Resumo de Leituras – Fevereiro de 2015 (2)

palmas para o esquilo

25 – Palmas para o Esquilo – David Soares – Incursão entre o reino da loucura e da ilusão quotidiana, é uma história invulgar e inquietante de um pensamento que se torna real na mente de um louco. No asilo, esta louca realidade é aceite pelos restantes que, como ele, constroem o seu mundo em torno de uma lógica diferente.

the situation

26 – The Situation – Jeff VandermeerEsta pequena e espectacular história de Jeff Vandermeer centra-se na transformação de um escritório pouco vulgar. Numa equipa que anteriormente agia quase como família, a saída de um elemento inicia a separação dos restantes, estabelecendo-se um ambiente hostil e perverso, carregado de intrigas. Claro que a história não é assim tão linear, e as personagens ainda menos – constantemente transfiguradas, trabalham em projectos surreais de circunstâncias invulgares e fascinantes pela sua estranheza.

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27 – O Livro de Areia – Jorge Luís Borges – Tendo como título um dos mais falados contos de Jorge Luís Borges, esta compilação de histórias apresenta alguns contos de contornos fantásticos ou até de terror, que exploram receios ou ideias. Claro que a cereja do conjunto é O Livro de Areia, história de um livro infinitivo que serviu já de inspiração para outros contos.

limpador de botas

28 – A História do Limpador de Botas – Charles Dickens – Este minúsculo volume da Estrofes & Versos contém três histórias: A História do Limpador de Botas, A História de Ninguém, e Entrar na Sociedade. Na primeira seguimos uma perfeita e inocente história de amor entre duas crianças, demasiado novas para assumir um relacionamento, mas que mesmo assim tentam torná-lo sério aos olhos dos adultos. Na segunda, o titulo não poderia ser mais apropriado, sem ninguém todos os inominados de que a história não fala. A última roda em torno de um anão que quis a sorte ganhar a lotaria, apenas para se ver mais miserável do que antes.

Os Esquecidos

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Decorrendo todos os meses na Livraria Almedina no Saldanha, Recordar os Esquecidos é o nome do evento mensal onde se fala de livros e escritores que caíram indevidamente no esquecimento, ou que nunca foram tão conhecidos quanto deveriam. A primeira sessão decorreu a 31 de Janeiro, tendo como convidados Bruno Vieira Amaral e Rui Cardoso Martins, autor de O Osso de Borboleta, um lançamento recente e bastante curioso da Tinta da China.

Entre Húmus de Raúl Brandão e Ana Maria (recordada como a esposa de Urbano Tavares Rodrigues, apesar de ter publicado diversos livros que serão ainda melhores do que as do marido), foi uma tarde passada de forma agradável onde se ouviu falar de livros e de escritores, não faltando as pequenas histórias em torno dos mesmos.

recordar os esquecidos Fevereiro

Como agendada, a segunda sessão decorreu Sábado passado, no mesmo espaço, desta vez com a participação de Miguel Real e João Tordo, ambos com livros publicados recentemente (Miguel Real com O Último Europeu e João Tordo com Biografia Involuntária dos Amantes). Entre as referências esquecidas (re)encontrámos Mau tempo no canal de Vitorino Nemésio, Contos Bárbaros de João Araújo Pereira, O Estrangeiro de Camus, ou Moby Dick bem como Raymond Carver e José Régio. Estendendo-se para além do previsto, a sessão transformou-se numa interessante viagem literária, onde se primou pelas histórias em torno dos autores, que não pareciam faltar a Miguel Real.

 

Saga – Brian K. Vaughan e Fiona Staples

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Foi com grande surpresa que vi, no Fórum Fantástico, esta edição portuguesa de grande qualidade e preço acessível (menos de 9€) – capa dura de visual simples, interior em papel cuidado como convem a banda desenhada tão colorida e movimentada quanto esta. Para além deste volume encontrei também os primeiros das séries Tony Chu (Detective Canibal) e Fatale, com a mesma qualidade e preço. O receio de sempre? Que não seja toda publicada em português e acabe por ficar na prateleira com uma série incompleta, ou com volumes dispersos em vários formatos. Felizmente, a editora já anunciou que está a preparar os segundos volumes.

Na capa vemos uma mulher com asas e um homem com chifres, ambos de armas na mão: a antevisão de uma confluto armado que não nos prepara para as primeiras páginas, carregadas de delicioso nonsense e confusão violenta. Entre impropérios característicos, numa garagem pouco apropriada, a mulher, Alana, está a dar à luz, assistida apenas por Marko. O resultado: um bebé de asas e chifres, consequência da união dos dois. Ainda não recompostos, vêem-se encurralados por uma milícia armada que os tenta capturar. Felizmente, em seu auxílio vem um grupo que, recorrendo á magia, lhe concede tempo suficiente para fugir.

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Assim conhecemos as duas fracções da guerra: a coligação Landfall, cujo nome deriva do planeta do qual provêm, e que baseia o seu poder na tecnologia; e Wreath, civilização oriunda do único satélite de Landfall, onde se usa a magia. No meio desta conflito o jovem Marko apaixona-se pela soldado que o mantém cativo, e acabam por fugir juntos. Perseguidos pela coligação e por mercenários, têm agora uma nova razão para soberviver, encontrando pelo caminho companheiros improváveis que os ajudarão de forma pouco convencional.

E claro que nada poderia ser tão simples quanto duas fracções antropóides tão semelhantes entre si: entre os mercenários encontramos figuras totalmente humanas ou mulheres aracnídeas, e entre o exércitos que os persegue encontra-se um príncipe de cabeça televisiva, um militar contrafeito em missão que serve de personagem aos episódios mais ridículos e absurdos. Pelo caminho encontramos, também, fantasmas de crianças martirizadas ou mulheres sem torso e função apenas sexual.

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Com todos estes elementos, esta Space Opera em formato de banda desenhada é, em suma, bastante divertida. Oriundos de culturas bastantes diferentes o casal discute frequentemente entre si de forma amena e cómica, e as personagens que vão encontrando, apesar de assustadoras e perigosas, vêem-se sempre em situações ridículas e inusitadas, conferindo, à história que poderia ser simplesmente trágica, pequenas piadas que aligeiram o ambiente e divertem o leitor.

Pedindo submissões

Eis algumas novas oportunidades para quem escreve !

call to arms

Planeado o Clockwork para 2015, claro que seria de esperar a edição de um novo Almanaque Steampunk. O formato dos anteriores é bastante interessante (podem ver o de 2012 aqui) pelo que o de 2015 não deve ficar atrás. Para o Almanaque não se procuram apenas histórias, mas também banda desenhada, ilustrações e poesia. Podem ver instruções mais detalhadas no site oficial.

concurso de contos de terror

Já divulgado anteriormente aqui, mas cá fica novamente a nota. A iniciativa enquadra-se dentro do evento Sustos às sextas e procura contos de terror. Através do e-mail ou da página de facebook podem encontrar mais informação.

divergencia

Enquanto nos anteriores se aceitam contos, aqui aceitam-se manuscritos, dentro do género ficção especulativa: fantasia, ficção científica e terror. Fica a nota de que não pretendem trilogias nem séries, mas histórias de um volume apenas. Aqui ficam mais detalhes.

 

À espera de … (lançamentos internacionais)

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A autora de Who Fears Death tem mais um livro na calha, de título The Book of Phoenix:

They call her many things – a research project, a test-subject, a specimen.An abomination.

But she calls herself Phoenix, an ‘accelerated woman’ – a genetic experiment grown and raised in Manhattan’s famous Tower 7, the only home she has ever known. Although she’s only two years old, Phoenix has the body and mind of an adult – and powers beyond imagining. Phoenix is an innocent, happy to live quietly in Tower 7, reading voraciously and basking in the love of Saeed, another biologically altered human.

Until the night that Saeed witnesses something so terrible that he takes his own life. Devastated, Phoenix begins to search for answers – only to discover that everything that she has ever known is a lie. Tower 7 isn’t a haven. It’s a prison. And it’s time for Phoenix to spread her wings and rise. Spanning contents and centuries, The Book of Phoenix is an epic, incendiary work of magial realism featuring Nnedi Okorafor’s most incredible, unforgettable heroine yet.

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Não conheço nada deste autor, mas eis um que me despertou interesse pela capa, e me intrigou pela sinopse:

The Vagrant is his name. He has no other. Years have passed since humanity’s destruction emerged from the Breach. Friendless and alone he walks across a desolate, war-torn landscape. As each day passes the world tumbles further into depravity, bent and twisted by the new order, corrupted by the Usurper, the enemy, and his infernal horde.

His purpose is to reach the Shining City, last bastion of the human race, and deliver the only weapon that may make a difference in the ongoing war. What little hope remains is dying. Abandoned by its leader, The Seven, and its heroes, The Seraph Knights, the last defences of a once great civilisation are crumbling into dust. But the Shining City is far away and the world is a very dangerous place.

crashing heaven

Nova obra de novo autor – uma curiosidade a seguir?

A diamond-hard, visionary new SF thriller. Nailed-down cyberpunk ala William Gibson for the 21st century meets the vivid dark futures of Al Reynolds in this extraordinary debut novel.

With Earth abandoned, humanity resides on Station, an industrialised asteroid run by the sentient corporations of the Pantheon. Under their leadership a war has been raging against the Totality – ex-Pantheon AIs gone rogue.

With the war over, Jack Forster and his sidekick Hugo Fist, a virtual puppet tied to Jack’s mind and created to destroy the Totality, have returned home.

Labelled a traitor for surrendering to the Totality, all Jack wants is to clear his name but when he discovers two old friends have died under suspicious circumstances he also wants answers. Soon he and Fist are embroiled in a conspiracy that threatens not only their future but all of humanity’s. But with Fist’s software licence about to expire, taking Jack’s life with it, can they bring down the real traitors before their time runs out?

The Situation – Jeff Vandermeer

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Enquanto a mais recente trilogia de Jeff Vandermeer faz furor em 17 países (NTY-bestselling), cá é um nome pouco conhecido, tendo apenas dois trabalhos publicados em português : A transformação de Martin Lake & Outras histórias e Almanaque do Dr. Thackery T. Lambeshead de Doenças Excêntricas (ambos excelentes, já agora).

Publicado em 2008, The Situation é uma pequena e espectacular noveleta de Jeff Vandermeer, uma história surreal e envolvente que é, na prática, bastante real se conseguirmos ver por detrás das transformações físicas que envolvem quer as personagens, que ros objectos. O enredo centra-se num escritório de uma grande empresa, mais especificamente numa pequena equipa em que os membros, além de um projecto comum, desenvolvem projectos individuais.

Tudo parece correr sobre rodas, até que um dos elementos de equipa é transferido para outra área. Sob um manager incompetente, os elementos que até se davam como amigos, partilhando momentos fora do horário laboral, perdem o elemento agregador, começando a divergir, tanto em objectivos individuais, como no projecto em curso. Quando se estabelece uma aliança entre dois dos elementos, inicia-se a hostilização do terceiro.

Claro que, sendo uma história de Jeff Vandermeer, nada poderia ser assim tão simples. Devagar percebemos que a cidade sofreu alguma catástrofe e que, o jovem trabalhador, vê aquela empresa como uma segunda casa. Por outro lado, os trabalhadores pouco têm de humano, mudando de aparência como quem muda de humor. Os projectos, esses, são ainda mais fantásticos, projectos de escaravelhos que ajudam as crianças a aprender, ou de peixes que, engolindo estudantes lhes ensinam capacidades matemáticas.

Sob a capa de toda a surrealidade, está a verdadeira história – a forma como colegas de trabalho pouco honrados interceptam mensagens de outros com intuitos malévolos, onde as amizades são apenas aparentes para alguns – meras alianças oportunísticas. Talvez por isso haja personagens que literalmente mudam de aspecto várias vezes ao dia, e outros que adoptam uma aparência animaléstica, cada vez mais distante e fria.

The Situation encontra-se disponível gratuitamente. Caso gostem, podem também encontrar uma pequena banda desenhada no site TOR.com.

 

Destaque da semana: Sete minutos depois da meia-noite

sete minutos depois da meia noite

Mais conhecido pela série Chaos Walking, este premiado autor de livros juvenis vê agora um livro publicado em português: A Monster Calls. Com direito a trailler no site da editora, deixo aqui a sinopse:

Passava pouco da meia-noite quando o monstro apareceu. Mas não era exatamente o monstro de que Conor estava à espera…

A escuridão, o vento, os gritos. O mesmo pesadelo noturno desde que a mãe de Conor ficou doente. Tudo é tão aterrorizador que Conor não se mostra assustado quando uma árvore próxima de sua casa se transforma num monstro… Mas só o monstro sabe que Conor esconde um segredo e é o único a estar ao seu lado nos seus maiores medos.

Inspirado numa ideia original da escritora Siobhan Dowd, que morreu de cancro em 2007, Patrick Ness criou uma história de uma beleza tocante, que aborda verdades dolorosas com elegância e profundidade, sem nunca perder de vista a esperança no futuro. Fala-nos dos sentimentos de perda, medo e solidão e também da coragem e da compaixão necessárias para os ultrapassar.

É com ilustrações soberbas que complementam e expandem a beleza do texto que a fantasia e realidade se misturam em Sete Minutos Depois da Meia-Noite.

 

 

Últimas aquisições digitais (algumas gratuitas)

Dark magazine

Se forem ao site oficial da revista podem-se inscrever para receberem quatro volumes gratuitos. O primeiro foi-me enviado já esta semana e ainda que os autores deste não me sejam conhecidos, nos volumes anteriores podemos encontrar Nnedi Okorafor, Silvia Moreno-Garcia ou S.L. Gilbow. Mais conhecidos ainda são os editores: Jack Fisher e Sean Wallace. O primeiro editor da revista Flesh & Blood costuma organizar antologias. Já o segundo é o editor da Prime books, tendo já organizado revistas como a Clarkesworld, The Dark ou Fantasy Magazine. Este será sem dúvida um projecto para acompanhar nos próximos tempos.

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Para quem usa o Kindle reader através de um Samsung existe a possibilidade de adquirir um volume gratuito todos os meses. De entre as quatro possibilidades deste mês escolhi este The Mongoliad:

The first novel to be released in The Foreworld Saga, The Mongoliad: Book One, is an epic-within-an-epic, taking place in 13th century. In it, a small band of warriors and mystics raise their swords to save Europe from a bloodthirsty Mongol invasion. Inspired by their leader (an elder of an order of warrior monks), they embark on a perilous journey and uncover the history of hidden knowledge and conflict among powerful secret societies that had been shaping world events for millennia.

But the saga reaches the modern world via a circuitous route. In the late 19th century, Sir Richard F. Burton, an expert on exotic languages and historical swordsmanship, is approached by a mysterious group of English martial arts aficionados about translating a collection of long-lost manuscripts. Burton dies before his work is finished, and his efforts were thought lost until recently rediscovered by a team of amateur archaeologists in the ruins of a mansion in Trieste, Italy. From this collection of arcana, the incredible tale of The Mongoliad was recreated.

Full of high adventure, unforgettable characters, and unflinching battle scenes, The Mongoliad ignites a dangerous quest where willpower and blades are tested and the scope of world-building is redefined.

A note on this edition: The Mongoliad began as a social media experiment, combining serial story-telling with a unique level of interaction between authors and audience during the creative process. Since its original iteration, The Mongoliad has been restructured, edited, and rewritten under the supervision of its authors to create a more cohesive reading experience and will be published as a trilogy of novels. This edition is the definitive edition and is the authors’ preferred text.

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O site VODO de vez em quando disponibiliza e-books a preços muito acessíveis. Ainda assim quem achar que o preço é excessivo, pode sempre fazer uma proposta de preço, que às vezes até é aceite. Neste momento, dos que se encontram disponíveis interessei-me por um livro de Daryl Gregory, e por esta colectânea de histórias de ficção científica de países tão distintos como Filipinas, Israel, Tailândia, Croácia ou Malácia (entre outros). No site oficial encontram não só uma lista completa de conteúdos como a sinopse:

Among the spirits, technology, and deep recesses of the human mind, stories abound. Kites sail to the stars, technology transcends physics, and wheels cry out in the night. Memories come and go like fading echoes and a train carries its passengers through more than simple space and time. Dark and bright, beautiful and haunting, the stories herein represent speculative fiction from a sampling of the finest authors from around the world.

we are all completely fine daryl gregory

Entre Pandemonium e The Devil’s Alphabet, os livros de Daryl Gregory costumam apresentar boas histórias de premissas originais e improváveis:

Harrison was the Monster Detective, a storybook hero. Now he’s in his mid-thirties and spends most of his time popping pills and not sleeping. Stan became a minor celebrity after being partially eaten by cannibals. Barbara is haunted by unreadable messages carved upon her bones. Greta may or may not be a mass-murdering arsonist. Martin never takes off his sunglasses. Never. No one believes the extent of their horrific tales, not until they are sought out by psychotherapist Dr. Jan Sayer. What happens when these seemingly-insane outcasts form a support group? Together they must discover which monsters they face are within–and which are lurking in plain sight.

O Baile e Deixa-me entrar – Joana Afonso

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Terá sido com O Baile que primeiro ouvi falar no nome de Joana Afonso, como a ilustradora do album vencedor do prémio Amadora BD de 2013. Mais recentemente, em 2014, no mesmo evento, lançou Deixa-me entrar, agora a solo. Em ambos é visível o mesmo traço, o mesmo estilo, ainda que se distingam pela cor e temática.

No primeiro explora-se o interior de Portugal durante a ditadura, um país fechado e supersticioso, de gente calada como quem sabe mais do que diz, mas que não se atreve a abrir a boca. Ainda para mais em frente a um inspector da PIDE, pessoa da cidade pouco acostumada ao ambiente rural.

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É assim que nada prepara o jovem inspector para o pesadelo sobrenatural que o espera, em que durante a noite seres se erguem do mar, para consigo levarem os que neles se transformam. A causa apontada é uma rapariga, dada como bruxa ou feiticeira, mas que o inspector na sua incredibilidade acaba por proteger.

História engraçada e interessante, uma crítica não muito súbtil aos poderes vigentes na época – entre o estado e a igreja, as populações incultas seguem o que se lhes diz, nem sempre com os resultados esperados.

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Também de enredo português, a história de Deixa-me entrar é mais simples. Mais história de pessoas do que de costumes ou sociedades, desenrola-se em torno de um homem sem ligações afectivas que se hospeda numa pequena pensão. Na sequência de uma inundação é convidado a permanecer num quarto melhor, dentro do que será o núcleo mais pessoal da dona da pensão.

Sem surpresa, a proximidade espacial resulta também em proximidade quotidiana, e entre a partilha de refeições e dos serões à televisão, acaba por se estabelecer um previsível ritual caseiro entre a dona da pensão e o homem que, pouco habituado a tais familiaridades, se começa a sentir estranho.

Bastante focado no que se pretende transmitir, o estilo de Joana Afonso, sem ser dos meus favoritos, enquadra-se bem às duas histórias. Na primeira, mais interessante em relato e conteúdo, o estilo ajuda a transmitir a estranheza do pesadelo em curso. Já na segunda, mais simples, os desenhos caricatos fazem-nos criar empatia para com as personagens.

Mas se o estilo é bastante semelhante nos dois volumes, já a narrativa difere bastante. A primeira, mais densa em história e mensagem é bastante mais coesa. Já em Deixa-me entrar, achei o desenlace algo tosco e forçado, que resulta numa história engraçada mas previsível.

Por mundos divergentes – Vários autores

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Publicada recentemente pela Editorial Divergência, Por Mundos Divergentes é uma pequena compilação de histórias distópicas, da autoria de cinco autores portugueses. Uma iniciativa interessante que se destaca tanto por conceito como pela divulgação de escritores nacionais numa área tão escassa da literatura portuguesa como a ficção científica, ainda mais se considerarmos a ficção distópica.

Depois de apresentados a um verdadeiro Big Brother em ambiente lusitano (Patriarca de Ricardo Dias) segue-se Em Asas Vermelhas de Nuno Almeida, uma história distópica e pós-apocalíptica que retrata uma Lisboa futurística de altos muros isolantes, que visam separar a população rica de pele clara, dos mais pobres e escuros que subsistem na lixeira. Claro que, em tais condições, fervilha uma revolta na qual dois jovens terão um papel fulcral. Uma história divertida onde se realçam os elementos futuristas e o ambiente distópico – bons elementos apesar da inocência genérica do enredo juvenil.

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Num Portugal acossado pela crise que tenta produzir alimento para toda a população, a solução encontra-se na classificação de dispensável – cidadãos que, por causa de alguma deficiência, acidente ou simplesmente, idade, já não conseguem produzir o suficiente para serem considerados úteis. É nestes indivíduos que se centra Dispensáveis de Ana C. Nunes, mais propriamente num velhote, pai e avô, que, após uma queda, fractura a bacia e se vê marcado como dispensável. É levado contra vontade pelo filho para um dos locais isolados onde se largam os dispensáveis, esperando-os a morte ou a desumanização da miséria extrema.

Arrábida8 de Pedro G. P. Martins é o conto de que mais gostei. Num Portugal totalmente futurista, governado por uma autoridade absoluta e estrangeira, conhecemos um centro de investigação biológica na Arrábida. Criado com o principal objectivo de fornecer arroz aos governantes externos, permite que um grupo de investigadores estude o equilíbrio ecológico, tarefa secundária no momento em que se torna necessário descobrir qual a praga que se encontra no arrozal. Aldo9 é um desses investigadores, um ser humano que já vai na nona clonagem, sendo que as versões anteriores terão sido descontinuadas por conta de erros que agora desconhece.

O último conto, Somos Felizes, de Sara Farinha retrata uma distopia onde todos têm o dever de ser felizes. Para tal existem anúncios constantes ou medicamentação para os mais resistentes. Quem não for feliz é internado e sujeito a diversas sessões de terapia até ser curado. Bruno é um dos indivíduos que se sente infeliz. Após assistir ao enterro de um amigo (cerimónia de assistência proibida) não consegue deixar passar o sentimento de tristeza. Após um longo internamento é seguido em consultas sucessivas. E talvez conseguisse esconder os seus sentimentos, não fosse ter conhecido uma artista pouco vulgar.

No conjunto a colectânea surpreendeu-me pela positiva. É agradável descobrir histórias com elementos lusos conhecidos, mais que não sejam pelas expressões, locais ou pelas referências históricas. Arrábida8 agradou-me pela apresentação de um futuro típico de Hard Scifi – humanos ligados mentalmente a uma rede tecnológica, clones das suas próprias versões originais que intercalam horas de trabalho com horas de lazer obrigatório. Por sua vez, Dispensáveis será a história mais humana do conjunto, descrevendo-nos a pobreza de espírito que advém da alienação dos cidadãos enquanto pessoas – uma boa história que, no meu entender, ganharia com o corte de algumas cenas que acabam por repetir elementos.

Patriarca é, também, uma boa história que ganharia em se conter nas reviravoltas nas últimas páginas, reviravoltas que inundam quer a personagem principal, quer o leitor. Já Somos Felizes é uma abordagem interessante apesar do final expectável. Tenho pena que nem todos os elementos tenham sido mais explorados (em suma, qual a necessidade de integrar uma personagem como a artista?). Por último (mas sem qualquer ordem de preferência) Em Asas Vermelhas possui uma premissa peculiar mas tenho pena que se tenha tornado uma história de contornos juvenis.

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Parabenizando a iniciativa que resultou numa compilação acima da média no que diz respeito a produções nacionais, não posso deixar de destacar um dos aspectos mais negativos: o aspecto grafico. Passo a explicar. A imagem da capa é engraçada, e os vários tipos de letra completam-no. Mas é mesmo nestes vários tipo de letra que se confunde o leitor, relembrando caracteres russos, o que é totalmente desadequado. Por outro lado, a letra demasiado disforme dificulta a leitura da sinopse ou dos conteúdos – escusado será dizer que não me esforcei por terminar a sinopse.

No interior esperam-nos também algumas falhas desagradáveis que fazem mais lembrar uma fanzine do que propriamente um livro. Detalhes que seriam totalmente normais numa edição que não se pretende levar a sério, tornam-se impróprios numa edição que pretende ser mais profissional. Exemplos concretos? O índice é uma tabela na primeira página, que ocupa o canto da folha, e por entre os contos vislumbram-se pequenas imagens de publicidade. Mas claro, estes são apenas aspectos secundários.

Who Fears Death – Nnedi Okorafor

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Mundo inóspido carregado de violência. Assim é a realidade descrita em Who Fears Death, uma realidade pós-apocalíptica onde restam alguns pedaços de tecnologia funcional que não ocupam grande espaço no dia-a-dia, e onde resta o ódio entre dois povos, Okeke (povo mais tribual de pele escura) e Nuru (povo mais claro que tenta escravizar e dominar os Okeke).

Onyesonwu (nome que se traduz em Who Fears Death) cresceu no deserto acompanhada apenas pela mãe, Okeke, sem se aperceber do quão particular é – a pele mais clara denuncia-a como o resultado do cruzamento entre os dois povos, Okeke e Nuru, o resultado de um acto de violência que envergonha a família e provoca a deambulação da mãe por locais inóspidos e isolados.

Sem poder fugir para sempre, a mãe decide retornar à civilização quando a filha atinge a idade adequada para aprender a ler. Uma decisão correcta, mas que carrega as suas próprias consequências – Onyesonwu apercebe-se do quão diferente é, e cresce sem amigos da sua idade. Em contrapartida, trava conhecimento com aquele que irá ser seu padrasto e a tratará como filha.

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Imagem de Yvonne Muinde, inspirada em Who Fears Death (http://io9.com/5800488/nnedi-okorafors-who-fears-death-to-become-a-feature-film)

Consciente da vergonha que a sua existência impõe sobre a família honrada, Onyesonwu decide-se a particpar numa cerimónia de maioria, como forma de se enquadrar socialmente. Deste ritual, que se resume à castração feminina, resulta uma amizade cúmplice das quatro raparigas envolvidas e despertam-se os poderes mágicos de Onyesonwu, que, com a dor, a tornam transparente por breves momentos.

Apesar das capacidades mágicas, o ser mulher barram-na de aprender algo mais. O mago da aldeia resiste à perspectaiva de a ensinar, até se convencer de que os poderes da rapariga têm de ser controloados. Ao lado de Onyesonwu está Mwita, um jovem originado também do cruzamento entre as duas raças a quem, tendo falhado a iniciação mágica, resta apenas acompanhar a rapariga.

Vencedor do World Fantasy Award e nomeado para outros conhecidos prémios, é uma história que, à primeira vista, pode ser confundida como uma adolescente história de anjos. Mas esqueçam as asas da capa – como já devem ter percebido, pouco é inocente ou angelical nesta história e as asas que adornam as costas da rapariga são as de um abutre.

Apesar de partir de uma personagem forte que se poderia transformar na típica heroína, afasta-se da banalidade pelo percurso carregado de consequências – nem sempre as boas acções de Onyesonwu têm o efeito esperado, por um lado porque nem tudo depende apenas dela, por outro, porque o tom da sua pele impede que os outros a vejam por aquilo que é. No final esperado, a história fecha-se de forma impecável.

Desenvolvendo-se a partir de uma realidade cultural bastante diferente da que nos envolve, a história consegue tocar em temas polémicos como a tentativa de controlo das mulheres através da castração ou como a luta entre populações através das violações que visam diluir o sangue dos vencidos. Uma história com ecos da realidade africana que consegue transpor os seus ecos e tornar-se em algo mais.

Destaque da semana: História Universal da Infâmia

historia universal da infamia

Não, não é novo. É uma nova edição do livro de Jorge Luís Borges pela Quetzal a ser lançada ainda este mês:

Um momento alto na publicação das obras do autor argentino.
Publicada pela primeira vez em 1935, a História Universal da Infâmia foi posteriormente revista pelo autor e aumentada em quatro textos, o que deu origem a todas as edições a partir de 1954.
Esta é uma famosa compilação que reúne muitas das personagens mais inesquecíveis de Borges: a viúva Ching, intrépida e sanguinária pirata; o inverosímil impostor Tom Castro; o atroz redentor Lazarus Morell ou o homem da esquina rosada.

Para quem gostar do género, destaco ainda o livro Uma Nova História universal da infâmia de Rhys Hughes.

Resumo de Leituras – Fevereiro de 2015 (2)

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21 – Who Fears Death – Nnedi Okorafor – Vencedor dos prémios World Fantasy Award e Carl Brandon Kindred Award, contem elementos tanto de ficção científica como de fantástico. Baseando-se na luta em África de duas raças num mundo pós-apocalíptico onde as exterminações e violações são comuns, conta a história de uma rapariga originada por um acto de violência e por esse motivo hostilizada nas populações mais afastadas dos conflitos. Descendente de feiticeiros, descobre ela também ter poderes fora do comum, iniciando uma demanda pela mudança do ciclo de violência. Interessante por conter elementos pouco usuais na ficção europeia ou americana, consegue ultrapassar o cliché do herói, tanto pelo percurso carregado de consequências, como pelo final.

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22 – Saga Vol.1 - Brian K. Vaughan – Esta surpreendente edição portuguesa (e barata) é o primeiro volume de uma divertida série de banda desenhada. Entre episódios de violência comicamente injustificada encontramos um casal improvável e o fruto da sua união – um bebé. Tendo traído as suas raças para se unirem, fogem de todos esperando conseguir encontrar um lar pacífico para educar o rebento. Pelo caminho encontram fantasmas, assassinas de aspecto aracnídeo e generais de cabeça televisiva. Uma história que poderia ser trágica, não fosse explorada de forma descontraída e engraçada, com pequenas piadas nos episódios inusitados.

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23 – World of Trouble – Ben H. Winters – Eis o último volume da trilogia pré-apolíptica de Ben H. Winters. O cometa está cada vez mais próximo e conseguem-se contar pelos dedos os dias que restam à humanidade. Palace encontra-se num retiro de polícias, mas a imagem da irmã não o deixa sossegar. Acaba por partir em seu encalço com um parceiro (um criminoso bruto e desenrascado). A busca continua a confrontá-lo com desesperados, teorias da conspiração e seitas – mas que mais fazer quando o mundo tem os dias contados?

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24 – Deixa-me entrar - Joana Afonso – De aspecto gráfico interessante conta uma pequena história em torno de um homem isolado que se hospeda numa pequena pensão com os seus vários caixotes. Na sequência de uma inundação é convidado a ficar num quarto melhor, dentro do que será o apartamento central da dona da pensão, solteira. Entre os dois acaba por se estabelecer um ritual caseiro com o qual o homem se sente estranho.

Eventos: Sustos às sextas (Sessão de 13 de Fevereiro)

Sustos às sextas é o nome de um evento que se dispõe a falar de horror em diversas artes ao longo de cinco sessões mensais, no Palácio dos Aciprestes em Linda-a-velha. Não tendo podido ir à primeira sessão, foi com agradável surpresa que entrei no belíssimo espaço, através de uma sombria entrada lateral, bem enquadrada no espírito do evento.

Lá dentro, aguardava-me um ambiente acolhedor e nada escuro, com exposições artísticas de teor fantástico (ou fantasioso), de acordo com a temática. Mas o inesperado é a sala principal – mesmo depois de ter visto as fotos da sessão anterior, o espaço que encontrei é ainda mais acolhedor e propício.

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Anabela Paixão e António Leitão com Manuela Fonseca ao piano

 

Sentados, eis que a sessão começa com a apresentação de dois trechos do Fantasma da Ópera de Andrew Lloyd Weber. Após a introdução do Prof. Fernando Serafim os trechos foram interpretados por Anabela Paixão e António Leitão, acompanhados por Manuela Fonseca ao Piano. Uma performance arrepiante que começou com uma das mais conhecidas e marcantes músicas deste espectáculo.

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Coisa Ruim – conversa com Rodrigo Guedes de Carvalho e Frederico Serra

 

Segue-se uma pequena apresentação de alguns dos mais conhecidos filmes de horror, que nos pretende introduzir à conversa em torno de Coisa Ruim, com Rodrigo Guedes de Carvalho e Frederico Serra. Para quem não viu o filme, tenho a dizer que foi dos poucos filmes portugueses que apreciei. Sem ser um supra-sumo do cinema, destacou-se por aproveitar o ambiente aterrador das quase abandonadas aldeias portuguesas, trazendo à tona o clima supersticioso do interior português.

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António Monteiro em leitura de um conto do próprio

 

Após um breve intervalo, inicia-se a terceira e última parte da sessão, a leitura de um conto de horror por António Monteiro da autoria do próprio. Em sala escura iluminada apenas por velas, ouviu-se uma história onde, novamente, se destaca o ambiente rural e sombrio do interior, onde os idosos continuam a fazer as suas mezinhas, e onde se acredita que o diabo anda à solta.

Em suma, espaço extraordinário para um evento muito agradável que aconselho vivamente, e espero que nada me impeça de poder comparecer às próximas sessões.

Página Oficial do Evento

THE Gallery – Fredrik Dahl Tyskerud

Porque em torno do livro também existem imagens que evocam memórias das leituras, inicio este espaço com alguma da arte que me tem fascinado. Em consequência, o cabeçalho do site irá ser mudado consoante o que for acrescentado, e haverá uma página com o nome THE Gallery com ligação para as várias entradas.

Fredrik Dahl Tyskerud

E o primeiro nome é de um artista Norueguês que trabalha em arte para jogos e filmes, bem como para livros e publicidade. Entre os seus trabalhos encontram-se imagens alusivas ao meu livro favorito: Perdido Street Station. Nestas imagens capta-se bem o sentimento arrebatador e desesperante que transparece a cada página, uma beleza estranha e hipnotizante que envolve o leitor, agora relembrada.

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Perdido Street Station

E, para quem conhece o livro, quem não se lembra da Oficina? Eis também aqui retratada, numa imagem menos forte, mas que constitui um detalhe espectacular da mesma obra.

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Isaac’s Workshop (Perdido Street Station)

O trabalho desta artista não se centra apenas em Perdido Street Station (apesar de haver mais neste site ou ainda neste) e abaixo vemos a cidade fantástica de Camorr do The Lies of Locke Lamora. Nas várias galerias disponíveis encontramos ainda tributos a Blade Runner, monstros nas ruas de Oslo, ou comboios a vapor.

Camorr

Camorr (The Lies of Locke Lamora)

À espera de … (lançamentos internacionais)

Enquanto o cenário nacional teima em manter escassos os bons lançamentos de fantástico e ficção científica (foi com agradável surpresa que vi o ano passado serem lançados o The Martian e o The Shining Girls), olha-se lá para fora com esperança para o que aí vem !

 

get in trouble

As histórias de Kelly Link têm aparecido em várias revistas e antologias. Talvez por escrever mais ficção curta, livros da autora existem poucos, mas eis mais uma coletânea, a ser lançada em Março, com várias histórias. Apesar de conhecer pouco, o pouco que li gostei imenso, pelo que deverei ler algo mais nos próximos tempos. Em relação a este Get in Trouble, eis uma sinopse (lista de conteúdos):

Fantastic, fantastical and utterly incomparable, Kelly Link’s new collection explores everything from the essence of ghosts to the nature of love. And hurricanes, astronauts, evil twins, bootleggers, Ouija boards, iguanas, The Wizard of Oz, superheroes, the pyramids . . .

With each story she weaves, Link takes readers deep into an unforgettable, brilliantly constructed universe. Strange, dark and wry, Get in Trouble reveals Kelly Link at the height of her creative powers and stretches the boundaries of what fiction can do.

prodigies

Angelica Gorodischer é a autora de livros como Kalpa Imperial e Trafalgar. Apesar de ter escrito muito mais julgo que apenas estes dois foram traduzidos para inglês. Sendo estes dois bastante diferentes em conteúdo e género, parecem divergir ainda mais desta nova tradução:

Prodigies explores the story of the poet Novalis’s birthplace in the German town of Weissenfels after it is converted into a boarding house. Moving, subtle, and full of wit, irony, and dreams, this novel fills the house with the women who lived there throughout the 19th century, and across the flow of history constructs the secret drama of their destinies.

Considered by the author and many others to be her best novel, Prodigies is the third novel we have published by this author in English (after Kalpa Imperial and Trafalgar — although this book is very different from both of those.

harrison squared

Depois de Pandemonium e The Devil’s Alphabet, qualquer lançamento de um novo livro de Daryl Gregory é um acontecimento. Premissas estranhas exploradas de forma diferente, as histórias deste autor tendem a ser experiências refrescantes:

Harrison is a lonely teenager, terrified of the ocean since a childhood sailing accident took his father and his right leg. One of the sensitives who are attuned to the supernatural world, Harrison and his mother have just moved to the worst possible place for a boy like him: Dunnsmouth, a Lovecraftian town perched on rocks above the Atlantic, where monsters lurk under the waves, and creepy teachers run the local school. When Harrison’s mother, a marine biologist, disappears at sea, his attempts to find her puts him in conflict with a strange church, a knife-wielding killer, and the Deep Ones… It will take all his resources and an unusual host of allies to defeat the danger and find his mother.

Lightspeed Magazine Dezembro 2012

lighspeed magazine december 2012

Eis mais um volume de Lightspeed Magazine que se inicia com o conto de Ted Chiang, Story of your life. Tendo já lido este conto na colectânea do autor, não repeti, apesar de ter gostado imenso da história (muito raramente repito leituras). Sem contar com esta, o volume começa ameno e até desinteressante, compensando com Lázaro y Antonio de Marta Randall, An Accounting de Brian Evenson e Catskin de Kelly Link.

A Story of your Life, segue-se então Cold Days de Jim Butcher, o excerto de um livro do autor onde um cavaleiro acorda refém da sua rainha que, dando ordens para que cuidem dele, o tenta matar de forma diferente todos os dias. Um pedaço intrigante que me fez pensar num cenário mais medieval do que aquele que encontro a partir das capas do livro, mas ainda assim, talvez interessante o suficiente para considerar o livro nas possíveis leituras.

Após esta história temos oportunidade de ver o trabalho de Luis Lasahido, o autor da capa – apesar de grande detalhe técnico, as imagens presentas na revista não me fascinaram, e após visitar a galeria oficial do autor encontrei algumas a meu ver melhores, por evocarem sentimentos e pensamentos mais fortes (como The Thieves).

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Luis Lasahido – The Thieves

Algumas entrevistas depois (a Junot Diaz e Tad Williams) temos finalmente direito a mais histórias – desta vez um conto distópico, The Perfect Match por Ken Liu. Centrando-se na dependência da tecnologia e na fácil manipulação das populações, é um conto arrepiante pela semelhança com o que nos rodeia, sem ser, no entanto inovador – rapidamente me recordo de vários outros contos que, de forma brilhante, exploraram a mesma temática.

Por sua vez, Swanwatch de Yoon Ha Lee é uma história estranha que se centra, no meu entender, na componente menos interessante do mundo relatado. Uma jovem que aspirava a ser uma patrocinadora das artes, vê-se num género de prisão por um incidente diplomático. Para sair deverá compor uma sinfonia que agrade a um júri exigente (no qual estará o diplomata que a aprisionou).

Se em Dreams in Dust conhecemos uma Terra pós-apocalíptica num episódio consistente que não chega a ser memorável, finalmente chegamos a Lázaro y Antonio de Marta Randall, a melhor história do conjunto. Numa cidade de duas bolhas em que os desfavorecidos se encontram claramente à parte, conhecemos Lázaro, um miserável quase acéfalo que já foi muito mais do que as primeiras páginas deixam antever. História de amor e amizade centra-se neste pobre que lentamente se esquece de si mesmo.

Vintage photo of a skull and pistol as in an old master painting

Brian Evenson é conhecido pelas histórias que envolvem horror e fantástico. Em An Accounting não é diferente. Esta excelente história conta como um homem se fez ao deserto acompanhado apenas por um cão para se tornar num Jesus Moderno, sem nunca ter lido a Bíblia, e usando apenas algumas frases chave. O contexto que o levou a deambular é desconhecido, mas o relato intercala entre o trágico e o cómico numa história demente carregada de pequenos horrores quase normais.

American Jackal é uma de seis histórias relacionadas que se encontram sob um título maior: Family Teeth. Da autoria de J. T. Petty, pertencem ao género de fantasia urbana e descrevem interacções entre humanos-chacal e os humanos que lhes desconhecem esta segunda natureza. Não que esta segunda natureza seja o mais relevante nos seus relacionamentos – são todos pobres de espírito, que vêem apenas o imediato e respondem prontamente com violência seguindo os instintos mais básicos. Neste volume da revista encontramos duas das histórias que, podendo ser lidas de forma independente, se cruzam. São relatos interessantes, ainda que não excelentes.

catskin

Eis então a última autora do conjunto: Kelly Link com Catskin. História de bruxas e feitiços, centra-se no filho mais novo de uma bruxa que morre envenenada. Sabendo que lhe resta pouco tempo, divide os seus tesouros pelos três filhos: os mais velhos, aluados e irresponsáveis seguem vida ignorando as indicações da mãe. O mais novo, por sua vez, fica com a vingança da mãe, uma gata que o irá acompanhar e proteger, até que o rapaz seja capaz de se vingar do bruxo que envenenou a mãe. Apesar dos acontecimentos é uma história sem lamechices, carregada de detalhes mágicos pouco agradáveis. Assim é a vida.