015 no Rascunhos

Por motivos profissionais e pessoais, durante os anos de 2012 / 2013 as minhas leituras ficaram reduzidas quase a zero. Felizmente, em 2014 voltei a ler a sério, que é como quem diz, mais do que um livro por semana (Retrospectiva 2014). O ano de 2015 foi o ano de retomar o meu usual ritmo com 152 livros (Livros lidos em 2015). Ao contrário do que me é costume, este ano tinha alguns objectivos genéricos de leitura – ler mais autores portugueses, livros em espanhol e mais banda desenhada. Ainda não foi desta que voltei a pegar em livros de nuestros hermanos.

As críticas aumentaram, bem como as visualizações (cerca de 24 000). Dediquei mais tempo à página facebook, renovei antigas parcerias e criei novas. Também me associei ao NetGalley, uma plataforma que me tem permitido receber cópias digitais das editoras de vários e bons livros. Tudo isto justifica uma nova página com os livros recebidos pelas editoras ou pelos autores.

Artigos mais lidos este ano? Não contando os acessos directos à página principal: As cruzadas vistas pelos árabes (no seguimento de várias pesquisas de teor duvidoso sobre refugiados) com 935 visualizações, seguido de Rapariga com brinco de pérola com 453, O Visconde cortado ao meio com 437. Dos artigos recentes, o mais visto foi Aventuras de João sem medo com 183 visualizações e Mar de Afonso Cruz com 177.

Entradas no Rascunhos que mais gostei de fazer?

– Como oferecer ficção científica ou fantasia a toda a gente;

– Favoritos – Lista de autores, séries e livros favoritos;

– Série de links interessantes – Halloween;

Distopias;

Lançamento Da Família e Inventário do Pó;

– Colecção Bang! Saída de Emergência / Colecção 1001 Mundos Gailivro;

– Livrarias: Leituria / Fyodor / Bivar;

– Enciclopédias e Dicionários Fantásticos;

– As histórias circulares de Zoran Zivkovic;

– The Gallery – Fredrik Dahl Tyskerud;

Metas para 2016? Manter o ritmo, investir na área vasta que é a banda desenhada e continuar a dar destaque a ficção especulativa portuguesa.

As Melhores Leituras 

stories of your life

Melhor antologia – Stories of your life and others de Ted Chiang – As histórias presentes nesta antologia partem de premissas simples para transformar de forma considerável a sociedade, tendo, comummente, um de dois pontos como partida: a influência da religião ou o desenvolvimento da inteligência. Na influência da religião encontramos contos centrando-se no poder da escrita judaica, com golems e homúnculos, ou na construção de uma torre de babel que atinge a cúpula celeste. Com desenvolvimento da inteligência encontramos homens tão inteligentes que jogam xadrez com a realidade, ou entidades artificiais com capacidade de desenvolvimento, aprendizagem e sentimentos que nos fazem questionar se podem ser consideradas entidades com direitos e deveres. Estes são apenas alguns exemplos, mas as histórias de Ted Chiang caracterizam-se por serem impecáveis do ponto de vista formal (sem episódios em excesso e contendo apenas o essencial para a história sem quebrar a empatia com o leitor), interessantes em premissa e envolventes.

lightspeed magazine 47

Melhor história curtaThe Day the world turned upside down de Thomas Olde Heuvelt. Quando pensei nesta categoria, foi logo esta história que me ocorreu. E logo a seguir o pensamento “Que lugar comum, escolher logo o vencedor do prémio Hugo!”. Razão pela qual fui rever as antologias e revistas que li ao longo deste ano (e foram muitas). Resultado? Voltei à mesma história. Apesar de ter lido dezenas de histórias apocalípticas em antologias dedicadas ao tema, esta destaca-se.  Sem se preocupar com causas, nem efeitos cientificamente correctos, centra-se numa única personagem que, frente à desgraça mundial, procura apenas a ex-namorada, num cenário de cobardia e incapacidade para com os eventos que o rodeiam, mas simultaneamente coragem louca para rever a pessoa pela qual está obcecado.

IMG_9813

Melhor banda desenhada Locke & Key Vol.5 – Excepcional do ponto de vista visual, muito movimentado e bastante revelador da origem de toda a história, este volume possui uma enorme carga trágica, com episódios bastante violentos do ponto de vista psicológico. A premissa é interessante – uma série de chaves que se encontram numa velha casa de família permitem adquirir diversos e até, assustadores poderes. É possível abrir, literalmente a cabeça para retirar ou adicionar conhecimentos, é possível passar a existir como um fantasma ou viajar para qualquer lado que tenha uma porta – mas estes poderes só se encontram acessíveis a jovens.

martian chronicle

– Melhor ficção científica – The Martian Chronicles – Ray Bradbury – Excelente e com uma pitada de humor típica de Bradbury, apresenta-nos uma série de histórias interligadas do tempo em que ainda se podia sonhar com uma civilização perdida em Marte. Histórias dementes que nos fazem apaixonar por um planeta que não existe, de sentimento nostálgico, satirizando governos e situações – The Martian Chronicles é simplesmente fabuloso com pitadas devastadoras de ironia bem posicionada.

IMG_3189

– Melhor fantasiaO Grande Manuscrito – Zoran Zivkovic – Não fosse um dos meus autores favoritos, este foi o último livro lançado do autor cuja história se centra em… livros. A realidade descrita é bastante semelhante à nossa, mas possui contornos surreais e fantásticos que são percepcionados e estranhados pelas próprias personagens. O próprio escritor alterna entre decisor e peão, numa dualidade interessante que é explorada em várias camadas. Este não é o típico livro de fantasia épica, mas das que li, nenhuma me desperta o sentimento de maravilha como este livro;

insonho

Melhor antologia portuguesa – Insonho. Bem sei que é um conjunto de contos, mas é um conjunto coeso de premissa interessante – monstros do popular português.

– Outras menções honrosas

  • Antologias – Depois de ter lido mais de uma dezena de antologias, não é de estranhar que queira realçar mais uma, Deathbird Stories de Harlan Ellison, um conjunto pungente de contos negros, pesadelos que subvertem a realidade de forma dura, crua e contagiosa, falando de deuses tornados homens e homens tornados deuses de forma pervertida. Estes contos são murros no estômago e não devem ser lidos pelos mais sensíveis;
  • Histórias curtas – Entre as dezenas de antologias e colectâneas lidas este ano é impossível não destacar mais histórias. The Mill de Paul di Filippo foi outra das histórias de que me recordei logo. Criando um mundo bastante semelhante ao The Carpet Makers é complexo e interessante, apresentando várias gerações que afinal fazem parte de uma farsa imperial – um mundo inteiro numa economia de mentira. The Autopsy de Michael Shea é um excelente conto de horror científico que, sem grandes efeitos, consegue criar o ambiente perfeito de suspense. Em Sun’s East, Moon’s West de Merrie Haskell o conto de fantasia transforma elementos conhecidos apresentando uma rapariga que, sendo capaz de transformar palha em oiro, prefere matar dragões. Claro que tinha de me recordar de outro conto apocalíptico – Dark, Dark Were the Tunnels de George R. R. Martin apresenta-nos uma humanidade dividida entre aquelas que ficaram na terra durante um desastre nuclear e se refugiaram no subsolo e aqueles que estavam na Lua – será que quando as duas partes se reencontram se reconhecem como pertencendo à mesma espécie? Soft de F. Paul Wilson é outro conto apocalíptico que se destaca pela exploração da componente humana, apresentando uma doença que liquidifica lentamente os ossos;
  • Banda desenhada – Estas são referências que não irão espantar ninguém: Saga é uma extraordinária série cruzando elementos de ficção científica e fantástico com vários elementos cómicos; Tony Chu explora poderes associados à comida que causam fascínio e asco ao leitor, centrando-se numa personagem relativamente mal disposta; Animal’Z é um volume negro, deprimente e apocalíptico que deixa pouca esperança na humanidade como a conhecemos – talvez com umas pequenas alterações? Finalmente, The Private Eye é uma distopia futurista, deprimente, estranha e cativante, de cores fortes;
  • Ficção científica – foram poucos os livros de ficção científica ou fantasia lidos este ano – li sobretudo contos. No entanto, O Ano do Dilúvio de Margaret Atwood foi uma leitura suficientemente interessante para merecer uma referência. Apocalíptico, acompanha uma seita de naturalistas que passam por loucos numa sociedade degradada e degradante.
  • Autoria portuguesa – As sementes para boa ficção especulativa portuguesa existem. O que não existe é solo para crescerem ou espaço para se consolidarem e crescerem. João Ventura já é um nome constante de diversas antologias e revistas que, desta vez, me surpreendeu com Fogo! na Antologia de Ficção Científica Fantasporto. Urbania – A destilação do absurdo de Carlos Silva também me surpreendeu pela positiva numa compilação lançada digitalmente, Universos Literários. Finalmente, Teddy de João Rogaciano é também uma história cativante que merece referência;
  • Fora de género – À mesa com Kafka é uma divertida compilação de receitas enquadradas numa história contada ao estilo de algum autor conhecido.

Melhoras leituras de anos anteriores

2014

2011

2010

2009

2008

2007

2006

 

A ficção especulativa em Portugal – 2015

sustos

Talvez por ter voltado a ter alguma disponibilidade, a sensação que fica deste ano é que houve um aumento nos eventos associados ao horror, à ficção científica ou à fantasia. Foi o primeiro ano de Sustos às Sextas (que irão ser retomados agora em Janeiro de 2016), foi o ano em que David Brin veio a Portugal (para quem não conhece é um prolífero autor de FC), e foi o ano em que houve espaço na Gulbenkian para FC e Banda desenhada, com painéis que nos trouxeram Lauren Beukes, Fábio Fernandes, Joe Dog, Marcelo D’Salete ou Posy Simmonds.

Claro que estou apenas a referir aqueles em que pude comparecer, mas houve muito mais – iniciativas Steampunk pela Corte do Norte e pela Liga Steampunk de Lisboa e Provínvicas Ultramarinas, o Scifi LX (no qual apenas passei rapidamente), vários lançamentos de bandas desenhadas ou o evento The Padawan Wars.

motelx_livro_motelx_-_historias_de_terror

Foi, também, um ano marcado por vários lançamentos de antologias nacionais como Insonho, MotelX Histórias de Horror, ou Nos Limites do Infinito. Infelizmente não ocorreu o Fórum Fantástico, mas as Conversas Imaginárias vieram compensar, com a apresentação de vários projectos nacionais, e lançamentos futuros de João Barreiros, António de Macedo, Luís Filipe Silva, David Soares ou da Imaginauta.

estação onze

Os lançamentos de ficção especulativa por editoras de maior dimensão continuam escassos. Continuamos sem nenhuma colecção de publicação constante mas vão sendo lançados alguns livros no género, ainda que, muitos, camuflados. Abaixo, uma lista dos que achei mais relevantes:

Na área da banda desenhada não sou uma perita, mas captaram-me sobretudo a colecção de Novelas Gráficas da Levoir com o Público,  os excelentes lançamentos de preço acessível da G. Floy (como Saga ou Tony Chu) e alguns dos lançamentos da Kingpin (como Kong ,the King, O poema morre ou Fósseis das Almas Belas).

O que podemos esperar para 2016? Na área dos eventos, já está disponível o programa para Sustos às Sextas, e decerto irá retornar o Fórum Fantástico. Nos lançamentos nacionais é previsto termos uma nova edição do Terrarium (de João Barreiros e Luís Filipe Silva), um novo livro de António de Macedo, a publicação do vencedor do prémio Divergência (Anjos de Carlos Silva), novas edições de livros de David Soares (O Pequeno Deus Cego e A Última Grande Sala de Cinema), um segundo volume de Comandante Serralves e uma Antologia Erótica de Literatura Fantástica.

Resumo de Leituras – Dezembro (3)

01 nos limites do infinito

140 – Nos limites do infinito – vários autores – Com seis contos bastante diferentes em estilo e composição, não faltam nesta antologia diabos, fantasmas ou arrepiantes criaturas de aparente inocência, tudo em tom bem português. Este é o melhor conjunto de histórias publicado até agora pela Editorial Divergência;

uma última volta

150 – Uma última volta – Ana Luz – Este conto publicado isoladamente, faz parte da Colecção Barbante, um dos últimos projectos da Imaginauta. De reviravolta final pouco usual é um conto engraçado;

wolverine 2

151 – Wolverine: Origem II – Apesar de ter gostado mais do primeiro volume, possui imagens impressionantes, com uma história ainda mais carregada de acontecimentos negativos em torno de Wolverine. Por duas vezes pensou ter encontrado uma nova família, por duas vezes, ocorreu nova desgraça;

fables 6

152 – Fables Vol. 6 : Homelands – Este volume contem duas componentes bastante diferentes, agrupando os dois volumes em torno de Jack que originaram o spin-off Jack the Fables, e os 5 volumes em torno de Boy Blue, nas terras da fantasia onde se encontra em missão para destronar o poderoso Imperador.

Destaque da semana: As horas invisíveis – David Mitchell

As horas invisíveis

Mais conhecido em Portugal pelo livro Atlas das Nuvens, David Mitchell é um autor que tem dado que falar no cenário internacional ao vencer o prémio World Fantasy para o livro The Bone Clocks, publicado agora como As horas invisíveis. Esqueçam a capa aparentemente inocente e a sinopse que relembra uma fantasia juvenil, este livro que já foi sugerido por João Barreiros no Fórum Fantástico tem pitadas deliciosas de horror. Pode-se dizer que o ano de 2016 vai começar bem. Esperemos que se mantenha.

Deixo-vos, abaixo, ambas as sinopses:

Sinopse portuguesa

Holly Stykes foge de casa dos pais para viver com o namorado. Embora pareça uma típica adolescente inglesa, é propensa a fenómenos paranormais. Durante a fuga, conhece uma mulher estranha que a alicia com um gesto amável em troca de asilo. Décadas depois, Holly compreende por fim que espécie de asilo a mulher procurava…

Este thriller empolgante de David Mitchell, aclamado autor de Atlas das Nuvens, acompanha a vida atribulada de Holly numa série de eventos que se cruzam por vezes de maneira indizível, pondo-a no centro de uma intriga perigosa jogada nas margens do mundo e da realidade. Dos Alpes suíços da Idade Média ao interior australiano do século XIX, culminando num futuro próximo distópico, As Horas Invisíveis é um romance caleidoscópico que nos oferece uma alegoria do nosso tempo

 

Sinopse inglesa

One drowsy summer’s day in 1984, teenage runaway Holly Sykes encounters a strange woman who offers a small kindness in exchange for ‘asylum’. Decades will pass before Holly understands exactly what sort of asylum the woman was seeking . . .

The Bone Clocks follows the twists and turns of Holly’s life from a scarred adolescence in Gravesend to old age on Ireland’s Atlantic coast as Europe’s oil supply dries up – a life not so far out of the ordinary, yet punctuated by flashes of precognition, visits from people who emerge from thin air and brief lapses in the laws of reality. For Holly Sykes – daughter, sister, mother, guardian – is also an unwitting player in a murderous feud played out in the shadows and margins of our world, and may prove to be its decisive weapon.

Metaphysical thriller, meditation on mortality and chronicle of our self-devouring times, this kaleidoscopic novel crackles with the invention and wit that have made David Mitchell one of the most celebrated writers of his generation. Here is fiction at its most spellbinding and memorable best.

Nos limites do Infinito – Vários autores

01 nos limites do infinito

Já não é novidade para ninguém que a publicação de ficção especulativa portuguesa é escassa nas grandes editoras. Bem, até a estrangeira, quanto mais a portuguesa. Felizmente, apareceram vários projectos que têm dado a conhecer o trabalho de autores portugueses nesses géneros. A Editorial Divergência é um destes projectos que lançou no Sábado a terceira antologia de contos, Nos Limites do Infinito. Com seis contos bastante diferentes em estilo e composição, não faltam nesta antologia diabos, fantasmas ou arrepiantes criaturas de aparente inocência, tudo em tom bem português.

Ana Luiz é a autora da primeira história, Sorte ao Jogo, que decorre num cenário particularmente caricato – uma taberna de aldeia onde não falta nem o calendário pendurado e amarelado, ou os copinhos prontos a servir. Dois homens, em merecido descanso, dirigem-se à taberna, esfregando as mãos quando se apercebem da presença de um ricaço, uma possível vítima para as recorrentes partidas, que teriam corrido muito bem, não andasse o diabo à solta. Este é daqueles contos que relembra as histórias mirabolantes do diabo que, aproveitando a suposta esperteza das suas vítimas, as leva no caminho do engodo, num desfecho sabido.

O segundo conto, de Ângelo Teodoro, centra-se num relacionamento impossível que se transforma em obsessão. Um homem que almoça propositadamente sempre sozinho, um dia é transtornado pela pasasgem de uma jovem. A partir daí aguarda, ansiosamente, pelas pequenas conversas no banquinho. Claro que a jovem não é a criatura inocente que aparenta, e o homem vê-se numa relação inconcretizável e de final inevitável.

A terceira história é, a par com a de Ana Luiz, a que mais gostei da antologia. Memórias de Teddy , de João Rogaciano, é a história de um peluche encomendado para o filho de Henrique VIII e Catarina de Aragão. A partir da morte da criança o boneco é transferido de casa em casa, tendo os seus efémeros donos, fins bastante caricatos, nada de anormal, numa época de elevada mortalidade infantil. E o pobre do boneco lá vai passando de boneco predilecto a monte de trapos encostado num canto, numa sucessão de episódios infelizes de inconspícuo propósito.

A casa da Rua dos Mirtilos de Ricardo Dias é uma típica história de fantasmas envolvendo adolescentes. Quando exploram uma casa abandonada com a esperança de presenciarem uma assombração, acabam por ter experiências diferentes – principalmente na biblioteca. Com bom desenvolvimento do ambiente juvenil, e com detalhes engraçados que dão alguma realidade às interacções, é um conto simpático sem se tornar assustador.

A Colina que Olha para Ti possui uma transdimensionalidade que o transforma num conto pouco palpável em acontecimentos. A personagem principal é uma aranha que se esconde entre os cabelos de uma rapariga para se fazer transportar – uma rapariga pela qual nutre uma grande simpatia, e com a qual fica preocupada quando descobre que algo de errado se passa. Apesar de ser um conto de agradável leitura, o facto de ser pouco definido em acções faz com que não seja o meu género de leitura.

A última história é outro dos contos de fantasmas desta antologia, da autoria de Yves Robert, um conto bem escrito, onde se destaca o tom inevitável da descoberta assombrada. E ainda que, neste tipo de histórias, o leitor consiga vislumbrar o enredo genérico antes o ler, a verdade é que é nos detalhes que está a mestria.

Neste conjunto de contos destaca-se a influência portuguesa, quer nos cenários, quer no desenvolvimento da história que dão um toque especial a esta antologia. De finais convincentes (algo que costuma falhar em muitas histórias, e a que dou grande valor) contam história interessantes. Apesar de ter gostado bastante de alguns contos presentes em Por Mundos Divergentes, esta é para mim a melhor antologia lançada pela Editorial Divergência.

Assim foi: Conversas Imaginárias 2015 – As Leituras do ano

conversas imaginarias

Esta foi a última conversa do dia, uma conversa que já tem sido habitual nos anos anteriores do Fórum Fantástico e que reúne João Barreiros e seus sobrinhos Artur Coelho, João Campos e eu. Abaixo eis a apresentação dos livros citados, bem como indicação de quem o citou.

explorers guide

Estando do lado da mesa, existem menos hipóteses para tirar notas de pontos interessantes, mas mesmo assim, houve alguns detalhes que gostaria de realçar. Um dos livros indicados por João Barreiros, The Explorer’s Guide de John Baird é um bom exemplo da interacção que permite o formato físico, com páginas amareladas a simular o antigo, e contendo não só texto como banda desenhada e outras imagens. Um livro que foi directo para a minha lista de aquisições futuras.

la casa

Outra das referências de João Barreiros que achei curiosa foi o La Casa de Daniel Torres, um volume que apresentará a casa ao longo dos milénios, desde os primórdios da humanidade aos tempos modernos, mostrando não só o interior das habitações mas representando um pouco do quotidiano e da mentalidade.

slade

Outro volume referido por João Barreiros foi Slade House de David Mitchell, continuação de The Bone Clocks, onde alguns seres humanos são chamados a uma misteriosa casa para serem enclausurados e comidos de forma estranha. A descrição da história foi bastante vísceral.

luna

Luna foi referido tanto por João Barreiros como por João Campos, mas de formas bastante diferentes. João Barreiros irritou-se bastante com as referências brasileiras mal efectuadas que demonstram pouco trabalho de pesquisa, e com as traduções mal feitas de frases para português (brasileiro) que pareceriam saídas do google translator. Já a João Campos estas referências não estragaram o livro, do qual gostou bastante.

O que achei engraçado nesta diferente percepção do mesmo livro, está relacionado com um texto que li algures numa revista americana de ficção sobre os erros dos romances, e até que ponto está o leitor disposto a acumulá-los até se desgostar com o texto. Claro que tal nível de tolerância está relacionado com o quanto esteja a gostar da história.

the wolf among us

Se ainda não leram John Brunner (como eu) decerto que depois das múltiplas referências de João Campos ficam decididos a ler. Claro que terei de iniciar com Stand on zanzibar que já repousa há algum tempo na prateleira. Outro dos escolhidos de João Campos que me chamou à atenção foi The Wolf Among Us por estar relacionado com a série de banda desenhada Fables. Para além da relação com a banda desenhada, captou-me a forma como o final fará repensar todas as fases do jogo.

Leviathan Wakes, James SA Corey

Já tinha reparado nas várias críticas do Artur Coelho aos livros de James SA Corey, longas space-operas, mas que terão alguns pontos repetitivos ao longo dos vários volumes. Fica a referência ao primeiro, que poderá ser uma boa obra para recordar o estilo. Ficou-me, também, a referência a Os Marcianos somos nós de Nuno Galopim, bem como do mais recente Almanaque Steampunk. Mas sobre as escolhas de Artur Coelho não falo mais – podem encontrar detalhe sobre as mesmas no seu blog.

stories ted chiang

Eis então as minhas escolhas e os motivos que me levaram a selecioná-los. A maioria dos volumes que referi são colectâneas, volumes que reúnem as melhores histórias de alguns autores – já que contos não vendem, este ano foi o que mais li.

O primeiro volume escolhido foi Stories of Your Life and Others de Ted Chiang. Esta foi uma das grandes descobertas do ano. O autor possui contos excepcionais, bem escritos, de premissas desenvolvidas de forma concisa, mas sem sacrificar a empatia das personagens, e dando espaço para o desenrolar dos acontecimentos. A maioria dos contos têm uma de duas premissas: inteligência ou religião.

Os contos de premissa centrada na inteligência desenvolvem-se utilizando ora a inteligência artificial, ora a inteligência humana artificialmente aumentada. Temos assim manipulação de genes que leva a uma nova raça de seres humanos, intelectualmente incompátiveis com os restantes, ou grandes duelos entre dois seres humanos que, de tão inteligentes jogam xadrez com a realidade. Do lado da inteligência artificial temos o conto que dá nome ao conjunto, onde se codificam várias entidades, uma espécie de bonecos virtuais com capacidade de aprendizagem e desenvolvimento, que ao revelarem pensamentos e sentimentos, levam a várias questões sobre onde começará a identidade e os direitos e deveres associados.

Os contos de premissa religiosa não possuem uma perspectiva muito positiva. Ora existem anjos que transformam os humanos, mas nem sempre de forma positiva, fazendo com que percam um braço ou uma perna, sem qualquer explicação; ora apresentam uma nova versão da construção da Torre de Babel onde os homens a terminam, chegando à cúpula celeste.

Mas a colectânea possui, também, várias histórias fora destas premissas. Uma delas apresenta-nos seres inteligentes e humanóides, uma espécie de robots que vivem num mundo quase hermeticamente fechado. A pouca perda de energia fã-los viver cada vez mais lentamente.

the bees

The Bees de Laline Paull não tem uma das premissas mais originais nem é, formalmente, dos melhores livros do último ano. Demasiado centrado numa única personagem demasiado multifacetada,é, no entanto, uma leitura que me entreteve bastante e que tive de referir. Capaz de nos fazer simpatizar com a personagem, possui descrições de como as abelhas se fascinam perante a abelha rainha, e apresenta-nos uma rígida hierarquia na colmeia. Ainda que não ocorra nenhum acontecimento político é um género de distopia animal em que a rigidez social é uma constante já esperada.

deathbird

Se as leituras anteriores se apresentam bastante simpáticas, criando empatia com o leitor, este Deathbird Stories de Harlan Ellison é brutal, visceral e simultaneamente fascinante. O leitor assiste mesmerizado a cenas horrendas, que, são descritas de tal forma, que despertam o lado animal do ser humano. Assim começa a colectânea com um conto brutal, onde todo o bairro assiste, estático, ao homicídio de uma mulher. Um crime sangrento e ruidoso, quase teatral, em que a vítima agonia impotente.

Os restantes contos apresentam ecos deste misto de fascínio e aversão, como que transformando o leitor num dos habitantes do tal bairro, descrevendo de forma controlada mas quase sádica, episódios horrendos com pitadas de ironia que fazem o leitor assistir quase estático.

mesa com kafka

Aqui está um livro que se destaca bastante dos anteriores, nem que seja por poder ser encontrado na secção de culinária. E se calhar esta caracterização nem estará assim tão errada porque o livro, na verdade, até apresenta receitas. À mesa com Kafka apresenta ingredientes e modos de preparo, mas dentro do contexto de uma história que é contada ao estilo de algum escritor conhecido.

E que bem é esse estilo simulado. Sopa rápida de miso a la Franz Kafka recorda na perfeição o livro O Processo, descrevendo um episódio que facilmente poderia ser encaixado no livro sem problema algum. Outro dos contos que achei peculiar é Ovos com estragão a la Jane Austen que se centra numa senhora que pretende apresentar os seus belos ovos à sociedade. De origem menos elevada do que a daqueles a quem pretende apresentar os ovos, procura uma forma de os enaltecer sem cair no ridículo. Já Passarinhas desossadas e recheadas a la Marquês de Sade foi o conto lido no Recordar os Esquecidos e que me fez adquirir o livro.

trigger warnings 2

Das colectâneas apresentadas, esta, Trigger Warning, é decerto a menos coesa, quer em conteúdo, quer em formato das histórias. Apresentando ora poemas curtos e estranhos (como uma ode a uma cadeira), ora descrições de fotos mórbidas, ora longas histórias que já foram publicadas isoladamente, destaca-se sobretudo por algumas histórias excelentes que fazem valer a pena o livro.

Para além de apresentar o conto The Sleeper and the Spindle (que ganha maior dimensão na versão ilustrada), destacam-se dois contos centrados em personagens bastante conhecidas de todos: Dr. Who e Sherlock Holmes. O primeiro é uma aventura engraçada e caricata que reconstrói de forma impecável o ambiente da série. O segundo apresenta-nos o detective já idoso, explicando parte do seu fascínio por abelhas.

pump six

A maioria das histórias de Paolo Bacigalupi em Pump Six and other stories apresentam um mundo ecologicamente destruído. O nível das águas sobe de tal forma que grande parte do território está inundado gerando milhões de refugiados e a maioria das espécies animais e vegetais foi extinta. Gera-se fome quer pela indisponibilidade de terreno, quer pela extinção em massa. Para compensar, existem fortes investimentos na biologia molecular que produzem várias espécies artificiais, mais adaptadas à nova realidade.

Um dos melhores contos foge, no entanto, deste contexto. Pump six, a história que deu origem ao conjunto foi o conto que me deu a conhecer o autor, e um exemplo extraordinário de uma história apocalíptica contada ironicamente. A história começa com um homem a entrar na cozinha, e a encontrar a esposa com a cabeça dentro do fogão, com um fósforo acesso, procurando a origem de uma fuga de gás. Depois de a retirar, explica-lhe a estupidez do cenário, relembrando um outro episódio onde teria tentado limpar uma tomada com um garfo. Percebemos dentro de pouco tempo o que se passa: a água cada vez mais contaminada das canalizações está a embrutecer e a transformar os seres humanos de tal maneira que alguns já são autênticos animais, restringindo-se a três actividades, copular, comer e pregar partidas.

stranger in olondria

Melancólico e estranho, A Stranger in Olondria, centra-se numa personagem que tem tudo para ser um herói típico de aventuras fantásticas. Enganem-se. O fascínio que nutre por outra civilização onde espera encontrar livros sem fim e viver descansadamente, torna-se um pesadelo de perseguições religiosas, febres constantes em que não sabe se está a ser assombrado ou se terá sucessivos pesadelos desgastantes.

city of blades

As próximas referências são livros que se encontram no meu radar para aquisições futuras. City of Blades será o segundo de uma trilogia de volumes independentes. O primeiro, City of Stairs, foi uma das melhores leituras do ano passado e é com curiosidade que aguardo este. O mundo onde decorre possui duas civilizações concorrentes, uma de tecnologia evoluída e outra de grandiosos edifícios construídos por Deuses. Quando os Deuses são assassinados, os edifícios desaparecem, mas persistem as escadas construídas pelos humanos. A cidade fica, assim, carregada de escadas, escadarias, pequenos degraus e caracóis que levam a lado nenhum – pedaços que recordam os milhões de pessoas que desapareceram com os edifícios.

the flicker men

The Flicker Men parece ser uma das grandes promessas dos próximos tempos. Não foi a sinopse que me captou, mas várias críticas que o descrevem como uma espécie de cruzamento entre Stephen Hawking e Stephen King, ou seja, contendo grande detalhe científico num excelente thriller.

A última referência não tem, ainda, capa. Big Book of SF será o grande projecto de Ann e Jeff Vandermeer para o próximo ano, onde pretendem reunir ficção científica exemplificativa de todo o século XX, com os mais variados temas, origens e desenvolvimentos.

Outros resumos das sessões de Conversas Imaginárias 2015

Assim foi: Conversas Imaginárias 2015 – Iniciativas em comunidade

conversas imaginarias

Com formato e intuito um pouco diferente das conversas anteriores, esta teve como objectivo divulgar uma série de projectos portugueses que têm dinamizado a ficção científica e o fantástico em Portugal.

A conversa começou com Sérgio Santos a apresentar a H-Alt,  uma revista gratuita de banda desenhada de ficção especulativa (ficção científica e fantasia). Prevê-se que será uma revista anual em formato digital, mas encontra-se em campanha de angariação para a produção de um número físico.

IMG_9950

O segundo projecto a ser apresentado foi a Colecção Barbante, um projecto do colectivo Imaginauta, que tem por objectivo dar a conhecer novos autores publicando contos curtos num formato de baixo custo. No dia do evento foram lançados os cinco primeiro volumes dos quais já conhecia dois dos autores. A colecção encontra-se aberta a submissões e irá remunerar os escritores conforme a venda dos exemplares.

De seguida, apresentou-se a Colecção Génesis, uma colecção do projecto Adamastor que pretende reunir obras de ficção especulativa portuguesa sem edições recentes e que têm sido esquecidas. De momento a colecção ainda só reúne dois volumes, Lisboa no ano 2000 de Melo de Matos e Lisboa no ano três mil de Cândido Figueiredo. Os volumes encontram-se disponíveis gratuitamente em formato digital.

Durante a apresentação da Colecção Génesis, por intervenção do João Barreiros, foram relembrados vários volumes de temática semelhante aos já lançados, livros que terão belíssimas imagens e que poderão ser considerados como futuros volumes da colecção.

IMG_9908

Por último, apresentou-se a Liga Steampunk de Lisboa e Províncias Ultramarinas, que tem organizado eventos, participando com outros colectivos como A Corte do Norte, ou com estabelecimentos como o bar Steampunk O Arranca-Corações.

Outros resumos das sessões de Conversas Imaginárias 2015

 

Assim foi: Conversas Imaginárias 2015 – O Fantástico e o Real

conversas imaginarias

A segunda sessão do dia juntou à conversa David Soares e António de Macedo, com moderação de Rogério Ribeiro. Após uma breve introdução, a conversa começou com Rogério Ribeiro a lançar a discussão para as futuras publicações de ambos os autores, questionando-os sobre os diversos formatos em que trabalham (contos Vs romances Vs teatro / cinema).

Neste caso não vou descrever muito mais a conversa. Existe um vídeo já disponibilizado por David Soares. As boas notícias é que ambos os autores têm livros previstos para os próximos tempos!

Outros resumos das sessões de Conversas Imaginárias 2015

Eventos: Lançamento Nos Limites do Infinito

lancamento nos limites

A antologia Nos Limites do Infinito já tem data marcada de lançamento para Dezembro, estando dois eventos planeados, um para Lisboa, outro para Torres Vedras, segundo o link oficial. Esta pequena antologia de ficção especulativa reúne histórias de alguns autores portugueses já conhecidos de outros projectos semelhantes.

A maioria dos autores que encontramos nesta antologia são-me já conhecidos de outros conjuntos de histórias. Ana Cristina Luiz e João Rogaciano conheci na antologia Insonho, enquanto que Yves Robert já participou no conjunto Vaporpunk e Ricardo Dias em Por Mundos Divergentes e Histórias Fantásticas de Portugal.

Curiosos? A antologia já se encontra em pré-venda !

Eventos: Fórum Fantástico 2015 retorna como Conversas Imaginárias

conversas imaginarias

No seguimento das obras da Biblioteca Municipal de Telheiras que têm impedido a concretização do Fórum Fantastico deste ano, irá decorrer um encontro de menor dimensão temporal na Livraria Fyodor Books (Lisboa) no dia 12 de Dezembro.

Denominado de Conversas Imaginárias, irá centrar-se essencialmente na produção nacional de ficção científica e fantástico, começando com duas conversas, uma de Ficção Científica e outra de Fantasia, em que participam os mais conhecidos autores nacionais associados aos géneros: Carlos Silva, João Barreiros, Luís Filipe Silva, David Soares e António de Macedo.

A estas conversas segue-se um espaço para apresentação de interessantes projectos em curso como a Colecção Barbante, a Colecção Génesis, a Revista H-Alt ou a Liga Steampunk de Lisboa e Províncias Ultramarinas.

O encontro termina com a usual apresentação de Leituras do ano, onde participam Artur Coelho, João Barreiros, João Campos e eu.

Curiosos? Então acompanhem a página oficial do evento para mais detalhes !

15:30 – Abertura (Rogério Ribeiro).
16:00 – Universos Partilhados (com Carlos Silva, João Barreiros e Luís Filipe Silva).
16:45 – O Fantástico e o Real (com David Soares e António de Macedo).
17:30 – Intervalo.
17:45 – Iniciativas em Comunidade: Colecção Barbante, Colecção Génesis, Liga Steampunk de Lisboa e Províncias Ultramarinas, e Revista H-Alt (com Carlos Silva, Ricardo Lourenço, Leonor Ferrão e Sérgio Santos).
18:45 – As Leituras do Ano (com Ana Cristina Alves, Artur Coelho, João Barreiros e João Campos).
19:30 – Encerramento.
20:00 – Jantar (pormenores a anunciar).

Organização: Rogério Ribeiro e João Campos.
Cartaz: Rui Ramos.