Resumo de Leituras – Maio de 2016 (5)

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121 – Vamos comprar um poeta – Afonso Cruz – Livro juvenil de Afonso Cruz que, sendo pequeno, apresenta uma história mais concisa e directa de uma distopia baseada no consumo e na quantificação de tudo (até dos sentimentos). A história tem por objectivo enaltecer a criatividade, o papel produtivo e inovador da imaginação que deveria ser reconhecido até numa sociedade intensamente capitalista;

122 – Cosmicomix – Amedeo Balbi e Rossano Piccioni – Interessante pela forma como coloca teorias científicas de forma simples, e como apresenta, de forma resumida, a interacção dos cientistas que permitiu a criação da teoria da criação do Universo. Como banda desenhada apresenta diminuta dinâmica e a arte deixa muito a desejar;

123 – A Louca do Sacré-Coeur – Moeubius e Jodorowsky – Um professor dado a questionamentos filosóficos profundos que terá abdicado dos prazeres corporais sofre uma mudança de atitude quando a mulher o abandona, com evidente falta de sexo. A partir daqui o professor da Sorbonne deixa-se envolver por uma aluna extremamente religiosa que julga que o encontro dos dois irá responder a um propósito maior, santo, qual a história de S. João Baptista. Às tantas, parece uma crise de meia-idade concretizada num sonho orgasmico interrompido por diarreias (literalmente);

124 – Contos de José Rodrigues Miguéis – O autor foi referido no último Recordar os Esquecidos e entre as histórias lidas, gostei do tom com que apresenta o quotidiano português, pitoresco mas real nos encontros e desencontros da vida.

Uma biblioteca da literatura universal – Hermann Hesse

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Sejam lendas, poemas ou narrativas ficcionais, seja Italo Calvino, Hermann Hesse, Jacque Bonnet ou outro qualquer, existem, nos livros sobre livros, quase sempre referências literárias que se repetem. E assim é, também, neste Uma biblioteca da Literatura Universal, livro que peguei com intenção de continuar a mesma onda que Bibliotecas cheias de Fantasmas.

Se Bibliotecas cheias de fantasmas é um livro exuberante no que respeita ao gosto dos livros, da leitura e das bibliotecas, uma leitura fascinante para quem partilha este gosto e o vê dessa forma exaltado, Uma biblioteca da literatura universal apresenta-se bastante mais aborrecido, pomposo, até arrogante na sua opinião estanque e presunçosa. Ou então, apenas, irritantemente divergente da minha ou intencionalmente provocadora.

O  livro começa por uma listagem pouco fascinante de obras, passando por quase todos os pontos fundamentais da literatura, seja a nível histórico, seja a nível geográfico. Pouco fascinante porque existem poucas ou nenhumas descrições do que trata o livro, sendo quase uma enunciação de títulos que transmite pouca paixão.

Depois desta enunciação, vêm as opiniões divergentes que denotam pouca flexibilidade. Ora bem, segundo Hermann Hesse, os livros não se devem ler por acaso, nem se deve ler o que nos aparece à frente, sendo apologista de que se construa um nicho de preferência no qual se reconhecem as características que se apreciam. Opinião divergente porque esta perspectiva difere totalmente da minha, que leio tudo aquilo pelo qual vou sentindo curiosidade, sem amarras, oscilando entre ficção cientifica, banda desenhada ou literatura mais clássica, e encontrando, onde menos espero, um dos próximos favoritos.

Opinião divergente porque para Hermann Hesse todos os livros devem ser lidos à velocidade de um caracol quando, concordo, existem livros que carecem de uma leitura atenta e outros… bem…. nem tanto. Divergente, novamente, porque sim, leio muita coisa com o intuito único de me divertir, de presenciar criatividade, de experimentar novas ideias. Se o objectivo de se expressar assim era obter uma reacção… bem, conseguiu.

Depois de  mostrar a sua irritação para com os que lhe pedem opiniões literárias (até que se compreende, um escritor não é um editor), Hermann Hesse conta um episódio divertido em que terá sido convidado a dar uma palestra numa terriola esquecida. O resultado é que… bem… quem o recebeu nem sabia que ele era escritor pelo que quem assistiu à palestra estava tudo menos preparado para um serão literário. Engraçado como este episódio cómico me recordou a primeira história do livro Contos Maravilhosos do autor em que um anão na corte de uma donzela mimada e fútil expõe o seu extenso conhecimento sem que ninguém o compreenda e lhe dê valor – a postura do anão fez-me recordar a do autor neste conto, ainda que o final em nada esteja relacionado.

Herman Hesse cataloga e etiqueta tudo. Livros, autores ou leitores, numa postura de opinião vincada, quase moralista, chamando de quem lê e absorve o que lê quase de papagaio e de quem lê e gera imagens relacionadas com outros temas de não leitores, porque poderiam estar a ler aquele livro bem como outro qualquer que as imagens provêm da mente do leitor e não do livro que lê. Opiniões que são, por vezes, interessantes mas que conseguiram irritar-me e afastar-me do texto demasiadas vezes.

Em Portugal Uma biblioteca da Literatura Universal foi publicado pela Cavalo de Ferro.

Eventos: Feira do Livro de Lisboa 2016 – alguns autores convidados / lançamentos

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Todos os anos esperamos ansiosamente que apareça qualquer tipo de informação na página oficial da Feira do Livro de Lisboa. Não sei como é com os restantes visitantes, mas entre os livros do dia e os autores convidados vou organizando as minhas idas, e é difícil fazê-lo sem grande antecedência.

Talvez por isso é que quase todas as editoras vão criando os seus próprios eventos no facebook e divulgando antecipadamente os autores convidados. Eis alguns que já foram divulgados e que me interessam:

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26 de Maio – 16h – Luís Louro e António José Simões

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26 de Maio – 17h30 – Miguel Montenegro

27 de Maio – 17h30 – Miguel Montenegro

28 de Maio – 15h30 – Miguel Montenegro

29 de Maio – 15h30 – Miguel Montenegro

 

os vampiros

29 de Maio – 17h – Os Vampiros – Filipe Melo e Juan Cavia

Depois do sucesso da trilogia de Dog Mendonça e Pizzaboy (não esquecer o livro mais recente de contos) Filipe Melo e Juan Cavia voltam a juntar-se para lançarem Os Vampiros, uma banda desenhada de tom mais sério que se centra na Guerra Colonial, mais propriamente na Guiné de 1972. Curiosos? podem seguir o link onde encontrarão mais detalhes sobre a história e algumas imagens.

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29 de Maio – 17h – A Verdade sobre o Caso Harry Quebert e o Livro dos Baltimore – Joel Dicker

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29 de Maio – 16h – Joana Bértholo e Patrícia Portela

10 de Junho – 16h30 – Joana Bértholo

11 de Junho – 15h – Patrícia Portela

 

Britannia lançamento

04 de Junho – 15h – Simon Scarrow

Os livros de Simon Scarrow começaram a ser publicados numa altura em que deixei praticamente de ler ficção história. Até porque depois de ler quase tudo de Colleen McCullough, Steven Saylor, Stephen Lawhead, Bernard Cornewll e mais alguns, não estava com grande paciência para romanos.

Ainda assim recordo a excitação de algumas amigas cada vez que era publicado mais um volume, pelo que deverei aproveitar a vinda do autor para adquirir os primeiros.

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04 de Junho – 16h00 – Cinzas de um novo Mundo – Rafael Loureiro

O autor, conhecido pela trilogia de vampiros Nocturnus, publica agora novo livro pela Editorial Presença que se parece enquadrar no género da ficção científica:

Em 2111, o mundo vive enclausurado numa nuvem de poluição. Portugal não foge à regra. As pessoas debatem-se nas ruas da capital por ar puro e dignidade. Os Tecnal, soldados com implantes mecânicos, foram proscritos pela sociedade estratificada, mas uns quantos sobreviveram, perseguidos por uma polícia especial e dependentes de uma droga potente. Filipe, agente desta força policial, está dividido entre seguir a lei ou o instinto. Embrenhado naquele submundo, cedo descobre que os Tecnal podem ser a chave para uma verdade maior. A ele juntam-se personagens surpreendentes e fortes, perdidas na ambiguidade da sua própria condição.

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04 de Junho – 16h – Flores – Afonso Cruz

11 de Junho – 15h – Flores – Afonso Cruz

O poema morre

05 de Junho – 14h30 – O Poema Morre – David Soares e Sónia Oliveira

04 de Junho – 16h00 – Liga dos Cavalheiros Extraordinários – Alan Moore e Kevin O’Neill (apresentação por David Soares.

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11 de Junho – 16h00 – Manuel Jorge Marmelo

12 de Junho – 16h00 – Manuel Jorge Marmelo

Onde podem encontrar mais informação sobre lançamentos e outros eventos da Feira do Livro

Editora Objectiva – Página facebook

Grupo Leya – documento pdf | Página Facebook

Tony Chu Vol.4 – John Layman e Rob Guillory

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Se tinha achado o terceiro volume mais calmo em relação aos dois primeiros, dando destaque ao relacionamento de Tony com Amelia, este quarto, Sopa de Letras, volta às aventuras mirabolantes de ritmo frenético onde se sucedem episódios de humor nojento em missões suicidas de violência cómica.

Este volume começa por nos apresentar um novo poder associado à comida através de Daniel Migdalo, um sofívoro, que ganha capacidades intelectuais quando ingere comida. É assim que o vemos enfardar meia dúzia de cachorros com chili e queijo. Uma busca pelo agente Migdalo descobre-o com um tamanho abismal, realizando extensas equações que estarão relacionadas com as naves espaciais e a escrita no céu.

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O encontro com o agente Migdalo corre da pior forma possível, mas irá deixar pistas sobre os acontecimentos estranhos das últimas páginas – pistas que serão retomadas em capítulos posteriores. Entretanto Chu é chamado a investigar uma luta de comida na cantina, uma autêntica chacina estudantil onde voaram mesas e cutelos. A razão para a luta envolverá mais um poder relacionado com a comida – um dos alunos terá o poder de controlar as pessoas através da comida.

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Estes dois episódios são apenas o princípio das cenas dementes que vamos encontrar – receitas explosivas, vampiros, estações espaciais, instalações secretas com alienígenas, bebés mutantes, seitas malucas e galos peritos em artes marciais são apenas alguns dos elementos que tornam este volume num dos mais movimentados da série.

Enquanto que, nos volumes anteriores, houve necessidade de ir construindo um núcleo diversificado de personagens, este pode aproveitar-se deste suporte, desprendendo-se da necessidade de enquadrar episódios mais pessoais, e entregando-se à diversão pur para nos apresentar loucura atrás de loucura em cenários insanos e espantosos.

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Em Portugal a série Tony Chu está a ser publicada pela G Floy.

Opinião dos volumes anteriores:

Destaque: Os Grão-Capitães de Jorge de Sena

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Escritor, poeta, crítico literário, tradutor e professor universitário, Jorge de Sena é, sem duvida, um dos grandes nomes do cenário literário português. Infelizmente, li pouco do autor, mas do que li destacou-se a utilização de cenários fantásticos para expressar histórias de elevado conteúdo metafórico.

Dou-vos o exemplo de O Físico Prodigioso onde, a par com uma versão inocente da história de um cavaleiro, vamos lendo uma versão alternativa de pactos com o diabo e rituais pouco pudicos, numa história onde se destacam as dualidades.

A obra de Jorge de Sena tem sido publicada pela Guimarães, estando previsto para este mês o lançamento de Os Grão-Capitães:

Escrevi estes contos, em 1961-62, na atmosfera de um Brasil livre, aonde me exilara em 1959; e escrevi-os sem pôr peias de nenhuma espécie a toda a amargura da vida que, em Portugal, a mim como a todos havia sido dada. […] Pelas datas fictícias que na portada de cada conto vão inscritas, a acção deles cobre um quarto de século de 1928 a 1953. E é como crónica amarga e violenta dessa era de decomposição do mundo ocidental e desse tempo de uma tirania que castrava Portugal, que eles agora, uma dúzia de anos depois de escritos, devem ser lidos.

Bibliotecas cheias de fantasmas – Jacques Bonnet

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Bibliotecas cheias de fantasmas é, de facto, um livro de amor aos livros, conforme referido na capa, um livro de exaltação da leitura, das obras literárias, do prazer de construir uma colecção ou de admirar uma biblioteca.

Começando por apresentar um episódio pessoal em que o autor, num jantar, conhece um escritor que, tal como ele, possui uma enorme biblioteca, Jacques Bonnet alonga-se sobre esta paixão, utilizando referências a Borges e a Bachelard (respectivamente com “O Paraíso é uma biblioteca” e “não será o paraíso uma imensa biblioteca”), e passa a livros que estão cheios de bibliotecas – O Nome da Rosa de Umberto Eco, Auto de Fé de Elias Canetti ou La Casa de Papel de Carlos Maria Dominguez:

O narrador, ele mesmo ameaçado pela proliferação («os livros avançam pela casa, silenciosos, inocentes. Não consigo detê-los»).

Distinguindo entre bibliófilos e apreciadores de livros (colocando-se a ele próprio na segunda categoria) Jacque Bonnet disserta ainda sobre a compulsão que parece existir, compulsão essa que chega a ameaçar o espaço do proprietário – até porque os livros não se armazenam, requerem prateleiras e estantes, espaço para os colocar.

Acontece que a curiosidade não tem fronteiras, ela é ilimitada. Alimenta-se dela mesma, nunca se satisfaz com o que encontra, vai sempre mais adiante, e só se esgota com o nosso último suspiro (Há aquela história, lida não sei onde, sobre um condenado no período do terror revolucionário que ia lendo um livro na carruagem que o conduziu ao cadafalso, e que marcou a página onde estava antes de subir para a guilhotina).

“Você leu estes livros todos?” é a pergunta que qualquer proprietário de uma biblioteca está farto de ouvir (é verdade, é a pergunta que mais oiço a quem entra em minha casa). A esta segue-se a questão da organização – o saber onde está cada exemplar. Aqui posso dizer que nem sempre me é fácil, principalmente desde a última mudança. Ordem alfabética, por colecção, autor, título? Jacques Bonnet disserta sobre todas estas possibilidades. Aqui em casa é simples. O espaço escasseia e a forma que tenho de o optimizar é por tamanho, havendo prateleiras mais baixas para paperbacks e mais altas para banda desenhada. Fosse o espaço infinito… Já o autor parece ter distribuído os livros de acordo com a área geográfica, questionando-se sobre a arrumação da América Latina perto de Espanha.

Já os leu todos? Não, claro que não. Ou talvez sim. Na verdade, não sei. É complicado. Há livros que li e esqueci (muitos), e alguns que me limitei a espreitar e de que me lembor.

Até ser aberto um livro por ler é um mundo por explorar, albergando nele próprio todas as possibilidades. Em torno do resumo e da capa agrupamos ideias, noções, pensamentos, expectativas. Há leituras que duram um dia, outras um mês. Os métodos de leitura são vários e vão diferindo de obra para obra. Há algumas carregadas de interpretações e trocadilhos. Há outras que nos fazem recordar outros livros, outras vivências. A cada livro, o seu tom, a sua disposição.

Fiquei surpreendido, ao retomar após alguns anos Casa d’altri, por verificar que esta narrativa de Silvio D’Arzo não ia além das 65 páginas, quando na verdade ela tinha ganhado com o tempo, na minha recordação, mais umas cem.

Mas antes de ler, há que adquirir (ou levantar numa biblioteca, ou pedir um volume emprestado de um amigo). Os livros que escolhemos trazer resultam de várias possibilidades – livros relacionados com outros, livros que nos suscitaram ideias pela capa ou pela sinopse…. Bem, depois de ler, decerto tenho vários para adquirir. Curiosamente, deve ascender a meio catálogo da Cavalo de Ferro.

Entre várias outras coisas, um dos textos mais interessantes deste livro é sobre as personagens reais e as personagens fictícias, sendo as reais as que se encontram no livro e as fictícias os autores. Perspectiva interessante, mas que compreendo – enquanto que, nalguns livros, podemos saber quase tudo sobre uma personagem, sobre os autores fazem-se reconstruções e interpretações que raramente correspondem na totalidade.

Um episódio de The Twilight Zone (A Quinta Dimensão), célebre série televisiva americana de ficção científica produzida nos anos 60, conta a história de um bancário que não tem tempo para se dedicar à sua actividade preferida: a leitura. Em casa, a mulher faz-lhe uma cena logo que ele pega num livro. No banco, ler no guiché daria mau aspecto. Um dia em que se refugiara com o seu livro no cofre-forte, dá-se uma imensa explosão – sen dúvida nuclear – que destrói a pequena cidade. Ele é o único sobrevivente. Após horas de desespero, reencontra o gosto pela vida quando se apercebe de que a biblioteca municipal ficou intacta.

Não há muitos livros que terminem pensando em repetir mas este é, sem dúvida, um deles. Carregado de paixão pelos livros, refere diversas obras que, pela forma como as apresenta, irei querer ler. Com referências literárias e cinematográficas, apresenta vários trechos com os quais me identifico.

Apesar de citar sobejamente o catálogo da Cavalo de Ferro, o livro foi publicado em Portugal pela Quetzal. Aproveito para publicitar que, na Almedina, o livro se encontra a 5€.

Últimas aquisições

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José Rodrigues Miguéis foi um dos autores mais referidos na última sessão de Recordar os Esquecidos (evento mensal que decorre na Almedina todos os meses onde os autores convidados relembram livros que já saíram de circulação há alguns anos ou que, estando ainda à venda, parecem não estar a despertar o interesse que merecem).

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Tendo achado interessante os contos referidos e a forma como o autor vai apresentando a história das personagens procurei os seus livros. Depois de várias pesquisas em páginas de alfarrabistas em que pediam pelo menos 15€ por cada, na Dejá Lu (Livraria em segunda mão em Cascais) encontrei vários a preços bastante mais acessíveis (entre 4 e 5€).

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Adolfo Bioy Casares é um dos mais conhecidos autores latinos, responsável por obras como A Invenção de Morel ou Plano de Evasão. Este livro (que não me recordo de ter visto à venda antes) é uma parceria do autor com Silvina Ocampo.

2084 é um dos mais recentes livros da Quetzal que, segundo a informação disponível, apresenta uma reinterpretação do 1984, actualizando-o para os dias actuais e criando uma distopia com base religiosa. Olhando a sinopse este livro faz-me recordar A História de uma Serva de Margaret Atwood (disponível em Portugal com uma edição da Bertrand).

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À esquerda eis o quarto volume de Saga, uma série de banda desenhada que cruza perfeitamente ficção científica e fantasia para nos dar uma história mirabolante com seres humanóides estranhos em aparência mas revelando todas as características emocionais de seres humanos. A série tem sido uma das mais premiadas e é efectivamente uma das melhores que tive oportunidade de ler.

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Criminal foi outra das aquisições aquando da visita à Dejá Lu, um volume considerável de uma série dos autores de Fatale, Ed Brubaker e Sean Philips que apresenta um homem capaz de executar qualquer golpe desde que não haja perigo e uma femme fatale.

O Diário do Meu Pai – Jiro Taniguchi

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Dizia alguém que sempre que se vai a uma médium (ou bruxa, ou alguém de semelhante ocupação) uma das frases rotineiras (e sempre certeira) é apelidar a infância de infeliz ou traumática. É que, por mais pacífica, feliz e harmoniosa que tenha sido, é impossível não existirem episódios de conflito interno ou relacional, mais que não seja porque fazem parte da educação e do crescimento.

Exactamente por ser uma época de crescimento e intensa adaptação, estes episódios conseguem ser bastante marcantes e são recordados por uma memória frágil. Frágil não no sentido de fraca, mas no sentido de poder ter sofrido reinterpretação ou incorrecto enquadramento, sobretudo nas situações em que se desconheciam todos os factos (muitas vezes por tentativa de protecção dos adultos).

Posto isto, por mais estreita que seja a relação entre pais e filhos, é quase impossível ter uma inteira percepção de quem é o progenitor para além do seu papel de adulto responsável. Por um lado porque as nossas memórias de infância são muitas vezes marcadas pela tal percepção unilateral dos factos, por outro porque o convívio diário impede que percepcionemos o progenitor como alguém que já foi jovem e sonhador, alguém para além do papel que desempenha connosco.

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Yoichi Yamashita é um jovem cuja vida foi definida pelos acontecimentos da infância – quer pela interpretação, quer pela reconstrução fragmentada que daí resultou. O grande evento é o abandono do lar pela mãe, sem que lhe tenha sido dada uma explicação mais detalhada e enquadrada do afastamento.

Por estar sempre a trabalhar, o pai é uma figura distante sempre ocupado, e o que a criança recorda é a alegria da figura materna, sem conseguir percepcionar o gradual afastamento dos progenitores e o egoísmo da mãe que irá desencadear o evento traumático. Demasiado novo para perceber as circunstâncias, culpa o pai pelo abandono e começa a afastar-se da família, mudando-se para Tóquio, anos mais tarde, à primeira oportunidade.

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Quando o pai morre, retorna a Tottori para o ritual de velar o corpo. Aqui os participantes bebem alegremente (para que o fantasma do morto se desprenda) e contam vários episódios em honra deste homem. Gradualmente Yoichi apercebe-se que o homem silencioso que tomava por tímido era um homem bondoso e trabalhador que interpretou erradamente a vida toda.

O Diário do meu pai não é uma explosão arrebatadora de revelações. É uma história pausada, que apresenta a história daquela família utilizando os episódios recordados para os intercalar com as memórias e as interpretações de criança e com a leitura de quem conheceu outras perspectivas e os restantes factos.

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Combinando todas estas vertentes torna-se uma história arrebatadora, simultaneamente triste e redentora que enaltece o papel de progenitor, adulto responsável que, por assumir o peso das decisões, corre o risco de ser mal compreendido levando ao afastamento dos filhos.

Em Portugal O Diário do Meu Pai foi publicado pela Levoir em parceria com o jornal Público, na colecção Novela Gráfica. De realçar que está previsto outro livro do autor na colecção de 2016 (mais informações).

Resumo de Leituras – Maio de 2016 (4)

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117 – Pride & Joy – Garth Ennis – Garth Ennis é o autor de The Preacher e The Boys. Disto isto, esperava mais deste Pride & Joy que nos apresenta a típica história do passado que persegue a personagem principal, um homem que tendo-se envolvido em esquemas duvidosos há muitos anos, é agora perseguido por um dos seus associados implacáveis. Neste contexto, a história explora sobretudo a relação entre o homem e o filho que diferem em quase tudo – o filho é um rapaz sensível e estudioso que tem como objectivo de vida a faculdade e não compreende a vivência rude (mas agora honesta) do pai. Desenvolvimento e personagens cliché que resultam numa história pouco surpreendente;

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118 – The Loney – Andrew Michael Hurley – História de horror distinguida com vários prémios que prima pela subtileza dos acontecimentos, sempre implícitos. Uma história viciante que joga com a empatia das personagens e com o conhecimento prévio do que vai acontecer, sem que se saiba como – uma excelente história;

119 – H-Alt #1 – Vários autores – Revista de banda desenhada portuguesa com pequenas histórias de muitos autores. Como resultado temos uma grande variação na qualidade. De realçar, no entanto, a qualidade da edição e de alguns dos artistas. Irei detalhar o comentário em artigo próprio;

120 – 12 – A Doce – François Schuiten – Banda desenhada clássica que decorre num mundo futuro distópico e quase apocalíptico – a subida constante das águas impele as cidades para o isolamento e como via de comunicação entre eles implementa-se o teleférico. Paralelamente, descontinuam-se os comboios, principalmente os mais antigos a carvão. Se, no início é uma história centrada na ligação que se cria com a máquina que se cuida, numa segunda fase evolui para uma aventura melancólica e quase desesperada.

Southern Bastards Vol.1 – Jason Aaron e Jason Latour

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Tal como tantos outros jovens, Earl Tubb sentiu necessidade  de abandonar a sua terra natal para fugir do ambiente familiar com o qual não se identificava. Como em tantos outros casos, a figura que representava o conflito era a do pai, um homem rígido, sem receio de castigar com o cajado os que o rodeavam quando se afastavam do caminho correcto.

Agora adulto, homem feito, quase velhote, Earl Tubb é obrigado a regressar. Por pouco tempo, pensa – só o suficiente para pôr os papéis em dia e poder largar os poucos bens que lá tem, pondo, para trás das costas todo o peso do passado. Estas são as últimas acções que lhe permitirão finalmente cortar amarras e libertar-se.

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O que não espera é que o passado tenha deixado marcas bastante mais profundas e se descubra a ele próprio seguindo as pisadas do pai, empurrado para situações onde assume o mesmo papel autoritário e protector, contrariando as acções do gangster local, o treinador da equipa de futebol que gere os negócios menos lícitos da região.

As poucas tentativas de se manter pacífico falham e ainda que pense em sair da cidade (e a isso seja instigado) as rodas furadas do camião não ajudam. Ao objectivo de acabar com as pontas soltar e partir sobrepõem-se as injustiças a que assiste – a brutalidade sem consequências à qual a população assiste passivamente, com receio de se meterem em assuntos alheios.

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Ainda que o desenvolvimento seja previsível não conseguimos deixar de sentir empatia para com o homem que tenta afastar-se do passado mas que não consegue ficar impassível perante as situações a que assiste e assim se envolve em episódios de violências crescente.

Em cenário tipicamente do interior americano, inóspito e brutal, seguindo a lei do mais forte, é uma história que ganha complexidade pela forma como explora os relacionamentos –  o sentimento de revolta do homem para com o pai, apesar de morto, o sentimento de ternura que expressa nas chamadas telefónicas para alguém que só conhecemos no final, o sentimento silencioso de rectidão que comanda as suas acções e que vão definindo Earl Tubb.

Ainda que saibamos conscientemente qual o único percurso que a história pode seguir, é fazendo-nos torcer pela personagem que Southern Bastards consegue ultrapassar o cliché e deixar o gostinho amargo no final deste volume.

Southern Bastards foi publicado em Portugal pela G Floy. O segundo volume está previsto para breve.

Destaque: Kallocaína – Karin Boye

KALLOCAÍNA

 

A Antígona lança este mês Kallocaína, mais um clássico distópico, este lançado nos anos 40, anterior a 1984 de George Orwell. Deixo-vos a informação disponibilizada pela editora:

Obra visionária, Kallocaína (1940) é uma das grandes distopias do século xx, herdeira de Nós, de Zamiatine, e de Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, e predecessora de 1984, de George Orwell.

OS PENSAMENTOS PODEM SER CONDENADOS. A PESSOA QUE LHE É MAIS PRÓXIMA PODE SER UM TRAIDOR!

«A partir de agora, nenhum criminoso poderá negar a verdade. Nem mesmo os nossos pensamentos mais íntimos nos pertencem, como durante tanto tempo pensámos, sem ter esse direito. Dos pensamentos e sentimentos nascem palavras e acções. Assim sendo, como poderiam eles ser um assunto privado? Até hoje, simplesmente não fora possível controlá-los; agora, porém, foi descoberta uma forma de o fazer.»

 

Contos de José Rodrigues Miguéis

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Julgo que antes da última sessão de Recordar os Esquecidos nunca tinha ouvido falar de José Rodrigues Miguéis. O que me captou e convenceu em ler algo foi o tom pitoresco com que descrevia episódios quase banais e quotidianos, dando-lhes uma perspectiva fresca e até, cómica em que as palavras não definem apenas o objecto a que se referem, mas criam facilmente uma imagem mental de tiques reconhecíveis.

Se pesquisarem na maioria dos alfarrabistas encontram alguns livros do autor a valores que considerei demasiado elevados. Felizmente encontrei uns quantos na Dejá lu a preços mais razoáveis ( 4€) e trouxe dois. Esta edição contém uma apresentação crítica, com lugar para bibliografia e dissertações sobre cada um dos contos.

O Acidente é o primeiro conto que se centra num rapaz, jovem, que sobrevive trabalhando nas obras de uma enorme mansão. A morte do dono, sem ser trágica (até porque é uma figura distante) é como que um prenúncio para acontecimentos mais próximos, neste caso o acidente que envolve o rapaz. Nesse dia, como em todos os outros, a mãe chega pouco antes da hora da pausa, com o almoço, mas ninguém tem coragem para falar com a velhota, de aspecto frágil.

Havia uma velha que vinha todos os dias: cómica, aos pulinhos por cima da lama e das poças, para não molhar os sSaudapatos, que tinham bem, o quê, dez anos de uso: ainda eram do tempo do seu defunto.

Em Léah descreve-se o quotidiano numa pensão barata onde uma jovem cuida dos quartos. A nossa personagem principal é um homem jovem, solteiro e que logo começa a sentir curiosidade pela rapariga que todos chamam, Léah – desprendida, vigorosa, apaixonada e apaixonante.

Saudades para Dona Genciana apresenta o bairro onde cresce um jovem rapaz, antigamente de ambiente bastante mais familiar onde todos se conhecem e todos sabem o que vai em casa de cada um. A Dona Genciana é uma daquelas senhoras de porte agradável que faz suspirar os homens da zona e que é bem menos recatada do que seria de esperar. Sob esta aura de aparente normalidade e em tom banal, sem qualquer crítica aparente, é descrita a vida desta senhora que não é, nem boa mãe, nem boa esposa:

Visse-a você ali à janela, na bata de folhos engomados, o cabelo preto todo frisado a papelotes, cotovelos no peitoril, os seios fartos aninhados como pombos nos braços roliços – e não resistiria a admirá-la como todos nós, os do tempo. Sugeria frescuras, grandes lavagens, bochechos de água de Botot, conchegos tépidos, colchões macios, noites regaladas. Vista de perto, não era nova, nem bela, nem elegante. Tinha mesmo o nariz avermelhado e grosso. Mas os seus olhos eram negros e rasgados, a pele alva e fresca, o cabelo abundante. E tinha essa fartura de carnes que, com o ardos dos olhos e as rendas e folhos faz o nosso encanto: «Mulher asseada!» ou «Bom colchão!».

Se «Porque te calas, Amândio?» é um pequeno conto que nos apresenta uma família consternada pelo acidente que abalou o tio da personagem principal e que tem, agora poucas horas de vida, O Cosme de Riba-Douro muda totalmente de ambiente, apresentando-nos a dura vida dos que viajam para outro país em busca de melhores condições, para sempre ilegais, mas ainda assim tentando constantemente a sua sorte numa mistura de esperteza e jeito para a paródia que acaba por ir safando de algumas situações mais desagradáveis, apesar dos princípios que gritam e de se tentarem desmarcar das instituições ilegais que gerem as influências e sob fachada dizem proteger os mais frágeis.

 

Assim foi: Sustos às Sextas – Abril e Maio

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Infelizmente, cheguei atrasada à sessão de Abril, mas ainda a tempo de ouvir parte da interpretação de músicas de filmes de terror que representou um interessante momento musical nos Sustos (que podem ver nos vídeos abaixo, disponibilizados entretanto).

A este momento seguiu-se a palestra de António Monteiro sobre “Como escrever uma história de terror em dez lições” onde o escritor (que exerce muitas outras actividades para além da escrita) apresenta, sucinta e explicitamente um conjunto de pontos que são necessários para construir uma boa história.

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O final da sessão (que pareceu muito curta quando comparada com as restantes) foi marcado pela inauguração da Exposição Sobressaltos, uma exposição de banda desenhada dedicada ao terror sobrenatural onde foram apresentadas 20 histórias em duas pranchas. Esta colecção foi concebida originalmente por António Monteiro e João Castanheira e levada a cabo por Geraldes Lino e Bruno Caetano.

Ainda que nalgumas a narrativa fosse mais fraca (o espaço reduzido dificultou decerto a tarefa) a exposição destacou-se sobretudo pelo aspecto gráfico. Será que vai haver publicação em papel?

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Se a sessão de Abril me pareceu mais curta do que o habitual, a sessão de Maio pareceu-me muito longa – ainda bem. A sessão começou com o momento musical em que se interpretaram temas de Zeca Afonso com letra mais propícia ao evento (como Vampiros).

Foi um excelente e emotivo momento musical que contagiou rapidamente toda a sala – estranho como músicas que remetem a um tempo que desconheço conseguem tão facilmente despertar um sentimento tão profundo.

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Seguiu-se um momento não previsto na agenda, a apresentação do trabalho de Luís Vieira-Baptista, autor da exposição Triangulações, através de um vídeo relacionado com o quadro que construiu para o S. Carlos de temática Wagneriana. Esta exposição é mais voltada para o fantástico do que propriamente terror e apresenta temática e forma que associo às correntes artísticas dos anos 70 / 80 de nuances místicas

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Sob o tema O Medo na tradição popular portuguesa Fernando Casqueira dissertou não só sobre a origem do medo (enquanto sentimento e dissecando os vários graus de medo) como a forma como este é usado actualmente para impingir determinadas políticas, uma forma de manipulação massiva. Passando por lendas e histórias lusitânicas, tocou ainda na origem do Halloween como evento de origem portuguesa que regressa agora ao país, modificado.

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Apesar de interessante e, talvez, pela hora tardia achei que a apresentação tocou em demasiados temas em pouco tempo, ficando muito por dizer e explorar. Ainda assim, teve componentes bastante interessantes pela forma como o palestrante expôs algumas teorias menos aceites.

Depois de apresentados os vencedores do concurso de decoração de bolos (com a temática de terror) seguiu-se outro dos grandes momentos da noite, o questionário temático organizado por António Monteiro e João Castanheira que já o ano passado tinha sido caracterizado pela boa disposição e diversão.

Esta foi a última sessão de 2016 – Será que se prevê novo ciclo para 2017? Continuo a realçar neste evento mensal a boa vontade, esforço e empenho dos organizadores que têm procurado diversificar conteúdos e formatos, alternando entre momentos musicais, palestras temáticas e apresentações literárias, sem esquecer o cinema, a banda desenhada e… os bolos!

Ainda que não tenha apreciado todos os momentos de igual forma (até porque nem tudo é do gosto de toda a gente) a diversificação acaba por envolver diferentes pessoas com diferentes interesses. Esperamos novidades!

12 – A Doce – François Schuiten

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12 – A doce começa como uma história solitária de um maquinista para quem a sua locomativa constitui todo o Universo. Deslocando-se diariamente com a máquina perde a oportunidade de constituir família e dedica todas as horas livres a manter a 12 limpa e afinada.

Mas as máquinas evoluem. Estas locomotivas alimentadas a carvão vão sendo substituídas numa primeira fase pelas eléctricas e mais tarde pelos teleféricos. É que com a subida do nível das águas os carris começam a ser intransitáveis. Nada que o nosso maquinista não consiga ultrapassar com mestria, sabendo exactamente as quantidades de carvão que deve usar para conseguir passar nos lugares mais difíceis.

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Tudo muda quando é emitida a ordem para enviar a Doce para o ferro-velho. É aqui que o maquinista arranja forma de esconder a locomotiva, tendo como objectivo protegê-la e continuar a mantê-la. Descoberto, acaba por ser preso.

Anos mais tarde, quando é libertado, resolve procurar a locomotiva. Sem o querer, acaba por ajudar e ser ajudado por uma jovem muda que o acompanha na longa viagem pelos teleféricos vazios.

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12 – A Doce é uma história bem menos simples do que pode parecer nas primeiras páginas. Começando por apresentar a ligação homem-máquina consegue dar-nos como palco de fundo uma realidade diferente da nossa, onde a subida constante das águas impele a cidade para o isolamento, tendo-se estabelecido como meio de transporte alternativo, o teleférico.

Utilizando episódios reais que envolveram a evolução das máquinas a vapor, substituídas por outros modelos, mais rápidos e rentáveis, a história começa por explorar a relação simples que se estabelece com a compreensão da máquina, e evolui para a perda dessa relação com a evolução da tecnologia – o sentimento de concretização inicial dá lugar ao melancolismo, quase ao desespero.

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Paralelamente, se no início se estabelece a sensação de uma história agradável, clássica mas simples, com as diferenças da realidade descrita evolui-se para a exploração do desconhecido, a partida em demanda, a busca por um propósito que os tempos parecem querer apagar e esquecer.

Em Portugal 12 – A Doce foi publicado pela Asa.

Resumo de Leituras – Maio de 2016 (3)

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113 – Saga – Vol. 4 – Brian J. Vaughan e Fiona Staples – Depois das aventuras mirabolantes desta família pelo espaço, a fugir de mercenários e militares altamente treinados, finalmente encontram um poiso mais calmo onde a menina pode crescer em paz. Ou quase. A rotina quase dá cabo do relacionamento amoroso e faz com que a família se separe. Neste volume contam-se as circunstâncias em que tal aconteceu. Saga continua com os pormenores imaginativos, as situações caricatas e as personagens suficientemente dementes para aguentar e estimular uma boa história;

114 – As coisas que os homens me explicam – Rebecca Solnit – Partindo de uma cena quase cómica que se passou num jantar em que o anfitrião era um asno condescendente, a autora reflecte sobre o incidente, realçando o papel de cada género naquela conversa. Se a conclusão da autora pode parecer dúbia (afinal, um asno condescendente muitas vezes é-o sempre que suspeita que a pessoa a quem se dirige é inferior) as sucessivas situações de violência, física ou psicológica, em meios domésticos ou públicos deixam a ideia de que será necessário algo mais para fazer evoluir a sociedade;

115 – O Negócio dos livros – André SchiffrinApesar de ser apresentado como um livro que fala sobre a influência das grandes editoras e da forma como orientam o mercado e nos levam a consumir o que pretendem, é mais uma história da experiência pessoal do autor no mercado da edição. Tendo começado numa pequena editora (não por acaso naquela editora, que tinha sido fundada há muito pelo pai já falecido) descreve a preocupação pela construção de um bom catálogo de fundo para aguentar os novos lançamentos de venda inicial mais lenta – um modelo de negócio ignorado pelas novas direcções editoriais que pouco ou nada compreendem do objecto que comercializam;

The Dark 12

116 – The Dark – Issue 12 – Apesar de ter recebido gratuitamente todos os números desta revista, apenas li os primeiros volumes e agora este. Nos primeiros volumes denotava-se uma inconsistência de qualidade entre os contos originais e aqueles que estariam agora a ter nova edição na revista. Este volume captou-me interesse por ter um conto de Angela Slatter e acabei por ler a totalidade da revista. Encontrei um tom mais homogéneo na qualidade e no tema, apresentando arrepiantes contos de fantasia negra.

The Broken Sword – Poul Anderson

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Bem vindos à mais clássica história de fantasia nórdica de todos os tempos. Depois desta, não há muito que fique por contar. Filhos trocados no berço pelos elfos (ou seres sobrenaturais) como os mais tradicionais contos celtas, poderosos guerreiros que saqueiam as terras da costa e fazem cair sobre si poderosas maldições, irmãos que se reencontram e cometem incesto sem o saberem, épicas batalhas com espadas possuídas por demónios – esta história tem tudo isto e muito mais.

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A escrita é poética, quase musical, com arcaísmos vários mas não tantos que incomodem a leitura, remetendo para uma época distante em que a crença cristã se começa a instalar nestas terras frias, mas a magia ainda anda à solta e os seres sobrenaturais influenciavam o destino dos seres humanos.

Orm era um lutador nato, um viking que, sendo o quarto filho, teve de gerar a sua própria fortuna, atacando e saqueando vilas inglesas, principalmente na costa. Assim acumulou o suficiente para pensar em assentar e acaba por se casar com uma jovem inglesa, cristã. Mal sabe Orm que o destino da sua prole está traçado por ter morto uma família, salvando-se a mãe, velhota que faz um poderoso pacto com o diabo.

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Tudo começa quando o filho mais velho é trocado pelos elfos por um troll. Semelhantes fisicamente, a mãe não suspeita da troca, e cria a criança com seu filho juntamente com os restantes que vai tendo ao longo dos anos. Valgard, assim se chama o mais velho (agora troll) é um jovem conflituoso, pouco amado por animais ou crianças, juntando-se a outros jovens problemáticos em pequenas guerras e pilhagens,

Quando o irmão mais novo se perde na floresta (retido por uma jovem belíssima que não é outra senão a bruxa disfarçada), Valgard procura-o. Instigado pela beleza da bruxa acaba por matar o próprio irmão. Quando regressa a casa com o corpo, sabendo agora a sua verdadeira origem, a razão da morte não tarda em ser descoberta. É assim que mata toda a família, menos as irmãs que leva como troféus, em busca dos trolls procurando um lugar como guerreiro.

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Paralelamente, a criança humana que foi criada pelos elfos, Skafloc, torna-se um homem honrado, bom lutador, capaz de manusear a magia e o ferro, elemento tóxico para os seres sobrenaturais. Entre riqueza e beleza imensas, cresce agradecendo o seu lugar privilegiado entre os elfos, mas ansiando por relacionamentos menos frios e distantes.

A eterna guerra entre os trolls e os elfos acorda novamente, estando os dois jovens em fracções opostas. Ainda que fisicamente sejam semelhantes, psicologicamente não se poderiam diferenciar mais – espelhando Skafloc toda a honra e altivez dos elfos com que foi criado, e Valgard toda a corrupção dos trolls e todo o trauma das circunstâncias em que foi trocado.

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De leitura pausada, The Broken Sword cruza vários elementos que podemos encontrar nas histórias tradicionais do Norte da Europa, apresentando, não só os seres sobrenaturais, como o afastamento destes perante a nova religião, tóxica, perante a qual até os antigos Deuses são esquecidos.

Com acontecimentos predestinados, mais fortes do que qualquer acção dos meros mortais, é uma história trágica com construção clássica onde não falta a honra, o amor, a traição e a morte. Esta história épica só peca pela falta de elementos subversivos que dariam um ar menos perfeito e clássico ao enredo.

Em Portugal foi publicado como A Espada Quebrada, pela Dêagá.

Destaque: O peso do coração de Rosa Montero

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A partir de hoje está disponível O Peso do Coração, novo livro de Rosa Montero que escreve assumidamente ficção científica (pelas palavras da autora “A ficção científica é uma ferramenta poderosíssima para falar deste mundo e das suas possibilidades.”). A história decorre no futuro e centra-se numa detective replicante, utilizando o mesmo cenário explorado em Lágrimas na Chuva. O livro será publicado pela Porto Editora.

A autora vai estar em Portugal este mês estando previstos pelo menos dois eventos com a presença da autora, Viagem Literária no dia 19 em Leiria (Teatro José Lúcio) e dia 22 no Porto (Teatro do Campo Alegre).

Deixo-vos a sinopse:

Três anos, dez meses e vinte e um dias.

É o tempo que resta a Bruna Husky. A detetive replicante, que é uma sobrevivente capaz de tudo, continua a debater-se com a independência total e a necessidade desesperada de carinho, como uma fera aprisionada na jaula de uma existência a prazo.

Contratada para resolver um caso aparentemente simples e lucrativo, Bruna vê-se envolvida numa trama de corrupção internacional de tal forma sinistra e ameaçadora que pode comprometer a existência da própria Terra. Num futuro no qual os direitos, outrora considerados essenciais, se tornaram reféns do dinheiro, a replicante revela-se uma guerreira empenhada na luta contra esquemas de organização social baseados em preconceitos, regras rígidas e fanatismo, que põem em causa a existência de todos os seres.

O Peso do Coração é um romance distópico que, a partir do debate claro e atual das consequências das opções do presente, reflete de forma madura sobre as condições de vida e da morte, e sobre aquilo que é, na essência, a própria definição de humanidade, constituindo um regresso extraordinário ao mundo fascinante de Lágrimas na Chuva.

 

 

Pride & Joy – Garth Ennis

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Conheci a obra de Garth Ennis com The Preacher, uma série de premissa interessante, suficientemente original e simples para gerar, com uma boa mistura de personagens, uma história mirabolante, carregada de violência, mas onde o humor consegue tornar esta violência aceitável e bem enquadrada. Já em The Boys achei que a violência era exagerada e dessensibilizada ao ponto de perder importância e, embora tenha gostado dos dois primeiros volumes, não ficou o suficiente para continuar a leitura.

Tendo lido estas duas séries antes de Pride & Joy, não é de estranhar que o quotidiano calmo de interior de uma cidade dos Estados Unidos da América seja repentinamente abalado por episódios de violência. Devido ao contexto, a violência tem bastante mais impacto, apesar de ser mais escassa.

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A premissa que nos vai trazer os episódios violentos é um cliché recorrente – um homem vive calmamente com a família (neste caso a esposa faleceu com cancro) pensa que deixou o passado bem enterrado e esquecido. Claro que basta um telefonema para o recordar e perceber que vai ser perseguido por um criminoso conhecido pela brutalidade.

Receoso, retira as armas do esconderijo, pega nos filhos e foge. Não está sozinho. Dois antigos conhecidos fogem do mesmo assassino e resolvem juntar-se, com o pensamento de que poderão, desta forma, proteger-se melhor.

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Paralelamente, explora-se o relacionamento do homem com o filho mais velho, um rapaz quase na idade adulta mas que, sendo mais intelectual e estudioso, encontra poucos pontos em comum com o pai, mantendo um relacionamento distante e conflituoso, pois nenhum dos dois corresponde ao ideal perspectivado. Se o pai é inculto, o filho é demasiado sensível.

Apesar de ser a exploração deste relacionamento que distancia a história de um mar de clichés, não foi, para mim, suficiente para cativar. Com narrativa simples e desenvolvimento quase previsível Pride & Joy é, no entanto, uma história coesa que poderia tornar-se excelente se tivesse explorado mais do que o relacionamento entre as três gerações da família. Como o título indica, este terá sido o objectivo do livro, mas, novamente, não se tornou suficientemente interessante.

Passatempo: Se acordar antes de morrer – João Barreiros

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Não conhecem João Barreiros? Como não conhecem o maior autor de ficção científica português? É verdade que são muito poucos os escritores portugueses de FC, mas este facto não lhe tira importância. Subsistindo como professor (porque isto de escrever não alimenta) tem várias livros publicados em Portugal pelas mais diversas editoras, tendo sido também responsável pela organização de colecções de ficção científica e fantástico para a Editora Clássica e para a Gradiva, já para não falar da participação no Ciclo de Cinema de Ficção Científica da Fundação Calouste Gulbenkian em 1984.

Bem, se fosse expor aqui todos os projectos, livros e afins, poderia estar aqui uma eternidade, pelo que passo simplesmente a referir que as suas obras são caracterizadas por um humor negro e sarcástico, bastante peculiar e divertido. Deixo-vos algumas das minhas opiniões dos livros de João Barreiros, bem como as condições para participarem no passatempo:

Bem, o passatempo visa publicitar o blogue com as resumidas opiniões de João Barreiros – opiniões que correspondem ao estilo sarcástico do autor que recomenda livros diversos onde não há lugar a donzelas em perigo e belos cavaleiros de espada em riste – boa literatura portanto. Esperem horror, esperem robots, esperem uma “anãzinha marreca, armada de um colt.45, a defender os monstros do circo do qual ela é dona e sonhora”.

Para ganharem este volume têm de efectuar duas acções:

  1. Escolher uma entrada do blogue com as opiniões do João Bareiros;
  2. Enviar um mail para rascunhos.blog [AT] gmail [DOT] com, indicando a entrada escolhida, nome e morada com o título “Passatempo – Se acordar antes de morrer “.

O passatempo termina a 12 de Junho.

Notas adicionais: Os dados enviados serão usados apenas para o passatempo. Aceitam-se participações em Portugal (continental e ilhas). Quem está fora de Portugal poderá participar desde que pague os portes. Uma única participação por pessoa / mail. Ou seja, não podem participar várias pessoas do mesmo endereço, nem uma única por vários endereços de e-mail. Podem participar várias pessoas com a mesma morada desde que usem diferentes endereços de e-mail. Participações adicionais serão ignoradas. O único exemplar disponível será sorteado, e o vencedor comunicado neste blogue. Irei, também, enviar um e-mail para o vencedor, com o intuito de confirmar os dados antes do envio. Se não me responder em tempo útil (duas semanas) passarei ao segundo contemplado.

Dead like me

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De desenvolvimento linear e sem grandes complicações no enredo, Dead Like Me é daquelas séries que mostra como a simplicidade consegue funcionar bem para entregar diversão minimamente inteligente. Não esperem grandes reviravoltas ou cliffhanger’s, mas situações caricatas carregadas de ironia que são complementadas por alguns elementos cómicos.

A série começa com Georgia Lass, mais conhecida como George, a morrer quando a tampa de uma sanita de uma estação espacial entra na atmosfera e provoca um aparatoso acidente. Se esta cena parece o final, é na realidade um recomeço para a jovem que passa a desempenhar a função de anjo da morte.

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Integra, assim, uma pequena equipa de anjos da morte e, contra a sua vontade, é ensinada a retirar as almas dos que vão morrer, e a acompanhá-las na passagem para a luz. O que se encontra do outro lado os anjos da morte desconhecem, apenas sabem que a sua vez ainda não chegou e, como tal, devem cumprir esta tarefa durante algum tempo.

De aparência suficientemente diferente para não ser reconhecida, George adopta outro nome e volta a ser contratada pela mesma empresa pois um anjo da morte também tem de comer e também precisa de sítio para dormir. Apenas não deve voltar a contactar a família mas, claro, que a curiosidade é maior e não resiste a espiá-los.

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Sarcástica como a mãe, George consegue sair do papel típico de adolescente para, num distanciamento aparente, depositar tiradas de humor negro e cortante, sobretudo nas diversas situações em que as mortes se devem a cómicos acidentes. Há, literalmente, pianos a cair em cima de pessoas, camiões do lixo que esmagam barulhentas senhoras de cadeiras de rodas, bidões de água que provocam o afogamento de um trabalhador ou pranchas de surf voadores que atravessam a cabeça de alguém.

As mortes irónicas e inventivas sucedem-se a cada episódio. Mas não demasiadas, apenas as suficientes para justificar o trabalho dos anjos da  morte. Lentamente, a reacção de revolta de George dá lugar a uma aceitação do ciclo da vida do qual faz parte e há algum espaço para ir experimentando o que não pode em vida.

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Explorando, mas não em demasia, algumas questões em torno da religiosidade ou do que existe depois da  morte, consegue libertar-se da carga trágica pelos elementos cómicos que explora com ironia.