Ficção especulativa em Julho de 2016

As férias e o calor não ajudam nem aos lançamentos, nem às críticas – depois da euforia da Feira do Livro este foi sem dúvida um mês mais calmo mas destaca-se a maior quantidade de críticas a ficção científica, principalmente de Aniquilação de Jeff Vandermeer.

Lançamentos nacionais relevantes

A canção de Susannah – Stephen King – Bertrand Editora;

Os tambores de Outono – Diana Gabaldon – Casa das Letras;

Guia para a vida de Tyrion Lannister – Lambert Oaks – Self;

Visão de Prata – Anne Bishop – Saída de Emergência;

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Críticas interessantes

Ficção científica

The dramaturgues of Yan – John Brunner – Intergalacticrobot – “Apesar de assente num intrigante e convincente mundo ficcional,  e numa narrativa bem estruturada que revela os mistérios ao ritmo certo,  é um livro demasiado normal, dentro dos parâmetros da FC. “;

– 2084 – Boualem Sensal – Máquina de escrever – “Entre heranças da fonte de inspiração maior e ecos de acontecimentos do nosso tempo, constrói uma distopia que merece já um lugar entre as mais importantes expressões do género”;

Aniquilação – Jeff Vandermeer – Leituras do Fiacha – “deixando-nos com uma sensação de constante medo e alerta e que nos acaba por fazer questionar sobre várias questões entre as quais o que leva estes membros a aceitar ir nesta expedição depois do que aconteceu nas anteriores ?”

Cinzas de um novo Mundo – Rafael Loureiro – As Leituras do Corvo – “Intenso, intrigante, misterioso. E emotivo, para além de tudo o que esperava. É, pois, esta a imagem que fica destas Cinzas de um Novo Mundo: a de uma viagem a um futuro tenebroso, mas onde sempre, e apesar de tudo, ainda há heróis. Brilhante.”;

Ready Player One – Ernest Cline – As Histórias de Elphaba – “Com uma criatividade extraordinária, Ernest Cline oferece-nos uma aventura que se desenvolve, paralelamente, onde ainda batem corações acelerados e no espaço virtual. “;

Aniquilação – Jeff Vandermeer – Uma Biblioteca em Construção – “Mas conforme vamos passando tempo e explorando a Área X, percebemos que normalidade é algo que não pertence àquele local. “;

Sundiver – David Brin – Livros, livros e mais livros – “Tem uma premissa tão boa, mas desperdiça-a para se focar num mistério desinteressante e algo simplista.”;

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Fantasia

A vingança do Assassino – Robin Hobb – Nuno Ferreira – “Pela qualidade de escrita e de credibilidade apresentadas, custa-me dar uma pontuação tão baixa, mas foi um livro extremamente chato de ler.”;

Outros

Erotosofia – António de Macedo – Intergalacticrobot – “Em evidência fica o peculiar imaginário de Macedo, entre o conhecimento gnóstico, saber científico, reconhecimento tecnológico, colisão entre o imaginário de raiz popular com os mitos da literatura fantástica temperado com muito bom humor, com particular homenagem a Lovecraft e aos seus Mythos.”;

Crash – J. G. Ballard – Máquina de escrever – “A história do livro centra-se num pequeno grupo de personagens que têm como fétiche sexual acidentes de automóvel e as suas possibilidades eróticas, explorando uma parte do espetro das psicopatologias humanas, nomeadamente a morbidez sexual.”;

A rapariga que sabia demais – M. R. Carey – Uma Biblioteca em Construção – “A realidade que este livro apresenta é assustadora. Faz pensar sobre a evolução da vida e sobre como tudo está em constante mudança. “;

A Burglar’s Guide to the City – Geoff Manaught – Intergalacticrobot – “De uma forma divertida, Manaugh leva-nos a repensar os conceitos de arquitectura e espaço urbano explorando as façanhas e as metodologias dos assaltantes. “;

Outros artigos

– Missões tripuladas a Marte? Para já existem as de ler … (1) – Máquina de escrever;

– 12 Clássicos que os jovens adultos devem ler – Revista Estante;

– Domínio Filipino – Simetria;

– Quando a imaginação desceu em Marte – Máquina de escrever;

– Entrevista Rafael Loureiro – Revista Estante;

– Contos completos de Beatrix Potter editados pela primeira vez em Portugal – Diário de Notícias;

Eventos

– Scifi-Lx – Imaginauta;

The Longest Way Home – Robert Silverberg

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O título não engana e resume exactamente a história – a de Joseph, um rapaz que, vendo começar uma guerra no local onde se encontra como hóspede convidado, uns familiares distantes, foge e tenta caminhar até casa.

A premissa, já usada em várias outras construções ficcionais, é aqui alimentada por circunstâncias peculiares. É que no planeta em que se inicia a guerra o sistema social que persiste é uma espécie de sistema feudal criada por duas ondas de colonização – a nobreza e o povo.

Segundo a lenda conhecida por Joseph, a primeira onda de colonizadores terá sido incapaz de subsistir no planeta e terá necessitado de ajuda de colonos com maiores capacidades científicas, especialmente para a adaptação da agricultura e medicina. Assim se definiram os dois estratos sociais, pertencendo Joseph à dos que nasceram para governar.

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Habituado à tecnologia e sem ter aprendido técnicas de combate ou de sobrevivência, Joseph vê-se no meio de uma revolta que visa a libertação do povo do sistema feudal e é obrigado a fugir. Se, no início, conta com a ajuda de um Nocturnus, um ser minimamente capaz de comunicar, mas de mente demasiado simples, na vila indígena em que se recolhe após um ferimento encontra diferentes perspectivas de vida que não sustentam a sua visão privilegiada do mundo.

Para os indígenas, os colonos são apenas algo passageiro, que um dia deixará aquele mundo, pelo que expressam apatia, intercalada por pequenos momentos de curiosidade sobretudo pelas noções (básicas) de medicina que Jospeh demonstra.

O contacto inicial com os indígenas, que leva ao confronto de ideias, é interessante, mas quebra-se pela necessidade de viajar. Também a curta estadia entre elementos do povo que sempre viveram livres e que questionam abertamente o sistema feudal fazem Jospeh colocar os da sua classe no papel de déspotas conquistadores e questionar-se sobre a ordem que sempre considerou natural.

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Com palco e elementos que permitiram construir uma grande história, os momentos envolventes restringem-se a estas pequenas parcelas da viagem, que intercalam a caminhada sem fim por locais inóspitos onde pouco acontece para além da fome. Depois de confrontar Joseph com filosofias e ideias distintas das que conhece seria interessante perceber o que diferente poderia surgir na forma de governar – mas isso é algo que não teremos oportunidade de assistir.

Assim sendo é um livro engraçado mas em que o potencial da premissa e da combinação de elementos bem posicionados não é aproveitado, acabando por se tornar, simplesmente, a história de maturidade de um rapaz, enfatizando a sua transformação em homem jovem.

Destaque: Santuário – Andrew Michael Hurley

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A provar que o mercado editorial português ainda é capaz de trazer para solo nacional excelentes livros temos o lançamento de Santuário de Andrew Michael Hurley,  para início de Setembro. Com o título The Loney, foi um dos grandes lançamentos de horror de 2015 (mais voltado para o horror psicológico, suspense) tendo ganho o prémio Costa.

Publicado inicialmente na peculiar Tartarus Press (que só lança edições reduzidas e quase exclusivas) foi mais tarde publicado por diversas editoras e tornou-se um dos livros mais falados nos últimos tempos. Já o li (podem ler o comentário completo) e posso dizer que é excelente! Enquanto esperam pelo lançamento, deixo-vos a sinopse:

Dois irmãos. Um, mudo; o outro, o seu protetor. Todos os anos, a família visita o santuário que fica na desolada faixa de costa conhecida apenas como «Loney», desesperadamente à espera de uma cura. Durante as longas horas de espera, os rapazes são deixados sozinhos. E não conseguem resistir à passagem que se vislumbra a cada mudança da maré, à velha casa que se ergue ao longe… Muitos anos mais tarde, Hanny é um homem feito e já não precisa dos cuidados do irmão. Mas depois descobre-se o cadáver de uma criança, morta há muito. O Loney acaba sempre por dar à costa os seus segredos.

 

 

Resumo de Leituras – Agosto de 2016 (2)

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189 – Há sempre tempo para mais nada – Filipe Homem Fonseca – O mais recente livro de Filipe Homem Fonseca é uma viagem pelo luto onde as reviravoltas (expectáveis) cumprem o papel na medida certa. De leitura agradável, possui boas metáforas (que conseguem conter ciência sem escorregar) numa perspectiva interessante que atinge, apesar do tom aparentemente leve, a tragicidade devida;

190 – A Garagem Hermética – Moebius – Conjunto de episódios nitidamente de ficção científica em que um homem da Terra se vê numa época distante como figura mítica, imortal e temida. As batalhas pouco palpáveis têm consequências bastante visíveis numa série de episódios soltos que deixam demasiado à imaginação. Apesar de interessante, achei-o demasiado datado.

191 – Parque Chas – Ricardo Barreiro e Eduardo Risso – Começa como pequenos episódios fantásticos, quase fantasmagóricos em torno de uma região urbana em que desaparecem pessoas e meios de transporte e em que existem portais para outras regiões, épocas ou realidades ficcionais. A obra em mosaico ganha dimensão com a exploração do relacionamento da personagem principal com uma femme fetale, elemento que catapulta a acção para uma série de aventuras estranhas. Muito bom!

192 – King Rat – China Miéville – No primeiro livro de um dos meus autores favoritos ainda falta a densidade de elementos estranhos que o iria incluir no New Weird e destacar como o autor de algumas das obras mais complexas do género. Ainda assim, nota-se a capacidade de fazer visualizar ideias e personagens de uma forma belíssima que transforma uma história de premissa relativamente simples numa boa e cativante obra.

King Rat – China Miéville

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Depois de uma leitura a ritmo frenético percebo que, apesar de ter ficado automaticamente agarrada ao livro, a história não tem elementos muito surpreendentes, nem muito originais, quando comparada com outras do autor, China Miéville.

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Se The Iron Council ou, o meu favorito, Perdido Street Station, decorrem num mundo fantástico, avassalador, pela quantidade de elementos díspares e surpreendentes, King Rat, o primeiro livro do autor, decorre numa realidade bastante parecida com a nossa e aproveita o Flautista de Hamelin como elemento catalisador da narrativa.

Saul é um rapaz que desconhece a sua verdadeira natureza até se ver no centro de uma sucessão de homicídios que incluiu o pai. Salvo pelo Rei dos ratos, aprende que ele próprio é metade rato, uma mistura fantástica que lhe permite vaguear pelos dois mundos e que o torna uma arma única contra o Flautista, personagem sobrenatural capaz de hipnotizar vários animais, entre eles, ratos e seres humanos.

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Considerado como principal suspeito, Saul aproveita as lições do Rei dos ratos e explora as capacidades escondidas que desconhecia possuir até ao momento, entre os esgotos infindáveis de Londres, e as paredes íngremes que agora é capaz de escalar. Cada vez mais afastado do mundo humano, descobre que os seus amigos estão a ser usados pelo flautista e decide-se a cumprir o seu papel de arma em potência, aliando-se ao Rei das aranhas e ao Rei dos Pássaros.

A premissa é simples, quase directa, centrada numa personagem que encarna uma espécie de Messias, neste caso um salvador fabricado propositadamente à medida, que se vê arrastado para uma realidade fantástica sobreposta à urbana que conhecia.

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Mas o que cativa não é a premissa, nem tão pouco o desenvolvimento antecipável dos acontecimentos. Antes a forma de se expressar, a bela do texto e o cruzamento de ideias que suscita, características que nos fazem manter o interesse mesmo quando um episódio de confronto directo entre herói e vilão se alonga por mais de vinte páginas. É esta capacidade  de nos fazer visualizar o cenário e seguir as personagens que se torna o elemento diferenciador do livro.

The trains that enter Londo arrive like ships sailing across the roofs. They pass between towers jutting into the sky lije long-necked sea beasts and the great gas-cylinders wallowing in dirty scrub like whales. In the depths below are lines of small shops and obscure franchises, cafés with peeling paint and businesses tucked into the arches over which the train pass. The colours and curves of graffiti mark every wall. Topfloor windows pass by so close that passengers can peer inside, into small bare offices and store cupboards. They can make out the contours of trade calenders and pin-ups on the walls.

O ambiente sombrio não nos poupa à violência, nem a algumas (poucas mas fortes) descrições que nos revoltam o estômago – elementos que ajudam a sentir a brutalidade dos acontecimentos, numa história que tem tanto de inquietante quanto de fascinante.

Lentamente a história caminha para o auge que, apesar de previsível, confere o necessário sentimento de fecho, sem demasiados episódios movimentados, num formato sempre equilibrado. É, em suma, uma boa história à qual ainda falta a grandiosidade que iremos encontrar mais tarde em Perdido Street Station.

Parque Chas – Ricardo Barreiro e Eduardo Risso

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Apesar da colecção Novela Gráfica ser uma referência bastante positiva desta leitura, peguei em Parque Chas sem grande ideia do que iria encontrar, tendo-me convencido a antecipar a leitura deste volume aos outros da colecção por conta da aspecto gráfico.

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O que encontrei… foi uma excelente surpresa! O livro começa como a história de um local que a personagem principal se dedica a aprofundar, o Parque Chas. Tendo sido alvo de um desses episódios estranhos resolve-se a compilar os constantes fenómenos que relembram uma espécie de Triângulo das Bermudas, onde aparecem e desaparecem pessoas e meios de transporte.

A sucessão de episódios quase soltos evoluem rapidamente para uma série de aventuras entre realidades paralelas onde a ficção se cruza com a realidade, e as personagens vão parar a mundos literários e encontram personagens lendárias como Casonova ou Corto Maltese.

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Entre lutas infantis de final heróico, túneis de fuga esquecidos no lugar labiríntico que é o parque, carros assassinos e rápidos caminhos para outros tempos e lugares, adensa-se a névoa do desconhecido explorado pela personagem principal, uma projecção do autor.

Afinal o  que parece uma alusão a mundos fantásticos com um toque fantasmagórico revela-se ficção científica, fazendo com que os episódios mirabolantes quase culminem numa cena clássica de salvação da femme fatale, a verdadeira razão para a personagem perseguir os peculiares fenómenos.

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Quase. E aqui está o segredo. Os episódios mirabolantes funcionam bem isoladamente mas ainda melhor como peças de um mosaico construindo uma história maior, carregada de reviravoltas e surpresas, onde os clichés vão sendo adoptados e adaptados. O resultado é uma história movimentada de detalhes sombrios que consegue a peripécia de ser, simultaneamente, inteligente e divertida.

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Parque Chas é um dos volumes publicados na colecção Novela Gráfica pela Levoir em parceria com o jornal Público.

Destaque: O Homem do Castelo Alto – Philip K. Dick

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Depois de uma edição pela Livros do Brasil (na colecção Argonauta), e uma edição pela Saída de Emergência, sai finalmente a edição da Relógio D’Água, editora que tem previsto, no plano editorial deste ano, o lançamento de Será Que os Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? do mesmo autor. Ambos clássicos do género da ficção científica, O Homem do Castelo Alto ganhou maior notoriedade com a recente adaptação para série. Deixo-vos a sinopse:

América, quinze anos após o final da Segunda Grande Guerra. As potências vencedoras dividiram as suas conquistas: os nazis controlam Nova Iorque e a Califórnia é controlada por Japoneses. Mas entre estes dois estados confrontados numa guerra fria existe uma zona neutra onde, dizem os rumores, reside o lendário autor Hawthorne Abendsen, que receia pela sua vida, pois escreveu em tempos um livro no qual os aliados venceram a  Segunda Grande Guerra.

 

Destaque: Jurgen – James Branch Cabell

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Do mesmo autor de Hamlet tinha um tio (publicado por cá pela Cavalo de Ferro), vai ser publicado, pela E-Primatur, Jurgen, a sua obra principal pela qual foi acusado oficiosamente de obscenidades, acusações que foram postas de lado pelas passagens possuírem um duplo sentido. Deixo-vos a sinopse, bem como a ligação para o projecto na E-Primatur:

Jurgen é um cavaleiro que parte em busca do “amor cortês”, o amor idílico. As suas aventurtas por reinos mágicos e misteriosos encontrando pelo caminho os mais excentricos personagens e acabando, muitas vezes, nos leitos de mil damas – da Rainha Guinevere à mulher do Diabo – são uma entrincada alegoria aos tempos modernos e à América mas podem, igualmente, ser lidas como um rormance de aventuras, uma fantasia, uma obra política ou um tour-de-force literário cheio de referências mais ou menos claras aos grandes clássicos da literatura universal e a obras menores mas de igual forma relevantes.

 

 

Resumo de Leituras – Agosto de 2016 (1)

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185 – Retrovirus – Justin Gray e Jimmy Palmiotti – Centrando-se numa cientista especialista em vírus, desenvolve um enredo linear e previsível com bons momentos gráficos. Na tentativa de reconstruir neandertais um grupo de cientista acorda, também, um poderoso vírus que precisam urgentemente de compreender e estudar. Os neandertais revelam-se violentos, mas, devido à utilização de DNA humano, bastante mais inteligentes do que seria expectável;

186 – The Paper Menagerie and other stories – Ken Liu – Excelente conjunto de contos de um dos autores de ascendência asiática mais falados de momento que explora, em diferentes contextos, o choque cultural e o peso da cultura asiática fora do seu contexto, intercalando elementos fantásticos e de ficção científica;

187 – Fables: Werewoves of the Heartland – Vários – Volume que não segue a cronologia da série e que pode ser lido isoladamente, explora o potencial da figura do lobisomem, apresentando uma cidade de lobisomens em que o Lobo Mau tem uma reputação quase divina. De narrativa simples, é uma história engraçada, mais interessante pelo aspecto gráfico e pela caracterização do Lobo Mau, do que propriamente pela história;

188 – Diaboliad and other stories – Mikhail Bulgakov – Conjunto absurdo e satírico de quatro histórias que caracterizam de forma sublime o regime comunista, destacando-se uma história que apresenta uma burla em elevada escala, muito actual.

Diaboliad & other stories – Mikhail Bulgakov

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Menos interessante que The Master and Margarita (um dos meus livros favoritos) ou do que Heart of a dogDiaboliad reúne quatro histórias satíricas ao regime comunista, onde se denota a exploração do absurdo característica da restante obra do autor.

Entre pessoas que se vêm incapazes de provar quem são por ausência dos seus documentos (roubados), existe quem resolva experimentar a qualidade dos fósforos que lhe foram entregues, acendendo todos os que possui para assim expressar surpresa, no dia seguinte, quando alguém se queixa que não funcionam.

Outro conto apresenta uma burla que bem podia ser uma sátira aos tempos modernos em que um homem, fazendo-se valer de uma garantia perecível (os alimentos que lhe foram distribuídos para uma família que não tem) consegue um avultado empréstimo bancário com o qual inicia outros negócios vazios e desprovidos de valor.

Apesar de ser uma leitura peculiar, talvez pela disposição (ou pelo calor) achei que o nível de absurdo que, nas histórias mais longas, confere um elemento interessante sem fazer perder o rumo, aqui se torna demasiado intenso e mirabolante, tornando-se o ponto principal de alguns capítulos.

Últimas aquisições

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No topo encontra-se um dos volumes da colecção Livros Licenciosos, Aventuras Galantes de Rabelais que reúne alguns dos contos do autor. A colecção tem cerca de 5 anos e foi lançada sob o mote “Melhor é experimentá-lo que julgá-lo”. Podem ver parte da apresentação aqui:

Jan Morris é o autor de Hav, um livro que reúne a experiência de duas viagens à cidade que.. não existe. Não é o caso de Espanha, onde o autora descreve a sua experiência ao país vizinho.

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The Dedalus Book é uma colecção de livros de fantasia que reúne os autores mais conhecidos de vários países. Neste caso, a selecção portuguesa foi realizada por Eugénio Lisboa e Helder Macedo. Entre os autores escolhidos encontramos Eça de Queiroz, Manuel Teixeira Gomes, Mário de Sá-Carneiro José Régio, José Rodrigues Migueis ou Mário-Henrique Leiria.

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Estes dois volumes publicados recentemente foram adquiridos em Alfarrabista. O primeiro é a mais recente edição portuguesa de Haruki Murakemi, um livro que reúne Ouve a canção do vento e Flipper, 1973. O segundo é uma dos mais recentes lançamentos de ficção especulativa que parece enquadrar-se na mais recente onda de ficção distópica juvenil:

Obedece. Faz o que te dizem. Não questiones. Não penses. Treina. Mata. Não olhes para trás. Aprende a sobreviver. O que resta da nossa civilização são ruínas. Após a a terceira guerra nuclear, os sobreviventes vivem escondidos, lutando entre si por uma posição de poder. O mundo tornou-se um lugar ainda mais selvagem, ainda mais perigoso, onde cada momento poderá ser o último. Eleanor Rosewood é um dos melhores membros do grupo de Franklin Miller, neste cenário apocalíptico. O objetivo do seu chefe é controlar todos os outros grupos e instaurar uma ditadura, onde ele será o único líder. Mas esse é também o sonho de muitos. Depois de ter assistido à morte dos seus pais, Eleanor não tendo outra alternativa, junta-se a Franklin e cumpre a sua função, matando todos os que se atravessam no seu caminho. Tudo aparenta ser simples, até que, durante mais um ataque sanguinário a um grupo rival, Eleanor vê-se obrigada a matar um prisioneiro muito especial — Indigo O’Brien. Conseguirá Eleanor disparar a arma que tem apontada à cabeça do seu melhor amigo?

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Histórias de Vigaristas e Canalhas corresponde ao segundo volume de Rogues, uma antologia organizada por George R. R. Martin e Gardner Dozois que, sob o conceito de apresentar vilões no papel de protagonista, reúne histórias de Joe Abercrombie, Cherie Priest, Garth Nix ou Steven Saylor (falando apenas de autores publicados em Portugal).

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Estando curiosa quanto a Symmetry, uma banda desenhada sobre inteligência artificial, aproveitei para encomendar, no mesmo vencedor em segunda mão, Retrovirus e Graveyard Shift. Ainda não tendo lido Symmetry constato que tanto Retrovirus como Graveyard Shift são bandas desenhadas bastante fraquitas, que se destacam por algumas páginas graficamente excelentes, apesar de não serem constantes em toda a sua extensão.

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Finalmente, Double Helix é um volume que reúne três histórias – a primeira mais longa alterna entre uma realidade futurística e uma realidade semelhante ao presente, sem que se perceba em qual delas é que o protagonista vive realmente, e qual serve como escape. As outras duas histórias são bastante curtas – na segunda recupera-se o homem do passado, e na terceira apresenta apresenta-se um cenário apocalíptico.

Fables – Wolves of the Heartland – Bill Willingham, Craig Hamilton, Jim Fern, Ray Snyder e Mark Farmer

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Uma aldeia carregada de lobisomens é a ideia por detrás deste volume em que o Lobo Mau é peça fundamental na justificação do conceito. Lobisomem poderoso, filho do vento do Norte, o Lobo Mau encontra-se em missão à procura de um novo local para criar nova cidade para as personagens dos contos de fadas que se refugiaram no nosso mundo quando se depara com lobisomens jovens em caçada.

Curioso, é capturado e levado para a cidade de lobisomens, encontrando um velho amigo que julgava morto e com o qual terá lutado contra o regime nazi durante a Segunda Guerra Mundial. Mas não é só o amigo que encontra – casado com uma cientista nazi, terão sido os criadores daquela cidade.

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Percebendo o sangue quente dos lobisomens, o Lobo Mau percebe que a cidade se encontra em ponto de ruptura – a necessidade de caçar, e de se afirmarem como machos alfa, bem como a elevada densidade populacional são três factores determinados na elevada violência, exacerbados com a chegada do mítico Lobo Mau, elevado à categoria divina por ter dado, inadvertidamente, origem àquela cidade.

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Entre as míticas e espalhafatosas batalhas entre lobisomens encontramos a típica associação nazi a experiências com monstros, não faltando cientistas loucos que se dedicam a reavivar Frankenstein e que pretendem usar o sangue do Lobo Mau para fabricar os próximos soldados implacáveis.

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Volume que pode ser lido facilmente sem o enquadramento da série Fables, não é particularmente interessante do ponto de vista narrativo, mas apresenta vários episódios mirabolantes onde a figura do lobisomem é explorada à exaustão com sucesso.

The Paper Menagerie and other stories – Ken Liu

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Centradas sobretudo em personagens asiáticas que passam por um choque cultural ao integrarem novas sociedades ou ao evoluírem no tempo e integrarem novas formas de pensar, debruçando-se por diversas vezes sobre problemas de adaptação, as histórias em The Paper Menagerie and other stories, destacam-se por apresentar pessoas, com os seus sentimentos e pensamentos, ainda que possam existir detalhes fantásticos ou de ficção científica – detalhes que o próprio autor afirma poderem ser “apenas” metáforas.

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O conjunto abre com a história mais díspar que não envolve humanos, mas livros. The Bookmaking Habits of Select species discorre sobre os métodos que diferentes espécies alienígenas usam para fazer livros peculiares. Uma série de invenções fabulosas que foi nomeada para o prémio Nebula e que se encontra disponível gratuitamente (tendo sido aqui que a li pela primeira vez).

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The Perfect Match é outro dos contos que se destaca ao se apresentar como uma pequena distopia em que a tecnologia é usada para conhecer detalhadamente os seus usuários. Neste caso as pessoas são levadas a adquirir programas que tomam decisões por eles – quando beber café, quem conhecer; tornando-os não só dependentes da tecnologia mas facilmente manipuláveis por quem se encontre por detrás desta programação. Apesar de ser arrepiante pela semelhança com o que nos rodeia não é, no entanto, inovador.

Por sua vez em Good Hunting somos confrontados com as crenças antigas sobre seres sobrenaturais na China, existindo homens que se dedicavam a caçar estes seres. Com o avançar da civilização mecânica a magia vai desaparecendo do mundo e estes seres vão sendo substituídos por ideais metálicos ao mesmo tempo que as famílias de caçadores procuram novas ocupações.

Em Literomancer a história é centrada numa rapariga que tem por empregada doméstica uma chinesa. Neste caso é ela que sofre os comentários maldosos dos colegas cada vez que abre a marmita onde se encontra comida chinesa. Ainda não transformada numa pequena senhora, gosta de deambular pelo campo acabando por conhecer um velhote que lhe ensina a magia das letras chinesas, com a qual se irá defender.

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Simulacrum é outro dos textos que já conhecia (e também disponível gratuitamente) que apresenta uma rapariga para sempre traumatizada com o ter interrompido o pai numa simulação erótica, episódio que a leva a distanciar-se do pai. O pai, por sua vez, para compensar o distanciamento, refugia-se numa simulação da filha em criança, recordado os bons momentos que passaram e criando novos momentos.

Vencedor dos prémios Hugo e Nebula, e finalista do Locus, The Paper Menagerie, o conto que dá título ao conjunto (e que na prática, possibilita a sua publicação) apresenta o distanciamento típico dos adolescentes dos pais, neste caso agravado por constituir, também, um distanciamento racial. A mãe do rapaz é asiática, uma noiva encomendada por um homem americano, que vem de um meio pobre e que cria pequenos brinquedos de papel que o filho adora – até se ver gozado e descriminado pela sua diferença cultural. Evitando falar a língua materna e qualquer elemento cultural chinês, o distanciamento agrava-se ao longo dos anos.

All the flavors, uma das histórias mais longas deste conjunto, apresenta um estilo semelhante a The Grace of Kings, o primeiro livro do autor. A história não tem propriamente elementos fantásticos ou de ficção científica e apresenta um grupo de chineses que, deslocando-se para a América, trabalha arduamente para sobreviver. Uma rapariga curiosa inicia amizade com eles, escutando as suas cantorias e histórias, aprendendo os jogos e experimentando a comida – experiência que é bem vista pelo pai, homem com olho para o negócio que vê nestes homens possíveis clientes, mas rejeitada pela mãe, sempre pronta a destacar as diferenças culturais com uma perspectiva negativa, demasiado apegada à crença cristã.

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Em The Man who ended history: a documentary encontra-se um novo método de visualizar acontecimentos passados, incidindo-se sobretudo num evento horrendo em que prisioneiros de guerra foram torturados e transformados em cobaias para múltiplas e indescritíveis experiências. Estes eventos ocorreram durante os anos 30 e 40, e a forma que se encontrou para lidar com estas atrocidades foi sobretudo o esquecimento, detalhe que o autor realça, incidindo na necessidade de expiar o peso emocional carregado pelas famílias.

Esta colectânea apresenta muitos outros contos, histórias que apresentam o peso da diferença racial, um choque de culturas em que os chineses são vistos como subalternos, muito trabalhadores, mas hierarquicamente inferiores e tratados com condescendência, desprezo ou racismo. Quando o outro é visto como um estranho, afastado e os seus hábitos ridicularizados ou se ignora, ou se força a aceitação, ou se tenta a adaptação (a adopção de outros hábitos, mesmo que apenas em aparência). Todas estas hipóteses vão sendo apresentadas em diferentes contos.

Destacando as injustiças no sistema feudal chinês, na intrínseca necessidade de manter uma postura de humildade nas camadas inferiores que levam a uma série de injustiças praticadas por quem está no poder, transporta estes homens para uma nova sociedade em que as regras deixam de se aplicar – seja porque um acordo válido tem de ser honrado pelas duas partes, seja porque os costumes deixam de ser práticos num mundo rápido, caracterizado pela tecnologia.

O homem adapta-se rapidamente mas o seguir hábitos e costumes sem enquadramento cultural leva a um vazio, a uma ruptura com as gerações anteriores que pode facilitar, numa primeira fase, a integração mas que, num prazo mais longo, pode resultar numa quebra de identidade – perspectiva que só se obtém com alguma maturidade.

Com contos bastante diferentes em tom e estilo, esta colecânea não reúne todas as histórias ao autor, mas apresenta uma qualidade constante em diferentes géneros de um dos autores asiáticos mais proeminentes no panorama editorial anglo-saxónico. É, sem dúvida, um excelente conjunto que se destaca por apresentar uma perspectiva pouco usual e que usa a herança cultural para manter um tom original.

Hamlet tinha um tio – James Branch Cabell

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A personagem criada por Skakespeare em torno da verdadeira figura história Hamlet ter-se-á afastado bastante da realidade e quase apagado qualquer traço do que terá realmente ocorrido.

Partindo do conhecimento que se tem do código moral viquingue, James Branch Cabell construiu uma sátira à conhecida peça, apresentando uma pequena reviravolta – o verdadeiro pai afinal é o tio, que por força maior se viu obrigado a matar o irmão acabando por casar com a viúva de quem já era, há muito, amante.

Assim se explica que o homem que julga tio, apesar de saber das pretensões de Hamlet em assassiná-lo, não se tenha precavido devidamente – se por um lado não deseja hostilizar a esposa, por outro, trata-se do seu próprio filho. Não que Hamlet alguma vez venha a saber de tal parentesco.

Fazendo-se passar por alienado, um louco sem capacidade de raciocínio, Hamlet é na verdade um adolescente que cresceu com a ideia de vingança, gabarola, a quem uma mulher poderá facilmente dar a volta. Mais astuto do que o creem, mas menos do que ele se crê a si próprio, envereda num claro caminho para a desgraça.

Carregado de assassinatos legais, mortes sangrentas em batalha, romances incestuosos, Hamlet tinha um tio é uma sátira engraçada que se torna, no final, cansativa pelas sucessivas reviravoltas. Apresentando uma versão menos filosófica e mais centrada nos costumes da época, consegue ter momentos engraçados que roçam as histórias de cavaleiros na Idade Média.

Antes do crepúsculo – Velvet vol.1 – Brubaker, Epting e Breitweiser

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Agentes secretos, missões impossíveis, homens de fato que desempenham o papel de galãs irresistíveis e desprendidos enquanto passam por secretárias submissas, femininas e frágeis. Não esperem pegar em Velvet e encontrar este ideal – não é por acaso que a série tem sido descrita como “e se Miss Moneypenny fosse uma espia mil vezes mais perigosa que James Bond?”

Subvertendo o papel clássico das protagonistas femininas nas histórias de espionagem, Velvet consegue apresentar uma personagem convincente com alguns defeitos (como a empatia pontual que demonstra), mas psicologicamente flexível e suficientemente discreta para se misturar com qualquer multidão, chegando mesmo a aproveitar-se do estereotipo a seu favor.

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Apesar de assumir inicialmente o papel clássico da mulher em histórias de espionagem como a secretária do director, bonita e sedutora, Velvet é obrigada, na sequência de uma série de eventos suspeitos, a deixar a ocupação na qual se reformou para se revelar a mais perigosa agente feminina.

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Tendo-se envolvido, ao longo dos anos, com os vários operativos sem que estes se tenham apercebido uns dos outros, estranha a armadilha de que um deles é alvo e ainda mais o suspeito principal, um ex-agente, amigo admirado. Velvet inicia a sua própria investigação sem ter a oportunidade de confrontar quem pretende defender – encontra-o morto e vê-se, ela própria, como suspeita. Apesar de já não ser jovem e de se encontrar afastada da profissão há algum tempo, rapidamente recupera conctactos e, sem deixar de investigar a conspiração que a envolve, foge do país.

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De ambiente sombrio, realçando o isolamento característico da profissão, Velvet apresenta uma sucessão de episódios carregados de acção onde se exploram as capacidades da espia, mostrando-a como uma mulher suficientemente capaz para dar a volta à situação, inteligente, mas também, empática e nostálgica; dando alguma profundidade às típicas histórias de espionagem. No final fica a comichão de quem quer saber o resto da história mas ainda não a tem disponível.

Em Portugal Velvet vol.1 foi publicado pela G. Floy.

To your scattered bodies go – Philip José Farmer

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Um homem acorda, nú, jovem e saudável entre outros seres humanos adormecidos na mesma condição física,  quando, momentos antes, estava velho, numa cama, à beira da morte. Dos que o rodeiam, é o único consciente, visualizando alguns corpos ainda em estado inacabado. O que se sucede é o início de um estranho estado – todos são depositados num local desconhecido, bastante diferente das paisagens terrestres que conhece.

Quando todos acordam percebe-se que não provém todos da mesma época, civilização ou credo existindo, até um alienígena entre eles. A combinação de local paradisíaco (sem chamas infernais) e a ausência de roupa confundem os religiosos puritanos que associavam a nudez ao inferno, não conseguindo perceber se encontraram, por fim, a existência pós-vida.

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Sir Richard Francis Burton, a personagem principal inspirada num controverso escritor do século XIX, é um homem inteligente e prático que rapidamente antevê as primeiras reacções humanas – esperando o pior de todos, consegue garantir a sua sobrevivência e daqueles que o seguem, estabelecendo um pequeno acampamento.

Esta nossa personagem não acredita prontamente no conceito de paraíso, estranhando tanto a forma como foram colocadas neste local, como o aparecimento regular de mantimentos, drogas e algumas roupas. Curioso, decide-se a partir com o seu grupo em exploração, ao longo do grande rio que parece atravessar todo o planeta. Pelo caminho encontram algumas sociedades mais organizadas, assentes sobretudo na violência e na escravidão, que irão capturá-los e separá-los.

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Personagem curiosa, de mente flexível e explorador por natureza, inteligente mas conhecido pelo seu anti-semitismo, Burton inicia uma longa missão com o objectivo de compreender a confusão pouco paradisíaca que o rodeia, e o intuito dos constructores do Riverworld.

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Questionando as várias crenças humanas numa existência pós-vida e misturando tecnologia bastante avançada com alienígenas, a história explora também as possíveis interacções entre culturas distantes que, neste contexto, têm oportunidade de trocar impressões, ideias e costumes.

Este contexto permite, não só interacções curiosas entre as diferentes culturas mas, também, interacções entre pessoas de diferentes locais e épocas. Neste primeiro volume destaca-se Burton, bem como Alice Hargreaves e Hermann Goring, sendo que estas duas personagens demonstram ter pouca flexibilidade e evolução mental, características que poderão estar relacionadas com as capacidades únicas de Burton que o tornam uma entidade especial neste mundo.

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Apesar da história se encontrar carregada de violência (há que perceber que estas circunstâncias geram medo, pânico e consequentemente violência num contexto onde não existe ainda uma estrutura social) não deixa de parte o lado inventivo da espécie humana, capaz de recorrer aos mais diversos elementos para construir o que necessita para sobreviver.

Série vencedora do prémio Hugo e nomeada para o prémio Locus, destaca-se pela crítica religiosa, pela originalidade e pela forma como explora o mundo que criou, apesar de se centrar (neste primeiro volume) numa só personagem. Em Portugal To Your Scattered Bodies Go foi publicado na colecção Argonauta como Mundo sem Morte.

Retrovirus – Justin Gray e Jimmy Palmiotti

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Zoe Mallace é uma conceituada virologista que, apesar da figura esbelta, consegue singrar num meio científica misógino mostrando-se uma pessoa pouco submissa. Conhecida pelas suas capacidades, não é de estranhar que receba uma boa e misteriosa proposta de uma entidade privada para investigar um vírus desconhecido.

As instalações nas quais deve conduzir a investigação são na Antártida e, apesar do entusiasmo, assim que chega percebe que algo está errado – o tal vírus já contagiou todos os cientistas e sendo transmitido pelo ar, infectou-a também, e ao bebé que carrega.

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O vírus terá sido recriado por engano aquando da reconstrução de um neandertal, clonagem que terá sido possível preenchendo as componentes desconhecidas com DNA de um ser humano. Felizmente estes detalhes científicos são pouco debatidos e realçados, ou a narrativa ter-se-ia tornado bastante irritante pela quantidade de erros e ideias que derivam de uma perspectiva errónea em relação a alguns conceitos base.

Os neandertais também se encontram na base, contidos, num espaço que recria uma floresta. Estes seres revelam-se capazes de uma brutalidade sem limites, fortes e mais inteligentes do que deveriam ser. A partir daqui o que se pode esperar é expectável – os neandertais escapam do recinto e iniciam uma verdadeira chacina.

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Uma leitura engraçada mas banal que se destaca sobretudo pelas pranchas movimentadas onde apresenta os Neandertais – enormes, brutos, mas mais inteligentes do que parecem, artefactos que conferem à história movimento e o factor de fascínio mas que pouco servem a narrativa.

Alternando páginas graficamente esplendorosas carregadas de detalhes e acção, com outras insípidas em que as posturas parecem algo forçadas, Retrovirus apresenta uma narrativa bastante linear focada em três personagens tipo – a nossa heróina, destemida mas frágil, o vilão capitalista que pretende vender armas biológicas, e o herói, forte e apaixonado que aparece na hora certa para salvar o dia.

Resumo de Leituras – Julho de 2016 (6)

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181 – Psicopatos – Vol.2 – Miguel Montenegro – Explorando várias teorias e métodos da psicologia, conjuntamente com algumas piadas geek, Psicopatos apresenta uma série de tiras de banda desenhada com patos e porcos como personagens que vão dando uma tacadinha irónica (ou crítica) à psicologia, como profissão e como ciência;

182 – Hamlet tinha um tio – James Branch Cabell – Aproveitando alguns dos conhecimentos sobre o código moral dos viquingues refaz a história de Amleth ou Hamlet, personagem que foi adaptada e desconstruída por Shakespeare para a construção da famosa peça. O autor tenta aqui recriar a verdadeira figura histórica, numa obra de ficção que peca, no final, pelo distanciamento excessivo da personagem principal;

183 – Graveyard Shift – Jay Faerber e Fran Bueno – Alternando entre páginas graficamente estimulantes e páginas mais aborrecidas, a história é bastante linear e previsível, apesar de ter a sua graça. Um polícia numa rusga depara-se com um homem de força sobre humana, que não conseguem apanhar. Mais tarde, numa cena de extrema violência, matam-lhe a noiva, e quase o matam a ele. Afinal as figuras com que se deparou eram vampiros e a noiva foi transformada;

184 – To your scattered bodies go – Philip José Farmer – Pessoas de várias origens geográficas e cronológicas ressuscitam na margem de um grande rio, nuas. O local pouco se parece geograficamente com a Terra, e o aparecimento regular de comida, roupa e outros utensílios torna Burton, a personagem principal, céptica quanto a estarem no Paraíso. Aproveitando o seu conhecimento da humanidade e a sua natureza exploradora, Burton consegue reunir um grupo de pessoas que, com ele, irá partir em viagem ao longo do rio, com o objectivo de perceberem o que está a acontecer.