Últimas aquisições

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José Rodrigues Miguéis foi um dos autores mais referidos na última sessão de Recordar os Esquecidos (evento mensal que decorre na Almedina todos os meses onde os autores convidados relembram livros que já saíram de circulação há alguns anos ou que, estando ainda à venda, parecem não estar a despertar o interesse que merecem).

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Tendo achado interessante os contos referidos e a forma como o autor vai apresentando a história das personagens procurei os seus livros. Depois de várias pesquisas em páginas de alfarrabistas em que pediam pelo menos 15€ por cada, na Dejá Lu (Livraria em segunda mão em Cascais) encontrei vários a preços bastante mais acessíveis (entre 4 e 5€).

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Adolfo Bioy Casares é um dos mais conhecidos autores latinos, responsável por obras como A Invenção de Morel ou Plano de Evasão. Este livro (que não me recordo de ter visto à venda antes) é uma parceria do autor com Silvina Ocampo.

2084 é um dos mais recentes livros da Quetzal que, segundo a informação disponível, apresenta uma reinterpretação do 1984, actualizando-o para os dias actuais e criando uma distopia com base religiosa. Olhando a sinopse este livro faz-me recordar A História de uma Serva de Margaret Atwood (disponível em Portugal com uma edição da Bertrand).

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À esquerda eis o quarto volume de Saga, uma série de banda desenhada que cruza perfeitamente ficção científica e fantasia para nos dar uma história mirabolante com seres humanóides estranhos em aparência mas revelando todas as características emocionais de seres humanos. A série tem sido uma das mais premiadas e é efectivamente uma das melhores que tive oportunidade de ler.

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Criminal foi outra das aquisições aquando da visita à Dejá Lu, um volume considerável de uma série dos autores de Fatale, Ed Brubaker e Sean Philips que apresenta um homem capaz de executar qualquer golpe desde que não haja perigo e uma femme fatale.

Resumo de Leituras – Maio de 2016 (4)

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117 – Pride & Joy – Garth Ennis – Garth Ennis é o autor de The Preacher e The Boys. Disto isto, esperava mais deste Pride & Joy que nos apresenta a típica história do passado que persegue a personagem principal, um homem que tendo-se envolvido em esquemas duvidosos há muitos anos, é agora perseguido por um dos seus associados implacáveis. Neste contexto, a história explora sobretudo a relação entre o homem e o filho que diferem em quase tudo – o filho é um rapaz sensível e estudioso que tem como objectivo de vida a faculdade e não compreende a vivência rude (mas agora honesta) do pai. Desenvolvimento e personagens cliché que resultam numa história pouco surpreendente;

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118 – The Loney – Andrew Michael Hurley – História de horror distinguida com vários prémios que prima pela subtileza dos acontecimentos, sempre implícitos. Uma história viciante que joga com a empatia das personagens e com o conhecimento prévio do que vai acontecer, sem que se saiba como – uma excelente história;

119 – H-Alt #1 – Vários autores – Revista de banda desenhada portuguesa com pequenas histórias de muitos autores. Como resultado temos uma grande variação na qualidade. De realçar, no entanto, a qualidade da edição e de alguns dos artistas. Irei detalhar o comentário em artigo próprio;

120 – 12 – A Doce – François Schuiten – Banda desenhada clássica que decorre num mundo futuro distópico e quase apocalíptico – a subida constante das águas impele as cidades para o isolamento e como via de comunicação entre eles implementa-se o teleférico. Paralelamente, descontinuam-se os comboios, principalmente os mais antigos a carvão. Se, no início é uma história centrada na ligação que se cria com a máquina que se cuida, numa segunda fase evolui para uma aventura melancólica e quase desesperada.

Assim foi: Sustos às Sextas – Abril e Maio

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Infelizmente, cheguei atrasada à sessão de Abril, mas ainda a tempo de ouvir parte da interpretação de músicas de filmes de terror que representou um interessante momento musical nos Sustos (que podem ver nos vídeos abaixo, disponibilizados entretanto).

A este momento seguiu-se a palestra de António Monteiro sobre “Como escrever uma história de terror em dez lições” onde o escritor (que exerce muitas outras actividades para além da escrita) apresenta, sucinta e explicitamente um conjunto de pontos que são necessários para construir uma boa história.

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O final da sessão (que pareceu muito curta quando comparada com as restantes) foi marcado pela inauguração da Exposição Sobressaltos, uma exposição de banda desenhada dedicada ao terror sobrenatural onde foram apresentadas 20 histórias em duas pranchas. Esta colecção foi concebida originalmente por António Monteiro e João Castanheira e levada a cabo por Geraldes Lino e Bruno Caetano.

Ainda que nalgumas a narrativa fosse mais fraca (o espaço reduzido dificultou decerto a tarefa) a exposição destacou-se sobretudo pelo aspecto gráfico. Será que vai haver publicação em papel?

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Se a sessão de Abril me pareceu mais curta do que o habitual, a sessão de Maio pareceu-me muito longa – ainda bem. A sessão começou com o momento musical em que se interpretaram temas de Zeca Afonso com letra mais propícia ao evento (como Vampiros).

Foi um excelente e emotivo momento musical que contagiou rapidamente toda a sala – estranho como músicas que remetem a um tempo que desconheço conseguem tão facilmente despertar um sentimento tão profundo.

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Seguiu-se um momento não previsto na agenda, a apresentação do trabalho de Luís Vieira-Baptista, autor da exposição Triangulações, através de um vídeo relacionado com o quadro que construiu para o S. Carlos de temática Wagneriana. Esta exposição é mais voltada para o fantástico do que propriamente terror e apresenta temática e forma que associo às correntes artísticas dos anos 70 / 80 de nuances místicas

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Sob o tema O Medo na tradição popular portuguesa Fernando Casqueira dissertou não só sobre a origem do medo (enquanto sentimento e dissecando os vários graus de medo) como a forma como este é usado actualmente para impingir determinadas políticas, uma forma de manipulação massiva. Passando por lendas e histórias lusitânicas, tocou ainda na origem do Halloween como evento de origem portuguesa que regressa agora ao país, modificado.

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Apesar de interessante e, talvez, pela hora tardia achei que a apresentação tocou em demasiados temas em pouco tempo, ficando muito por dizer e explorar. Ainda assim, teve componentes bastante interessantes pela forma como o palestrante expôs algumas teorias menos aceites.

Depois de apresentados os vencedores do concurso de decoração de bolos (com a temática de terror) seguiu-se outro dos grandes momentos da noite, o questionário temático organizado por António Monteiro e João Castanheira que já o ano passado tinha sido caracterizado pela boa disposição e diversão.

Esta foi a última sessão de 2016 – Será que se prevê novo ciclo para 2017? Continuo a realçar neste evento mensal a boa vontade, esforço e empenho dos organizadores que têm procurado diversificar conteúdos e formatos, alternando entre momentos musicais, palestras temáticas e apresentações literárias, sem esquecer o cinema, a banda desenhada e… os bolos!

Ainda que não tenha apreciado todos os momentos de igual forma (até porque nem tudo é do gosto de toda a gente) a diversificação acaba por envolver diferentes pessoas com diferentes interesses. Esperamos novidades!

Resumo de Leituras – Maio de 2016 (3)

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113 – Saga – Vol. 4 – Brian J. Vaughan e Fiona Staples – Depois das aventuras mirabolantes desta família pelo espaço, a fugir de mercenários e militares altamente treinados, finalmente encontram um poiso mais calmo onde a menina pode crescer em paz. Ou quase. A rotina quase dá cabo do relacionamento amoroso e faz com que a família se separe. Neste volume contam-se as circunstâncias em que tal aconteceu. Saga continua com os pormenores imaginativos, as situações caricatas e as personagens suficientemente dementes para aguentar e estimular uma boa história;

114 – As coisas que os homens me explicam – Rebecca Solnit – Partindo de uma cena quase cómica que se passou num jantar em que o anfitrião era um asno condescendente, a autora reflecte sobre o incidente, realçando o papel de cada género naquela conversa. Se a conclusão da autora pode parecer dúbia (afinal, um asno condescendente muitas vezes é-o sempre que suspeita que a pessoa a quem se dirige é inferior) as sucessivas situações de violência, física ou psicológica, em meios domésticos ou públicos deixam a ideia de que será necessário algo mais para fazer evoluir a sociedade;

115 – O Negócio dos livros – André SchiffrinApesar de ser apresentado como um livro que fala sobre a influência das grandes editoras e da forma como orientam o mercado e nos levam a consumir o que pretendem, é mais uma história da experiência pessoal do autor no mercado da edição. Tendo começado numa pequena editora (não por acaso naquela editora, que tinha sido fundada há muito pelo pai já falecido) descreve a preocupação pela construção de um bom catálogo de fundo para aguentar os novos lançamentos de venda inicial mais lenta – um modelo de negócio ignorado pelas novas direcções editoriais que pouco ou nada compreendem do objecto que comercializam;

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116 – The Dark – Issue 12 – Apesar de ter recebido gratuitamente todos os números desta revista, apenas li os primeiros volumes e agora este. Nos primeiros volumes denotava-se uma inconsistência de qualidade entre os contos originais e aqueles que estariam agora a ter nova edição na revista. Este volume captou-me interesse por ter um conto de Angela Slatter e acabei por ler a totalidade da revista. Encontrei um tom mais homogéneo na qualidade e no tema, apresentando arrepiantes contos de fantasia negra.

Últimas aquisições

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A Letra Livre publicou algumas obras sobre os livros, a sua edição, ou o prazer de os coleccionar. Recentemente li o de Ruben Borba de Moraes, O Bibliófilo Aprendiz e foi uma leitura curiosa sobre a arte de criar valiosas colecções. Neste, O Negócio dos livros de André Schiffrin disserta-se sobre a manipulação da leitura pelos grandes grupos económicos.

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Paper Tigers foi o livro que pude escolher por ter ganho o passatempo do Books, Bones & Buffy. Este será um livro de horror de uma autora já publicada nas mais diversas revistas de ficção especulativa:

In this haunting and hypnotizing novel, a young woman loses everythinghalf of her body, her fiance, and possibly her unborn childto a terrible apartment fire. While recovering from the trauma, she discovers a photo album inhabited by a predatory ghost who promises to make her whole again, all while slowly consuming her from the inside out. Damien Angelica Walters’ work has appeared or is forthcoming in “Year’s Best Weird Fiction Volume One,” “Nightmare,” “Strange Horizons,” ” Lightspeed,” “Shimmer,” “Apex,” and “Glitter & Mayhem.”

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A Colecção Privada de Acácio Nobre é o livro mais recente de Patrícia Portela, uma autora que tem participado em diferentes projectos pela Prado e que tem publicado pela Caminho obras em que a realidade se mistura com alguns elementos fantásticos, como Para Cima e Não para Norte. Este foi-me enviado pela Caminho. Deixo-vos a sinopse:

«Fui recolhendo, ao longo de 16 anos, cartas, diários, testemunhos, maquetas de jogos e armadilhas de Acácio Nobre (1869?-1968), um construtor de puzzles geométricos visionário no século XIX que uma ditadura silenciou no século XX e (quase) eliminou de uma História que ainda assim influenciou, de forma subtil e anónima, introduzindo uma marca indelével e inevitável nos séculos vindouros, como o nosso. Acreditando que a obra literária pode desempenhar um papel crucial na reavaliação dos tempos que correm de uma forma que estará para sempre vedada à História, à Academia e à estratégia política, venho por este meio partilhar convosco a “Coleção Privada de Acácio Nobre”, na esperança de encontrar, mas também de dispersar, a sua obra, as suas ideias e os seus manifestos, procurando contribuir assim para a tarefa inglória de lutar pelo direito ao impossível, uma mastodôntica missão num país como este, que, por acidente geográfico, é o meu, e também foi, ainda que por breves momentos e de forma ingrata, o de Acácio Nobre.»

As coisas que os homens me explicam começa por nos apresentar uma situação inusitada de típica condescendência perante uma mulher. Se a situação se poderia ter passado independentemente do género de ambos os intervenientes, os factos e os dados que se apresentam de seguida, em todo o mundo, já não deixam margem para dúvidas quanto à necessidade de que a nossa sociedade continue a progredir.

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Forças de Mercado e O Prestígio são dois dos volumes da Colecção de Ficção Científica que foi publicada pela Saída de Emergência em parceria com o Público. O Prestígio é a obra que deu origem ao filme com o mesmo nome. Por seu lado, Forças de Mercado de Richard Morgan (que já cá esteve em Portugal) é uma obra que se caracteriza pela elevada tecnologia e pelo ritmo acelerado.

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Por último, eis alguns volumes das colecções de Banda Desenhada que estão a sair (ou que já saíram) com o jornal Público.

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The Loney – Andrew Michael Hurley

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Se quando pensam na palavra horror pensam em sangue esguinchado, miolos espalhados ou ambientes góticos e pesadelos onde a loucura envolve todos os nossos pensamentos, precisam de repensar o género. E nada melhor do que The Loney para o fazerem. É que o terror aqui apresentado é lento, não envolve propriamente monstros, apenas alusões, subtis a algo sobrenatural – notas que podem ser percebidas como vulgares contexto num ambiente de extrema religiosidade.

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Edição limitada da Tartarus Press

A história centra-se em dois irmãos, apresentando o ponto de vista do mais novo (o narrador) que é responsável por cuidar de Hanny, o mais velho, que possui um acentuado atraso mental e é incapaz de falar. Entre os dois estabelece-se uma forte ligação, sendo o irmão o única capaz o compreender adequadamente.

Inconformada com a deficiência de Hanny, a mãe investe toda a sua energia num estilo de vida piedoso com uma obsessão por rituais religiosos que devem ser seguidos de forma perfeita no momento certo – só assim se conseguiria atingir o estado de pureza necessário para um milagre. É assim que o filho mais novo acaba por se tornar ajudante do padre, como prova de devoção e forma de redenção.

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Quando o padre sofre uma queda fatal o acontecimento é visto não só como uma desgraça, mas um aborrecimento pela mãe, por perderem alguém que já a conhece e compactua com as suas expectativas religiosas. Ainda por cima estão a preparar uma viagem religiosa que tem como intuito a limpeza da alma – ocasião perfeita para um milagre.

Manipulado sorrateiramente a conversa, a mãe consegue que a viagem tenha o destino por si pretentido – Loney, uma zona rural, quase selvagem, que resiste teimosamente ao avanço da civilização e onde persistem as superstições associados aos lugares traiçoeiros, assombrados por antigas lendas de bruxas e desgraças.

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A história decorre sobretudo em três tempos, partindo de breve referência ao presente para alternar entre os acontecimentos da viagem e os que a antecederam. Devagar, vai-se acumulando uma tensão dramática com base em pequenos detalhes que são percepcionados de forma quase natural.

Se a relutância que os locais têm em os ajudar é vista como típica de um local quase isolado da civilização e os indícios antigos de bruxaria como próprios de uma época distante, encontrar um cadáver no bosque desperta alguma inquietação (até ser descartado como uma possível partida de Carnaval ao desaparecer na visita seguinte). Mas é ao narrador, criança, que vão aparecendo indícios de que algo mais se passa naquela terra.

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Com reminiscências de Of Mice and Men na forma como os dois irmãos se relacionam (e as alusões aos ratos) a narração vai construindo uma história de várias facetas onde nada do que acontece é propriamente uma surpresa. Percebendo-se o que se segue, mas sem saber como, constrói-se um ambiente de expectativa que gera o terror mais psicológico e interior, neste caso exacerbado pelo fervor religioso que impede que se percepcionem os verdadeiros acontecimentos.

Primando pela subtileza do horror, The Loney é um puzzle de construção lenta que nos faz sentir uma enorme empatia pelas personagens centrais e se torna uma leitura viciante.

Fatale – Vol.4 – Ed Brubaker, Sean Phillips

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Se os volumes dois e três da série Fatale são bastante marcados por episódios reveladores onde se evolui bastante no mistério que rodeia a Femme Fatale, o quarto é essencialmente um volume de consolidação destes conhecimentos, em que voltamos a assistir ao efeito estranho que esta enigmática mulher tem nos homens.

Se antes assistimos às consequências, ou a episódios mais fragmentados deste efeito, aqui, sob o efeito da amnésia e sem amarras morais, o poder inebriante tem liberdade para atingir o seu expoente e subsequente entrar rapidamente em declínio e degradação.

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Depois de mais um episódio violento do qual não tem memórias, é recolhida por um rapaz que a esconde na casa que partilha com a restante banda. Tratando-se de uma banda constituída sobretudo por elementos masculinos a desgraça é previsível. Se a presença de uma normal mulher atraente poderia ser motivo para discórdias, então uma mulher capaz de toldar pensamentos e de manipular, facilmente, acções e sentimentos é catastrófica.

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Entre o acumular de tensões na banda e os monstros que a perseguem, ainda que não se recorde deles, é inevitável que se envolva em episódios violentos – uma espécie de ciclo repetitivo que terá de ser rompido mas que, por enquanto persiste.

Em Portugal a série Fatale está a ser publicada pela G Floy.

The Dark – Issue 12 – May 2016

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Desde o primeiro número que sigo este projecto com interesse – o ser gratuito é um bónus para uma revista organizada por Sean Wallace, editor conhecido de outras revistas como Clarckesworld ou The Fantasy Magazine, ou da editora Prime Books que conta com autores como Theodora Goss ou Ekaterina Sedia no seu catálogo.

Depois de ter estado algum tempo sem ler nada no formato digital, a recepção do número 12 despertou especial atenção pela presença de Angela Slatter, uma autora bastante conhecida no meio literário pelas suas histórias de fantasia negras, com as quais já ganhou alguns prémios. Da autora existem, até, antologias publicadas pela Tartarus Press.

Reunindo dois novos contos com nova publicação de dois contos não originais, The Dark parece ter ganho um tom próprio e mais definido neste número. As histórias que se apresentam aqui são, como seria de esperar, de fantasia negra podendo até ser classificadas como horror. Ao contrário das primeiras edições em que sentia uma grande disparidade entre os contos originais e os contos re-editados, este número parece apresentar uma maior coesão na qualidade.

O primeiro conto é The Haferbrautigam de Steve Berman, um conto arrepiante que toca num tema sensível, a pedofilia, e segue um homem que, regressando à terra natal, não perde tempo em encontrar nova vítima. Tal é a sua ânsia em envolver o rapaz que nem se apercebe dos sinais que o rodeiam – é que o homem parece ser o único a vê-lo e acaba por entrar num perigoso jogo.

Em The Body Finder de Kaaron Warren um homem procura o corpo da filha assassinada. Tendo morto o homem que a matou resta-lhe agora procurar pelos locais mais inóspitos. Pelo caminho encontra outros e acaba por se deparar com os sítios onde vários assassinos deixam cadáveres.

Caroline at dusk de Kali Wallace, foi o conto que menos gostei do conjunto, uma história que recorda as mazelas que a violência na infância deixou numa mulher que consequentemente estabeleceu com a irmã uma peculiar relação. De narração circular e passado num espaço bastante limitado, foge bastante do cliché esperado. No final, ao tentar sair do ciclo força um término descabido.

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O quarto e último conto é The Jacaranda Wife de Angela Slatter, uma história fantástica com paralelismo a várias histórias tradicionais onde um homem, procurando esposa, encontra debaixo de uma Jacaranda uma mulher perfeita e bela. Apesar de toda a formosura física mostra-se apática perante as atenções do homem e é incapaz de falar.

Resumo de Leituras – Maio de 2016 (1)

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105 – Crónicas incongruentes – Miguelanxo Prado – Este é o terceiro livro de Miguelanxo Prado que tive oportunidade de pegar. Tal como Fragmentos da enciclopédia délfica este volume é composto por pequenas histórias mas, neste caso, não de ficção científica futurística, mas apresentando conhecidas situações do dia a dia levadas ao extremo;

106 – Mão direita do diabo – Dennis McShade – A primeira aventura que Dinis Machado ue ppublicou sobre o pseudónimo de Dennis McShade centrada no assassino de nome alusivo a D. Quixote, que, tendo um código moral que usa para aceitar apenas determinados trabalhos, gosta de literatura e de música clássica;

107 – The Nightmare Factory Vol.1 – Vários – Adaptação para banda desenhada de alguns bons contos de Thomas Ligotti que exploram sobretudo o terror psicológico que advém da fronteira difusa entre o real e o imaginado. O primeiro apresenta um tributo a Lovecraft, com uma história dentro do ambiente típico deste mestre. As restantes utilizam sonhos, psicoses e demências. Boas histórias e boa adaptação;

108 – A feiticeira de Florença – Salman Rushdie – Depois de ler Dois anos, oito meses e vinte e oito dias de Salman Rushdie resolvi pegar noutro livro do autor. Apesar da temática exótica, misteriosa, fantástica e fascinante com a história de várias personagens entrelaçada ao longo de várias décadas, é menos coeso e centrado que o Dois anos (…). É agradável de se ler e tal como o outro livro possui pequenos episódios fascinantes, mas na sua globalidade não me conseguiu cativar da mesma forma.

Últimas aquisições

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As quinze primeiras vidas de Harry August por Claire North é o terceiro volume da coleção Admiráveis Mundos da Ficção científica que se encontra em lançamento conjunto da Saída de Emergência com o Jornal Público. Livro inédito desta coleção, é o volume que mais antecipava. Vencedor do prémio John W. Campbell Memorial, tinha lançamento previsto para Agosto de 2015, mas só agora chegou às bancas. Se por um lado foi uma tremenda espera, por outro o preço é bastante mais acessível (6,95€).

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A vida aventurosa de Sparrow Drinkwater por Trevor Ferguson promete uma mirabolante aventura ao género das que eram produzidas antigamente com jovens que se metiam com meliantes, despertando para a vida adulta com a descoberta de que a realidade é bem mais dura e menos transparente do que a fantasia:

A mãe de Sparrow acreditava que o filho tinha sido concebido por um corvo que desceu dos céus numa noite de estrelas e explosões. A grande desilusão da sua vida foi que Sparrow nunca tenha aprendido a voar.

Sparrow nascido e criado num manicómio, onde a loucura da mãe e dos que o rodeiam é a sua única realidade, um dia é levado para o mundo exterior. Perde o rasto da mãe, descobre-se sozinho numa grande cidade… e a sua vida aventurosa ainda mal começou!

Esta é a fabulosa história de Sparrow Drinkwater, que atravessa o continente americano obcecado por descobrir a identidade do seu pai, reencontrar a mãe e desvendar o mistério do seu passado. No seu caminho cruzam-se sinistros criminosos, atravessa os túneis secretos sob as ruas da Montreal, vive tremendas perseguições em comboios de alta-velocidade, encontra a «feiticeira» da rua Bloomfield, leva a cabo brilhantes golpes nas altas esferas da finança internacional…

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Há já algum tempo que ando para ler O Ensaio sobre a cegueira de José Saramago, mas as edições que se encontram dos livros de Saramago são tão foleiras que tenho evitado a aquisição, pensando, talvez, numa edição mais antiga em bom estado. Bem, infelizmente apenas está prevista a publicação deste volume em edição de capa dura no âmbito da colecção RTP, mas digam lá que não tem muito melhor aspecto que a edição da Porto Editora? Melhor ainda, esta, de capa dura, custa 10 euros. Aproveitando a promoção de 20% da FNAC… bem… ficou por 8.

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No seguimento do 30º aniversário do acidente de Chernobyl foi publicado pela Levoir, em parceria com o jornal Público, esta banda desenhada da autoria de Natacha Bustos e Francisco Sanchez. O livro também se encontra disponível na FNAC (com os usuais descontos) e apresenta um retrato singular do acidente.

À esquerda encontra-se o primeiro volume de Mr. Hero, uma banda desenhada escrita por James Vance e desenhada por Ted Slampyak, centrada numa personagem criada por Neil Gaiman. Claro que aqui o nome de Neil Gaiman aparece em letras garrafais ocultando os restantes intervenientes – é um nome que vende. Autómato que se move a vapor para ser uma força maléfica, torna-se um herói nobre. Claro que o nome de Neil Gaiman foi o que me levou a pegar no livro, mas o interior foi o que me convenceu a trazê-lo.

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The Nightmare Factory – Stuart Moore, Joe Harris e vários

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The Nightmare Factory é originalmente uma colecção de contos de Thomas Ligotti, um dos autores mais referenciados nos géneros de ficção Weird e de horror, com influências óbvias de Lovecraft e Edgar Allan Poe, onde se destaca o terror psicológico em detrimento da violência física.

Em dois volumes de banda desenhada são adaptados alguns destes contos. As histórias originais são de Ligotti, mas a adaptação para banda desenhada foi realizada por Stuart Moore e Joe Harris na componente narrativa e por Colleen Doran, Lee Loughridge, Ben Templesmith, Ted McKeever, Chris Chuckry e Michael Gaydos na arte. O resultado é um bom e diversificado conjunto de histórias.

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A primeira história, The Last Feast of Harlequin, foi dedicadao por Thomas Ligotti a Lovecraft contendo óbvias referências a este escritor. A história começa com uma simples investigação por um antropologista a um pequeno festival de palhaços. Deslocando-se à vila descobre um ambiente soturno e deprimente, onde não faltam as donzelas há muito desaparecidas e um estranho encontro com um conhecido académico, também julgado desaparecido.

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Em torno do festival de palhaços existirá um ambiente deprimente na vila que atingirá o auge antes do festival, para ser expiado durante as festividades. Tendo esta descrição do ambiente na vila, o antropologista julga escapar a este estado de espírito viajando apenas na véspera para o local – engana-se. Todo este gradiente pesado de sentimentos será sentido durante a viagem. O que descobre é um festival de palhaços que integra, sem compreender antecipadamente a cumplicidade local em torno do evento.

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Em Dream of a Mannikin o pesadelo começa quando uma paciente descreve ao psicólogo um sonho recorrente em que despe e veste manequins numa profissão que terá apenas quando dorme. Ainda dentro do sonho retorna a casa para sonhar com o manequins em que trabalha em sonho. Numa história voltada do avesso em que se duvida do que é real, o que será um sonho dentro de um sonho, quando à nossa volta surgem indícios desse sonho? Utilizando a possibilidade de sugestão hipnótica para suavizar a fronteira da realidade, é um interessante conto de terror psicológico em que o próprio cérebro se torna uma prisão.

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Deambulando novamente sobre a fronteira do que é real e do que pode ser percepcionado, neste caso não por sugestão, mas por doença psicológica, Dr. Locrian’s Asylum descreve a influência que um asilo tem sobre uma vila, décadas depois de ter sido encerrado. É que o Dr. Locrian tinha uma perspectiva peculiar sobre as doenças psicológicas, encarando-as não como algo a ser curado, mas como uma manifestação do sobrenatural.

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Em Teatro Grottesco (que dá nome a uma colectânea de contos de Thomas Ligotti) explora-se a relação do artista com a decadência – até onde poderá ocorrer esse declínio no que é oculto até que o artista se perca mentalmente?

O terror não precisa de ser espampanante para causar impacto – nestes contos de horror adaptados para banda desenhada utilizam-se sobretudo as nuances psicológicas, o terror da expectativa, da depressão e das fronteiras difusas da realidade que causam a incerteza e a loucura.

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Ainda que possam existir monstros nalgumas histórias, é sobretudo o precipício mental que conduz o conto. O ambiente é, em todos, pesado, característica que é explorada pelos vários artistas, em estilos que vão sendo diferentes de conto para conto mas que funcionam bastante bem. Antes de cada conto encontramos uma pequena introdução, referindo influências ou ideias.

Disney Hiper N.º 40

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Este volume Hiper contém oito histórias Disney, de comprimento e público alvo diverso. Se a história que abre e ocupa metade do volume, Mickey e o bando do espirro, é engraçada mas contém um desenvolvimento lento, quase circular, mais voltada para um público juvenil, apesar de apresentar Mickey como um detective inteligente, é a segunda história, Segunda Versão que se torna uma interessante surpresa tecnológica onde populam os Universos paralelos, os robots e a teoria de que a história poderá ser reescrita com viagens no tempo, existindo um espaço fora do tempo que poderá ser usado como escape seguro.

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Em Bandidos nas trevas volta-se novamente a um registo mais relaxado em torno de uma premissa tecnológica engraçada – a de que poderia existir um engenho capaz de induzir a escuridão total num raio de acção, capacidade que é aproveitada por dois ladrões, numa curta história de reviravolta cómica. Histórias de piratas encontram-se naquela fronteira, por vezes, indistinta, entre a realidade e a imaginação, apropriadas para os mais jovens que sonham com encontrar um tesouro. A estalagem das sete conchas aproveita esse ambiente de fascínio e aventura para tecer uma aventura engraçada e relaxada.

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Antes que seja dia traz-nos uma aventura com reminiscências frankesteinianas, começando por nos apresentar uma pequena e misteriosa vila onde os espantalhos estão a desaparecer, roubados dos vários terrenos. O roubo estará relacionado com uma lenda local, na qual um antigo feiticeiro terá utilizado espantalhos para criar um pequeno exército pessoal. Pergunta ao patelobo continua por meandros sobrenaturais, apresentando um reino mágico de pesadelos, que será explorado por engano por Mickey e pela sua amiga Manny.

No final voltamos a um tom mais tradicional e juvenil, com Donald e o compromisso esquecido, que explora a eterna rivalidade entre Donald e Gastão.

Últimas aquisições

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A iniciar o conjunto desta semana temos novo volume de Disney, desta vez do número 40 da Hiper, que me foi enviado pela editora, Goody. Este conjunto parece ser bastante diverso, com histórias futuristas de realidade alternativa e lobisomens. Ops. Patelobos.

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Segue-se o segundo volume de Psicopatos (enviado pela editora Arcadia), um livro cujo título, um trocadilho de psicopata, remete para o tom irónico e divertido das várias tiradas cómicas que possui.

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Estes são os dois volumes que compõem Duna, o clássico de ficção científica de Frank Herbert que inicia a colecção Admiráveis Mundos da Ficção Científica publicada numa parceria entre o Público e a Saída de Emergência. De realçar o preço acessível da colecção e o terceiro volume que foi lançado na passada sexta feira, o único inédito da colecção em mercado português, As primeiras quinze vidas de Harry August de Claire North.

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Já vi várias críticas negativas ou menos entusiastas ao Périplo de Baldassare de Amin Maalouf. No meu caso, talvez por o ter lido numa altura em que era muita dada ao género da ficção histórica, adorei a demanda que decorre num ano de loucura (1666) em que metade da humanidade acha que o mundo vai acabar, e a outra metade se aproveita da disposição da restante. Por sua vez As cruzadas vistas pelos árabes, um dos seus livros mais conhecidos, é uma leitura mais séria, centrada nas cruzadas pela perspectiva de quem foi invadido – uma leitura mais densa em factos e por isso menos fluída.

Este, Os Jardins da Luz não é inédito, mas a edição anterior, da Difel, já desapareceu há muito das livrarias. Este exemplar foi-me enviado pela editora e deverá ser uma das próximas leituras:

Durante muitos anos, o seu grito foi ouvido. No Egito, chamavam-lhe o Apóstolo de Jesus; na China, cognominavam-no o Buda de Luz; a sua esperança florescia à beira dos três oceanos. Porém, rapidamente surgiu o ódio, surgiu o encarniçamento.
Os príncipes deste mundo amaldiçoaram-nos; tornou-se para eles o «demónio mentiroso», o «recipiente repleto de mal» e, no seu humor cáustico, o «maníaco»; a voz dele, «um pérfido encantamento»; a sua mensagem, «a ignóbil superstição», «a pestilencial heresia».
Depois, as fogueiras cumpriram a sua missão, consumindo num mesmo fogo tenebroso os seus escritos, os mais perfeitos dos seus discípulos, e essas mulheres altivas que se recusavam a cuspir sobre o seu nome.

À direita encontramos o mais recente volume das aventuras de DogMendonça, “o mais simpático (e obeso) lobisomem português”. Este volume é diferente dos que compõem a trilogia principal, apresentando-nos quatro histórias mais curtas que foram publicadas originalmente na revista Dark Horse Presents. Estas histórias preocupam-se sobretudo em nos apresentar a personagem DogMendonça e são um complemento engraçado à trilogia. Este volume foi enviado pela editora Tinta-da-china.

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The Bell in the Fog & Other Stories – Gertrude Atherton

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The Bell in the Fog & Other stories é um dos muitos volumes da colecção Tales of Mystery & The Supernatural onde se encontram publicados alguns autores de horror mais clássicos, numa edição mais acessível.

Este reúne histórias de Gertrude Atherton com elementos sobrenaturais e algum suspense que, não induzindo propriamente horror, causam alguma apreensão no leitor. Entre almas penadas que falam sem cessar e encontros com a morte, encontramos histórias trágicas, com amores há muito perdidos, ou nunca alcançados.

Por vezes o horror é de circunstância – é a velhice que a todos ataca e impede de concretizar façanhas juvenis e que coloca uma senhora de 70 anos contra a criada de 40, aspirando a juventude desta que, por sua vez, vê também na sua idade um impedimento para mudar decisões de há muito.

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Em The Greatest Good of the Greatest Number um homem da ciência vê-se numa decisão racionalmente fácil e lógica mas que, contra todo o seu entendimento, se revela bastante mais difícil de concretizar, levando-o a um impasse tortuoso.

De leitura agradável, a maioria destes contos não possui elementos sobrenaturais, mas os que possuem conseguem ser os mais imaginativos do conjunto – almas que se inquietam com os novos barulhos que rodeiam o cemitério ou a morte que lentamente vai subindo as escadas ao “nosso” encontro. Não, na sua maioria não achei que fossem contos excelentes – jogam com o destino e com as circunstâncias da vida, escolhendo por vezes o caminho mais solitário e negro e por isso tornam-se interessantes.

Últimas aquisições

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Este conjunto começa com um volume diferente do habitual, mesmo no âmbito da banda desenhada – um volume de Disney Especial Fantasmas. Este volume é de Novembro de 2015 e por isso aparece no seguimento do Halloween, com histórias propícias à época, dedicadas a Fantasmas.

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Segue-se uma Antologia em tributo a Ray Bradbury, compilando histórias de vários autores conhecidos como Margaret Atwood, Kelly Link, Neil Gaiman ou Harlan Ellison. Como devem reparar o volume não é novo e trata-se de uma cópia com origem numa biblioteca – é normal, noutros países, as bibliotecas desfazerem-se de livros a excelente preço.

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O Gigante Enterrado de Kazuo Ishiguro foi um dos livros mais falados do ano passado por bons e maus motivos. Se por um lado recebeu excelentes críticas, por outro, a referência a livro de fantasia levou a que o autor se declarasse contra tal nomenclatura, despertando várias discussões sobre o tema de literatura de género. Pondo estas questões de lado, já o li e achei-o excelente, diferente de qualquer expectativa que poderia ter criado na sequência de tanta discussão.

Hamlet tinha um tio de James Branch Cabell despertou-me interesse pela forma como coloca a premissa, desfazendo a personagem Hamlet de Shakespeare e referindo que Hamlet será muito mais antigo e bastante diferente do que entretanto passou a ser conhecido:

As antigas sagas dos povos nórdicos narram a gesta de um príncipe viquingue que reinou na Jutlândia no tempo em que o infeliz Justiniano II («o do nariz cortado»), era imperador de Bizâncio. Amleth, ou Hamlet, cujo carácter Shakespeare moldou numa infinidade inventada de traços, dúvidas e filosofias, de ser ou não ser, e cuja loucura fingida comoveu gerações de espectadores de teatro, foi, afinal, uma figura de carne e osso. James Branch Cabell, de quem Mark Twain afirmava ser um dos mais notáveis autores da nova geração, segue de perto as antigas crónicas medievais para iluminar e reviver a vida sanguinária, incestuosa, violenta e «verdadeira» do príncipe Hamlet, num dos romances históricos mais surpreendentes e extraordinários da literatura, aqui pela primeira vez traduzido em português.

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Apesar de ter achado que o primeiro volume de Fatale era interessante mas não especialmente cativante, tive uma grande surpresa com os dois volumes seguintes, bastante mais movimentados e reveladores, onde se destacam as intensas influências lovecratianas com monstros tentaculados, seitas misteriosas e sangrentas e uma mulher como personagem principal capaz de manipular o género masculino recorrendo apenas à voz.

Claro que assim que saiu o quarto volume corri e, apesar de não ter achado tão envolvente quanto os volumes dois e três, apresenta uma história fechada, mais pausada e centrada num único acontecimento central, em que a personagem principal, tendo perdido a memória, encaminha os que a ajudam para a desgraça habitual de obsessão e morte.

Fables é uma longa série de banda desenhada que tem como premissa uma extensa guerra nos mundos das fábulas que leva a que as personagens fantásticas se refugiem no nosso mundo, disfarçadas. Fairest é uma das séries spin-off de Fables, sendo que este volume apresenta uma história fechada engraçada de crime, mistério e redenção.

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Por último, Fragmentos da enciclopédia délfica apresenta-nos, em vários episódios a evolução da espécie humana, com a inclusão de novas tecnologias, novos padrões culturais e a manipulação genética de duas espécies para as fazer ascender a uma nova capacidade intelectual. Um volume interessante, com histórias que se centram sobretudo no carácter humano e na permanência dos mesmos erros por mais evolução tecnológica que exista.

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Echoes Vol.1 – Joshua Hale Fialkov & Ransan Ekedal

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A série data de 2011 mas tem este mês nova edição pela Image, num único volume onde se conta toda a história. Pertencente ao género de horror contemporâneo explora os receios de um homem a quem foram diagnosticados problemas psicológicos concretizando, na história, as acções que tenta controlar.

Tudo começa quando ouve as últimas palavras do pai, que sofreria do mesmo mal, onde lhe indica uma morada e um local onde deverá descobrir algo. Receoso, o que encontra é bastante pior do que poderia imaginar – uma série de bonecas feitas de restos humanos de várias crianças desaparecidas.

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Se, no seguimento do diagnóstico psicológico semelhante ao do pai, já teria medo de ferir alguém, entre as visões provocadas pela ansiedade e a tentativa de o controlarem com medicamentos, após descobrir as bonecas é acometido por falhas de memória, não se recordando de alguns longos momentos do seu dia.

A sensação de descontrolo piora quando uma das raparigas que teria visto num parque desaparece e, na sua caixa de correio, encontra uma encomenda com uma boneca novinha em folha. Vendo-se questionado pela polícia decide, ele próprio, investigar um pouco mais sobre os últimos dias do pai.

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Com a esposa grávida, a personagem principal revela-se um homem consciente dos seus problemas e temeroso de ferir alguém no seguimento de algum episódio psicótico. Educado, charmoso, parece esconder nele um verdadeiro monstro que não consegue controlar.

E estes são os grandes momentos de terror em que associamos cenários de grande violência e maldade a um homem comum e simpático, até charmoso, pelo qual não conseguimos deixar de sentir alguma afinidade.

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Aqui está uma leitura verdadeira arrepiante que nos coloca na expectativa de um verdadeiro monstro que pode estar escondido sob qualquer cara, sob qualquer personalidade realmente empática ou afinal construída com um intuito voraz.

Sem querer deixar escapar elementos que podem arruinar a leitura, acrescento apenas que, tendo apreciado a história de terror apresentada, é a reviravolta moralmente correcta que estraga o final da narrativa, entregando-nos uma solução previsível e deixando de lado o horror mais profundo.

*** SPOILER ALERT ***

Agora sim, posso deixar escapar o que me arruinou o final. O inspector que segue o homem é uma personagem escorregadia e suspeita que se aproveita dos problemas mentais do homem para o culpabilizar. E o final teria sido tão mais brutal se o homem simpático pelo qual simpatizamos fosse o verdadeiro monstro, numa espécie de Jeckyll e Hyde, onde apagões mentais justificassem os episódios psicóticos.

Wytches – Snyder, Jock, Hollingsworth e Robins

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Aqui está uma banda desenhada que é verdadeiramente do género terror. Aproveitando os medos mais profundos que são exacerbados em cenários de grandes florestas escuras onde o vento e a luz provocam as mais hediondas visões, a história de Wytches cria uma versão pouco comum das bruxas, onde as apresenta como seres antigos e cegos, com poderes mágicos ilimitados, através dos quais concedem desejos aos seres humanos, em troca de um nome – o nome de um sacrificado que ficará marcado e que será consumido a todo o custo.

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A história acompanha uma pacata família que se muda para o campo no seguimento de um acidente rodoviário, que deixou a mãe numa cadeira de rodas. Mas a mudança para um local diferente não traz sossego a todos. A rapariga sofre de bullying por parte de outra aluna que acusa alguns sinais de demência. Este pesadelo irá ser substituído por outro ainda maior quando, na floresta, a rapariga assiste à morte da sua torturadora, à mão das bruxas, desaparecendo sem deixar rasto.

Única testemunha dos acontecimentos, e sabendo-se dos abusos que foram ocorrendo, não é de estranhar que a julguem esgotada e desconsiderem as descrições violentas. Mas a aura negra que rodeia a rapariga não se fica por aqui, passando a ser alvo de pequenos episódios macabros que se adensam e irão tornar o confronto com as bruxas inevitáveis – é que o seu nome terá sido nomeado e persiste uma dívida para com estes horríveis seres mágicos.

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A ideia de nomear alguém em troca de um desejo expande o desejo maléfico aos seres humanos, tornando as bruxas meros instrumentos de pessoas corrompidas pelo poder e pela imortalidade – e é aqui que reside o verdadeiro horror.

Uma premissa relativamente simples que usa receios comuns, quase tradicionais, nos cenários mais remotos (como uma floresta inóspita) é normalmente um bom princípio para uma história de horror. E neste caso foi o ponto de partida para uma excelente história – bruxas que se confundem facilmente com árvores e que as usam como refúgio construindo tocas profundas onde cozem as suas vítimas e as chupam até ao tutano.

Contos de S. Petersburgo – Nikolai Gogol

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Contos de S. Petersburgo é um conjunto de seis histórias, quase todas de decadência, onde algum acontecimento peculiar altera a vida de alguém de forma surreal, tornando-a um pesadelo. Quase todas começam com a descrição detalhada do espaço e das pessoas em que se centram, passando apenas depois desta descrição à acção propriamente dita onde estes detalhes são já desnecessários e os acontecimentos carecem de pouco contexto.

Nevsky

Nevksy Prospekt (retirado de Lessons de Nikolai Gogol’s Nevksy Prospekt)

Numa movimentada praça central um homem cruza-se com uma mulher lindíssima que o leva aos mais fantasiosos episódios – alguns deles serão sonhos onde imagina esta senhora como um anjo caído em desgraça. O conto ganha o nome da praça onde se inicia, Nevksy Prospekt.

Já em O Diário de um Louco vamos conhecendo as deambulações mentais de um funcionário que é apaixonado pela filha do chefe. Pela história vai engendrando formas de ganhar a admiração da jovem, cada vez mais envolvidas pela miragem de uma loucura que se aprofunda – ora troca correspondência com a cadela, ora se imagina o herdeiro do trono espanhol.

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Nikolai Gogol. The Nose. ISBN 978-5-389-02585-1; 2011. Illustrator Igor Oleynikov.

O terceiro conto, O Nariz, é decerto um dos mais famosos do conjunto, e a história que me levou a pegar mais rapidamente no livro, depois de lhe ver referência em Dois Anos, oito meses e vinte e oito dias de Salman Rushdie. Um homem acorda sem nariz – em seu lugar um espaço de pele lisa permanece no rosto. Envergonhado e não podendo assim ser visto por gente importante, procura o nariz que deambula sozinho, livre, pela cidade.

Em O Coche um fazendeiro, já de algumas posses, enaltece as qualidades de um coche a companheiros de jogo e bebida, uns militares que permanecem na região. Prometendo-lhes um almoço no dia seguinte para lhes mostrar a riqueza de tal transporte, esquece-se de avisar a esposa quando chega de madrugada, demasiado bêbado. O resultado é previsível mas nem por isso deixa de ser cómico.

the portrait

Gogol. The Portrait. Tokareva Anna

O retrato é um dos contos do conjunto que se apresenta de estrutura quase tradicional, recordando os contos onde o dinheiro fácil fornecido pelo Diabo tem um preço. Aqui, ainda que o dinheiro não venha do Diabo, tem um poder de corromper quem dele usufrui. Um jovem e talentoso artista descobre, num quadro sombrio e assombrado uma avultada soma que lhe permitirá viver desafogado. Mas ao invés de aproveitar para aprofundar os seus talentos, começa a vender-se como retratista a metro.

Em O capote conhecemos o triste mas expectável destino de um homem que, pobre, amealha para o próximo agasalho de verão, fazendo dessa aquisição um grande projecto com o alfaiate. Mal sabe que este projecto há-de sofrer uma reviravolta atirando-o para a desgraça.

the overcoat

Este excelente conjunto de contos cruza o absurdo e o surreal com o mundano, levando as personagens a situações bizarras ou ridículas de onde se tentam salvar mantendo a honra e a compostura, enquanto a loucura os assombra – seja a loucura enquanto doença psicológica de engrandecimento pessoal, seja a loucura fruto dos desgostos e desapontamentos da vida.