A lista de desejos – nacional e internacional (2)

Porque por mais livros que se tragam para as estantes, há sempre mais alguns que vão despertando interesse, eis um pequeno apanhado dos principais livros que se encontram na minha lista de futuras aquisições (assim espero).

as coisas que os homens me explicam

As coisas que os homens me explicam – Rebecca Solnit

Assim à primeira vista não parece um livro que se enquadre no que costumo ler. Mas por curiosidade peguei enquanto estava à espera num sofá da Bertrand e, para além de ser uma leitura agradável, tem trechos curiosos em tom quase cómico, não fossem relatos quase deprimentes para uma mulher.

A autora começa por expor uma cena que é o exemplo perfeito deste simultaneamente cómico e trágico, que reflecte, na totalidade o título – numa festa em que o anfitrião não conhecia a carreira profissional da autora, resolve dar-lhe uma pequena palestra condescendente sobre um livro que teve grande referência no NYT. O detalhe cómico é que a autora do livro… era a própria ouvinte. O detalhe trágico é que, quando explicaram ao senhor esta coincidência, ele ficou incrédulo e silenciou-se.

Revival vol.1

Revival – Tim Seeley

Como se não bastassem as séries de banda desenhada que já estou a seguir, ainda me dão a conhecer mais umas (esta é culpa de João Barreiros). Nesta vila americana os mortos voltam à vida, mesmo que tenham sido autopsiados. E nem um alienígena escapa a este evento sobrenatural. Claro que, tornando-se facto conhecido, todos querem ir para a vila, que acaba cercada pelos militares. Premissa interessante e curiosa, parece ter a dose certa de demência.

O comboio dos orfaos 3

 

O comboio dos órfãos – Vol.3 – Xavier Fourquemin, Philippe Charlot e Scarlet Smulkowski

Ainda que os dois primeiros volumes, publicados em Portugal num único pela Arcádia, constituam uma história fechada sobre os órfãos que foram redistribuídos das cidades para zonas mais interiores dos Estados Unidos da América, tendo gostado bastante, estou tentada a encomendar o terceiro volume em Francês. Não sou autónoma neste idioma, mas não é nada que um dicionário e alguma paciência não ajudem.

strangely beautiful

Strangely Beautiful – Leanna Renee Hieber

Este é um dos mais recentes a incorporar a lista. Claro que a capa despertou-me a atenção, mas a esta seguiu-se uma estranha descrição. Este volume compilará duas histórias de Miss Persephone Parker, uma senhora pálida que fala com fantasmas e que se encontra em Londres na época Victoriana com o intuito de aprofundar a sua educação sobrenatural.

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Summerlong – Peter S. Beagle

Peter S. Beagle é mais conhecido pelo livro O Último Unicórnio mas foi com os contos (We Never Talk About My Brother e The Rhinoceros who quoted Nietzsche) que descobri mais histórias que oscilam entre o fantástico e a estranheza, muitas vezes em cenários mundanos. Há alguns anitos que não leio nada do autor

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Os Vampiros – Filipe Melo e Juan Cavia

Depois de três volumes de aventuras e um de contos de Dog Mendonça e Pizzaboy, Filipe Melo volta a juntar-se com Juan Cavia para nos trazer Os Vampiros, um livro de banda desenhada em torno da Guerra Colonial que se centra nos testemenhos de ex-combatentes na Guiné. De tom mais pesado, é um livro que promete marcar o cenário nacional de publicação de banda desenhada.

Fairest in all the land – Bill Willingham e Vários

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Fairest é apenas mais um dos spin-off’s da série Fables, onde se contam outros livros e séries como Jack of Fables, Cinderella, Peter and Max, The Literals. A premissa parte do mundo desenvolvido em Fables onde as personagens dos reinos de Fábulas foram obrigadas a fugir das suas terras fantásticas refugiando-se no nosso Mundo.

Em Fairest a série centra-se nas personagens femininas, sobretudo nas mais belas. Este volume em concreto apresenta uma história isolada onde as mais belas donzelas dos reinos de fábulas estão a ser assassinadas de acordo com uma lista. O motivo para a escolha e para as mortes está a ser investigado por Cinderella que vai cumprir bem o papel de investigadora, apesar de não ser a sua especialidade.

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Apesar de ser uma história engraçada, mas sem grandes reviravoltas, em torno de uma série de crimes, o que distingue este volume é a variedade de estilos que compila o trabalho de mais de 25 artistas. Esta variedade permite combinações interessantes e a apresentação de uma qualidade de imagem que não é comum em todos os volumes da série.

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Guerreiros tempestuosos que matam amigos em bebedeiras (e depois se mostram arrependidos), bandas obscuras que quase fizeram sucesso na nossa realidade, invejas e subversão – a investigação destes crimes vai aprofundar a história de algumas personagens de Fables, contribuindo para adensar a realidade fantástica que Bill Willingham tem construído ao longo das várias séries.

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Resumo de Leituras – Maio de 2016 (1)

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105 – Crónicas incongruentes – Miguelanxo Prado – Este é o terceiro livro de Miguelanxo Prado que tive oportunidade de pegar. Tal como Fragmentos da enciclopédia délfica este volume é composto por pequenas histórias mas, neste caso, não de ficção científica futurística, mas apresentando conhecidas situações do dia a dia levadas ao extremo;

106 – Mão direita do diabo – Dennis McShade – A primeira aventura que Dinis Machado ue ppublicou sobre o pseudónimo de Dennis McShade centrada no assassino de nome alusivo a D. Quixote, que, tendo um código moral que usa para aceitar apenas determinados trabalhos, gosta de literatura e de música clássica;

107 – The Nightmare Factory Vol.1 – Vários – Adaptação para banda desenhada de alguns bons contos de Thomas Ligotti que exploram sobretudo o terror psicológico que advém da fronteira difusa entre o real e o imaginado. O primeiro apresenta um tributo a Lovecraft, com uma história dentro do ambiente típico deste mestre. As restantes utilizam sonhos, psicoses e demências. Boas histórias e boa adaptação;

108 – A feiticeira de Florença – Salman Rushdie – Depois de ler Dois anos, oito meses e vinte e oito dias de Salman Rushdie resolvi pegar noutro livro do autor. Apesar da temática exótica, misteriosa, fantástica e fascinante com a história de várias personagens entrelaçada ao longo de várias décadas, é menos coeso e centrado que o Dois anos (…). É agradável de se ler e tal como o outro livro possui pequenos episódios fascinantes, mas na sua globalidade não me conseguiu cativar da mesma forma.

A Feiticeira de Florença – Salman Rushdie

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Dois anos, oito meses e vinte e oito dias, o último livro publicado de Salman Rushdie foi o livro que me levou a pegar em algo mais do autor. Quando peguei no primeiro estava à espera de algo diferente, talvez quase brutal – depois de tanta polémica em torno dos livros, o que encontrei foi um autor que usa o exotismo de outras culturas e de outros tempos para nos apresentar a história fantástica e irreal de várias personagens que se entrelaçam das formas mais incríveis e fascinantes.

Apesar de ser menos coeso em propósito que Dois anos, oito meses e vinte e oito dias, A feiticeira de Florença centra-se em três amigos de infância que seguem caminhos muitos distantes na vida. Não. A Feiticeira de Florença centra-se na vida de uma bela princesa que andava sempre acompanhada por uma, também, bela, serva a quem chamam de Espelho. Não. A Feiticeira de Florença segue … Bem, acho que já perceberam a ideia. A Feiticeira de Florença segue várias personagens ao longo de várias décadas e apesar do título diria que nem é a bela princesa que tem o papel principal nesta longa e fascinante trama.

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Apresentando-nos cenários tão exóticos como o Império Mogol de Akbar ou a Florença governada pelos Médicis, ou a Península Ibérica repartida com os mouros, baseando-se em factos históricos misturados com lendas e mitos fantásticos, a história começa quando um estrangeiro aparece na corte de Akbar dizendo-se um familiar perdido do Imperador, descendente de uma princesa escorraçada da história.

Para além das circunstâncias suspeitas em que o estrangeiro apareceu naquelas terras, a sua reivindicação deixa o Imperador desconfiado – claro. Nada que sonhos e conversas com as esposas não resolvam (inclusivamente com a esposa imaginária que por todos é reconhecida como sublime). Finalmente o estranho é acolhido e dá azo às suas elevadas capacidades intelectuais – ou não fosse ele um europeu trapaceiro acostumado aos mais diversos truques.

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Paralelamente vamos descobrindo a história da princesa, feiticeira, perdida na história, uma mulher detentora de vários e poderosos feitiços que consegue instalar-se em Florença e ser tratada quase como Santa. Mas os seus poderosos feitiços não irão durar para sempre. Se, no início, é capaz de realizar milagres, fascinar homens e apaziguar os ciúmes das mulheres, com o tempo o desgaste leva à corrupção da sua magia e à desgraça de todos os que a seguem por amor.

Para além destas duas histórias é-nos apresentado o percurso de três amigos de infância que, crescendo em circunstâncias diferentes, se afastam mas não se esquecem da sua amizade. Juntos são três importantes peões nos acontecimentos que rodeiam Florença.

Apesar de ter apreciado a escrita e o tom fantástico dos acontecimentos relatados, em ambientes exóticos onde não se impõem limites à imaginação, onde as personagens inventadas são tão reais e respeitadas quanto as personalidades existentes e onde um homem se pode perder fisicamente num quadro, achei que A Feiticeira de Florença carece de um fio condutor mais definido, alongando-se em histórias paralelas que pouca importância têm para o cenário global. Ainda que estas histórias paralelas sejam um factor determinante em caracterizar o ambiente e fascinar o leitor são, por vezes, demasiado exaustivas.

Últimas aquisições

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As quinze primeiras vidas de Harry August por Claire North é o terceiro volume da coleção Admiráveis Mundos da Ficção científica que se encontra em lançamento conjunto da Saída de Emergência com o Jornal Público. Livro inédito desta coleção, é o volume que mais antecipava. Vencedor do prémio John W. Campbell Memorial, tinha lançamento previsto para Agosto de 2015, mas só agora chegou às bancas. Se por um lado foi uma tremenda espera, por outro o preço é bastante mais acessível (6,95€).

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A vida aventurosa de Sparrow Drinkwater por Trevor Ferguson promete uma mirabolante aventura ao género das que eram produzidas antigamente com jovens que se metiam com meliantes, despertando para a vida adulta com a descoberta de que a realidade é bem mais dura e menos transparente do que a fantasia:

A mãe de Sparrow acreditava que o filho tinha sido concebido por um corvo que desceu dos céus numa noite de estrelas e explosões. A grande desilusão da sua vida foi que Sparrow nunca tenha aprendido a voar.

Sparrow nascido e criado num manicómio, onde a loucura da mãe e dos que o rodeiam é a sua única realidade, um dia é levado para o mundo exterior. Perde o rasto da mãe, descobre-se sozinho numa grande cidade… e a sua vida aventurosa ainda mal começou!

Esta é a fabulosa história de Sparrow Drinkwater, que atravessa o continente americano obcecado por descobrir a identidade do seu pai, reencontrar a mãe e desvendar o mistério do seu passado. No seu caminho cruzam-se sinistros criminosos, atravessa os túneis secretos sob as ruas da Montreal, vive tremendas perseguições em comboios de alta-velocidade, encontra a «feiticeira» da rua Bloomfield, leva a cabo brilhantes golpes nas altas esferas da finança internacional…

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Há já algum tempo que ando para ler O Ensaio sobre a cegueira de José Saramago, mas as edições que se encontram dos livros de Saramago são tão foleiras que tenho evitado a aquisição, pensando, talvez, numa edição mais antiga em bom estado. Bem, infelizmente apenas está prevista a publicação deste volume em edição de capa dura no âmbito da colecção RTP, mas digam lá que não tem muito melhor aspecto que a edição da Porto Editora? Melhor ainda, esta, de capa dura, custa 10 euros. Aproveitando a promoção de 20% da FNAC… bem… ficou por 8.

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No seguimento do 30º aniversário do acidente de Chernobyl foi publicado pela Levoir, em parceria com o jornal Público, esta banda desenhada da autoria de Natacha Bustos e Francisco Sanchez. O livro também se encontra disponível na FNAC (com os usuais descontos) e apresenta um retrato singular do acidente.

À esquerda encontra-se o primeiro volume de Mr. Hero, uma banda desenhada escrita por James Vance e desenhada por Ted Slampyak, centrada numa personagem criada por Neil Gaiman. Claro que aqui o nome de Neil Gaiman aparece em letras garrafais ocultando os restantes intervenientes – é um nome que vende. Autómato que se move a vapor para ser uma força maléfica, torna-se um herói nobre. Claro que o nome de Neil Gaiman foi o que me levou a pegar no livro, mas o interior foi o que me convenceu a trazê-lo.

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The Nightmare Factory – Stuart Moore, Joe Harris e vários

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The Nightmare Factory é originalmente uma colecção de contos de Thomas Ligotti, um dos autores mais referenciados nos géneros de ficção Weird e de horror, com influências óbvias de Lovecraft e Edgar Allan Poe, onde se destaca o terror psicológico em detrimento da violência física.

Em dois volumes de banda desenhada são adaptados alguns destes contos. As histórias originais são de Ligotti, mas a adaptação para banda desenhada foi realizada por Stuart Moore e Joe Harris na componente narrativa e por Colleen Doran, Lee Loughridge, Ben Templesmith, Ted McKeever, Chris Chuckry e Michael Gaydos na arte. O resultado é um bom e diversificado conjunto de histórias.

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A primeira história, The Last Feast of Harlequin, foi dedicadao por Thomas Ligotti a Lovecraft contendo óbvias referências a este escritor. A história começa com uma simples investigação por um antropologista a um pequeno festival de palhaços. Deslocando-se à vila descobre um ambiente soturno e deprimente, onde não faltam as donzelas há muito desaparecidas e um estranho encontro com um conhecido académico, também julgado desaparecido.

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Em torno do festival de palhaços existirá um ambiente deprimente na vila que atingirá o auge antes do festival, para ser expiado durante as festividades. Tendo esta descrição do ambiente na vila, o antropologista julga escapar a este estado de espírito viajando apenas na véspera para o local – engana-se. Todo este gradiente pesado de sentimentos será sentido durante a viagem. O que descobre é um festival de palhaços que integra, sem compreender antecipadamente a cumplicidade local em torno do evento.

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Em Dream of a Mannikin o pesadelo começa quando uma paciente descreve ao psicólogo um sonho recorrente em que despe e veste manequins numa profissão que terá apenas quando dorme. Ainda dentro do sonho retorna a casa para sonhar com o manequins em que trabalha em sonho. Numa história voltada do avesso em que se duvida do que é real, o que será um sonho dentro de um sonho, quando à nossa volta surgem indícios desse sonho? Utilizando a possibilidade de sugestão hipnótica para suavizar a fronteira da realidade, é um interessante conto de terror psicológico em que o próprio cérebro se torna uma prisão.

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Deambulando novamente sobre a fronteira do que é real e do que pode ser percepcionado, neste caso não por sugestão, mas por doença psicológica, Dr. Locrian’s Asylum descreve a influência que um asilo tem sobre uma vila, décadas depois de ter sido encerrado. É que o Dr. Locrian tinha uma perspectiva peculiar sobre as doenças psicológicas, encarando-as não como algo a ser curado, mas como uma manifestação do sobrenatural.

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Em Teatro Grottesco (que dá nome a uma colectânea de contos de Thomas Ligotti) explora-se a relação do artista com a decadência – até onde poderá ocorrer esse declínio no que é oculto até que o artista se perca mentalmente?

O terror não precisa de ser espampanante para causar impacto – nestes contos de horror adaptados para banda desenhada utilizam-se sobretudo as nuances psicológicas, o terror da expectativa, da depressão e das fronteiras difusas da realidade que causam a incerteza e a loucura.

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Ainda que possam existir monstros nalgumas histórias, é sobretudo o precipício mental que conduz o conto. O ambiente é, em todos, pesado, característica que é explorada pelos vários artistas, em estilos que vão sendo diferentes de conto para conto mas que funcionam bastante bem. Antes de cada conto encontramos uma pequena introdução, referindo influências ou ideias.

Destaque: Tony Chu Vol.4 – John Kayman e Rob Guillory

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Finalmente está a chegar o tão esperado quarto volume de Tony Chu, o detective mal humorado e cibopata, capaz de obter impressões psíquicas de tudo o que come e que acaba sempre por investigar crimes relacionados com a comida.

Nojentamente engraçado, o terceiro volume apresenta-nos a família disfuncional de Tony Chu, tendo a história parado em plena revelação familiar, com a apresentação da filha de Tony Chu, Olive, à namorada, Amelia.

Em Portugal esta série de banda desenhada está a ser publicada em capa dura, pela G Floy e deverá estar nas bancas nas próximas semanas. Entretanto, deixo-vos a sinopse oficial, bem como algumas pranchas e opiniões aos volumes anteriores:

As coisas complicaram-se para Tony Chu, o detective cibopata com a habilidade de obter impressões psíquicas de tudo o que come.  Estranhas letras extraterrestres surgiram nos céus da Terra. Há quem pense que chegaram os Tempos do Fim, e todos parecem ter deixado de se importar com as leis da F.D.A., que já foi a mais poderosa agência da autoridade do mundo, e agora começa a tornar-se irrelevante. O que vai acontecer ao seu melhor agente, Tony Chu?

Chegou o quarto volume da série bestseller do New York Times, em que esta bizarra, retorcida e divertida história sobre polícias, bandidos, cozinheiros, canibais e poderes paranormais, mundos extraterrestres e plantas que sabem a frango, envereda por uma direcção maluca e cósmica! E introduzimos duas personagens: Olive, a filha de Tony Chu… ninguém sabe se ela tem poderes psíquicos esquisitos ligados à comida, vinda da família de que vem… e ela odeia o pai… E o incrível Poyo, o galo mais feroz, poderoso e badass do planeta, a arma secreta das forças especiais americanas!

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Opinião dos restantes volumes:

Mão direita do Diabo – Dennis McShade

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Dinis Machado publicou, sob o pseudónimo de Dennis McShade e por necessidade monetária, três policiais. Este, o primeiro dos três (que por acaso li por ordem inversa) apresenta-nos o assassino implacável mas de moral elevada, Maynard.

Ao contrário do que nos diz a capa da primeira edição “o livro que é uma porta aberta para o mundo secreto do crime organizado” Maynard é um solitário que se mantém teimosamente à parte da organização que controla todos os restantes assassinos na sua cidade.

Com uma teimosa úlcera Maynard oscila entre o uísque e o leite, agarrado ao abdómen nas situações mais problemáticas. E aqui vamos vê-lo muitas vezes nessa situação – é que desta vez não é contratado para um assassínio comum, mas para terminar com a vida de quatro homens que terão, há oito anos, acabado com a vida de uma rapariga, a filha de um milionário.

Estes anos foram o suficiente para que os quatro homens se tenham dispersado, mudando de cidade, de país e até de nome. Com a ajuda de um informador profissional Maynard começa a liquidar os alvos, mas a meio, quando retorna do México, depara-se com dois outros assassinos em sua casa – aquele trabalho coloco-o como alvo da sociedade de assassinos.

De premissa simples e narrativa linear, é na peculiar caracterização de Maynard que se destaca, leitor profundo e amante de música clássica, este assassino a soldo apenas aceita os trabalhos que passem no seu filtro moral e tem peculiares conversas, ora com ele próprio, ora com as suas vítimas e informantes.

A trilogia de Maynard foi publicada pela Assírio & Alvim. De destacar que, recentemente, foi publicada uma história mais curta, Blackpot, passada no mesmo mundo que se centra na organização de assassinos.

Outros livros do autor

Destaque: Colecção Essencial RTP

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Desde dia 21 que se encontra disponível o primeiro volume da nova colecção RTP da Leya, Ensaio sobre a cegueira de José Saramago. Esta colecção tem por objectivo juntar o melhor da literatura do século XX em volumes de preço acessível. Para além deste estão já anunciados os seguintes:

  • A guerra do fim do mundo – Mario Vargas Llosa
  • Jerusalém – Mia Couto
  • A Mancha Humana – Philip Roth
  • Os capitões da Areia – Jorge Amado
  • As naus – António Lobo Antunes
  • Cem anos de solidão – Gabriel Garcia Marquez
  • O Grande Gatsby – F. Scott Fitzgerald
  • Dinossauro Excelentíssimo – José Cardoso Pires
  • A Insustentável Leveza do Ser – Milan Kundera
  • Cidades invisíveis – Italo Calvino
  • Geração da Utopia – Pepetela

Emigrantes – Shaun Tan

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Dizer que o interior de um livro de Shaun Tan é espantoso já não surpreende. Oscilando entre os tons sépia e os gradientes de cinzento, na ausência de palavras, as imagens contam uma história de emigração, acompanhando o sacrifício de um homem em deixar a família procurando condições melhores, na esperança de, um dia, os poder trazer.

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Deixando um local menos seguro onde prosperam forças maléficas este homem parte rumo ao desconhecido chegando a um local onde encontra sobretudo dificuldades – confusão nas ruas desconhecidas, barreira linguística, estranheza de objectos e costumes que se distanciam dos que conhece.

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Entre a solidão e o medo de falhar, o homem procura adaptar-se a este novo mundo, tendo como consolo a lembrança da família que deixou para trás num país sombrio e a esperança de os libertar da opressão.

Claro que, sem palavras, todas as nuances têm de ser interpretadas – os tentáculos e os jogos de sombras que populam a cidade de origem que se combinam com as expressões mais fechadas das personagens dão a sensação de um ambiente opressivo e deprimente que é abandonado com tristeza e esperança em algo melhor.

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Esta opressão contrasta com os planos mais abertos de detalhes futuristas onde se denota a estranheza da personagem – a mesma que nós sentimentos perante aqueles estranhos caracteres e peculiares objectos.

A história é simples e linear mas cumpre o objectivo óbvio – dar a entender as dificuldades de um migrante, focando-nos em sequências de imagens onde se transmitem pensamentos e sentimentos. O resultado é visualmente agradável e, ainda que não possua surpresas durante o percurso da história (a grande diferença é a reinterpretação e transfiguração de elementos) traz um paralelismo reconhecível com a vida de tantas pessoas que se deslocam em procura de melhores perspectivas de vida.

Em Portugal Emigrantes foi publicado pela Kalandraka.

Outros livros do autor

Destaque: Os Vampiros – Filipe Melo e Juan Cavia

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As aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy constituiu uma trilogia de banda desenhada de qualidade invulgar em Portugal quer pela narrativa, quer pela imagem, quer pela qualidade de impressão. De teor leve, divertido e aventureiro são mirabolantes histórias onde um lobisomem português se alia a um demónio em corpo de criança e a um entregador de pizzas para desmantelar planos maquiavélicos de outras entidades sobrenaturais.

Depois destas aventuras Filipe Melo volta a aliar-se a Juan Cavia para publicar um novo volume de banda desenhada, também pela Tinta da China, bastante diferente em tema e tom. Os Vampiros (assim se chama o novo livro) centra-se na guerra colonial e apresenta-nos uma história passada na Guiné de 1972 baseada em depoimentos de ex-combatentes, inspirada na canção de Zeca Afonso.

O livro será lançado no dia 28 de Maio, no Festival de BD de Beja e dia 29 de Maio na Feira do Livro de Lisboa. Enquanto esperam, deixo-vos a sinopse, bem como algumas imagens da banda desenhada:

“Os Vampiros” é uma história de ficção passada na Guiné em 1972, durante a guerra colonial.

Um grupo de nove soldados portugueses atravessa a fronteira para o Senegal para uma operação aparentemente simples. No entanto, à medida que avançam pelo mato, estes soldados vão mergulhar num verdadeiro pesadelo.

Inspirado pela canção homónima de Zeca Afonso, este livro é o resultado de quatro anos de pesquisa e a história é baseada em mais de cinquenta horas de depoimentos testemunhos de ex-combatentes. É uma reflexão sobre o subconsciente, sobre a guerra e sobre o medo.

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O pátio maldito – Ivo Andric

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Publicado pela Cavalo de Ferro foi o primeiro livro a ser traduzido em Portugal de Ivo Andric, único prémio Nobel jugoslavo. Desde então a editora já publicou outros e até mesmo uma nova edição deste O Pátio Maldito.

A história é aparentemente simples centrando-se num frei que, tendo-se deslocado a Istambul, é preso por engano numa sequência de coincidências infelizes. Naquela prisão tenebrosa onde se prefere ter um inocente do que deixar culpados à solta, o director é uma figura que, tendo explorado o mundo do crime na juventude, se tornou um polícia de sucesso e impõe agora um respeito sombrio.

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Sem direito a defesa e sem saber quando seria o interrogatório, o frei deambula pela prisão durante longos meses sem grande esperança. Aliás, é essa incerteza que assombra todos os homens, mesmo os culpados. Entre um interrogatório que força a confissão de algo e a demora desse momento os homens permanecem desocupados e sem perspectivas.

A única distração serão as conversas que se vão tornando conhecidas, repetitivas e previsíveis, como as do homem que relata mil e um casamentos com mil e uma esposas, cada um mais mirabolante do que o anterior mas todos terminando da mesma forma.

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A história decorre quase toda no mesmo espaço, a prisão que tem como local de expansão o pátio de vista inóspita onde os presos vão definhando mental e fisicamente e cedendo pelo desgaste à espera de uma decisão que pode nunca chegar. Centrada numa única personagem e de tom pausado, consegue cativar pela leve dramatização dos acontecimentos, de crítica que nunca é expressa directamente, mas é intuída pelo leitor.

Eventos: Lançamento A Coleção Privada de Acácio Nobre, de Patrícia Portela

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Decorre esta sexta no Porto, e no Sábado em Braga, o lançamento do mais recente livro de Patrícia Portela, A Colecção Privada de Acácio Nobre, um livro que parece no mínimo interessante. Foi com o Fórum Fantástico que conheci a autora que entretanto tive a oportunidade de ler em  Microenciclopédia micro-organismos, microcoisas, nanocenas e seus amigos de A a Z, em Para Cima e não para Norte e Odília. Deixo-vos a sinopse do livro em lançamento:

Fui recolhendo, ao longo de 16 anos, cartas, diários, testemunhos, maquetas de jogos e armadilhas de Acácio Nobre (1869?-1968), um construtor de puzzles geométricos visionário no século XIX que uma ditadura silenciou no século XX e (quase) eliminou de uma História que ainda assim influenciou, de forma subtil e anónima, introduzindo uma marca indelével e inevitável nos séculos vindouros, como o nosso.

Acreditando que a obra literária pode desempenhar um papel crucial na reavaliação dos tempos que correm de uma forma que estará para sempre vedada à História, à Academia e à estratégia política, venho por este meio partilhar convosco A Coleção Privada de Acácio Nobre, na esperança de encontrar, mas também de dispersar, a sua obra, as suas ideias e os seus manifestos, procurando contribuir assim para a tarefa inglória de lutar pelo direito ao impossível, uma mastodôntica missão num país como este, que, por acidente geográfico, é o meu, e também foi, ainda que por breves momentos e de forma ingrata, o de Acácio Nobre.

Resumo de Leituras – Abril de 2016 (8)

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101 – The thrilling adventures of Lovelace and Babbage – Sydney Padua – Filha de Lord Byron, Lovelace terá sido a primeira pessoa a escrever um programa, mas para uma máquina inventada por Babbage que nunca foi construída. Depois de nos apresentar estes episódios, a história passa para um Universo imaginário onde esta máquina teria sido inventada;

102 – Chernobyl – Natacha Bustos e Francisco Sanchez – O grande desastre nuclear visto pela perspectiva de quem foi afastado das suas terras e pertences sem grandes explicações e expectativas de voltar poucos dias depois. Uma história que explora a vertente mais humana e pessoal do evento;

103 – Paper Girls – Vol. 1 – Brian K. Vaughan – Apesar de não ser mau, não gostei. As raparigas que entregam os jornais de bicicleta são confrontadas por um grupo de ladrões que acabam por perseguir para uma outra realidade onde Pterodáquilos voam os céus com pessoas de armadura futurista, rapazes futuro falam uma estranha língua impercetível e, no meio de tudo isto, tentam recuperar um walkie-talkie roubado e salvar uma amiga que entretanto levou um tiro. Também não fiquei fã do desenho;

104 – O Pátio Maldito – Ivo Andric – O autor foi o único prémio Nobel Jugoslavo e este é o seu único livro traduzido para português. Nele um frei conta como foi a passagem pela prisão de Istambul, um sítio onde se prefere aprisionar inocentes do que deixar à solta culpados. As pessoas passam, mas o pátio é sempre o mesmo – sem esperança, sem perspectivas, sem ocupação.

Disney Hiper N.º 40

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Este volume Hiper contém oito histórias Disney, de comprimento e público alvo diverso. Se a história que abre e ocupa metade do volume, Mickey e o bando do espirro, é engraçada mas contém um desenvolvimento lento, quase circular, mais voltada para um público juvenil, apesar de apresentar Mickey como um detective inteligente, é a segunda história, Segunda Versão que se torna uma interessante surpresa tecnológica onde populam os Universos paralelos, os robots e a teoria de que a história poderá ser reescrita com viagens no tempo, existindo um espaço fora do tempo que poderá ser usado como escape seguro.

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Em Bandidos nas trevas volta-se novamente a um registo mais relaxado em torno de uma premissa tecnológica engraçada – a de que poderia existir um engenho capaz de induzir a escuridão total num raio de acção, capacidade que é aproveitada por dois ladrões, numa curta história de reviravolta cómica. Histórias de piratas encontram-se naquela fronteira, por vezes, indistinta, entre a realidade e a imaginação, apropriadas para os mais jovens que sonham com encontrar um tesouro. A estalagem das sete conchas aproveita esse ambiente de fascínio e aventura para tecer uma aventura engraçada e relaxada.

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Antes que seja dia traz-nos uma aventura com reminiscências frankesteinianas, começando por nos apresentar uma pequena e misteriosa vila onde os espantalhos estão a desaparecer, roubados dos vários terrenos. O roubo estará relacionado com uma lenda local, na qual um antigo feiticeiro terá utilizado espantalhos para criar um pequeno exército pessoal. Pergunta ao patelobo continua por meandros sobrenaturais, apresentando um reino mágico de pesadelos, que será explorado por engano por Mickey e pela sua amiga Manny.

No final voltamos a um tom mais tradicional e juvenil, com Donald e o compromisso esquecido, que explora a eterna rivalidade entre Donald e Gastão.

Resumo de Leituras – Abril de 2016 (7)

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97 – The Bell in the Fog and other Stories – Gertrude AthertonEste conjunto reúne histórias de Gertrude Atherton com elementos sobrenaturais e algum suspense que, não induzindo propriamente horror, causam alguma apreensão no leitor. Entre almas penadas que falam sem cessar e encontros com a morte, encontramos histórias trágicas, com amores há muito perdidos, ou nunca alcançados;

98 – Os jardins da luz – Amin Maalouf – Este livro centra-se em Mani, o fundador de uma forma de exercitar a religião que funde ideias dos principais fundadores de cada uma das religiões mais antigas, defendendo que, em todas, existem princípios que devem ser seguidos e outros que não podem ser tomados à letra;

99 – The arrival – Shaun Tan – Sem texto, apresenta-nos a saga de um emigrante que parte em busca de melhores condições para a família, procurando forma de, um dia, os trazer. O mundo em que se encontra é estranho, alienígena, distante e, por vezes, pouco compreensível, detalhes que nos são transmitidos pelas imagens de tom sombrio e solitário;

100 – Disney hiper N.º 40 – Há alguns anos que não lia nada da Disney. Recebi este volume da editora e deparei-me com um conjunto pouco homogéneo de histórias – após uma longa de premissa simples, desenvolvimento lento que poderá facilmente ser percebida por crianças, segue-se uma futurista, carregada de robots, inteligência artificial, mundos paralelos e viagens no tempo, que faz mais o meu gosto. No intermédio encontrei também histórias com elementos sobrenaturais que, não sendo tão lineares quanto a primeira, nem tão complexas quanto a segunda, possuem episódios engraçados.

Os jardins de luz – Amin Maalouf

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Os jardins de Luz de Amin Maalouf é um dos mais recentes lançamentos da Marcador que dá nova edição a um livro há muito esgotado. Mais conhecido por As Cruzadas vistas pelos árabes, o autor escreveu também Samarcanda e o Périplo de Baldassare. Se o primeiro se destaca pelo interesse histórico, pretendendo ter pouco ou nada de ficção, apresentando-nos a visão oposta à que aprendemos à nossa, O Périplo de Baldassare, mais ficcional mostra-nos uma demanda numa época de loucura, o ano de 1666.

Este, Os jardins da Luz, visa apresentar a vida de Mani (também conhecido como Mariqueu), um profeta iraniano que terá fundado o Maniqueísmo, uma religião gnóstica com um novo entendimento do Zoroastrismo que incorpora alguns fundamentos do Cristianismo.

Pegando no esqueleto conhecido da vida do projeta, Amin Maalouf preenche algumas lacunas na história, dando-nos em Os Jardins de Luz uma história contínua que acompanha a criança, o homem e o profeta perseguido pela sua popularidade.

Pattig, pai de Mani, terá incorporado uma seita de raízes cristãs e comandada por Sittai, onde, num local remoto, procuravam a pureza nos seus costume, comendo apenas dos seus próprios alimentos (que descrevem como masculinos e por isso puros) e afastando-se da convivência com os demais. De hábitos rígidos e austeros, não será o local mais apropriado para educar uma criança, mas, forçado por Sittai, Pattig retira o rapaz à mãe e trâ-lo para ser educado por todos, sem revelar a sua paternidade ao rapaz.

O retrato do futuro profeta ganha especial vida nestes primeiros anos, retratando-o como um rapaz problemático que, juntando-se com outro da sua idade, explora a vila próxima e acaba por se relacionar com outros de diferente credo. É ao descobrir a sua capacidade artística que um anjo se lhe revelará, marcando o seu percurso e futuro fora daquele grupo de homens vestidos de branco.

Com a chegada à idade adulta, parte com o objectivo de expandir a sua crença – e é aqui que Amin Maalouf se distancia de Mani como personagem, passando a retratá-lo como uma figura misteriosa e distante, um homem carismático e envolvente que quase parece impulsionado por uma força e discernimentos sobre-humanos.

Profeta de uma nova religião que se terá estendido à China e ao Império Romano, Mani foi também um homem, com amizades, incertezas e dificuldades, que terá conseguido, ao fundir os ensinamentos de várias religiões, enfurecer os vários sacerdotes. O fim não é inesperado, senão o usual para quem ousa romper com costumes e sistemas de crença.

Em Portugal Os Jardins de Luz foi publicado recentemente pela Marcador.

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