Novo projecto na E-Primatur – Casos do direito galáctico

Casos do direito galáctico e outros textos esquecidos

Foi lançado, ontem, novo projecto na E-Primatur. Para quem não conhece, a editora lança livros com base em angariação prévia de compradores, por menor preço do que o final de mercado. Foi assim que foi organizada a publicação de História Universal da Pulhice Humana de Vilhena ou O Salão Vermelho de August Strindberg.

Actualmente decorre a angariação para vários livros como O Judeu de Camilo Castelo Branco, Nos Mares do fim do Mundo de Bernardo Santareno ou As novas aventuras de Robinson Crusoe de Daniel Defoe. O novo projecto é um livro de Mário-Henrique Leiria, Casos do Direito Galáctico e outros textos esquecidos, uma obra que irá reunir vários textos do autor, com ilustrações de Cruxeiro Seixas.

Fevereiro: Lançamentos diversos

Existe uma razão pela qual não gosto de comunicar todos os lançamentos de que vou tendo conhecimento – é que às vezes são tantos que os mais interessantes se afundam na imensidão de livros de colorir, auto-ajuda, romances juvenis e afins. Assim, vou fazendo alguns destaques pontuais. Mantendo essa preferência, eis uma pequena entrada com o de mais interessante (pelo menos para mim) está a ser publicado este mês, com alguns lançamentos fora da ficção especulativa. Nos títulos encontram ligação para as páginas oficiais das editoras com o livro, sempre que existam.

Todos os contos – Clarice Lispector

Considerada simultaneamente uma das principais escritoras brasileiras e uma das mais importantes escritoras judaicas, é uma autora pouco falada por cá. Claro que esta ausência se pode dever à minha preferência pelos géneros de ficção científica e fantástico, mas a verdade é que poucos dos meus conhecidos ouviram falar na autora (novamente, pode ser problema de amostragem).

A Relógio d’Água tem vindo a publicar a obra da autora e lança este mês esta compilação de contos.

verbetes

Verbetes para Um Dicionário Afetivo – Ana Paula Tavares, Manuel Jorge Marmelo, Ondjaki e Paulinho Assunção

O que me chamou a atenção para este lançamento foram dois dos autores: Manuel Jorge Marmelo e Ondjaki. O primeiro é o autor de Uma mentira mil vezes repetida, onde se expõe uma farsa tão repetida que quase se torna realidade. Pelo menos na mente de alguns. O segundo é um dos mais conhecidos autores angolanos.

Quatro autores já bem conhecidos do público português – Ana Paula Tavares, Manuel Jorge Marmelo, Ondjaki  e Paulinho Assunção (dois angolanos, um português e um brasileiro) – reúnem-se, ou melhor, encontram-se reunidos para nos dar um conjunto de textos que são outras tantas pérolas literárias, produzidas nesse vasto cadinho que é a língua portuguesa. Cada um com o seu estilo, oferecem ao leitor um objecto literário que proporciona enquanto arte literária, um verdadeiro e intenso prazer da leitura.

southern bastards

Southern Bastards Vol. 1 – Aqui Jaz um Homem – Jason Aaron e Jason Latour

A G. Floy volta aos lançamentos com o primeiro volume de Southern Bastards. Deixo-vos, por agora, com a sinopse inglesa:

Welcome to Craw County, Alabama, home of Boss BBQ, the state champion Runnin’ Rebs football team…and more bastards than you’ve ever seen. When you’re an angry old man like Earl Tubb, the only way to survive a place like this…is to carry a really big stick. From the acclaimed team of JASON AARON and JASON LATOUR, the same bastards who brought you Scalped and Wolverine: Japan’s Most Wanted, comes a southern fried crime series that’s like the Dukes of Hazzard meets the Coen Brothers…on meth.

trono brett

O trono dos crânios – Peter V. Brett

Apesar de ainda não ter lido o terceiro volume, adorei o que já li desta série de Fantasia. A premissa é simples e engraçada, dando origem a um mundo de mitologia rica e diversa. Percebe-se que outrora as civilizações humanas foram muito evoluídas e com tecnologia bastante avançada, mas com o aparecimento dos demónios declinou rapidamente para uma sociedade quase medieval. Poucos têm coragem para fazer frente aos demónios – o nosso herói é um deles, mas não é o único, e nem sempre ocupa o lugar principal e mais relevante.

O último reino

O Último Reino – Bernard Cornwell

Tenho andado afastada do género da ficção histórica, mas ainda assim recordo alguns dos livros de Bernard Cornwell, um dos meus autores favoritos no género. Este lançamento é uma nova edição no mercado português, aproveitando a adaptação para série:

Nascido entre a nobreza de Inglaterra, Uhtred é o herdeiro das terras de Bebbanburg na Northumbria. Aos 10 anos foi para a guerra pela primeira vez e viu o seu pai morrer em combate. Raptado pelos vikings, tornou-se primeiro um escravo e, depois, um filho para Ragnar, o Destemido.O destino tornou-o um guerreiro viking, mas o destino também trouxe traição. E essa traição levou-o até Alfredo, Rei de Wessex, o último reino a resistir à invasão dos vikings. A quem será Uhtred fiel? Em “O Último Reino”, Cornwell transporta-nos para um passado violento e apaixonante, onde testemunhamos o nascer de Inglaterra e de toda uma nova era.

O livro da selva

O Livro da Selva – Rudyard Kipling

Também com nova edição, pela Bertrand Editora, para Fevereiro, encontramos O livro da Selva, o clássico que já sofreu várias adaptações cinematográficas:

Adorado por leitores de todas as idades, este clássico conta-nos, entre outras, a inesquecível história de Mowgli – um rapaz criado no seio de uma alcateia de lobos, junto da qual aprende as leis da selva e a escutar o coração. Passada na Índia, esta grande obra-prima de Kipling é uma alegoria relativa ao imperialismo britânico, recheada de aventuras e personagens extraordinárias.

Resumo de Leituras – Fevereiro de 2016 (3)

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25 – Pedro e o Lobo – Miguelanxo Prado – A história é a mesma que podemos encontrar na obra de Sergei Prokofiev. O que existe aqui de destaque são as ilustrações engraçadas que acrescentam à história uma nova vivacidade. Sem ser excelente, é um livro engraçado.

26 – A vida contada de A. J. Fikry – Gabrielle Zevin – Não é a minha leitura típica, mas depois de o encontrar numa livraria e de ler as primeiras páginas percebi que, apesar de ter como facto impulsionador o roubo de um livro, não se centra neste para revelar o enredo. O livro começa com uma pequena nota crítica a um excelente conto – e foi assim que me convenci a ler. Engraçado, sem ser excelente, centra-se na vida de um livreiro.

27 – Locke & Key Vol.6 – Joe Hill – Último volume desta espectacular série lovecraftiana, que cruza elementos de fantasia e terror para acompanhar uma família a quem acontecem sucessivas desgraças. Não é o melhor volume do conjunto, mas é o volume necessário para encerrar todas as pontas soltas.

28 – Contos maravilhosos – Hermann Hesse – Como já referi por diversas vezes, a fama demasiada afasta-me. Neste caso o livro andava por cá há alguns meses, e finalmente peguei-lhe. Excelente. As histórias foram escritas no início do XX, possuem uma escrita impecável e aquela magia leve que caracteriza as histórias de antigamente.

Eventos: Exposições Pepedelrey

Arrancam esta semana duas exposições em locais bem distintos. Dia 12 de Fevereiro, pelas 19h é inaugurada, no bar Steampunk O Arranca-Corações a exposição Desenho-só. A exposição irá manter-se até dia 26 de Fevereiro. Para mais detalhes sobre o evento, podem consultar a página oficial.

olho soPor sua vez, no dia 13, inicia-se a exposição A Minha fase pós-nuclear com desenhos de João Chambel, na LX Factory, que irá decorrer até dia 26 de Fevereiro. Para mais detalhes sobre o evento podem consultar a página oficial.

a minha fase

 

Passatempo: Limpeza – Hex Hall – Rachel Hawkins (1)

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Entre livros recebidos por presente (e duplicados) e livros recebidos de editoras (não solicitados) tenho alguns livros repetidos ou que não tenho intuito de ler. Portanto, porque não oferecer a quem os queira e lhes possa dar o uso adequado? Este é o primeiro passatempo, com oferta de Hex Hall de Rachel Hawkins:

Um bilhete só de ida para um colégio interno perdido nos pântanos do Louisiana era talvez a última coisa que Sophie Mercer esperava receber pelos seus dezasseis anos. Mas Sophie não é uma adolescente igual às outras. Sophie é uma feiticeira e, tal como os outros prodigium, feiticeiros, fadas, lobisomens e vampiros, Sophie não pode frequentar uma escola normal.

O que Sophie esperava ainda menos era ser companheira de quarto de Jenna, a única vampira da escola, e ver-se enredada numa trama para descobrir quem anda a assassinar os alunos da escola ao mesmo tempo que tem que lidar com os seus novos poderes, a descoberta da importância do seu Pai na hierarquia dos feiticeiros e a sua paixão pelo namorado da sua mais recente inimiga.

Como participar:

Para ganharem este volume (em língua inglesa) têm de

  1. Seguir a página do blog Rascunhos E;
  2. Enviar um mail para rascunhos.blog [AT] gmail [DOT] com, indicando nome, morada e link do perfil facebook, com o título “Passatempo – Hex Hall“.

O passatempo termina a 06 de Março.

Notas adicionais: Os dados enviados serão usados apenas para o passatempo. Aceitam-se participações em Portugal (continental e ilhas). Quem está fora de Portugal poderá participar desde que pague os portes. Uma única participação por pessoa / mail. Ou seja, não podem participar várias pessoas do mesmo endereço, nem uma única por vários endereços de e-mail. Podem participar várias pessoas com a mesma morada desde que usem diferentes endereços de e-mail. Participações adicionais serão ignoradas. O único exemplar disponível será sorteado, e o vencedor comunicado neste blogue. Irei, também, enviar um e-mail para o vencedor, com o intuito de confirmar os dados antes do envio. Se não me responder em tempo útil (duas semanas) passarei ao segundo contemplado.

Locke & Key – Joe Hill e Gabriel Rodriguez (Volume VI)

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A capa é escura. Muito escura. Mas mesmo assim não suplanta a negritude da história que faz antever. Se nos volumes anteriores os acontecimentos vão tomando lentamente maior dimensão e atingindo cada vez mais personagens, neste último os acontecimentos demolidores chegam a atingir toda a localidade de Lovecraft.

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Cada chave tem um poder peculiar, como viajar no tempo ou no espaço, abrir literalmente a cabeça de alguém e incluir ou retirar conteúdos ou deixar o corpo e seguir caminho como espécie de fantasma. A origem das chaves e dos seus poderes já foi revelada, bem como o aparecimento do vilão e os acontecimentos que marcaram a geração anterior, agora responsáveis pelas desgraçadas actuais.

O que resta? Bem, até gora, não percebemos totalmente as motivações do vilão. A cada episódio sucedem-se desgraças- lutas com sombras ou monstros gigantes e mortes escabrosas; que fazem acumular tensão na história. Qual o objectivo do vilão com tais episódios? Conseguir as chaves. Mas qual o objectivo? Controlo destas capacidades ou algo mais?

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É neste volume que os seus planos se revelam, planos que envolvem dezenas de jovens e não apenas a família que temos seguido ao longo da série. Elevam-se heróis improváveis e corrompem-se mentes – apesar de redentor, o final é brutal e poupa poucos à selvajaria demoníaca de um vilão não humano e sem escrúpulos.

Neste último número volumoso fecham-se todas as questões em aberto, em episódios algo expectáveis (pelas pistas que nos vão deixando na história) mas mesmo assim de grande impacto. Por ser o último volume, não esperem grandes revelações ou acções – todos os acontecimentos têm nitidamente como objectivo fechar a história e conseguem-no de forma eficiente.

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Apesar de ter boas composições, o tom demasiado escuro retira alguma da espectacularidade às imagens mas ajuda na criação de um ambiente deprimente e desgastante. Por razões óbvias não é o melhor volume do conjunto, mas é o volume necessário para encerrar a sequência.

Volumes anteriores

A vida contada de A. J. Fikry – Gabrielle Zevin

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Um viúvo recente e relativamente jovem tenta sobreviver à ausência da esposa, mantendo o negócio que fundaramem conjunto. Para além de beber demasiado quase todas as noites, a perda recente fá-lo ser mal humorado para clientes e fornecedores. Esta não é, de todo, a descrição de um livro que me costume captar o interesse – mas, este caso é especial! Envolve livros e livrarias!

É que o viúvo vive na mesma casa onde tem o negócio que é um livraria – o que é quase o mesmo que viver numa biblioteca. Na livraria apenas vende o que gosta e é um crítico implacável, que dispensa clichés e dá grande valor à narrativa:

Ele é um leitor e aquilo em que acredita é na construção. Se aparecer uma arma no primeiro ato, é melhor que essa arma dispare até ao ato três. Ou seja, aquilo em que A. J. acredita é na narrativa.

O livro abre com uma pequena referência crítica ao célebre conto de Roald Dahl, Cordeiro à matança. A partir daí vamos conhecendo os acontecimentos que mudam radicalmente a vida de A. J. , intercaladas com outras pequenas críticas. O seu estilo de vida decadente muda radicalmente quando lhe roubam um livro raro de Poe. E é este roubo que vai levar, indirectamente, a que lhe deixem uma bebé na livraria – porque não existirá melhorar lugar para educar alguém do que numa livraria.

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O livreiro mal humorado, até mal educado, que conhecemos nas primeiras páginas vai-se acalmando, criando na sua livraria grupos de leitura e arranjando livros para os diversos clientes – mas sempre com forte posição em relação aos livros que vende.

Apesar dos acontecimentos trágicos que vão rodeando a vida do livreiro, o humor irónico e as constantes referências aos livros vão aliviando o ambiente, tornando-se numa história engraçada de pequenas reviravoltas onde a leitura tem um papel bastante importante.

Resumo de Leituras – Fevereiro de 2016 (2)

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21 – Wolverine: Logan – Vaughan, Risso – Volume essencial na história de Wolverine que relata a transformação da personagem no Japão, durante a Segunda Guerra Mundial. Graficamente com bons momentos (não consigo gostar da capa, que é, a meu ver, a mais fraca imagem do volume), contem uma pequena história com alguma linearidade;

22 – Dois anos, oito meses e vinte e oito noites – Salman Rushdie – Uma leitura divertida com fortes elementos fantásticos, partindo de uma génio que se cruza com Averróis gerando uma descendência sem fim que, passados alguns séculos se encontra dispersa pelo planeta. Para além de não possuírem lóbulos das orelhas, têm poderes mágicos adormecidos, que começam a surgir quando os caminhos entre os dois mundos voltam a aparecer. Complexo, com várias personagens mas divertido e com múltiplas referências a outros livros;

23 – Número zero – Umberto Eco – Com menos páginas do que os volumes anteriores, apresenta uma história no mesmo estilo de outras obras do autor, com teorias de conspiração, informações cruzadas e pequenos episódios mirabolantes que dão um aspecto cómico a puxar para o nonsense;

24 – Low Vol.1 – Remender, Tocchini – Apesar do traço rabiscado possui excepcionais imagens. Apesar da premissa algo inverosímil, apresenta um futuro onde a espécie humana está perto do fim. Obrigada a fundar cidades no fundo dos oceanos por não se ter descoberto outro planeta habitável, a humanidade está decadente e deprimida. Contrabalançando este sentimento, encontramos uma personagem com um optimismo que não chega a tornar-se irritante. Com tudo isto (e apesar de tudo isto) achei excelente.

Assim foi: Exposição de pranchas originais

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Início da sessão, antes da chegada de André Oliveira

Decorreu no passado Sábado, a sessão de arranque da exposição de pranchas originais que se encontra na Leituria até dia 03 de Março, com a presença de vários autores da Kingping Books: André Oliveira, Carlos Pedro, David Soares, Joana Afonso, Mário Freitas, Nuno Duarte, Osvaldo Medina e Sónia Oliveira.

Apesar de se ter como propósito a inauguração da exposição, foi mais centrada nos livros que utilizam as pranchas, e cada autor foi falando das obras mais recentes, sobretudo das que lançou através da Kingpin Books. Deixo-vos com as principais ideias que foram desenvolvidas ao longo da sessão.

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Aproveitei para adquirir alguns dos lançamentos recentes que me faltavam

Quase todos falaram da sua experiência no estrangeiro, mais especificamente da tentativa da Kingpin de se introduzir nos mercados polaco, inglês ou americano. Apesar do bom aspecto visual e da qualidade das edições a língua é uma barreira para a divulgação directa dos álbuns em diferentes mercados, razão pela qual precisam de boas traduções.

Kong, the King foi o centro do discurso de Osvaldo Medina, um dos livros que publicou recentemente e que transformará a história associada a King Kong. Como álbum sem falas encontra-se aberto às mais diversas interpretações. E que diversidade – as mais variadas críticas apresentam os mais variados e caricatos detalhes. Pela ausência de falhas este será um dos álbuns mais privilegiados para lançar noutros mercados.

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David Soares fala um pouco do seu trabalho

Já David Soares falou não só de O Poema Morre, mas também dos projectos que espera publicar brevemente, sobretudo novas edições de A Última Grande Sala de Cinema (edição a cores, de tons apropriados à história) e de O Pequeno Deus Cego. O escritor referiu, também, experiências passadas em que se tentou lançar noutros mercados, mais concretamente no mercado francês, mas com pouco sucesso – uma edição de baixa qualidade, factor ao qual se sobrepõe o afastamento geográfico do autor, o que dificulta perceber se o trabalho de enquadrará ao público.

Sónia Oliveira, tendo descoberto o interesse por banda desenhada numa fase mais tardia, falou sucintamente do processo de concretização do álbum, para o qual teve de realizar pesquisas detalhadas para conseguir responder aos pedidos de David Soares, especialmente para retratar o ambiente da Guerra, com as suas trincheiras e cenários mórbidos.

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Living Will, Vil A tragédia de Diogo Alves ou Casulo – estes são alguns dos mais recentes projectos de André Oliveira. A conversa incidiu principalmente nos dois primeiros, sendo Living Will um projecto de maior dimensão, para o qual tem convidado alguns desenhadores como Joana Afonso, e Vil A tragédia de Diogo Alves uma história que parte de Diogo Alves, mas na qual este é uma personagem secundária. As pranchas cujo aspecto mais apreciei são precisamente as de Xico Santos neste livro, Vil.

Já Carlos Pedro falou essencialmente da forma como conseguiu ter bons conhecimentos internacionais que o levaram a participar em Elephant Men, bem como da experiência de produção que partilha com Mário Freitas, numa dinâmica troca de ideias.

Abaixo deixo-vos algumas fotos dos álbuns autografados e um link para um conjunto de fotos (de melhor qualidade que as aqui apresento – desconheço a autoria).

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Kong The King autografado

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O Baile autografado

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O Poema Morre autografado

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Fósseis das Almas Belas autografado

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Salomão Royal Edition autografado

Número zero – Umberto Eco

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Apesar de bastante mais pequeno que outros livros do autor, como Baudolino ou O Nome da Rosa, Número zero tem alguns elementos em comum com os restantes: várias e interligadas teorias da conspiração, farsas de propósito obscuro e ocasionais e incessantes verborreias de informação que conseguem criar um misto de repulsa e fascínio, e que fazem muitos leitores desistir da história. Neste livro estes momentos são muito raros e mais contidos do que é costume.

Em Número Zero um conjunto de jornalistas é contratado para produzir um jornal fictício, criado com o intuito de fazer pressão política sobre alguns elementos, num difícil (e quase cómico) jogo de influências. Comecemos por dizer que alguém pretende um determinado posto. Para tal, funda um jornal de produção controlada, para criar uma série de números falsos que servirão de exemplo às capacidades do jornal se se tornar de edição aberta (caso determinadas pretensões não se concretizem).

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É neste contexto que se insere a personagem principal, um homem muito culto que, não sendo especialista em assunto algum, tem vagueado entre traduções e artigos menores, vendo-se agora contratado para este jornal fictício, a bom soldo. Na mesma situação encontram-se outros cinco jornalistas, entre eles a mulher responsável pelo próximo romance do nosso jornalista, e um típico investigador e gerador de teorias de conspiração que se baseia em recortes de jornal e episódios mirabolantes.

Com claro intuito manipulador, os episódios em que os artigos são criados são autênticos manuais de influência da opinião pública, apresentando como, a partir de fotos bem simples, se derivam suspeitas que, impunemente, podem manchar a imagem de pessoas sérias. Nalguns, nos confrontos de ideias, apresentam-se episódios de ideias nonsense que recordam episódios em outros livros do autor – diversão pura.

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Misto entre manual de manipulação da opinião pública, exposição de teorias extraordinárias e conspirações movimentadas, é também uma crítica bastante directa aos meios de comunicação e à forma como usam o seu alcance para exercer pressões e influências. Menos centrado em questões históricas do que outros livros do autor e de menor formato, não chegou ao mesmo patamar que os livros mais conhecidos, mas proporciona excelentes momentos de leitura.

Dois anos, oito meses e vinte e oito noites – Salman Rushdie

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Depois da enorme polémica com o livro Os Versículos Satânicos fugi dos livros do autor. Não por causa dos motivos que o fizeram ser um dos livros mais falados na altura, mas porque livros que criam demasiada expectativa fazem-me comichão. Ou os leio logo, ou fico com algum receio de lhes pegar. Entretanto, a excitação já tem tantos anos que me decidi a experimentar o mais recente livro de Salman Rushdie.. E gostei.

Conhecem os génios? Aquelas criaturas fantásticas que saem de lamparinas para responder aos desejos de um ser humano? Bem, esta é a história de uma génio, Dunia, que se terá unido a Averróis sem revelar a sua natureza. Se os génios não costumam ser férteis, nem se unir a seres humanos, Dunia constitui uma excepção. Para além de se apaixonar por Averróis engravida de várias ninhadas de crianças – cada gravidez resulta numa dezena de crianças, mais criança, menos criança.

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Entre a razão extrema de Averróis e a sobrenaturalidade de Dunia, criam-se várias dezenas de filhos que se hão-de espalhar por todo o mundo. Centenas de anos depois de se terem fechado as ligações entre os dois mundos e Dunia ter voltado a ocupar no seu mundo o lugar que lhe compete, o de princesa herdeira, os descendentes de ambos pertencem às mais diversas culturas e religiões, herdando mais do que ausência de lóbulos nas orelhas da sua tetra-tetra-tetra-(…)-avó.

Um dia, os caminham entre os dois mundos voltam a abrir-se, e com eles a magia retorna ao nosso mundo, com uma tempestade abismal. As experiências científicas deixam de dar resultados coerentes, e até os mais racionais começam a testemunhar acontecimentos incríveis: pessoas que flutuam, braços que lançam raios ou narizes que passeiam sozinhos. A razão deixou de ser a lógica condutora da nossa realidade.

Um funcionário russo perdeu o nariz e depois viu-o a passear sozinho por São Petersburgo

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A história centra-se nalguns dos descendentes de Dunia e Averróis, dando especial ênfase a um jardineiro que, tendo perdido a companheira de uma vida, se dedica agora à sua profissão, numa existência simples e quase isolada. Um dia, os pés deixam de tocar o chão. Faça o que fizer, fica sempre acima de qualquer superfície – lama, lençois ou cadeiras. Dia após dia, a distância vai aumentando, e, além de já não a conseguir disfarçar, começa a tornar-se suspeito para a vizinhança, já farta de acontecimentos estranhos.

Super-heróis, capacidades linguísticas sem fim, levitações, desastres amorosos – as características sobrenaturais dos descendentes de Dunia são várias. Mas os maiores acontecimentos têm origem numa guerra entre génios, uma guerra louca que não respeita regras ou estratégias.  Temos, por exemplo, um génio de ficção científica da era dourada que cria um reino tendo por base um dos seus livros favoritos.

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Carregado de detalhes fantásticos e reminiscências de histórias conhecidas, com ecos de contos, lendas e histórias fantásticas, é um livro que cruza o destino de várias personagens para contar uma história maior do que um mundo. Claro que tem os seus pontos fracos. A personagem Dunia vai sendo caracterizada várias vezes ao longo do livro de forma nem sempre consistente – mas é um génio e o autor utiliza a natureza da personagem para se descartar da lógica comum.

Interessante pelos pormenores e pelas características surreais, possui algumas diferenças entre os episódios iniciais e finais, começando com episódios sonhadores e detalhados e terminando com acção mais rápida que despacha o final e confere às personagens finais interessantes mas todos felizes. Mundo em colapso por desastres sucessivos e induzidos pelos génios, com um piscar de olho à ficção científica e aos heróis de banda desenhada, termina com um episódio futurista e redentor.

Últimas aquisições

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Desta vez começo pela banda desenhada, dando especial realce ao mais recente lançamento de autoria portuguesa, Os Doze de Inglaterra que compila a história que foi sendo publicada ao longo de vários números da revista Mosquito.

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À direia encontra-se um dos mais recentes volumes da colecção Marvel pela Salvat, tratando-se do segundo volume dedicado ao Hulk, e o primeiro volume Low, lançado pela Image num ambiente que parece pós-apocalíptico e retratando uma humanidade que trocou a superfície do planeta pela profundidade dos oceanos, para se proteger da radiação solar.

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A vida contada de A. J. Fikry parece enquadrar-se num dos meus tipos favoritos de histórias: livros sobre livros. Aproveitando a parceria com a editora, deve ser das próximas leituras:

A vida de A. J. Fikry não é de modo algum a que ele esperou que fosse: vive sozinho, a sua livraria está a passar pelo seu pior momento da história e, agora, a sua preciosidade mais valiosa, uma rara antologia de poemas de Poe, foi roubada. Mas quando uma misteriosa encomenda aparece na livraria, a sua inesperada dá a Fikry a oportunidade de mudar completamente a sua vida, e ver tudo com novos olhos.

À direira encontram-se duas das aquisições efectuadas à livraria Ulmeiro, em Benfica (loja de livros em segunda mão. Também os dois volumes abaixo, À noite logo se vê e Rudolfo foram adquiridos na mesma visita.

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Por último, eis dois dos volumes que mais me entusiasmaram nos últimos tempos. Ambos foram apresentados por João Barreiros no Fórum Fantástico e, apesar de parecerem bastante diferentes em história, tem a particularidade de serem dois livros em que a beleza do conteúdo se perderia no formato digial.

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No primeiro a história é contada recorrendo a panfletos, esquemas e pedaços de outros livros, conferindo ao voluma uma dimensão surreal que fascina o leitor. Ou pelo menos, fascina-me a mim.

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Deixo-vos a sinopse e mais algumas imagens do interior:

Bats of the Republic is an illuminated novel of adventure, featuring hand-drawn maps and natural history illustrations, subversive pamphlets and science-fictional diagrams, and even a nineteenth-century novel-within-a-novel—an intrigue wrapped in innovative design.

In 1843, fragile naturalist Zadock Thomas must leave his beloved in Chicago to deliver a secret letter to an infamous general on the front lines of the war over Texas. The fate of the volatile republic, along with Zadock’s future, depends on his mission. When a cloud of bats leads him off the trail, he happens upon something impossible…

Three hundred years later, the world has collapsed and the remnants of humanity cling to a strange society of paranoia. Zeke Thomas has inherited a sealed envelope from his grandfather, an esteemed senator. When that letter goes missing, Zeke engages a fomenting rebellion that could free him—if it doesn’t destroy his relationship, his family legacy, and the entire republic first.

As their stories overlap and history itself begins to unravel, a war in time erupts between a lost civilization, a forgotten future, and the chaos of the wild. Bats of the Republic is a masterful novel of adventure and science fiction, of elliptical history and dystopian struggle, and, at its riveting core, of love.

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No segundo, The Explorer’s Guide, a narrativa vai tomando outras formas, intercalando com, por exemplo, banda desenhada.

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Deixo-vos a sinopse deste:

Developed by Academy Award winner Kevin Costner, this is a magnificently produced, illustrative adventure story about a clandestine society of rogue voyagers on a mission to discover the mysteries that lie beyond the boundaries of the known world.

Behind the staid public rooms of an old world gentlemen’s club operates a more mysterious organization: The Explorers’ Guild, a clandestine group of adventurers who bravely journey to those places in which light gives way to shadow and reason is usurped by myth. The secrets they seek are hidden in mountain ranges and lost in deserts, buried in the ocean floor and lodged deep in polar ice. The aim of The Explorers’ Guild: to discover the mysteries that lie beyond the boundaries of the known world.

Set against the backdrop of World War I, with Western Civilization on the edge of calamity, the first installment in The Explorers’ Guild series, A Passage to Shambhala, concerns the Guild’s quest to find the golden city of Buddhist myth. The search will take them from the Polar North to the Mongolian deserts, through the underground canals of Asia to deep inside the Himalayas, before the fabled city finally divulges its secrets and the globe-spanning journey plays out to its startling conclusion.

The Explorers’ Guild is a rare publishing opportunity, powered by the creative passion of one of the world’s true storytelling masters, Kevin Costner.

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As leituras recomendadas pela Locus para 2015

Todos os anos a Locus (The Magazine and Website of Science Fiction & Fantasy Field) publica uma lista de leituras recomendadas na ficção especulativa, passando pelos vários formatos, desde romance a contos. A lista desta ano foi lançada esta semana e possui, entre sugestões expectáveis (pelo burburinho que causaram ao longo do ano), outras menos óbvias. Principalmente na secção de ficção mais curta podem encontrar links directos para as histórias que se encontram disponíveis gratuitamente.

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Na secção da ficção científica a lista é encabeçada com The Water Knife de Paolo Bacigalupi. Este livro de um dos meus autores favoritos deverá ser uma das próximas leituras. Para além desta referência expectável temos Ancillary Mercy de Ann Leckie, Luna de Ian McDonald e Seveneves de Neal Stephenson, todos referidos no painel de escolhas literárias do evento Conversas Imaginárias de 2015. Desta lista, não há um único que se encontre traduzido em português. Também foram referidos, no painel, o Aurora do Kim Stanley Robinson,

Dos restantes, o que espero ler? Os da Ann Leckie depois de passar um pouco a exaltação, Persona de Genevieve Valentine e Europe at Midnight de Dave Hutchinson (houve uma crítica no Intergalacticrobot que me chamou à atenção.

Foxglove summer

Foxglove summer começa a lista de fantasia. Não é de estranhar – o River of London do mesmo autor já foi publicado há cinco anos e continuo a ver críticas e comentários nos sítios mais diversos. Desta lista li dois e meio: Wylding Hall de Elizabeth Hand (que ficou bastante aquém das expectativas), Uprooted de Naomi Novik (que achei demasiado condescendente e saltitante apesar de ter boas passagens) e comecei o Prodigies de Angelica Gorodischer. Apesar das contestações do autor quanto ao enquadramento no género, o The Buried Giant de Kazuo Ishiguro encontra-se nesta lista e é o único que podemos encontrar em português, publicado pela Gradiva.

Slade House de David Mitchell também pode ser encontrado nesta lista e foi alvo de referência por João Barreiros no painel de recomendações – sendo um volume que decorre no mesmo mundo que The Bone Clocks, traduzido para português como As Horas Invisíveis pela Editorial Presença.

E dos restantes, o que pretendo ler? Depois de continuar o Prodigies da Angelica Gorodischer, estou curiosa pelo The House of Shattered Wings de Aliette de Bodard, o The Buried Giant do Kazuo Ishiguro, The Philosopher Kings de Jo Walton (na prática, qualquer livro de Jo Walton), o Slade House (depois do The Bone Clocks) e The Fifth Season de N.K. Jemisin.

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A lista de juvenis inicia-se com dois livros da série de Joe Abercrombie, Half a War e Half the World e se há livros que deverei ler nesta secção, serão estes. Talvez dê, também, uma oportunidade a Wonders of the Invisible World de Christopher Barzak, por conhecer o autor de outras paragens. 

Nas listas deste género costuma existir uma secção para autores estreantes. Aqui encontramos, também, um referido nas Conversas Imaginárias, Sorcerer to the Crown de Zen Cho (que chegou recentemente a minha casa). Lidos, aqui, apenas metade do The Grace of Kings de Ken Liu que está a revelar-se demasiado denso. Para além destes, estou curiosa por The Traitor Baru Cormorant de Seth Dickinson e The Sorcerer of the Wildeeps de Kai Ashante Wilso. Claro que, nem os da secção juvenil, nem estes, se encontram traduzidos.

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Nas secções de antologias e colectâneas encontrou algumas leituras recentes: The very best of Kate Elliott (que, ainda que interessante, não me captou o suficiente para o achar uma das melhores leituras do ano), Trigger Warning de Neil Gaiman (com histórias excelentes, mas demasiado disperso em género e formatos apresentados), Three moments of an explosion de China Miéville (também com excelentes histórias, quase todas com excelentes ideias mas que no conjunto que deixou com poucas recordações), Hannu Rajaniemi: Collected Fiction (desconhecia o autor, mas ficou o nome como referências para boas histórias).

O que espero ler dos restantes listados? Ann e Jeff Vandermeer têm feito uma excelente campanha em torno de Leena Krohn: Collected Fiction, e existem mais alguns que já adquiri: Falling in love with hominids de Nalo Hopkinson, The Best of Nancy Kress, Get in trouble e I am crying all inside and other stories de Clifford D. Simak. Nas antologias, Stories for Chip, She Walks in Shadows, Meeting Infinity, Future Visions (disponível gratuitamente) e Twelve Tomorrows já tenho cópias através do NetGalley ou de concursos.

Existe, ainda, espaço para ficção de formato mais diminuto, onde apenas li Black Dog de Neil Gaiman (conto negro, excelente), Rates of Change de James S. A. Coreu, Drones de Simon Ings, Emergence de Gwyneth Jones (estas de Meeting Infinity que espero comentar brevemente) e The Dowager of Bees de China Miéville.

Resumo de Leituras – Fevereiro de 2016

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17 – Um cisne selvagem e outros contos – Michael Cunningham – Transformação de contos conhecidos em histórias actuais, com pequenas frases perspicazes que conferem uma análise rápida da história. A acompanhá-los encontram-se imagens que contam por si, uma nova história;

18 – Havia – Joana Bértholo Imaginativo, com vários jogos de palavras e de ideias, é um pequeno livro de leitura rápida com várias histórias engraçadas;

19 – Fagin, O Judeu – Will Eisner Will Eisner reconta a história do Judeu de Oliver Twist, expiando a personagem dos seus feitos, e atribuindo-lhe uma personalidade para além da caracterização genérica conferida pela palavra judeu;

20 – A Criatura do Travesseiro – Duda Falcão – Não conheço os restantes contos do autor, mas recordo bem o impressionante conto de Quiroga, Travesseiro de Penas. Aqui o autor inclui-o no seu mundo imaginário, dando-lhe uma reviravolta interessante que me levou a procurar outros contos no mesmo Universo.

Low Vol.1 – Remender, Tocchini

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Uma só palavra ficou na minha mente depois de ler este livro – brutal. Mundo em colapso, circunstâncias deprimentes, personagens decadentes – estes são os elementos usuais da ficção científica apocalíptica que aqui são usados para nos apresentar a história, mas acrescentando uma pitada de outras coisas, como optimismo – há sempre alguém estupidamente optimista.

A superfície do planeta Terra está inabitável. Não por causa de desastres nucleares, ecológicos ou doenças sem fim, mas porque o Sol se encontra em expansão e a radiação ultrapassa a suportável pelos seres humanos. Não descobrindo, em tempo útil nenhum planeta que possam habitar, criam cidades no fundo dos mares. Estas cidades permanecem isoladas e, a pouco e pouco, tornam-se lendas umas para as outras. A espécie humana degenera lentamente – o ar das cúpulas começa a tornar-se tóxico depois de ciclos sem fim de regeneração e o conhecimento tecnológico baixou o suficiente para que não consigam compreender alguns dos mecanismos que utilizam.

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É neste ambiente que conhecemos uma família peculiar e com um importante papel no quotidiano de uma das cidades: a mãe, super optimista, o pai mais prático e os três filhos que deverão herdar os papéis desempenhados pelos progenitores. Os mais novos têm dez anos, a idade perfeita para aprenderem a lidar com alguns mecanismos complexos. Tendo em vista o início da aprendizagem, saem da cidade numa espécie de submarino.

Em pouco tempo são capturados pelo vilão: o governador déspota de uma das outras cidades que tem como intuito capturar alguma tecnologia. Jackpot. A bordo não só se encontram alguns engenhos importantes, como o DNA necessário para utilizá-lo: o dos filhos de Jack. Depois de raptar as filhas e deixar o homem em mal estado, a família volta para a cidade e reduz-se a dois elementos: mãe e filho. A mãe, sempre optimista, crente que irá voltar a ver as filhas, e o filho que, depois daquele episódio, e crescendo naquele mundo deprimente, irá desenvolver tendências de auto-destruição.

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As imagens são pouco definidas – o traço leve produz imagens de contornos difusos mas que, mesmo assim, é capaz de produzir extraordinárias paisagens. A pouca definição ajuda a criar o ambiente, um misto de nostalgia perante a beleza que se encontra no fundo, a depressão do fim, e a eterna esperança que caracteriza a espécie humana, capaz de acreditar no impossível: um mundo que está a perder definição.

Na introdução o autor refere ter-se apercebido que, nas suas criações, as personagens são quase sempre pessimistas. Pois bem, terá chegado a hora de criar uma personagem optimista. E não existe sempre alguém, por mais impossível que seja a situação, que é optimista? Ao ponto de parecer estúpido? É o papel da mãe – crente que as sondas enviadas trarão notícias de um mundo habitável, crente que as cidades sobreviveram o tempo necessário, crente de que voltará a reunir a sua família.

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É esta força positiva que, conseguindo roçar a irritação, faz mover a família e a história. Tecendo planos de futuro quase impossíveis e tendo sempre uma palavra ou ideia positiva, resta-lhe tentar dar força ao filho ainda que as esperanças de uma vida melhor o estejam a abandonar rapidamente. O rapaz envolve-se numa disputa estranha e decadente que o levam à prisão e lá espera acabar com a vida antes que outros o atormentem.

Depois de o ler a sensação que ficou foi a ter acabado de ver uma série completa pelo que estranhei algumas das críticas no Goodreads quando fui inserir a leitura, com classificações que oscilam entre o mínimo e o máximo. As queixas resumem-se a três: o extremo optimismo da mãe, o traço pouco definido e demasiadas coisas a acontecer em pouco tempo. Bem, depois da explicação inicial para o optimismo (e talvez pela expectativa criada para a mesma) não foi algo que me tivesse incomodado. Até porque não é um optimismo totalmente desprovido de raízes. Por outro lado, não achei que existissem demasiados acontecimentos. A narrativa é bastante linear e existem poucos saltos entre as escassas personagens. A acção é rápida e são poucos os momentos parados e pouco significativos.

Existe optimismo, mas, restrito a uma personagem, não é suficiente para esconder a corrupção e degradação da espécie humana. Se tivessem meses para viver, em que os utilizariam? Este sentimento de desespero comedido resulta em ironia e perdição – consumo de drogas, sexo sem fim. Nada que não se tenha visto já, e que por isso é explorado de forma comedida. Por isto tudo, e pelos sucessivos episódios de acção, este volume tornou-se numa das melhores coisas que li ultimamente.

Destaque: A Cidade dos Selvagens – Lee Kelly

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Lançado recentemente pela Individual Editora (através da Lápis Azul), e pouco falado até agora, contém uma história que relembra as distopias com traços pós-apocalípticos:

Passaram-se duas décadas desde que a Terceira Guerra Mundial eclodiu, e Manhattan é agora um campo de prisioneiros de guerra, governado por Rolladin, uma natural da ilha que controla os sobreviventes com pulso de ferro. Para Sky Miller, Manhattan é uma jaula que a separa do mundo para lá das fronteiras da cidade. Mas para Phee, a irmã mais nova de Sky, o campo de prisioneiros do Central Park é o único lar que sempre desejou.

Quando um grupo de desconhecidos chega ao Parque com uma notícia chocante, Sky e Phee descobrem que há mais em Manhattan – e na sua família – do que ambas imaginavam. À medida que os segredos perturbadores da ilha vão emergindo à superfície, Sky e Phee não têm outra hipótese senão quebrar as regras para descobrirem toda a verdade acerca da sua história envolta em mistério. Então, dado que a sua busca resulta em violência, as raparigas têm que fugir para as profundezas de Manhattan, onde a procura de um futuro melhor as vai obrigar a confrontar o passado obscuro e chocante da ilha.

O romance de estreia de Lee Kelly é uma jornada a pulso através duma cidade tão estranha quanto familiar, onde nada é apenas preto ou branco, e onde os segredos enterrados nos podem assombrar.

The Wicked + The Divine Vol. 1 – Gillen, McKelvie, Wilson, Cowles

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Como qualquer primeiro volume, é difícil avaliar a série pelo seu arranque mas, por enquanto, ainda não me convenceu: ambiente alienado, personagens estranhas e distantes e uma premissa que pode ser engraçada mas que ainda não mostrou do que é capaz.

Comecemos por esta última, a premissa. A cada 90 anos um conjunto de doze deuses acorda entre os humanos adolescentes, com data de validade expressa e algumas capacidades sobre-humanas. Estes Deuses possuem mentalides correspondentes à adolescência e encaram a vida com aquela aparente indiferença que é tão cool demonstrar, constituindo um género de estrelas pop que concedem aos humanos, pequenos desejos.

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Laura é uma rapariga normal que, obtendo um bilhete de identidade falso, se escapa para ir ao concerto de uma Deusa. Perante o efeito divino sobressai, por ser das últimas pessoas a desmaiar. É assim que é convidada a conhecer alguns Deuses, tentando manter a postura distante que a torna fixe. Durante esta visita começa um tiroteio que acaba com um dos seus Deuses favoritos, preso e incriminado. É assim que a jovem se envolve com os Deuses, tentando ilibar um dos seus favoritos.

Apesar de toda a irreverência que a personagem principal tenta mostrar, transparece ser uma jovem insegura e até passiva – talvez por causa da tentativa de permanecer distante enquanto se rói de excitação pela proximidade aos Deuses, que parecem anestesiados perante a vida e os acontecimentos – é como se tudo decorresse através de um vidro pouco opaco.

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Não são só as acções ou as palavras que me levam a pensar em personagens superficiais – também as imagens. Apesar de ter algumas excelentes, o aspecto gráfico não é dos meus favoritos, apresentando pouco profundidade em grande parte, e pouco detalhe – pouco acontece por detrás da acção principal.

Ao longo da história do primeiro volume percebemos, por pequenos indícios, de que haverá algo mais interessante por detrás da história directa de um deus adolescente incriminado – há personagens mais negras e dementes bem como uma idosa que parece controlar alguns eventos. É no final que estas indícios ganham volume, talvez na tentativa de levar o leitor até ao próximo número.

Assim foi: Recordar os Esquecidos – Janeiro de 2016

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Nesta primeira sessão do ano os convidados eram dois, António Mega Ferreira e Filomena Marona Beja, mas por conta de uma gripe, a sessão ficou apenas com a convidada. Sem problemas – a sessão decorreu mais calma e mais espaçada, com tempo para que o público apresentasse alguns dos seus próprios esquecidos.

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Manuel Teixeira Gomes foi a primeira referência, com Agosto Azul (incluído nas Obras Completas). Viajante curioso, acabou por ir viver para a Argélia, descrevendo nos seus textos a passagem por Colónia com detalhes dos museus ou da música. Na obra em referência destacou-se um episódio bastante vívido, descrito por alguns como erótico, episódio onde se realça a beleza dos corpos.

a paleta e o mundo

Apesar de ter estudado letras (o que lhe permite expressar-se bem na escrita) Mário Dionísio seria, sobretudo, um pintor. A vontade de dizer o que era a arte e de desfazer ideias aceites sobre algumas obras, leva-o a escrever os vários volumes de A Paleta e o Mundo.

retalhes da vida de um medico

A formação médica denota-se no estilo preciso de Fernando Namora, um escritor que foi incluído no Neo-realismo, mas que escrevia sobretudo do que sabia – da vida de médico. Neste livro descreve episódios das povoações anteriores que estando sob a falsa ideia de que o campo seria saudável, estão na verdade na mão de curandeiros e bruxos que lhes pioram as doenças. O médico apenas era chamado quando não havia outra solução e deparava-se com situações em que, para além da doença original, o paciente estava intoxicado com o tratamento tradicional. Através desta exposição Fernando Namora estaria a propor, neste livro, um serviço nacional de saúde.

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Primeira mulher da academia francesa, Marguerite Youcenar (Marguerite Cleenewerck de Crayencour) escreveu Memórias de Adriano que não é propriamente um livro histórico, apesar de conter uma espécie de memórias, falando da vida, das paixões e das suas viagens.

Após esta autora, abriu-se a conversa ao público, tendo sido relembrado João Palma-Ferreira, que era, para além de escritor, tradutor e crítico. Tendo trabalhado na Biblioteca Nacional terá aproveitado para destacar obras esquecidas, e terá divulgado obras de autores menos conhecidos em Portugal como Jorge Luís Borges, Cabrera Infante, Mario Vargas Llosa ou Gabriel García Marquez.

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A última referência Filomena Marona Beja é Marguerite Duras com O Amor e Emily L. O primeiro será um livro intrigante e sem acção, com personagens pouco faladoras, deixando ficar a sensação no final de que, ou estão doidos (dementes, esquecidos) ou estarão a esconder propositadamente as suas memórias. A linguagem será fácil, mas de entendimento enigmático.

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Emily L. é bastante diferente, centrando-se no relacionamento de uma mulher escritora, realçando-se a postura masculina perante a sua ocupação.