The Carpet Makers – Andreas Eschbach

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Eis, inesperadamente, uma das melhores leituras dos últimos tempos, realçada por não ter grande ideia da obra que iria encontrar. O início relembra uma sociedade quase medieval, cruzando várias histórias, em que cada uma se centra numa personagem. Lentamente, o leitor percebe que existe algo maior por detrás do cenário simplista apresentado inicialmente.

O primeiro capítulo apresenta-nos Abron, o filho de um tecedor de tapetes de cabelo, que, tendo frequentado a escola, aprende que existe algo mais do que tecer tapetes, uma descoberta perigosa num mundo de tradições bem rígidas e estrutura hierárquica bem definida: toda a economia do planeta subsiste em torno da fabricação dos tapeste de cabelo, e é uma heresia fugir da profissão que a tradição lhe impõe.

É na primeira referência a cabelo que quem lê se questiona se percebeu bem – para tecer usam-se apenas os fios de cabelo das esposas e filhas do tecedor. Um único tapete demora a vida inteira do tecedor até estar concluído e espera-se o único filho que pode ter (os restantes são mortos) construa o seu próprio, para vender no final aos mercadores. A tarefa terá um sentido quase divino pois espera-se que os tapetes adornem o palácio do Imperador, figura distante e adorada como que a um Deus a quem se atribui, até, o brilho do sol.

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Ilustração de Anne Zimanksi (cliquem na figura para aceder ao site da artista) onde retrata um velho tecedor

Em todos os detalhes do quotidiano o Imperador é uma figura permanente, de quem todos possuem uma foto e adoram, sendo qualquer sinal de rebelião ou dúvida divina recebidos com pena de morte. Mesmo assim circulam pequenos rumores de que o Imperador estará morto há 20 anos, fazendo com que alguns (poucos) percebem que talvez esta seja a razão do lento declínio que observam.

Entre as várias histórias, mais interligadas que os fios dos tapetes em que se centram, vamos percebendo que este planeta é uma microscópica parte do imenso império intergaláctico sobre o qual o Imperador governará. O papel irónico dos milhares de tapetes que vão sendo tecidos em vários dos mundos é  um mistério que se adensa a cada capítulo, para ser percebido apenas no final, num planeta paradisíaco muito distante.

Cada capítulo é, em si, uma história completa e bem construída que vai fornecendo pistas para as restantes. Não falta a ironia da vida, nem os factos insólitos, numa perspectiva que poucas vezes é alegre ou até positiva. A forma como se vai construindo a história maior é sublime, fornecendo pistas para o lugar das personagens que vamos conhecendo.

No final, ficou-me a sensação de uma história excepcional que merece maior destaque do que parece ter-lhe sido concedido, talvez por não ser um trabalho de origem anglosaxónica, uma obra que parece quase esquecida.

Scattered Among Strange Worlds – Aliette de Bodard

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Vencedora de dois prémios Nebula, um Locus, e um BSFA, Aliette de Bodard é um daqueles nomes que, até há bem pouco tempo, não me tinha despertado interesse. O que mudou? Aparecer na lista de autores convidados para a Eurocon de Barcelona. Com o aproximar do seu próximo livro a publicidade levou-me a experimentar este pequeno volume que contem duas histórias da autora, e que, no meu entender é poluído por tentativa adicional de publicidade – excerto de uma obra e bibliografia. Sim – cada vez gosto menos de excertos forçados goela abaixo, principalmente por já ter lido alguns incauta.

Mas esqueçamos este detalhe. As duas histórias são bastante boas, debruçando-se em duas civilizações em êxodo, embora com motivos diferentes. Na primeira, Scattered Along the Rivers of Heaven, uma jovem regressa à cidade natal para o enterro da avó, uma cidade carregada de nanotecnologia que é comandada por uma poderosa família que aproveita para constituir um pequeno império de hierarquia quase feudal.

Apesar do ambiente forte em tecnologia numa sociedade não ocidental, a história, bastante menos linear do que faço parecer e bem construída, não se realçou no Universo de histórias que tenho lido anteriormente. (SPOILER ALERT – texto em itálico que se segue). Sem ter verdadeiras consequências, do ponto de vista da personagem principal o mundo irá continuar como antes, sendo as suas origens uma recordação distante que não compreende e pela qual não possui grande interesse. 

A segunda, Exodus Tides, interessou-me bastante mais, centrando-se numa rapariga que se vai apercebendo que, apesar de viver em França, esta não é a origem da sua família. A cada visita ansiada o tio traz-lhe tesouros do mar e entre os sussurros dos adultos constrói uma imagem romanceada do pai, responsável pela salvação da civilização sub-aquática em que terão tido origem.

A criança transita rapidamente da inocência infantil para a adolescência, apercebendo-se que nem todos os heróis possuem uma espada para lutar, e que nem todos os actos corajosos se resumem a lutas contra monstros; e que o seu quotidiano é marcado pelo receio de serem descobertos como diferentes daqueles que os rodeiam, oriundos de uma outra civilização.

Apesar da leitura não ter tido origem na recente confusão dos prémios Hugo, a verdade é que é bastante adequada ao tema, principalmente depois de lermos o artigo, da autora sobre o tema, em que apresenta a iniquidade na literatura de género, centrada em vozes padronizadas de autores homens, brancos e heterossexuais.

Pessoalmente acho interessante ver histórias com diferentes perspectivas e culturas. Lendo neste contexto ou fora dele (com foi o meu caso), ambas as histórias nos apresentam personagens pouco usuais: num uma jovem de origem asiática que não se revê na cultura de origem, no outro uma criança em que, crescendo, começam a despertar interesses diferentes.

Assim foi: Sustos às sextas (sessão de 17 de Abril)

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E chegámos à quarta sessão! A vantagem de chegar um pouco antes da hora é poder passear descansadamente pelas salas onde se encontram sempre expostas algumas peças de arte interessantes. Desta vez encontramos alguns quadros alusivos ao 25 de Abril, e entre eles, esta peça belíssima, mas também arrepiante.

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Após uma curta apresentação inicia-se a noite, com a declamação de poemas de horror, por Pedro Nunes Sazabra, mais propriamente dos poemas O Adão Inverso  e Um Mal Fascinante de Baudelaire. Componente curta da noite, mas em que a voz iniciou o tom negro que marcou esta sessão. Seguiu-se a interpretação do tema A Água Benta, de Chanson Noire. Assim que se senta o artista põe-se à vontade e revela uma voz espectacular que enche o espaço. Bem, espectacular talvez não seja bem o termo – a palavra que me vem à cabeça é mesmo brutal, pelas inflexões com que acompanha e se sobrepõe ao piano. Perde a visualização de qualquer vídeo quando comparada com a versão ao vivo – e mesmo não apreciando especialmente este género de música, este foi um dos grandes momentos da noite.

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O outro grande momento foi, claro, a palestra de David Soares, um exímio orador que nos levou por uma viagem, ao longo de vários tempos e culturas, entre os vários tipos de canibalismo, matando-se humanos para lhes comer a carne, ou aproveitando-se os restos mortais em mesinhas e remédios. Práticas que para nós tudo têm de bárbaro, mas que, para aqueles que naqueles tempos viviam, tudo tinha de óbvio. E claro que esta é uma descrição bastante simplista do discurso que ocupou a maior parte da noite e que intercalou costumes obscuros com histórias clássicas horripilantes, arrancando pequenas risadas da audiência que experimentou, em simultâneo, o fascínio e a repulsa.

Infelizmente, a noite para mim terminou aqui, mas para os que ainda ficaram, a sessão terá terminado como começou – mais música, mais declamação. Ah ! E um magnífico bolo (pelas fotos) para David Soares, que faria anos nesse dia.

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Foto retirada da página oficial do facebook

 

No global, esta foi uma sessão mais coerente em tom e temática, em que as várias componentes do programa combinaram para um ambiente mais negro e interessante. Como nas sessões anteriores, é de realçar o esforço e o gosto dos organizadores em proporcionar um serão bem passado, num local que tem tudo de perfeito para a dimensão do evento.

Resumo de Leituras – Abril (3)

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53 – O Japão é um lugar estranho – Peter Carey – pelo menos para os ocidentais, o Japão pode ser um local bastante estranho, onde o choque de culturas provoca cómicos e embaraçosos episódios. Fascinando pelo anime Peter Carey organiza uma pequena viagem ao Japão com o filho, efectuando um roteiro alternativo centrado na indústria de animação.

54 – Sepulturas dos pais – David Soares – pequena e fascinante banda desenhada, de história sombria mas simultaneamente mágica, com lugar para o amor e para a tragicidade. O traço de André Coelho adapta-se bem à narrativa, fazendo-a ganhar ainda maior escuridão.

55 – Enciclopédia da Estória Universal – Arquivos de Dresner – Afonso Cruz – tendo lido recentemente Mar (o último volume publicado) não achei este tão fascinante. Ainda assim contem esplêndidas histórias, menos interligadas mas bastante aprazíveis, com sonetos perdidos e tribos de filosofia peculiar.

56 – Locke & Key Vol3 – Joe Hill – o terceiro volume continua a história negra dos restantes, desenvolvendo e revelando pouco da história principal, mas contribuindo para o crescer da tensão ao saírem frustados, novamente, os planos das forças maléficas que rodeiam a mansão das chaves.

Destaque da semana: Dias de sangue e Glória de Laini Taylor

dias de sangueEis uma trilogia que a Porto Editora parece empenhada em publicar. Apenas dois meses após o lançamento do primeiro volume (A Quimera de Praga) eis já o segundo, Dias de Sangue e Glória. Apesar de ser uma trilogia juvenil merece destaque por ser uma das sagas fantásticas que consta sempre nas listas anuais da Locus como melhores lançamentos juvenis. Também os podem encontrar nas listas de melhores lançamentos do ano do The New York Times e Barnes & Nobles. Deixo-vos a ligação para um excerto disponibilizado pela editora, bem como a sinopse:

Karou, antiga estudante de Arte, quimera revenante e aprendiz de ressurrecionista, tem finalmente as respostas que sempre procurou. Sabe quem é e o que é. Porém, com este conhecimento vem outra verdade que ela daria tudo para desfazer: amou o inimigo e foi traída, e um mundo inteiro sofreu por isso.

Agora, sacerdotisa de um castelo de areia numa terra de poeira e estrelas, profundamente só, Karou tenta recriar o universo do seu passado, contribuindo, com a sua dor e a sua mágoa, para a volta gloriosa das quimeras. Porém, sem Akiva, e sem o seu sonho de amor partilhado, o caminho da esperança afigura-se impossível de trilhar.

Repleto de desgosto e beleza, segredos e escolhas impossíveis, Dias de Sangue e Glória encontra Karou e Akiva em lados opostos de uma guerra tão antiga como o tempo.

Últimas aquisições

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Entre livros em segunda mão e promoções, eis as últimas aquisições. O conjunto é encabeçado por dois livros de Ray Bradbury, lançados em português pela Livros da Brasil na colecção Argonauta. Ray Bradbury, que dispensa apresentações, é responsável por alguns dos meus livros favoritos – Something Wicked This Way Comes, Fahrenheit 451 ou The Martian Chronicles. Estes, As Máquinas da Alegria e Os Frutos Dourados do Sol são duas colectâneas de contos. Deixo aqui a pequena sinopse do segundo:

The captain who takes a rocket to the sun to bring back a cup of sunlight, and the loveless girl who travels at night into bodies not her own, are just two of the characters to be encountered in this selection.

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Segue-se Turing de Christos H. Papamidimitriou e The Witch & Other Stories, uma colectânea de contos de Anton Chekhov. O primeiro é um curioso volume caracterizado como ficção científica mas que, até ao momento, me parece mais uma mistura entre romance e divulgação científica, em que as personagens principais têm um tórrido romance, e nos entretantos encontram um poderoso e inteligente motor de busca. Deixo-vos a sinopse:

Our hero is Turing, an interactive tutoring program and namesake (or virtual emanation?) of Alan Turing, World War II code breaker and father of computer science. In this unusual novel, Turing’s idiosyncratic version of intellectual history from a computational point of view unfolds in tandem with the story of a love affair involving Ethel, a successful computer executive, Alexandros, a melancholy archaeologist, and Ian, a charismatic hacker.

After Ethel (who shares her first name with Alan Turing’s mother) abandons Alexandros following a sundrenched idyll on Corfu, Turing appears on Alexandros’s computer screen to unfurl a tutorial on the history of ideas. He begins with the philosopher-mathematicians of ancient Greece — “discourse, dialogue, argument, proof… can only thrive in an egalitarian society” — and the Arab scholar in ninth-century Baghdad who invented algorithms; he moves on to many other topics, including cryptography and artificial intelligence, even economics and developmental biology. (These lessons are later critiqued amusingly and developed further in postings by a fictional newsgroup in the book’s afterword.)

As Turing’s lectures progress, the lives of Alexandros, Ethel, and Ian converge in dramatic fashion, and the story takes us from Corfu to Hong Kong, from Athens to San Francisco — and of course to the Internet, the disruptive technological and social force that emerges as the main locale and protagonist of the novel.Alternately pedagogical and romantic, Turing (A Novel about Computation) should appeal both to students and professionals who want a clear and entertaining account of the development of computation and to the general reader who enjoys novels of ideas.

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Os dois volumes da Alfaguara despertaram-me interesse pelas suas peculiares sinopses e pelas promoções de 50% da Bertrand. O primeiro, A Rocha Branca de Fernando Campos, parece explorar e transformar os contos mitológicos:

Na ilha de Lesbos, plantada no Mar Egeu, existiu uma poetisa que via no amor fonte inesgotável de inspiração para os poemas líricos que compunha. Esta é a história da poetisa mais famosa da antiguidade clássica: Safo de Lesbos. Encontramos Safo já viúva e com uma filha. Instigada pela fama de um certo jovem de beleza irresistível e sequiosa de viver novamente o amor, Safo enamora-se de Fáon, um velho barqueiro de Mitilene que as artes mágicas da deusa Afrodita transformaram no mais belo rapaz que alguma vez existiu. Dizem que o seu olhar é de luz mas a sua alma de gelo. O drama reside em que a alma ardente e jovem de Safo, presa no invólucro da velhice, ama o corpo jovem de Fáon, que encerra um espírito velho e desapaixonado. Mas Safo parece ignorar essa diferença e entrega-se sem reservas à paixão pelo homem de olhar fenício.que aconteceu naquele dia na rocha branca de Lêucade fez daquele lugar destino de peregrinação de muitas mulheres desesperadamente apaixonadas.

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A segunda vinda de Cristo, de John Niven, parece ser uma sátira:

«Sê Simpático». Foi este o único mandamento que Deus entregou a Moisés. E ninguém poderia ter adivinhado o resultado da insatisfação deste último ao recebê-lo das mãos do Senhor… Estamos em 2011 e Deus acabou de regressar de umas férias retemperadoras, apenas para encontrar a Sua criação virada do avesso: guerras mundiais, o Holocausto, fome, capitalismo desenfreado e… Cristãos. Cristãos por todo o lado. Inteirado por S. Pedro sobre os últimos acontecimentos na Terra, Deus decide que a única hipótese de repor a ordem é voltar a enviar o filho, Jesus, e esperar pelo melhor. Renascido no Midwest americano, e a tentar singrar como cantor e guitarrista em Nova Iorque, Jesus, JC para os amigos, encontra no programa de talentos Estrela Pop Americana a forma mais eficaz de chegar aos corações de todos e veicular a mensagem mais importante de todos os tempos, há muito perdida: «Sê Simpático.» E tudo parece estar a correr bem, mas a Humanidade tem má memória… Irreverente, chocante e hilariante, “A Segunda Vinda de Cristo” não usa de subterfúgios para criticar a religião organizada, a sociedade consumista, a desmedida obsessão pela fama e a cultura da mediocridade, imaginando o que aconteceria se o filho de Deus voltasse a pisar chão terreno.

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Por último, um livro de contos, de Clarice Lispector e uma banda desenhada que ando há muito tempo para adquirir, I Kill Giants, publicada em português pela Kingpin Books sobre a qual podem ler mais por aqui.

 

Colecção 1001 Mundos – Gailivro

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Aqui está uma colecção que, há alguns anos atrás, me fez ter esperança na tradução de grandes títulos de ficção científica em língua portuguesa. Para além de ter publicado livros de autores nacionais (relembro Se Acordar Antes de Morrer de João Barreiros ou As atribulações de Jacques Bonhomme de Telmo Marçal), teve a ousadia de publicar, entre menos interessantes romances de fantasia urbana, títulos como Ar de Geoff Ryman, Brasil de Ian MacDonald, ou Onde os últimos pássaros cantaram de Kate Wilhelm. Talvez para despachar stock, alguns destes excelentes livros encontram-se agora a 3.50€ na FNAC (ou 3.15€ para aderentes – link para a colecção onde se incluem os que estão a este preço). Eis alguns dos que li e que aconselho.

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De capa peculiar que não me faz pensar no tema do fantástico, reúne vários contos, alguns de horror, de reviravoltas inesperadas e finais abprutos, onde as personagens nos apresentam a sua estreita visão dos acontecimentos. Destaca-se um conto que relembra os Ghouls, bem como um distópico onde as pessoas procuram ser hospitalizadas para beneficiarem das condições da estadia. Esqueçam o optimismo, isto é a selva da vida real – tudo é negro e poucas vezes a história termina bem. Caso pretendam saber um pouco mais do livro, há alguns anos fiz um pequeno texto de opinião.

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Apesar de ser pelo menos o terceiro livro publicado em português de Geoff Ryman, e de já ter vindo a Portugal pelo menos duas vezes, não acho que seja um autor conhecido pelo público português, mesmo aquele que aprecia o género. Antes de Ar foram publicados The Warrior who Carried Life (O Guerreiro que trazia a vida) pela Editora Caminho na coleccção Caminho Ficção Científica e The Child Garden (O Jardim de Infância) na colecção Limites da Clássica Editora. Vencedor de vários prémios, este Ar apresenta-nos um mundo semelhante ao nosso onde se desenvolveu a possibilidade de os humanos se ligarem cerebralmente à net, sem recurso a qualquer aparelho. Algo interessante que, numa aldeia tradicional se transforma em pânico. Caso queiram ler algo mais, deixo aqui link para opinião mais detalhada.

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Capa futurista estonteante (da autoria de Martiniere), Brasil assemelha-se a River of Gods, livro favorito do autor, pela apresentação de várias histórias interligadas. Neste caso as histórias decorrem em épocas diferentes, uma no passado, outro no presente, e uma terceira no futuro, explorando temas tão distintos como a escravidão, a crueldade dos reality shows e até a sexualidade. Deixo-vos link para opinião mais longa.

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Novamente o tema das capas, mas não se afastem do livro por causa da capa. Volume incluído nos Scifi Masterworks foca-se num mundo onde a poluição excessiva provocou o declínio da fertilidade nos seres humanos. De tal forma que um grupo de cientistas resolveu optar pela clonagem perpetuando-se a si próprios e aos seus familiares. Ao invés de se salvar a humanidade cria-se quase uma espécie separada, onde os clones demonstram pouco empatia pelos humanos e desenvolvem uma cultura alienada com valores diferentes.

Para além destes títulos que se encontram agora a preço excelente (e que por isso aproveitei para destacar) a colecção inclui também outros excelentes títulos como Cornos de Joe Hill, O Medo do Homem Sábio de Patrick Rothfuss, Metro 2033 de Dmitry Glukhovsky ou O Homem Pintado de Peter V. Brett.

 

 

Locke & Key – Joe Hill e Gabriel Rodriguez (Volumes I, II e III)

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Eis os três primeiros volumes de uma série de terror que tem sido recomendada pelo João Barreiros a cada Fórum Fantástico, e vencedora de alguns prémios no género: British Fantasy Award (em 2009 e 2012) e Eisner Award (2011). Da autoria de Joe Hill, são notáveis alguns dos elementos que estão também presentes nos seus livros, misturando sobrenatural e violência, por vezes em torno de objectos, neste caso de chaves, cuja origem desconhecemos.

A história inicia-se com as férias no campo de uma típica família urbana. Os filhos estão revoltados pelo afastamento das diversões que conhecem, mas os pais tentam envolvê-los nas tarefas do campo. Cedo esta imagem pacífica se transforma num cenário negro e violento quando dois intrusos matam o pai. Felizmente, ao enfrentarem os restantes membros da família acabam por morrer às mãos destes. Este episódio sangrento que abre a história irá obrigar a família a mudar-se para uma nova cidade – na verdade, para a cidade natal do pai.

 

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Mansão antiga, carregada de sombras, mistérios e monstros, não será o local mais apropriado para a família recuperar. A mãe inicia sucessivos episódios de bebedeira irresponsável, sem se aperceber dos perigos que os rodeiam, enquanto os filhos mais velhos, na adolescência, encontram-se entre a rebeldia própria da idade e a revolta pelos episódios de violência de que fizeram parte. Já o filho mais novo parece o mais estável de todos, aproveitando para explorar a propriedade, encontrando um poço de onde surge uma bela mulher que o convence a procurar as chaves.

E é em torno das chaves que roda todo o mistério – chaves que atraem outros poderes malignos que começam a rondar a família, chaves com poderes incríveis, como deixar o próprio corpo e vaguear como um fantasma, ou abrir a cabeça e poder escolher que memórias manter ou acrescentar. Entre a quase inocência do dia a dia encontram-se episódios insólitos de aventura adolescente, e de inusitada maleficência nos ataques cuidadosos que se vão criando contra a família.

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Devagar vamo-nos apercebendo das várias personagens sombrias que envolvem a família, de entre os quais se destaca um amigo da rapariga, um rapaz que não envelhece decorridas algumas décadas e que será um dos que procura as chaves. Personagem suspeita que vemos entrar e sair da mansão, de objectivos escuros, que não olha a meios para conseguir o que pretende.

Com todos estes elementos é uma história que evolui lentamente, explorando, a cada volume, as capacidades de uma nova chave, poderes que serão vantajosos nas pequenas lutas que se vão desenvolvendo e que possibilitam afastar as trevas por breves momentos. Toda a história se encontra envolva em sombras enquanto cresce a frustração das personagens maléficas e consequentemente a tensão que resulta em maiores confrontos.

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À espera de … (lançamentos internacionais)

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Apesar de não conhecer nada da autora, o facto de ser uma convidada da Eurocon de Barcelona (2016) despertou-me o interesse. Este será o próximo livro da autora, a ser lançado em Setembro deste ano:

In the late Twentieth Century, the streets of Paris are lined with haunted ruins. The Great Magicians’ War left a trail of devastation in its wake. The Grand Magasins have been reduced to piles of debris, Notre-Dame is a burnt-out shell, and the Seine has turned black with ashes and rubble and the remnants of the spells that tore the city apart. But those that survived still retain their irrepressible appetite for novelty and distraction, and The Great Houses still vie for dominion over France’s once grand capital.

Once the most powerful and formidable, House Silverspires now lies in disarray. Its magic is ailing; its founder, Morningstar, has been missing for decades; and now something from the shadows stalks its people inside their very own walls.

Within the House, three very different people must come together: a naive but powerful Fallen angel; an alchemist with a self-destructive addiction; and a resentful young man wielding spells of unknown origin. They may be Silverspires’ salvation—or the architects of its last, irreversible fall. And if Silverspires falls, so may the city itself.

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Apesar de desconhecer o autor, o conjunto parece interessante, prometendo histórias fantásticas bastante negras:

From British Fantasy Award-winning author Ray Cluley comes Probably Monsters – a collection of dark, weird, literary horror stories. Sometimes the monsters are bloodsucking fiends with fleshy wings. Sometimes they’re shambling dead things that won’t rest, or simply creatures red in tooth and claw. But often they’re worse than any of these. They’re the things that make us howl in the darkness, hoping no one hears. These are the monsters we make ourselves, and they can find us anywhere…

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Depois de várias excelentes críticas a única coisa que me fez não adquirir o The Loney foi o preço proibitivo das boas edições da The Tartarus Press. Felizmente o livro tornou-se conhecido o suficiente para garantir uma edição mais em conta que tem data marcada para Agosto. Por enquanto apenas vou olhando para a sinopse:

If it had another name, I never knew, but the locals called it the Loney – that strange nowhere between the Wyre and the Lune where Hanny and I went every Easter time with Mummer, Farther, Mr and Mrs Belderboss and Father Wilfred, the parish priest.

It was impossible to truly know the place. It changed with each influx and retreat, and the neap tides would reveal the skeletons of those who thought they could escape its insidious currents. No one ever went near the water. No one apart from us, that is.

I suppose I always knew that what happened there wouldn’t stay hidden for ever, no matter how much I wanted it to. No matter how hard I tried to forget . .

 

Odília – Patrícia Portela

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Tendo lido, recentemente, O Caso do Cadáver Esquisito e MicroEnciclopédia (…), resolvi explorar mais um pouco alguns dos autores que participaram nesses dois projectos. Pedro Medina Ribeiro já conhecia, com A Noite e o Sobressalto e O Diletante e A Quimera, bem como Afonso Cruz, mais conhecido pelos volumes de Enciclopédia da Estória Universal. Neste seguimento, dois nomes me chamaram à atenção, Joana Bértholo e Patrícia Portela, sem me recordar que a Patrícia Portela tinha participado no Fórum Fantástico deste ano. Assim peguei em Para Cima e não para Norte e em Odília.

Pequeno volume publicado pela Caminho, destaca-se visualmente pelas mesmas razões que Para Cima e não para Norte, com texto disperso pela página, algo que confere algo mais à experiência de leitura, pela forma como se nos apresentam as letras. Mas se foi algo que resultou muito bem no contexto de Para Cima e não para Norte, aqui foi algo que achei de uso exagerado.

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A história decorre em torno de uma Musa, de nome Odília, que procura ocupação em tarefas inspiradoras, respondendo a um anúncio de contornos oportunistas. Chegando atrasada, não consegue ocupar uma das vagas, e sai correndo atrás do seu cão, embatendo em Penélope, acabando por se tornar grande amiga desta. Mas não pensem que esta é uma amizade normal, até porque Odília não é uma rapariga normal – relembro que é uma Musa. De desventura em aventura, Odília descobre finalmente o que lhe falta e a sua vocação.

Ainda que Odília constitua um exercício de escrita bastante peculiar, pela formatação do texto de acordo com a história que narra, não foi, em termos de história, algo que me entusiasmasse. Sem grande fio conductor ao longo da história tem mais interesse pela perspectiva visual do que propriamente pelo conteúdo.

Resumo de Leituras – Abril de 2015 (2)

49 – Komodo – Jeff Vandermeer – uma estranha história transdimensional, angelical e simultaneamente alienígena de fuga e desespero. O autor anda para trás e para a frente nas suas observações, corrigindo-as passados poucos parágrafos, propositadamente. Sem ser excelente, é uma leitura engraçada.

50 – O coração é um predador solitário – João Barreiros – este é um dos contos disponíveis gratuitamente através do código no bar steampunk O Arranca-corações. Conto excelente de João Barreiros, sobre o qual falarei mais em post próprio.

51 – O Último Europeu – Miguel Real ficção utópica ou distópica portuguesa, que descreve uma sociedade estável na Europa, isolada por discos protectores, mas cobiçada pela Grande Ásia, uma nação poderosa com mais habitantes do que aqueles que consegue suportar. Um exercício muito interessante de possibilidades sobre o qual pode ler mais no comentário ao livro (aqui).

52 – Odília – Patrícia Portela – de estilo semelhante a Para cima e não para baixo, centra-se nas musas literárias. Apesar de engraçado, o formato aberto do texto nesta história não funciona tão bem, principalmente nas partes em que a mesma expressão de repete por quase toda a página.

As histórias circulares de Zoran Zivkovic

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Escritor sérvio, vencedor do World Fantasy Award, tem muito mais obras do que aquelas que foram publicadas em português pela Cavalo de Ferro, cerca de 22 livros de ficção e 8 não ficcionais, destacando-se em quase todas a forma como a fantasia se entrelaça com a realidade (ou a realidade com a fantasia) e como joga com os papéis transcendentes de leitor e de escritor.

Vários dos seus livros apresentam conjuntos de histórias surreais centradas num só tema, episódios em torno de diferentes personagens que são apresentados de forma totalmente autónoma, até ao final, que nalgumas colectâneas é de tirar o fôlego. Esta é a forma de apresentação dos primeiros trabalhos, que tem sido atenuada nos últimos livros, que apesar de labirintos, constituem histórias únicas e contínuas, sem este entrelaçar de diferentes contos.

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Primeiro trabalho ficcional em que se denotam os jogos que caracterizam os livros, alternando várias histórias que são, afinal uma só, contada em várias perspectivas, em torno do círculo e da constante que a ele está intimamente relacionada.

Romances ou colectâneas, depois de se lerem algumas das suas obras vê-se levantar um padrão, uma exploração consistente de ideias e de hábitos, que se vão completando. Em quase todos, romances ou conjuntos de contos, se apresentam episódios enredados por coincidências imprevisíveis, onde pequenos detalhes bem posicionados conferem grande magia à história conjunta.

Os temas vão surgindo de forma recorrente: misteriosas lojas de chá, bibliotecas diversas com livros peculiares, a relação escritor / leitor / livros, gatos e encontros com Deus ou o reconhecimento da perfeição da natureza. Este último bastante explorado no primeiro livro, The Fourth Circle – a perfeição matemática reflecte uma perfeição natural superior, alvo de preocupação em várias histórias que se vão centrando no círculo.

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À esquerda as edições pela Aio Publishing Company (todas com relevo que não se percebe na foto). À direita, a edição da PS Publishing que agrega Time Gifts, Impossible Encounters, Seven touches of Music, The Library e Steps Throught the Mist. Ao Centro a edição portuguesa de A Biblioteca pela Cavalo de Ferro.

O tema de perfeição volta a ser central em Seven Touches of Music, colectânea que nos apresenta sete contos em que a música tem um papel fulcral, parecendo não só retratar a perfeição do Universo como ser a expressão do Criador, um músico experiente. Mas este conjunto é mais do que esta expressão de perfeição divina. Em quase todos os contos um momento mágico quebra a monotomia e transforma, temporária ou definitivamente, a realidade, consoante a personagem que assiste decide, ou não, ignorar o pequeno momento. Assim é a magia – suficientemente bem colocada para se assemelhar com a realidade e se confundir com o quotidiano.

Deus volta a ser figura central em Impossible Encounters num encontro directo, numa das histórias de encontros impossíveis em que personagens fictícias ganham corpo e batem à porta do escritor, e alienígenas deambulam em lojas de ficção científica. Novamente se explora a relação entre o autor e a sua obra, a exploração das personagens que será tão fulcral em O Grande Manuscrito, e que é a base de The Writer, The Book, The reader.

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À esquerda a edição conjunta das três obras pela PS Publishing, com capa de Luís Rodrigues. À direita a publicação isolada de Miss Tamara, The Reader, em edição mais discreta pela Kurodahan Press.

The Reader segue Miss Tamara em momentos distintos da sua vida, oito episódios peculiares que envolvem a actividade simultaneamente lúdica e mágica da leitura, em ocorrências surreais: ora desaparecem letras dos livros, ora aceita ler, em voz alta, um livro misterioso. Este fascínio por livros é visível ao longo da obra de Zoran Zivkovic e é algo que caracteriza uma das suas obras mais conhecidas: A Biblioteca, um conjunto de seis bibliotecas, cada uma mais fantástica, impossível e deliciosa que a anterior: virtual, particular, nocturna, infernal, mínima e requintada.

E é esta paixão pelo livro enquanto objecto físico e portal para novas experiências que tem sido também evidente nas últimas obras, sendo que em The Last Book somos levados a uma livraria onde se sucedem as mortes por folhear um livro misterioso que todos procuram, mas que só alguns infelizes encontram. Já em O Grande Manuscrito, centrado também nos livros, explora-se o papel sobrenatural de criador do próprio escritor.

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Em cima a edição portuguesa pela Cavalo de Ferro (de realçar que não existe edição inglesa). Abaixo as edições pela PS Publishing de The Last Book e The Ghostwriter, ambos publicados mais tarde em português pela Cavalo de Ferro.

Outra constante são as casas de chá. Uma parte significativa da história de The Last Book ou de O Grande Manuscrito decorre em casas de chá, sombrias e enigmáticas, que se revelam muito mais que simples estabelecimentos onde se bebem chávenas de chá, antes locais suspensos no tempo que se estabelecem como palco às reflexões e descobertas mais essenciais.

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É também a casa de chá que é peça fundamental em 12 Collections & The Teashop, um conjunto de 12 contos em torno de colecções peculiares, desde fotografias que mostram sempre o mesmo cenário e o mesmo homem, a colecções de sonhos. Fragmentos físicos do nosso corpo, memórias ou fragmentos do nosso passado – tudo é catalogável e coleccionável. Mas é na casa de chá que todas estas histórias se unem, num romance entrelaçado em mistério. Palco singular que ocupa um papel essencial, a casa de chá deixa de ser o espaço calmante e unificador que conhecemos em O Grande Manuscrito, em que esta perspectiva é quebrada, uma forma de abalar os hábitos do leitor.

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À esquerda a edição da PS Publishing agregadora das seguintes obras: Four stories till the end, The Square, Amarcord e First Photograph. À direita as edições da Kurodahan Press.

Outro dos elementos recorrentes é a memória. Se em 12 Collections and the teashop se coleccionam memórias, em Amarcord o autor apresenta-nos dez histórias em torno da mesma, desde criminosos sem memória que iniciarão uma nova vida, ao comercio de lembranças – episódios separados que se entrelaçam num final de tirar o fôlego.

E finalmente, os encontros impossíveis, título unificador para as algumas das várias colectâneas, mas também explorado em  The Bridge, que reúne três encontros num elemento centralizador menos forte do que é usual. Um homem encontra-se a si próprio, uma idosa cruza-se com a vizinha falecida, e uma jovem reconhece o filho que ainda não nasceu. Em todos os casos as três personagens decidem-se a seguir as figuras com as quais se encontram, assistindo a estranhos e surreais episódios que relembram sonhos.

Entre livros, chá e pedaços de memória aguarda-se ansiosamente o próximo livro.

O Japão é um lugar estranho – Peter Carey

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O Japão é um lugar estranho – e é esta estranheza que Peter Carey nos transmite. Depois de ter sido contagiado pelo filho no interesse por Anime e Manga, decide-se a visitar o país com um roteiro alternativo e pouco tradicional, centrado em visitar estúdios e conhecer pessoas envolvidas na indústria animada, em busca daquilo que designam como o Verdadeiro Japão.

Decerto que o Booker Prize que venceu (por duas vezes) ajudou a abrir algumas portas, mas é com um olhar totalmente ocidental que nos descreve os sucessivos mal entendidos – interpretações erradas ou simplesmente confusas, onde se denota a falta de subtileza ou de perspectiva cultural. Quer a evolução da cultura japonesa, quer o trauma dos bombardeamentos sucessivos tornam a compreensão difícil para os forasteiros, das múltiplas derivações de um filme animado que possui muitos indícios de algo mais do que uma simples aventura infantil.

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Por várias vezes vemos Peter  Carey insistindo (até em demasia) em questões que deixam os visados confusos pelas ligações incompreensíveis, ou tentando tirar conclusões precipitadas – as diferenças culturais, sejam de índole histórica, sejam de índole quotidiana, impedem que as duas partes se compreendam e chegam a aborrecer os dois lados da barreira cultural.

No entanto, são realmente estes detalhes que me levaram a gostar do livro. Peter Carey não tenta fazer-se passar por um entendido, mostrando confusão e ignorância (às vezes até arrogância) quando tenta depreender erradamente relações de causa efeito na cultura japonesa. Apesar de descrever os japoneses como gentis, apercebe-se que é percepcionado como mal educado, pela forma directa com que se dirige e age perante os restantes. Mas dadas as diferenças culturais, quem poderia ter-se saído melhor, não tendo estudado detalhadamente os hábitos e costumes?

Últimas aquisições digitais (algumas gratuitas) – internacional

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Neil Clarke, editor da revista Clarkesworld Magazine, lançou-se numa nova revista, a Forever, que pretende conter, por cada número, dois contos e uma novela. O primeiro volume já foi lançado e é gratuito (basta clicar aqui e seguir para a página do editor), contendo uma novela de Ken Liu, e dois contos, um de Peter Watts e outro de Susan Palwick.

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Para quem gosta de horror lovecraftiano, esta revista publica mensalmente ficção de vários autores conhecidos e lançou há pouco tempo packs anuais a preço razoável. Mesmo assim, disponibiliza gratuitamente alguns conjuntos, em troca de uma subscrição por e-mail no blog oficial (clicar aqui para instruções mais detalhadas).

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Este é o volume gratuito deste mês pela Samsung Book Deals (para quem tem kindle através do tablet da Samsung é disponibilizado um livro por mês). Este é o de Abril (e não, não é mentira). Não se julga um livro pela capa, mas esta não me parece auspiciar grande coisa. Talvez com a sinopse:

Rigel has always known he is not quite human, but the only clue to his origin is the otherworldly bracelet he has worn since childhood.

His search for his parentage leads him to the Starlands, where reality and fantasy have changed places. There he learns that he is a human-starborn cross, and his bracelet is the legendary magical amulet Saiph, which makes its wearer an unbeatable swordsman. Fighting off monsters, battling a gang of assassins seeking to kill him, Rigel finds honorable employment as a hero. He knows that he must die very soon if he remains in the Starlands, but he has fallen hopelessly in love with a princess and cannot abandon her.

Through the imaginative landscape of the Starlands, Rigel’s quest leads him to encounter minotaurs, sphinxes, cyclops, and more fearsome creatures in Dave Duncan’s latest fantasy series.

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Esta antologia chega ao quarto volume, com histórias de Caitlin R. Kiernan e Michael Swanwick, entre outros, e está em promoção, com o excelente preço de 0.99 na Amazon:

In the spirit of classic science fiction anthologies such as Universe, Orbit, and Starlight, master anthologist Jonathan Strahan (The Best Science Fiction and Fantasy of the Year) presents the non-themed genre anthology Eclipse: New Science Fiction and Fantasy. Here you will find stories where strange and wonderful things happen–where reality is eclipsed by something magical and new.

Continuing in the footsteps of the multiple-award-nominated anthologies Eclipse One, Eclipse Two, and Eclipse Three, Eclipse Four delivers new fiction by some of the genre’s most celebrated authors, including Andy Duncan’s tale of a man’s gamble that he can outrun a bullet; Caitlin R. Kiernan’s story of lovers contemplating the gravity of a tiny black hole; Damien Broderick’s chronicle of a beancounter who acquires a most curious cat; Michael Swanwick’s tale of the grey man who pulls an unhappy woman from the path of an oncoming train; Nalo Hopkinson’s story of ghosts haunting a shopping mall; and Gwyneth Jones’s story of an alien priest who suffers a crisis of faith…

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Pela Humble Bundle chega mais um conjunto de livros de ficção científica, onde, pelo preço que se quiser se pode adquirir um bom conjunto de livros. Como é habitual quem oferecer um pouco mais que a oferta média ganha mais uns quantos livros, e quem oferecer mais do que 15 dólares, ganha ainda mais livros. Eis o link. De realçar que o conjunto conta com Beasts of Tabat de Cat Rambo (que adquirido isoladamente custa mais de 7 dólares).

Para quem este conjunto não lhe agrada, tem ainda o StoryBundle, que mais regularidade anuncia conjuntos agradáveis por condições semelhantes, e se encontra neste momento com dois conjuntos, um de fantasia juvenil e outro de viagens no tempo. Já agora, fica a dica, para os assinantes da Newsletter de vez em quando enviam livros gratuitamente.

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Destaque da semana: Bestiário de Julio Córtazar

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O lançamento de Bestiário encontra-se agendado para este mês, pela Cavalo de Ferro. Eis informação sobre o livro, publicada pela editora:

Animais invisíveis, como o tigre do conto que dá título ao volume, que se desloca a seu bel-prazer pelos quartos de uma casa, obrigando a família que ali vive a mil cuidados e precauções a fim de evitar encontros indesejados; animais imaginários, como as mancúspias que anunciam as fases da «Cefaleia»; animais que despontam do nada, como os coelhinhos da «Carta a uma rapariga em Paris»; ou outros ainda subjugados ao poder de feitiçarias arcaicas que ganham novas formas e sentidos em «Circe», todos eles compõem este bestiário fantástico de Julio Cortázar, no qual a descrição realista de atmosferas familiares faz luz sobre a vida secreta de uma sociedade povoada por tenções misteriosas e irracionais.

Publicado originalmente em 1951, «Bestiário» é o primeiro livro de contos de Julio Cortázar e um dos marcos da carreira deste autor: contém contos famosos como «Circe», «Casa Tomada», «Bestiário», «Cefaleia»…

O Último Europeu – Miguel Real

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Entre os Baldios chefiados por clãs guerreiros, subsiste na Europa um pequeno território isolado onde se vive numa espécie de Paraíso. Até Quando?

Assim nos é apresentada Nova Europa, um pequeno território europeu, isolado à custa de tecnologia bastante avançada, invejados pela Grande Ásia, império de crescimento exponencial que procura espaço para se alargar. Contrastando com os grupos de bárbaros com origem nas empresas multinacionais de governo familiar, a Nova Europeu resultou da organização de vários cidadãos mais iluminados, estudados e evoluídos tanto tecnológica como ideologicamente.

Libertando-se das condicionantes orgânicas do nosso corpo, como o parto ou a alimentação sólida, os seres humanos da Nova Europa encontram-se ligados ao Grande Cérebro Electrónico, que com todos comunica. A palavra chave é liberdade. A palavra trabalho foi abolida e substituída por ocupações que cada um escolhe a seu belo prazer, intercalando-as com intuito de realização pessoal. Distracções e experiências perigosas – tudo permitido, nem que seja na realidade virtual a que têm acesso, e que lhes grava as memórias da experiência como sendo reais.

Mas será esta realmente a descrição de uma Utopia? Os seres humanos da Nova Europa deixaram a sua individualidade para se tornarem colectivos – sem nome e sem data de nascimento, todos festejam os aniversários no mesmo dia, uma união que tem como propósito a criação de um colectivo de objectivo comum, o atingir de uma perfeição etérea em que todos participam, sem vaidades ou arrogâncias. Estabilidade, realização pessoal e conjunta, evolução e investigação.

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Centrando-se na divisão igualitária e utilitária dos recursos, bem como na liberdade de agregação que origina os mais diversos modelos familiares, a vida na Nova Europa decorre, prolongada e despreocupada, em isolamento quase total das restantes civilizações. Até ao ataque da Grande Ásia. Apesar de se encontrar em território vantajoso, esta civilização é inocente no que diz respeito a técnicas de defesa pessoal ou a planos militares, centrando a sua protecção nos escudos protectores alimentados por uma fonte inesgotável de energia. Quando a Grande Ásia consegue desligar o acesso à energia a Nova Europa fica totalmente indefesa.

Quem conta a história é o Reitor, epíteto pelo qual é reconhecido, em prol dos conhecimentos que tem de história e linguística. Escolhido por esse motivo para escrever um livro que retrate toda a magnificência da sua civilização, isola-se num edifício que, embora estanque, lhe permite assistir aos saques dos povos bárbaros europeus que chegam antes da invasão asiática propriamente dita. Tendo eliminado quaisquer instintos de luta e sobrevivência, os habitantes da Nova Europa não se organizam para fazer frente aos Bárbaros, antes se escondem ou fogem.

Utopia ou Distopia? A forma como é descrita uma sociedade resume-se ao ponto de vista de quem a descreve, bastando que alguém se sinta oprimido para que se possa designar como distopia. Neste sentido, a Nova Europa é, para os seus habitantes, uma clara Utopia. Mas do ponto de vista de quem a lê, pode ser considerada uma distopia. Percebe-se a forma como se contornam os ímpetos animais e se diminuem as desavenças, mas nesta sociedade não há lugar a paixões desenfreadas, origem de desacatos mas também de evolução artística e intelectual. As pessoas de Nova Europa são estáveis, inteligentes e racionais, de uma forma tão completa e superior que nos é estranha e talvez, até, aversiva.

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E não se assustem com o índice. Apesar de se alongar nalguns detalhes sobre a evolução social e história das várias sociedades (Nova Europa, Grande Ásia e Império Americano) estes detalhes seguem-se logicamente, sem separação estanque entre eles, no seguimento do êxodo que leva os homens de Nova Europa aos Açores, constituindo uma dissertação hipotética interessante, mesmo não concordando com algumas das relações causa-efeito, ou com a inocência de alguns episódios (que o autor justifica).

Apesar das grandes utopias / distopias constituírem um tema bastante explorado na literatura internacional, não me recordo da existência de muitos livros portugueses onde tal temática seja explorada de forma tão completa e detalhada, constituindo, por esse motivo, uma leitura surpreendente e aconselhável para quem gosta do tema. Não esperem, no entanto, uma leitura rápida e carregada de acção, pois a exploração das várias vertentes desta civilização vai sendo explorada e reiterada num tom lento, mas de fácil compreensão.

Pedindo histórias de ficção

Entre editoras, prémios e concursos, existem várias possibilidades para submeter histórias de ficção e ser pago por isso, ou de, pelo menos, projectarem o vosso trabalho. Para quem gosta de escrever histórias infantis, tem a oportunidade de ganhar 25 mil euros num concurso patrocinado pelo Pingo Doce. Neste caso, não é só para quem escreve, mas também para quem ilustra.

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Já a Editorial Divergência lança o prémio de mesmo nome, onde oferece 100€ para a melhor obra submetida, que será publicada pela Editora (direitos de autor serão pagos à parte). Independentemente do prémio, a Editora procura manuscritos para publicar, nos géneros fantasia, ficção científica e terror, com mais de 50 000 palavras.

Mas se preferem escrever contos, existem algumas revistas e projectos a aceitar histórias de formato mais curto. A Trasgo pretende pagar aos autores publicados. Têm ainda a Bang!, revista distribuída pelas várias FNAC’s, o que lhe dá uma projecção excelente, ou a Imaginauta, responsável pelo interessante Comandante Serralves, que procura histórias.

Últimas aquisições

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Aproveitando uma passagem pela Livraria Bivar, não consegui de lá sair sem quatro livrinhos em inglês, em segunda mão, mas óptimo estado. Philip Pullman é mais conhecido pela série fantástica His Dark Materials, publicada em português pela Editorial Presença como Mundos Paralelos. Apesar de ser juvenil, é uma excelente trilogia, uma das melhores séries fantásticas juvenis que tive oportunidade de ler. Este The Tin Princess pertence a outra série fantástica do autor, Sally Lockart, iniciado com The Ruby in the Smoke:

If you haven’t met Sally Lockhart before, prepare to be bowled over. Sally is sixteen and uncommonly pretty. Her knowledge of English literature, French, history, art and music is non-existent, but she has a thorough grounding in military tactics, can run a business, ride like a Cossack and shoot straight with a pistol.

When her dear father is drowned in suspicious circumstances in the South China Sea, Sally is left to fend for herself, an orphan and alone in the smoky fog of Victorian London. Though she doesn’t know it, Sally is already in terrible danger. Soon the mystery and the danger will deepen–and at the rotten heart of it all lies the deadly secret of The Ruby in the Smoke.

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Poucos são os que gostam de ficção científica e não conhecem os livros mais conhecidos de Ursula K. Le Guin, The Dispossessed e The Left Hand of Darkness, ambos parte da série Hainish. Planet of Exile é o primeiro desta série:

An alliance between the powerful Tevars and the brown-skinned, clairvoyant Farbons must take place if the two colonies are to withstand the fierce attack of the nomadic tribes from the north of the planet Eltanin.

Apesar de bastante conhecido no meio, não me recordo de alguma vez ter pegado em alguma coisa de Harry Harrison. Este Prime number é um livro com dezanove histórias do autor. A última aquisição na Bivar foi um livro de Douglas Adams, mais conhecido pela série Hitch-hikers Guide to the Galaxy. Este, primeiro volume de uma série, parece mais terreno:

Apparently not much; until Dirk Gently, self-styled private investigator, sets out to prove the fundamental interconnectedness of all things by solving a mysterious murder, assisting a mysterious professor, unravelling a mysterious mystery, and eating a lot of pizza – not to mention saving the entire human race from extinction along the way (at no extra charge).

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De resto, há que ir aproveitando as promoções. A Guarda Branca foi adquirido nos 50% da FNAC e O Barril Mágico numa da Bertrand:

O Barril Mágico, distinguido com o National Book Award, é o primeiro volume de contos de Bernard Malamud. As treze histórias que o compõem descrevem um ambiente pobre e urbano, um mundo feito de mediocridade e de sonhos nunca realizados, mas igualmente de momentos de ternura e profunda ironia. Nestas, podem encontrar-se algumas das personagens mais inesquecíveis da literatura; figuras que carregam consigo um destino atávico e arcaico e, ao mesmo tempo, são a expressão da experiência existencial do homem contemporâneo. É o caso de Sobel, o ajudante de sapateiro, na história de vago sabor bíblico que abre o volume («Os sete primeiros anos»), o qual serve resignada e devotamente o seu patrão – como Jacob a Labão -, a troco de pouco ou nenhum dinheiro, apenas pelo amor da filha deste; ou o indolente adolescente do conto «Leitura de Verão», por muitos apontado como uma das melhores histórias alguma vez escritas sobre este período da vida, em que o protagonista, por muito que tente, não consegue escapar à culpa que carrega na sua consciência; ou ainda o rico alfaiate de «o anjo Levine», cujas provações, rivalizando apenas com as de Job, são finalmente recompensadas.

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Já para 1974 aproveitei o saldo acumulado do cartão Bertrand:

A 28 de Setembro de 1974, ainda o povo celebrava a liberdade conquistada na revolução de Abril, um golpe militar apoiado por Moscovo, e consentido por Washington, coloca os comunistas no poder em Portugal. A propriedade privada é abolida, uma base militar soviética é construída em Sines e uma nova polícia política prende, tortura e condena ao esquecimento todos os opositores do regime. Ano após ano, cerimónias grandiosas em Lisboa e no Porto celebram com paradas militares e bandeiras vermelhas os sucessivos aniversários da revolução comunista.

O País mergulha num longo período de trevas que resistirá à queda do Muro de Berlim e ao colapso da URSS. No recanto mais Ocidental da Europa, completamente isolado do exterior e com fronteiras vigiadas, subsiste um dos últimos bastiões do comunismo no mundo. É neste ambiente opressivo que se confrontam as personalidades de dois antigos amantes. Francisco, um escritor dissidente, e Maria, uma cada vez mais importante figura da nomenclatura. Francisco paga um preço demasiado alto por afrontar o regime com um livro perigoso para o poder, Maria age à luz da fé inabalável, urgente e implacável de tudo destruir para fazer nascer um mundo novo.

 

Immortalis – Histórias de Sombra e Redenção – Carla Ribeiro

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Este pequeno volume foi um dos três livros publicados pela recentemente extinta Letras com Asas. Para além deste publicou Renascer das Chamas de Susana Almeida e O poder interior de Bruno Matos. Immortalis Histórias de Sombra e Redenção é o volume número 1 da colecção, e contém três histórias de Carla Ribeiro, dona do blog As Leituras do Corvo.

Pior que a morte é a primeira história. Centrada num outrora cavalheiro, mas agora renegado, de alcunha Imperdoável, acompanha-o no percurso que o levou à desgraça numa realidade de contornos medievais onde a rainha maga reina aconselhada pelos seus cavalheiros. Se a magia é usada pelos seguidores dos antigos Deuses, é-a também usada pelos sacerdotes de um novo Deus que pretendem dominar todos e através da nova religião exercer um poder sem limites sobre o povo. Mas terá sido o Imperdoável, no papel anterior de conselheiro da Rainha, que terá realçado as falsidades e maldades dos sacerdotes – mas não sem consequências.

Apesar de revelar uma história interessante, a forma e as condições em que esta nos é contada, não foi, para mim, totalmente verosímil. O Imperdoável acorda às mãos de uma maga que o pretende usar como moeda de troca, mas após pedir a morte ao invés de tal fim, acaba por lhe contar as circunstâncias em que ganhou o cognome e consequentemente por ganhar a confiança da maga.

Voltar a Voar, segunda história do conjunto, pareceu-me mais fluída e envolvente, a história do último dragão que, para sobreviver à exterminação pelos humanos, se transforma também ele em humano, conservando pouca da sua forte magia original. Conhecido como homem de letras é procurado por todos aqueles que procuram conhecer as antigas lendas dos dragões, entre eles, uma caçadora de dragões, que procura um dos príncipes do qual se desconhece o fim. Convivendo por conta do assunto que os fascina a ambos, acabam por se aproximar muito mais do que era suposto.

A última história é de vampiros, Irmãos de Sangue. Mas não esperem vampiros românticos – aqui vivem em comunidades fechadas, sem se dar a conhecer aos humanos. Nesta história um vampiro tentou voltar a ver o irmão que o julga morto, arriscando a vida de toda a sua colónia. Acorda com poucas recordações do momento em que terá sido contido pelos seus novos irmãos, surpreendendo-se por não ter sido eliminado por constituir um perigo. À cabeceira encontra o vampiro que o terá transformado e que por ele é responsável. Uma história de irmandade na nova vida quase eterna.

Do conjunto das três histórias, gostei mais das últimas, mais concisas e directas em forma, com menos frases poéticas que a primeira, algo que para mim distancia o texto. Já tinha tido oportunidade de ler outras histórias da autora (em Pela sombra morrerão e na revista Conto Fantástico) e comparando, considero que estas histórias estão bastante melhores que as anteriores.

Destaque da semana: A Música do Silêncio – Patrick Rothfuss

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Estranhamente, a saga fantástica de Patrick Rothfuss tem sido publicada em Portugal. Estranhamente porque não costuma ser usual a publicação das mais recentes sagas fantásticas que não se encaixem na vertente juvenil. A Música do Silêncio decorre no mesmo mundo que a saga, mas deverá ser uma história independente:

Sob a Universidade há um lugar escuro. Poucas pessoas sabem da sua existência: uma rede descontínua de túneis antigos, corredores serpenteantes e salas abandonadas. Ali, no meio desse local esquecido, situado no coração dos Subterrâneos, vive uma jovem. O seu nome é Auri, e é uma jovem cheia de segredos.”A Música do Silêncio” é um vislumbre breve e agridoce da sua vida, uma pequena aventura só dela. Ao mesmo tempo alegre e inquietante, esta história oferece-nos a oportunidade de ver o mundo pelos olhos de Auri. E dá-nos a oportunidade de conhecer algumas coisas que só ela sabe… Neste livro, Patrick Rothfuss leva-nos ao mundo de uma das personagens mais enigmáticas da série «A Crónica do Regicida». Repleto de segredos e mistérios, A Música do Silêncio é uma narrativa sobre uma jovem ferida a tentar viver num mundo destruído.