A rentrée literária de uma realidade quase alternativa

Quando se olha para a compilação de lançamentos publicada pelos grandes jornais fica-se com a impressão que aqui neste pequeno canto ibérico apenas se publica literatura séria – muito séria e para gente ainda mais séria. A seriedade é tanta que quase morremos de tédio.

Felizmente este retorno ao quotidiano depois das férias de Verão é marcado, também, por bons lançamentos de ficção especulativa que não têm lugar entre estas listas de peso esmagador e quase parecem pertencer a uma qualquer realidade alternativa imaginada. Quase. Se fosse imaginada decerto que os lançamentos na ficção especulativa esmagariam os de quaisquer outro género.

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Vencedor do prémio Costa, Santuário, de título original The Loney, é um dos grandes lançamentos de terror deste mês no mercado nacional. Sem fontes de sangue nem cenários de violência extrema, assenta sobretudo num ambiente de particular estranheza que aposta na expectativa dos acontecimentos que sabemos que irão decorrer nas páginas seguintes. E mesmo assim consegue criar um ambiente de particular suspense e horror, apesar do tom pausado e da perspectiva religiosa:

Dois irmãos. Um, mudo; o outro, o seu protetor. Todos os anos, a família visita o santuário que fica na desolada faixa de costa conhecida apenas como «Loney», desesperadamente à espera de uma cura. Durante as longas horas de espera, os rapazes são deixados sozinhos. E não conseguem resistir à passagem que se vislumbra a cada mudança da maré, à velha casa que se ergue ao longe… Muitos anos mais tarde, Hanny é um homem feito e já não precisa dos cuidados do irmão. Mas depois descobre-se o cadáver de uma criança, morta há muito. O Loney acaba sempre por dar à costa os seus segredos.

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Apresento-vos uma antologia cyperbunk que reúne histórias de vários autores portugueses, com introdução de João Barreiros. Proxy será lançado no próximo fim-de-semana no Fórum Fantástico, mas, em colaboração com a editora, já tive oportunidade de ler. É um conjunto de histórias que vale bem a pena adquirir em que se denota a crescente qualidade das publicações da Editorial Divergência:

Proxy é o culminar de vários anos de trabalho e de estudo em leitura psico-criativa. Seis mentes, seis futuros que nunca existiram. Seis mundos. Os pináculos de Nova Oli e as entranhas de VitaVida. Modulações eléctrico-sonoras e o dilema da artificialidade. O poder da máquina e o desmoronar de uma simples equação.

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Publicado pela primeira vez no mercado nacional como volume integrante da colecção Admiráveis Mundos da Ficção Científica (em parceria com o jornal Público) As primeiras quinze vidas de Harry August volta agora como integrando a colecção Bang da editora Saída de Emergência e torna-se um dos mais importantes lançamentos do género este ano:

Harry August não é um homem normal. Porque os homens normais, quando a morte chega, não regressam novamente ao dia em que nasceram, para voltarem a viver a mesma vida mas mantendo todo o conhecimento das vidas anteriores. Não interessa que feitos alcança, decisões toma ou erros comete, Harry já sabe que quando morrer irá tudo voltar ao início. Mas se este acumular de experiências e conhecimento podem fazer dele um quase semideus, algo continua a atormentar Harry: qual a origem do seu dom e será que há mais pessoas como ele?

A resposta para ambas as perguntas parece chegar aquando da sua décima primeira morte, com a visita de uma menina que lhe traz uma mensagem: o fim do mundo aproxima-se.

Esta é a história do que Harry faz a seguir, do que fez anteriormente, e ainda de como tenta salvar um passado que não consegue mudar e um futuro que não pode deixar que aconteça.

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A parceria entre a Levoir e o jornal Público tem trazido bons volumes de banda desenhada ao mercado nacional, mas nada como a novidade prevista para esta rentrée – Sandman. A série original escrita por Neil Gaiman composta por 11 volumes será lançada em edição de colecionador de capa dura. Eis um lançamento fabuloso para o mercado nacional que já tratei de reservar.

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Pela G Floy chega mais um volume da série de detectives mais mirabolante e nojenta de sempre – Tony Chu, o detective caníbal. Criando super-poderes relacionados com a comida para as suas personagens, e uma crise na comercialização da carne de aves por conta da Gripe A, a realidade apresentada torna-se divertida, inusitada e capaz de virar muitos estômagos – mas sempre numa perspectiva descontraída.

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O herói, criado em 1954 como Marvelman por Mick Anglo, foi alvo de novas aventuras a partir de 1982 com Alan Moore e mais tarde com Neil Gaiman. São estas aventuras que serão lançadas pela G Floy: um volume que reunirá as produzidas por Alan Moore, e três volumes para as produzidas por Neil Gaiman. É sobretudo nestas últimas que estou interessada, não só pela referência a Neil Gaiman, como pela apresentação de uma utopia em transformação por tecnologia alienígena, e governada por Miracleman e outros seres com poderes.

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Sem deixar de publicar a série de banda desenhada The Walking Dead, a Devir lançou recentemente o primeiro volume de Sex Criminals, uma das séries publicadas pela Image que ganhou um prémio Eisner, que tem uma premissa bastante… peculiar:

Suzie tem um segredo. Para ela, o sexo faz com que, em seu redor, o mundo pare – literalmente. Jon tem um problema. Odeia a sua vida, o seu trabalho, e também a peculiar maldição que o torna igual a Suzie. Rapariga encontra rapaz, rapariga engata rapaz. E pela primeira vez nas suas vidas encontram-se sozinhos, mas juntos. Portanto, fazem o mesmo que faria qualquer casal jovem e recente que desfrutasse de sexo e da capacidade de paralisar o tempo: põem-se a assaltar bancos.

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Pela Arte de Autor é lançado Como Viaja a água de Juan Díaz Canales, autor conhecido pela série Blacksad:

Aos 83 anos, Aniceto tem muito poucos incentivos para se levantar todas as manhãs. Com o seu pequeno grupo de amigos octogenários, decide animar um pouco a sua rotineira existência dedicando-se à venda e tráfico de artigos roubados. O que começa quase como um passatempo torna-se inesperadamente numa tragédia quando os companheiros de Aniceto começam a aparecer mortos em estranhas e violentas circunstâncias.

Eventos: Fórum Fantástico 2016

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Está-se a aproximar o evento fantástico mais esperado do ano em Portugal, o Fórum Fantástico de 2016. O programa já se encontra publicado e este ano vamos poder contar, como já é habitual, com palestras incidindo sobre diversas artes envolvidas na ficção especulativa. Ao longo do evento (gratuito) decorrerá uma pequena Feira do Livro Fantástico onde estarão presentes editores e autores independentes.

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Prevejo assistir aos três dias e destacaria este ano, para sexta, a perspectiva mais académica sobre ficção especulativa que será apresentada (Investigando fantasia e ficção científica) ou a componente musical associada aos géneros (Metamorfoses musicais).

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Já no Sábado, o dia começa com um workshop sobre impressão 3D, e depois de almoço assistirei decerto a Outra História, Outro Portugal (entre os autores encontra-se Miguel Real, o autor de O Último Europeu), e ao lançamento da antologia Proxy (uma antologia portuguesa cyberpunk que já tive a oportunidade de ler e que vale muito a pena).

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No Domingo temos o usual espaço de Sugestões de Literatura e cinema (com João Barreiros, Artur Coelho e eu) e prevejo assistir à apresentação de Galxmente de Luís Filipe Silva.

The Autumnlands – Vol.1 – Kurt Busiek e Benjamin Dewey

 

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Num mundo onde não existem humanos mas comunidades mistas de animais inteligentes, capazes de construir cidades suspensas, o declínio da magia põe em risco a ordem e a existência da realidade que conhecem. Num golpe de desespero unem forças e feitiços para trazer o mítico guerreiro que terá criado a magia no seu mundo.

O que recebem é um animal sem pêlos nem garras de fala desconhecida e sem roupas – um guerreiro humano. Corajoso mas desconhecedor da magia este guerreiro ajuda-os a lutar contra os restantes animais que, querendo o que resta da magia, tentam invadir a cidade caída.

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Utilizando o poder das imagens para contar uma história, The Autumnlands apresenta-se como uma fantasia clássica num mundo imaginário que aguarda um herói para garantir a manutenção da sociedade tal como a conhecem. Claro que, pelo meio, surgem os que, descrendo o herói, procuram outros caminhos, alguns egoístas, outros bem intencionados mas catastróficos que dão à demanda o tom desesperado da inevitabilidade.

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Baseando-se em longos textos que apresentam e enquadram cada capítulo (mais longos do que é usual na banda desenhada) The Autumnlands apresenta uma narrativa coesa e de ritmo pausado, pontuada por bons e rápidos momentos de acção que transformam, em poucas páginas, a história.

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Sem assentar apenas no aspecto visual para contar a história, este volume destaca-se pelas imagens detalhadas onde se alternam planos e perspectivas que dão uso ao foco para realçar os elementos responsáveis pela acção. O resultado são várias excelentes composições do ponto de vista gráfico que dão suporte a uma boa história fantástica que, sem dúvida, seguirei nos próximos volumes.

The Atrocity Archives – Charles Stross

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Um informático choninhas enquadrado nas funções de agente secreto só pode trazer o desastre. Principalmente num Universo onde as leis da física estão de tal forma distorcidas que houve a necessidade de criar uma entidade que lidasse com os fenómenos que podem provocar o colapso daquela realidade – como  a simples publicação do trabalho de Turing, ou como a mais complexa possessão por entidades doutros Universos que se aproveitam da electricidade para transitarem para um novo corpo.

Entre os bytes e os bites escondem-se, também, armas de longo alcance que podem corromper a mente humana, enquanto seres tentaculares tentam criar portais suficientemente grandes para nos poderem invadir. Enquanto não o conseguem, estes seres lovecraftianos divertem-se a emergir parcialmente e a raptar vítimas estratégicas.

Pelo caminho encontramos velhos militares nazis transformados em múmias por lhes terem sugado toda a energia, homens possuídos através da electricidade (e rapidamente eliminados), tramas de agentes secretos e chefes obsessivos com a organização ao ponto de enlouquecerem qualquer um – inclusivé eles próprios.

Sem ser uma obra prima da ficção científica é uma história repleta de elementos inusitados e divertidos, com mirabolantes episódios de acção, uma pitada de romance e muito pensamento geek.

Destaque: Proxy

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Está revelada a capa da próxima antologia de ficção científica portuguesa, neste caso no sub-género Cyberpunk! Explorando os limites da tecnologia através de seis vozes portuguesas, começa com uma boa introdução de João Barreiros. De aspecto interessante, apresenta trabalhos de Victor Frazão, Júlia Durand, Carlos Silva, Marta Santos Silva, José Pedro Castro e Mário Coelho.

Proxy será lançado no final do mês durante o Fórum Fantástico, mais especificamente no dia 24 de Setembro pelas 16h, na Biblioteca Orlando Ribeiro. Deixo-vos a sinopse:

Proxy é o culminar de vários anos de trabalho e de estudo em leitura psico-criativa. Seis mentes, seis futuros que nunca existiram. Seis mundos. Os pináculos de Nova Oli e as entranhas de VitaVida. Modulações eléctrico-sonoras e o dilema da artificialidade. O poder da máquina e o desmoronar de uma simples equação.

Preste atenção. Aquilo que vai ler é estritamente confidencial.

 

Rugas – Paco Roca

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O papel do idoso tem, nas últimas décadas, sofrido uma evolução abrupta e controversa. Os mais velhos deixaram de ser considerados os repositórios de sabedoria e memória familiar, os cuidadores dos mais novos, para serem vistos como um empecilho e despachados para lares deprimentes onde a inactividade física e mental é contagiosa.

A velhice torna-se então uma época de solidão, de saudades dos entes queridos que se vê apenas em épocas festivas, de confronto diário com os problemas mentais alheios. É este o cenário que Rugas nos apresenta, sob uma perspectiva cercada de bom humor onde a decadência se consegue tornar cómica entre os episódios de esquecimento e ilusão que afectam a calma aparente.

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A história centra-se em Emílio, um bancário reformado que é posto num lar depois de proporcionar ao filho alguns episódios exasperantes, provocados pelos vacilos da memória. O diagnóstico é claro – Alzheimer. O lar é habitado por inúmeros idosos sonolentos que permanecem nas diversas salas de actividades, destacando-se aqueles que vivem no passado, e revivem constantemente episódios marcantes.

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Apesar do enquadramento deprimente, Rugas consegue dar uma perspectiva ligeira, bastando para isso introduzir duas ou três personagens mais dinâmicas que se desviam da apatia circundante, como o velhote sem família que se aproveita dos esquecimentos alheios para encher os bolsos ou a velhota lúcida que, estando casada com um doente avançado de Alzheimer, consegue manter os pequenos detalhes que fazem aquele dia-a-dia valer a pena.

São estes pormenores bem colocados que realçam mentes perdidas no passado e histórias de vida que se perdem, à mesma velocidade com que se instala a incapacidade de as transmitir aos familiares, seja porque a memória falha, seja porque a linguagem e os interesses já não são partilhados.

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Em Portugal, Rugas foi publicado pela Bertrand Editora.

Destaque: O terceiro desejo – Andrzej Sapkowski

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É a terceira vez que o livro do autor polaco tem edição portuguesa (contando duas sob o título O Último Desejo, pela Editorial Presença e pela Livros da Brasil, ambas esgotadíssimas no mercado) mas esperemos que seja desta, com a Saída de Emergência, que os restantes volumes vejam a luz do dia português.Por enquanto a editora adiantou que, do mesmo autor, está previsto Blood of Elves para daqui a poucos meses.

Ainda não li os livros deste autor, mas já foi galardoado com dois ESFA, e com incontáveis prémios russos, e a sua obra já foi traduzida para mais de 20 línguas. Deixo-vos a sinopse:

O seu nome é Geralt de Rivia. Dizem que é um bruxo e um assassino sem misericórdia que vagueia pelo mundo à caça de monstros e predadores. Mas na verdade vive de acordo com o seu próprio código de conduta. A sua espada serve, em troca de uma recompensa, poderosos reis amaldiçoados, mas também os mais desfavorecidos.

Ao longo das suas viagens, Geralt encontra todo o tipo de criaturas – algumas saídas da mitologia eslava e dos contos populares dos irmãos Grimm – como vampiros e lobisomens, elfos, quimeras e estriges, trolls e génios que o tentam, satisfazendo todos os seus desejos.

Mas este é apenas o início das suas aventuras como viajante e feiticeiro que irá desafiar o destino num mundo em que criaturas de todas as raças coabitam numa paz precária prestes a despedaçar-se…

 

 

 

Últimas aquisições

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Verão é tempo de leituras mais leves, divertidas e, porque não, a recordar um pouco a infância. Neste caso estes quatro volumes da Disney foram-me enviados pela editora, mas estou particularmente interessada no Hiper que tem duas histórias futurísticas com robots e espécies alienígenas.

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Nada como fazer anos para nos oferecerem um dos livros que está há mais tempo na lista de desejos, The Turn of the screw, um daqueles clássicos muito falados cuja vontade de ler se mantém, mas em que a expectativa pode estragar a experiência.

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Ja Diaboliad & Other Stories de Mikhail Bulgakov foi o único livro que me interessou em toda a secção de livros estrangeiros do El Corte Inglês que, na minha última visita, parecia uma feira de rua, com livros sobrepostos, voltados do avesso, ao molho, desorganizados e mal expostos. Apesar de ter adorado The Master and the Margarita do autor, este conjunto de contos não foi particularmente interessante, apesar do tom levemente crítico ao regime comunista e das cenas absurdas.

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Eis dois clássicos publicados pela Antígona adquiridos recentemente. O primeiro é uma compilação de várias histórias, sendo que a que dá título ao livro é bastante referida em várias obras de ficção. Do segundo deixo-vos a sinopse:

A beleza e a verdadeira riqueza são sempre assim, baratas e desprezadas. O paraíso poderia ser definido como o lugar que os homens evitam. A par dos seus textos políticos mais interventivos, Henry David Thoreau celebrizou-se no Nature writing, com escritos telúricos em que a Natureza e a sua sagacidade dão azo a reflexões e inevitáveis comparações com a existência humana. E, no ocaso da vida, o autor polia com esmero os dois breves ensaios aqui reunidos, publicados postumamente em 1862, na revista The Atlantic Monthly. Em “Maçãs Silvestres”, o leitor depara com um poético catálogo de espécies, que celebra as virtudes destes humildes frutos, capazes de brotar estoicamente nos recantos mais esquecidos dos bosques. Triunfo do natural e do autêntico sobre tudo o que é civilizado, neles se revê inevitavelmente Thoreau, eterno paladino de salutares despertares anímicos. “Cores de Outono” é uma ode a esta estação, um hino a matizes e cambiantes da flora outonal e, sobretudo, ao ritmo digno do mundo natural, avesso ao bulício da civilização. Fragmentos em que Thoreau retira da Natureza supremas lições de vida, “Maçãs Silvestres & Cores de Outono” ensinam-nos, como o carvalho-vermelho, a almejar por luz e céus limpos, para que o quotidiano não descore; desafiam-nos a ver com olhos de ver a tela de pintor que nos rodeia e, como as folhas caídas a seu tempo, a despojarmo-nos da vida com igual nobreza.

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Estes dois foram adquiridos em duas visitas a duas livrarias diferentes. O primeiro pareceu-me ser uma história interessante ao envolver uma comum família que está a ser vigiada pelos maliciosos deuses gregos que, consecutivamente fazem das suas. O segundo, Lendas, peguei numa passagem pela Leituria num dos jantares dos “Devoradores de Livros” que se inicia sempre com uma Tertúlia neste espaço:

As lendas de Bécquer decorrem, na sua longa maioria, nos tempos remotos da Idade Média peninsular, na esteira da moda romântica do tempo sintetizada por um estudioso becqueriano como “o gosto pela ressurreição do passado histórico”.

Para conhecer este passado, Bécquer deambulou pela Espanha. E ao vaguear pelo mundo, como um atormentado viandante em demanda da paz que a vida não lhe prodigalizou e da beleza que o seu génio revelou, encontrou três sítios de fascínio que para sempre o amarraram: Sevilha, uma saudade; Toledo, uma paixão; Soria e a serra do Moncayo, um alumbramento. É este o cenário privilegiado em que se animam as estátuas de pedra de igrejas e catedrais, em que ruínas e vielas guardam ciosamente os segredos do passado, em que o mistério das águas e das árvores, do vento e das ervas se confunde com um cântico de espanto perante a gratitude do bem e a violência do mal, a imensidade do espaço e o abismo do silêncio, a infinitude do tempo e do amor.

Uma epígrafe poderia escolher-se para as Lendas de Gustavo Adolfo Bécquer. A mais adequada é, sem sombra de dúvida, o primeiro verso das suas Rimas: “Eu sei um hino gigantesco e estranho”.

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The Autumnlands é uma das mais recentes séries de banda desenhada da Image que me suscitou grande interesse e que acabou por vir parar à estante como prenda de aniversário. Numa realidade paralela à nossa a magia existe e é usada por animais inteligentes que criaram uma sociedade hierarquizada e opressora de alguns grupos. Agora que a magia se está a acabar, o poder escasseia e a única solução é invocar um antigo herói das lendas. Os outros dois são os primeiros volumes da série The Walkind Dead e demonstram que não consigo resistir à fama desta série.

Destaque: As primeiras quinze vidas de Harry August – Claire North

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Lançado primeiro na colecção Admiráveis Mundos da Ficção Científica (da Saída de Emergência em parceria com o jornal Público), As primeiras quinze vidas de Harry August integra agora a colecção Bang!, e é um dos grandes lançamentos de ficção científica dos últimos tempos no mercado português. Deixo-vos a sinopse:

Harry August não é um homem normal. Porque os homens normais, quando a morte chega, não regressam novamente ao dia em que nasceram, para voltarem a viver a mesma vida mas mantendo todo o conhecimento das vidas anteriores. Não interessa que feitos alcança, decisões toma ou erros comete, Harry já sabe que quando morrer irá tudo voltar ao início. Mas se este acumular de experiências e conhecimento podem fazer dele um quase semideus, algo continua a atormentar Harry: qual a origem do seu dom e será que há mais pessoas como ele?

A resposta para ambas as perguntas parece chegar aquando da sua décima primeira morte, com a visita de uma menina que lhe traz uma mensagem: o fim do mundo aproxima-se.

Esta é a história do que Harry faz a seguir, do que fez anteriormente, e ainda de como tenta salvar um passado que não consegue mudar e um futuro que não pode deixar que aconteça.

 

 

 

Eventos: Lançamento A Vida Oculta de Fernando Pessoa

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A Vida Oculta de Fernando Pessoa terá novos eventos de lançamento durante os meses de Setembro e Outubro. Estas são as datas para Setembro. Para quem ainda desconhece, esta banda desenhada apresenta-nos o escritor melancólico e sombrio numa realidade alternativa onde os mortos-vivos existem e necessitam de ser eliminados. Curiosos? Deixo-vos a ligação para o comentário que fiz ao livro, com fotos do interior.

Baba Yaga pôs um ovo – Dubravka Ugresié

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Baba Yaga é uma personagem ambígua muito presente nos contos eslavos que ora representa o papel de bruxa má, ora de figura maternal e protectora, ainda que genericamente seja representada quase sempre como uma mulher mais velha com poderes, um bicho papão com sentimentos.

Em referência às várias lendas circundando esta figura, Baba Yaga pôs um ovo apresenta uma história destacando as figuras idosas femininas, com os problemas típicos da idade, e encaixando alguma da simbologia das histórias nos episódios tresloucados que vão vivendo.

A história começa por explorar o relacionamento peculiar mãe – filha, sendo que a mãe, que sempre sofreu de OCD, é agora acometida pelo Alzheimer. Entre a tolerância devida à velhice e a irritação, o relacionamento decorre melhor à distância intercalada por curtas visitas e telefonemas constantes sem a invasão do espaço materno enquanto a doença o permitir.

Apesar do contexto poder ser deprimente aqui adquire um tom peculiar de inevitável comédia onde o insólito tem um papel essencial, cruzando episódios que exploram o ridículo e se juntam para construir uma história mirabolante onde até a morte tem o seu papel.

Denso em simbolismos começa por apresentar a história e dedica um grande espaço, no final, a apresentar, de forma enciclopédica as mais representativas lendas de Baba Yaga, explicando com algumas condescendência, a ligação metafórica da história com cada uma destas lendas.

A forma estanque como estas duas partes são apresentadas, em conjunto com a pouca coesão da história desanimaram-me. É que, nalguns episódios, existe uma maior preocupação em expor simbolismos do que em expor uma história, necessidade que se tenta compensar no final com a catalogação das lendas e a respectiva explicação. Apesar dos episódios engraçados e de algumas componentes que apreciei estes dois factores fizeram descer bastante a minha apreciação.

Em Portugal este livro foi publicado pela Teorema.

Ficção especulativa em Julho de 2016

As férias e o calor não ajudam nem aos lançamentos, nem às críticas – depois da euforia da Feira do Livro este foi sem dúvida um mês mais calmo mas destaca-se a maior quantidade de críticas a ficção científica, principalmente de Aniquilação de Jeff Vandermeer.

Lançamentos nacionais relevantes

A canção de Susannah – Stephen King – Bertrand Editora;

Os tambores de Outono – Diana Gabaldon – Casa das Letras;

Guia para a vida de Tyrion Lannister – Lambert Oaks – Self;

Visão de Prata – Anne Bishop – Saída de Emergência;

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Críticas interessantes

Ficção científica

The dramaturgues of Yan – John Brunner – Intergalacticrobot – “Apesar de assente num intrigante e convincente mundo ficcional,  e numa narrativa bem estruturada que revela os mistérios ao ritmo certo,  é um livro demasiado normal, dentro dos parâmetros da FC. “;

– 2084 – Boualem Sensal – Máquina de escrever – “Entre heranças da fonte de inspiração maior e ecos de acontecimentos do nosso tempo, constrói uma distopia que merece já um lugar entre as mais importantes expressões do género”;

Aniquilação – Jeff Vandermeer – Leituras do Fiacha – “deixando-nos com uma sensação de constante medo e alerta e que nos acaba por fazer questionar sobre várias questões entre as quais o que leva estes membros a aceitar ir nesta expedição depois do que aconteceu nas anteriores ?”

Cinzas de um novo Mundo – Rafael Loureiro – As Leituras do Corvo – “Intenso, intrigante, misterioso. E emotivo, para além de tudo o que esperava. É, pois, esta a imagem que fica destas Cinzas de um Novo Mundo: a de uma viagem a um futuro tenebroso, mas onde sempre, e apesar de tudo, ainda há heróis. Brilhante.”;

Ready Player One – Ernest Cline – As Histórias de Elphaba – “Com uma criatividade extraordinária, Ernest Cline oferece-nos uma aventura que se desenvolve, paralelamente, onde ainda batem corações acelerados e no espaço virtual. “;

Aniquilação – Jeff Vandermeer – Uma Biblioteca em Construção – “Mas conforme vamos passando tempo e explorando a Área X, percebemos que normalidade é algo que não pertence àquele local. “;

Sundiver – David Brin – Livros, livros e mais livros – “Tem uma premissa tão boa, mas desperdiça-a para se focar num mistério desinteressante e algo simplista.”;

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Fantasia

A vingança do Assassino – Robin Hobb – Nuno Ferreira – “Pela qualidade de escrita e de credibilidade apresentadas, custa-me dar uma pontuação tão baixa, mas foi um livro extremamente chato de ler.”;

Outros

Erotosofia – António de Macedo – Intergalacticrobot – “Em evidência fica o peculiar imaginário de Macedo, entre o conhecimento gnóstico, saber científico, reconhecimento tecnológico, colisão entre o imaginário de raiz popular com os mitos da literatura fantástica temperado com muito bom humor, com particular homenagem a Lovecraft e aos seus Mythos.”;

Crash – J. G. Ballard – Máquina de escrever – “A história do livro centra-se num pequeno grupo de personagens que têm como fétiche sexual acidentes de automóvel e as suas possibilidades eróticas, explorando uma parte do espetro das psicopatologias humanas, nomeadamente a morbidez sexual.”;

A rapariga que sabia demais – M. R. Carey – Uma Biblioteca em Construção – “A realidade que este livro apresenta é assustadora. Faz pensar sobre a evolução da vida e sobre como tudo está em constante mudança. “;

A Burglar’s Guide to the City – Geoff Manaught – Intergalacticrobot – “De uma forma divertida, Manaugh leva-nos a repensar os conceitos de arquitectura e espaço urbano explorando as façanhas e as metodologias dos assaltantes. “;

Outros artigos

– Missões tripuladas a Marte? Para já existem as de ler … (1) – Máquina de escrever;

– 12 Clássicos que os jovens adultos devem ler – Revista Estante;

– Domínio Filipino – Simetria;

– Quando a imaginação desceu em Marte – Máquina de escrever;

– Entrevista Rafael Loureiro – Revista Estante;

– Contos completos de Beatrix Potter editados pela primeira vez em Portugal – Diário de Notícias;

Eventos

– Scifi-Lx – Imaginauta;

The Longest Way Home – Robert Silverberg

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O título não engana e resume exactamente a história – a de Joseph, um rapaz que, vendo começar uma guerra no local onde se encontra como hóspede convidado, uns familiares distantes, foge e tenta caminhar até casa.

A premissa, já usada em várias outras construções ficcionais, é aqui alimentada por circunstâncias peculiares. É que no planeta em que se inicia a guerra o sistema social que persiste é uma espécie de sistema feudal criada por duas ondas de colonização – a nobreza e o povo.

Segundo a lenda conhecida por Joseph, a primeira onda de colonizadores terá sido incapaz de subsistir no planeta e terá necessitado de ajuda de colonos com maiores capacidades científicas, especialmente para a adaptação da agricultura e medicina. Assim se definiram os dois estratos sociais, pertencendo Joseph à dos que nasceram para governar.

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Habituado à tecnologia e sem ter aprendido técnicas de combate ou de sobrevivência, Joseph vê-se no meio de uma revolta que visa a libertação do povo do sistema feudal e é obrigado a fugir. Se, no início, conta com a ajuda de um Nocturnus, um ser minimamente capaz de comunicar, mas de mente demasiado simples, na vila indígena em que se recolhe após um ferimento encontra diferentes perspectivas de vida que não sustentam a sua visão privilegiada do mundo.

Para os indígenas, os colonos são apenas algo passageiro, que um dia deixará aquele mundo, pelo que expressam apatia, intercalada por pequenos momentos de curiosidade sobretudo pelas noções (básicas) de medicina que Jospeh demonstra.

O contacto inicial com os indígenas, que leva ao confronto de ideias, é interessante, mas quebra-se pela necessidade de viajar. Também a curta estadia entre elementos do povo que sempre viveram livres e que questionam abertamente o sistema feudal fazem Jospeh colocar os da sua classe no papel de déspotas conquistadores e questionar-se sobre a ordem que sempre considerou natural.

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Com palco e elementos que permitiram construir uma grande história, os momentos envolventes restringem-se a estas pequenas parcelas da viagem, que intercalam a caminhada sem fim por locais inóspitos onde pouco acontece para além da fome. Depois de confrontar Joseph com filosofias e ideias distintas das que conhece seria interessante perceber o que diferente poderia surgir na forma de governar – mas isso é algo que não teremos oportunidade de assistir.

Assim sendo é um livro engraçado mas em que o potencial da premissa e da combinação de elementos bem posicionados não é aproveitado, acabando por se tornar, simplesmente, a história de maturidade de um rapaz, enfatizando a sua transformação em homem jovem.

Destaque: Santuário – Andrew Michael Hurley

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A provar que o mercado editorial português ainda é capaz de trazer para solo nacional excelentes livros temos o lançamento de Santuário de Andrew Michael Hurley,  para início de Setembro. Com o título The Loney, foi um dos grandes lançamentos de horror de 2015 (mais voltado para o horror psicológico, suspense) tendo ganho o prémio Costa.

Publicado inicialmente na peculiar Tartarus Press (que só lança edições reduzidas e quase exclusivas) foi mais tarde publicado por diversas editoras e tornou-se um dos livros mais falados nos últimos tempos. Já o li (podem ler o comentário completo) e posso dizer que é excelente! Enquanto esperam pelo lançamento, deixo-vos a sinopse:

Dois irmãos. Um, mudo; o outro, o seu protetor. Todos os anos, a família visita o santuário que fica na desolada faixa de costa conhecida apenas como «Loney», desesperadamente à espera de uma cura. Durante as longas horas de espera, os rapazes são deixados sozinhos. E não conseguem resistir à passagem que se vislumbra a cada mudança da maré, à velha casa que se ergue ao longe… Muitos anos mais tarde, Hanny é um homem feito e já não precisa dos cuidados do irmão. Mas depois descobre-se o cadáver de uma criança, morta há muito. O Loney acaba sempre por dar à costa os seus segredos.

 

 

Resumo de Leituras – Agosto de 2016 (2)

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189 – Há sempre tempo para mais nada – Filipe Homem Fonseca – O mais recente livro de Filipe Homem Fonseca é uma viagem pelo luto onde as reviravoltas (expectáveis) cumprem o papel na medida certa. De leitura agradável, possui boas metáforas (que conseguem conter ciência sem escorregar) numa perspectiva interessante que atinge, apesar do tom aparentemente leve, a tragicidade devida;

190 – A Garagem Hermética – Moebius – Conjunto de episódios nitidamente de ficção científica em que um homem da Terra se vê numa época distante como figura mítica, imortal e temida. As batalhas pouco palpáveis têm consequências bastante visíveis numa série de episódios soltos que deixam demasiado à imaginação. Apesar de interessante, achei-o demasiado datado.

191 – Parque Chas – Ricardo Barreiro e Eduardo Risso – Começa como pequenos episódios fantásticos, quase fantasmagóricos em torno de uma região urbana em que desaparecem pessoas e meios de transporte e em que existem portais para outras regiões, épocas ou realidades ficcionais. A obra em mosaico ganha dimensão com a exploração do relacionamento da personagem principal com uma femme fetale, elemento que catapulta a acção para uma série de aventuras estranhas. Muito bom!

192 – King Rat – China Miéville – No primeiro livro de um dos meus autores favoritos ainda falta a densidade de elementos estranhos que o iria incluir no New Weird e destacar como o autor de algumas das obras mais complexas do género. Ainda assim, nota-se a capacidade de fazer visualizar ideias e personagens de uma forma belíssima que transforma uma história de premissa relativamente simples numa boa e cativante obra.

King Rat – China Miéville

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Depois de uma leitura a ritmo frenético percebo que, apesar de ter ficado automaticamente agarrada ao livro, a história não tem elementos muito surpreendentes, nem muito originais, quando comparada com outras do autor, China Miéville.

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Se The Iron Council ou, o meu favorito, Perdido Street Station, decorrem num mundo fantástico, avassalador, pela quantidade de elementos díspares e surpreendentes, King Rat, o primeiro livro do autor, decorre numa realidade bastante parecida com a nossa e aproveita o Flautista de Hamelin como elemento catalisador da narrativa.

Saul é um rapaz que desconhece a sua verdadeira natureza até se ver no centro de uma sucessão de homicídios que incluiu o pai. Salvo pelo Rei dos ratos, aprende que ele próprio é metade rato, uma mistura fantástica que lhe permite vaguear pelos dois mundos e que o torna uma arma única contra o Flautista, personagem sobrenatural capaz de hipnotizar vários animais, entre eles, ratos e seres humanos.

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Considerado como principal suspeito, Saul aproveita as lições do Rei dos ratos e explora as capacidades escondidas que desconhecia possuir até ao momento, entre os esgotos infindáveis de Londres, e as paredes íngremes que agora é capaz de escalar. Cada vez mais afastado do mundo humano, descobre que os seus amigos estão a ser usados pelo flautista e decide-se a cumprir o seu papel de arma em potência, aliando-se ao Rei das aranhas e ao Rei dos Pássaros.

A premissa é simples, quase directa, centrada numa personagem que encarna uma espécie de Messias, neste caso um salvador fabricado propositadamente à medida, que se vê arrastado para uma realidade fantástica sobreposta à urbana que conhecia.

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Mas o que cativa não é a premissa, nem tão pouco o desenvolvimento antecipável dos acontecimentos. Antes a forma de se expressar, a bela do texto e o cruzamento de ideias que suscita, características que nos fazem manter o interesse mesmo quando um episódio de confronto directo entre herói e vilão se alonga por mais de vinte páginas. É esta capacidade  de nos fazer visualizar o cenário e seguir as personagens que se torna o elemento diferenciador do livro.

The trains that enter Londo arrive like ships sailing across the roofs. They pass between towers jutting into the sky lije long-necked sea beasts and the great gas-cylinders wallowing in dirty scrub like whales. In the depths below are lines of small shops and obscure franchises, cafés with peeling paint and businesses tucked into the arches over which the train pass. The colours and curves of graffiti mark every wall. Topfloor windows pass by so close that passengers can peer inside, into small bare offices and store cupboards. They can make out the contours of trade calenders and pin-ups on the walls.

O ambiente sombrio não nos poupa à violência, nem a algumas (poucas mas fortes) descrições que nos revoltam o estômago – elementos que ajudam a sentir a brutalidade dos acontecimentos, numa história que tem tanto de inquietante quanto de fascinante.

Lentamente a história caminha para o auge que, apesar de previsível, confere o necessário sentimento de fecho, sem demasiados episódios movimentados, num formato sempre equilibrado. É, em suma, uma boa história à qual ainda falta a grandiosidade que iremos encontrar mais tarde em Perdido Street Station.

Parque Chas – Ricardo Barreiro e Eduardo Risso

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Apesar da colecção Novela Gráfica ser uma referência bastante positiva desta leitura, peguei em Parque Chas sem grande ideia do que iria encontrar, tendo-me convencido a antecipar a leitura deste volume aos outros da colecção por conta da aspecto gráfico.

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O que encontrei… foi uma excelente surpresa! O livro começa como a história de um local que a personagem principal se dedica a aprofundar, o Parque Chas. Tendo sido alvo de um desses episódios estranhos resolve-se a compilar os constantes fenómenos que relembram uma espécie de Triângulo das Bermudas, onde aparecem e desaparecem pessoas e meios de transporte.

A sucessão de episódios quase soltos evoluem rapidamente para uma série de aventuras entre realidades paralelas onde a ficção se cruza com a realidade, e as personagens vão parar a mundos literários e encontram personagens lendárias como Casonova ou Corto Maltese.

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Entre lutas infantis de final heróico, túneis de fuga esquecidos no lugar labiríntico que é o parque, carros assassinos e rápidos caminhos para outros tempos e lugares, adensa-se a névoa do desconhecido explorado pela personagem principal, uma projecção do autor.

Afinal o  que parece uma alusão a mundos fantásticos com um toque fantasmagórico revela-se ficção científica, fazendo com que os episódios mirabolantes quase culminem numa cena clássica de salvação da femme fatale, a verdadeira razão para a personagem perseguir os peculiares fenómenos.

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Quase. E aqui está o segredo. Os episódios mirabolantes funcionam bem isoladamente mas ainda melhor como peças de um mosaico construindo uma história maior, carregada de reviravoltas e surpresas, onde os clichés vão sendo adoptados e adaptados. O resultado é uma história movimentada de detalhes sombrios que consegue a peripécia de ser, simultaneamente, inteligente e divertida.

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Parque Chas é um dos volumes publicados na colecção Novela Gráfica pela Levoir em parceria com o jornal Público.

Destaque: O Homem do Castelo Alto – Philip K. Dick

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Depois de uma edição pela Livros do Brasil (na colecção Argonauta), e uma edição pela Saída de Emergência, sai finalmente a edição da Relógio D’Água, editora que tem previsto, no plano editorial deste ano, o lançamento de Será Que os Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? do mesmo autor. Ambos clássicos do género da ficção científica, O Homem do Castelo Alto ganhou maior notoriedade com a recente adaptação para série. Deixo-vos a sinopse:

América, quinze anos após o final da Segunda Grande Guerra. As potências vencedoras dividiram as suas conquistas: os nazis controlam Nova Iorque e a Califórnia é controlada por Japoneses. Mas entre estes dois estados confrontados numa guerra fria existe uma zona neutra onde, dizem os rumores, reside o lendário autor Hawthorne Abendsen, que receia pela sua vida, pois escreveu em tempos um livro no qual os aliados venceram a  Segunda Grande Guerra.