Saga – Brian K. Vaughan e Fiona Staples (Vol.2)

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Eis finalmente o segundo volume desta série, iniciada há meses pela G Floy. A qualidade mantém-se neste volume de capa dura em que se continua a história do casal perseguido, Alana e Marko, dois elementos de espécies sapientes rivais que se digladiam numa guerra eterna há vários séculos. Mas não é só o romance que é a causa da perseguição: o seu amor originou uma filha, mista, com características de ambos.

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Se no volume anterior tiveram de enfrentar mercenários loucos, entre eles uma aracnídea humanóide, sexy mas perigosa, e fugir por entre florestas assombradas, neste, o perigo é bastante diferente e mais familiar – os pais de Marko conseguem materializar-se na nave espacial onde viajam, julgando que o filho estava em perigo, mas o que encontram é bastante mais estranho, uma família acompanhada por um meio fantasma.

Enquanto esta família enfrenta o conflito familiar, vamos conhecendo as pequenas aventuras das outras personagens da história: um mercenário que pretende salvar uma criança de uma rede de prostituição, um louco militar de cabeça televisiva que nos fornece os episódios mais peculiares, e um escritor de livros, o responsável pelo romance que uniu Alana e Marko.

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Depois da intensa acção vivida no primeiro volume, esta é uma continuação mais pausada, onde se aproveita para se dar a conhecer a história por detrás de algumas personagens. Combinando elementos de ficção científica e de fantástico, a história continua a conseguir surpreender-no, tanto pelas personagens que nos vai apresentando, como pelos estranhos cenários onde a acção se desenrola.

Resta aguardar pelo próximo volume !

Enciclopédias e Dicionários Fantásticos (2)

(primeira parte)

Microenciclopédia micro-organismos, microcoisas, nanocenas e seus amigos de A a Z

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Com estrutura de enciclopédia, esta obra aproveita alguns termos científicos para tecer histórias fantásticas em que os seres microscópicos se transformam em entidades ficcionais de pequenos romances e conflitos, ou em que seres macroscópicos se encolhem para caber neste volume.

De autoria partilhada entre nove autores (entre os quais Afonso Cruz, Pedro Medina Ribeiro ou Patrícia Portela) e carregado de ilustrações é um volume curioso e apetitoso que, apesar de apropriado para qualquer pessoa, pode ter um gostinho especial para os que estudaram ciências biológicas.

 

Adventures in Unhistory

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Escrito quase com tom académico, este Adventures in Unhistory de Avram Davidson aproveita factos reais e ficcionais para desenvolver teorias em torno de quinze mitos. Passando por seres mitológicos como unicórnios e sereias, ou sobrenaturais como os lobisomens, explora histórias como as aventuras de Sinbad ou o reino de Prestes João.

Extraordinário em construções e desenvolvimento, é, apesar da sua densidade, um divertido volume de histórias que mantém o leitor em constante alerta pela diferença entre os factos e a ficção bem introduzida pelo autor.

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(continua…)

Antaius Floating in the Heavens Among the Stars – Andrea Phillips (Jews Vs Aliens)

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De capa no mínimo estranha, e premissa ainda mais peculiar, esta antologia promete misturar alienígenas com judeus. E o que sai desta salgalhada? Bem, a totalidade desconheço, mas é possível arrancar um preview da versão kindle que dá para ler a primeira história, de nome complexo, e posso dizer que a amostra é boa.

A história, curta, é feita à base de correspondência entre várias partes interessadas num casamento tradicional judeu, cuja organização está a cargo de uma empresa alienígena, muito em voga. Mas se em qualquer casamento surgem imprevistos na organização, este tem um ensaio horrendo em que os alienígenas, tratando-se o casamento de um ritual de casamento (ou acasalamento), decoram o espaço com representações de genitálias humanas.

Segue-se a reclamação por parte dos noivos e a empresa equaciona até desistir de organizar o evento – mas a proximidade da data e a importância social dos noivos leva-os a contratar ajuda externa impropriamente especializada. O resultado? Cómico. Desconhecendo o resto da colectânea, este início promete e o volume poderá tornar-se numa das próximas aquisições.

Últimas aquisições

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Poucos mas bons! Eis o segundo volume de Vaporpunk, publicado pela Editora Draco (eis o comentário ao primeiro volume) que contem histórias de Fábio Fernandes (quem me ofereceu o livro), Luiz Bras, Jacques Barcia ou Romen Martins:

O steampunk invadiu o mundo. Literatura, roupas, gadgets, quadrinhos, filmes, festas, clubes de fãs, games e animações, não há nicho da cultura pop que escape da estética do vapor, que vem moldando toda uma geração de criadores e apreciadores. Inclusive no Brasil, cujo olhar sobre o gênero talvez seja um dos mais autênticos do mundo, deixando claro que a fuligem, o cavalheirismo e a aventura podem esconder sombras densas.

Após o sucesso de Vaporpunk – relatos steampunk publicados sob as ordens de Suas Majestades, a Editora Draco achou que ainda havia muita lenha para queimar e convocou uma nova formação de sua liga extraordinária de autores em Vaporpunk Novos documentos de uma pitoresca época steampunk. Tremam, biltres vilões!  Os organizadores Fábio Fernandes e Romeu Martins prepararam outra fornada de histórias fantásticas ao lado de Dana Guedes, Nikelen Witter, Luiz Bras, Sid Castro, Jacques Barcia e Cirilo S. Lemos.

Seja reimaginando o passado, voando por cidades estranhas ou manipulando dispositivos fantásticos, nove contos que exploram o gênero o farão entender porque o steampunk é tão amado, tão pitoresco e tão cheio de possibilidades.

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O segundo livro da Editora Draco é um dos volumes de Space Opera, que contem o conto Obliterati que o escritor Fábio Fernandes referiu na sessão de Outras Literaturas – Ficção Científica, bem como histórias de Gerson Lodi-Ribeiro, Octavio Aragão ou Carlos Orsi:

Desbravar o desconhecido e enfrentar perigosos inimigos em mundos exóticos, viajar entre as estrelas em aventuras eletrizantes, desvendar mistérios lutando contra as temíveis forças do mal.

Assim é a space opera, o mais famoso subgênero da ficção científica, celebrado no cinema, TV e literatura.Depois do sucesso da primeira antologia brasileira de ficção científica espacial, publicada pela Editora Draco em 2011, as peripécias de heróis e vilões intergalácticos não poderiam ficar restritas a um único volume. Dos mesmos organizadores do já famoso Space Opera – Odisseias Fantásticas Além da Fronteira Final, chega mais uma edição deste fantástico projeto.

Conheça a tripulação da nave: Carlos Orsi, Fábio Fernandes, Lidia Zuin, Roberto de Sousa Causo, Marcelo Augusto Galvão, Octavio Aragão e Tibor Moricz, grandes talentos da ficção especulativa nacional capitaneados pelos organizadores Hugo Vera e Larissa Caruso. O prefácio é do escritor Gerson Lodi-Ribeiro.

Acomodem-se em seus assentos. Afivelem seus cintos, configurem os painéis de controles e estejam a postos. Entraremos no hiperespaço em 3… 2… 1… ATIVAR!

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Ele está de volta possui uma capa minimalista mas bastante comunicativa – a sinopse pouco acrescenta à informação disponibilizada pelo escasso desenho em conjunção com o título, mas a primeira página revelou-se de texto escorregadio, e o livro acabou por se escapar da loja:

E se Hitler voltasse à Alemanha? E se os alemães o recebessem de braços abertos? E se…. Berlim, 2011. Adolf Hitler acorda num terreno baldio. Sente uma grande dor de cabeça. O uniforme tresanda a querosene. Olha à sua volta e não encontra Eva Braun. Nem uma cidade em ruínas, nem bombardeiros a riscar os céus. Em vez disso, descobre ruas limpas e organizadas, povoadas de turcos, milhares de turcos. E gente com aparelhos estranhos colados ao ouvido. Começa assim o surpreendente primeiro romance de Timur Vermes, passado na Alemanha de Angela Merkel, 66 anos depois do fim da guerra. Hitler ganha nova vida. Na sociedade espetáculo, dos reality shows e do YouTube, o renascido Führer é visto como uma estrela, que uma televisão sequiosa de novidades acolhe de braços abertos. A Alemanha da crise, do Euro ameaçado, da austeridade, vê nele um palhaço inofensivo. Mas ele é real, assustadoramente real. E, passo a passo, maquiavelicamente, planeia o seu regresso ao poder – por via da televisão. Sátira ferocíssima a uma sociedade mediatizada, narrado num registo arrepiadoramente fiel ao Mein Kampf, tem tanto de romance político como de crítica de costumes. Afinal, a Alemanha de Merkel, dominadora, obcecada pelo poder e pelo sucesso, está pronta para o receber… e ele está de volta.

 

The Singular and Extraordinary Tale of Mirror and Goliath – Ishbelle Bee

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Eis uma daquelas capas que me fez temer o conteúdo – um clássico ouro sobre azul, mostrando uma criança acompanhada por um adulto, debaixo de um título sonhador e enquadrado em detalhes mecânicos que auspiciam um Steampunk juvenil e inocente. E depois de toda esta sensação, porque peguei no livro? Por causa da editora – a impressão que me ficou é que a Angry Robot costuma publicar histórias estranhas e alternativas, que, apesar de nem sempre atingirem o patamar do excelente, costumam deixar marca. E assim foi com este livro que, ultrapassando as primeiras perspectivas, de inocente tem muito pouco.

Mirror e Goliath são dois companheiros de viagem que retornam do Egipto num navio. O que os une e o motivo da sua viagem é tudo menos uma relação familiar tradicional – Goliath terá sido o polícia que salvou Mirror de morrer às mãos do avô que terá assassinado as outras duas netas, encarcerando-as vivas num caixão. Mirror, por sua vez, terá ficado presa num relógio de estranhos poderes mágicos. Apesar de salva não sobreviveu incólume, julgando-se agora possuída por algo que não a deixa cair na liberdade desprendida de uma criança normal.

Mas se a criança não é a mesma, também o seu salvador mudou – Goliath tornou-se uma espécie de transmorfo, activado apenas quando necessário. Assumindo a guarda da menina leva-a ao Egipto, onde o pai estará responsável pelas escavações arqueológicas do túmulo de uma princesa que terá tido fortes poderes mágicos. Regressados a Inglaterra, Goliath investe tempo e dinheiro a consultar todos os mediums charlatães a fim de perceber o que de errado se passa com Mirror. Assim atravessa o caminho de perigosos seres que pretendem usar Mirror.

Não julguem que a história vai rodar em torno desta perseguição, resumindo-se a duelos entre o protector Goliath e estes estranhos seres humanóides. Muito pelo contrário. Devagar vão-se desenrolando outras histórias que envolvem as restantes personagens, histórias de horror em que os espíritos de crianças são usadas para habitar belos e valiosos relógios, ou são raptadas por seres psicóticos para as educarem como monstros.

De pesadelo em pesadelo vão-se seguindo as histórias entrelaçadas de crianças que, incautas, cruzam o caminho de adultos mal intencionados e sofrem transformações mágicas – por vezes boas, mas na sua maioria, desoladoras. Apesar de existir quem tente impedir o uso das crianças a verdade é que são poucos e de escassos recursos.

Se, por um lado, o que destaca a história é não se centrar apenas no duo principal e entrelaçar histórias, julgo que este entrelaçar poderia ter sido melhor conseguido trocando a ordem de alguns capítulos. A história do duo principal quase se resume ao primeiro quarto do livro, sendo que apenas é retomada no final para encerrar o círculo e ainda que as restantes personagens sejam interessantes provoca alguma quebra na leitura. Ainda assim, é uma leitura bastante interessante e invulgar, que, não atingindo o patamar do excelente, consegue ser muito boa.

(cópia digital fornecida gratuitamente pela editora)

Destaque da semana: Número Zero – Umberto Eco

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Eis um novo livro de um Umberto Eco, autor de algumas das minhas leituras favoritas como Baudolino ou O Nome da Rosa. Com lançamento previsto para 19 de Maio, é, sem dúvida uma aquisição obrigatória:

Este é um romance que não deixa ninguém indiferente à reflexão sobre os jornais e o jornalismo. Como cenário de fundo tem uma redacção de um jornal diário, que se está a constituir de modo apressado e por razões que menos se relacionam com o objectivo de preparar boa informação e mais respeitam à criação de uma «fachada» para servir interesses próprios. Neste caso, não os interesses dos jornalistas, poucos, relativamente mal pagos e com histórias de carreira onde o sucesso não tem tido lugar, mas sim os interesses de quem tem poder, dinheiro ou ambos. Poderá um órgão de comunicação social servir para ter os inimigos na mão e chegar aonde se quer?

Um jornal que está a dar os primeiros passos muito tem para decidir. E esta obra de Umberto Eco torna-se, nesta vertente, numa espécie de «manual» de decisões onde a qualidade do produto final está mais arredada das preocupações do que seria desejável. Neste jornal, designado Amanhã, há espaço para criar notícias, reciclar notícias e encobrir notícias. Sendo esta uma obra de ficção, a leitura que pode ser feita do que lá se escreve vai além da boa leitura que a narrativa proporciona.

Poder e jornalismo associam-se aqui a teorias da conspiração. Um redactor paranóico que anda pela Milão em que a história se passa, segue atrás de pistas que remontam ao fim da Segunda Guerra Mundial e, somando factos, chega a um complexo resultado que tem tudo para convencer. Começa pelo cadáver de um pseudo-Mussolini e segue pelos meandros da política, envolvendo o Vaticano, a máfia, os juízes e os serviços secretos.

 

Assim foi: Sustos às sextas (Sessão de 15 de Maio)

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Foto retirada da página oficial do Evento

À entrada esperavam-nos árvores aparentemente fantasmagóricas – grandes esculturas que a parca iluminação fazia alongar os ramos, em assombrosas sombras de braços longos – tudo apropriado ao evento que se seguia, a última sessão da primeira temporada dos Sustos às Sextas, que tem ocorrido mensalmente.

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Depois da usual visita às salas de exposição, que desta vez continuam aquosas e fantásticas obras de arte, eis que se inicia a sessão, com um pequeno resumo de todo o ciclo, onde se realçaram as várias vertentes do evento (desde a música, ao teatro, passando pela literatura e pelo cinema) – um pequeno resumo que recorda a necessidade de existirem eventos diferentes, fora dos tradicionais moldes e temáticas.

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Foto retirada da página oficial do Evento

E eis que se inicia a apresentação de Rogério Ribeiro que seguiu a divergência do sobrenatural e da ciência ao longo das últimas décadas, onde o moralismo mais fechado da ditadura portuguesa afastou o tema espiritismo dos circuitos da normalidade, ainda que, na literatura, tenham continuado associados, principalmente nos mais conhecidos clássicos do género.

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Depois da leitura do conto Aniversário, vencedor do Concurso Literário de Contos de Terror, seguiu-se o Questionário de Terror que se tornaria um dos momentos mais divertidos do evento pela interacção entre as equipas. Depois de uma animada disputa pelo título os vencedores foram dois especialistas no género, David Soares e Gisela Monteiro.

Notou-se a vontade e o esforço dos organizadores, mas essencialmente o prazer, em apresentar temas e vertentes variadas do Horror, com especial destaque para o trabalho de vários portugueses.Agora é aguardar que haja oportunidade para uma segunda temporada do Evento ao qual já nos tínhamos habituado!

Assim foi: Outras literaturas – Ficção Científica

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Depois de uma intensa sexta-feira, apenas pude comparecer para a sessão de ficção científica onde se contou com a participação do autor português João Barreiros, do brasileiro Fábio Fernandes, e da sul africana Lauren Beukes. A primeira conversa decorreu em português, apenas com os autores português e brasileiro, tocando-se na evolução do género em cada um dos países e nas obras de cada um. João Barreiros recordou Disney no Céu entre os Dumbos (lançado pela Livros de Areia) bem como A Bondade dos Estranhos (publicado pelas Edições Chimpanzé Intelectual), e Fábio Fernandes o seu livro Os Dias da Peste, sem se esquecer do seu recente Obliterati (lançado na colectânea Space Opera pela Editora Draco.

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A segunda conversa, em inglês, envolveu apenas Lauren Beukes. As perguntas à autora foram semelhantes, realçando-se a diferença de percurso na carreira de alguém que escreva em inglês, o que possibilita a entrada no mercado anglo saxónico. Claro que este seria um dos temas mais debatidos, a diferente exposição da obra que a língua possibilita, tendo havido foco nas traduções.

Lauren falou do trabalho que desenvolve com os tradutores, Fábio Fernandes nas diferenças narrativas entre escrever em português e inglês, e João Barreiros dissertou sobre o seu conto Uma Noite na Periferia do Império que chegou a ser publicada numa antologia em inglês – uma forte história cómica, irónica e hilariante que apenas poderia ter sido escrita num cenário português.

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Se a compreensão de outras culturas pode ser complicada para quem lê obras traduzidas, surgem também imprecisões e erros crassos em obras escritas sobre outras culturas. E aqui houve espaço para cada um dos autores falar de obras sobre os respectivos países: Fábio Fernandes falou de Brasil de Ian McDonald que terá diálogos pouco convincentes, João Barreiros dissertou comicamente sobre As Fogueiras de Deus de Patricia Anthony onde o Rei vive no Castelo comendo barras de chocolate (numa época em que este não existia), , e Lauren Beukes referiu uma banda desenhada onde o aeroporto de Johannesburgo ficará no meio de um deserto.

Para além dos problemas próprios da língua, falou-se da evolução do género em cada um dos países representados, e tocou-se nalguns pontos actuais, passando pela polémica dos prémios Hugo. Houve ainda espaço para os autores referirem algumas das obras do género que os terão marcado, e para Lauren Beukes falar um pouco mais do seu processo de escrita, que envolve pesquisas nas cidades que tem como cenário, ou das pessoas que pretende representar nas suas obras. No final houve espaço para questões, que levaram à referência de obras onde a memória pode ser convertida, manipulada ou transmitida.

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E assim foi este evento de três longas sessões em torno da banda desenhada, do policial e da ficção científica que, fora o título infeliz de “Outras Literaturas”, possibilitou a vinda de autores estrangeiros interessantes, num formato diferente do usual lançamento pontual ou do Fórum Fantástico (que não tem, claro, o orçamento de uma fundação Gulbenkian).

Assim foi: Outras literaturas – Banda desenhada

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Infelizmente cheguei tarde, mas ainda foi o suficiente para que a discussão se debruçava sobre o impacto político, consciente ou inconsciente, do trabalho de cada um dos autores, Anton Kannemeyer, Marcelo D’Salete e Posy Simmond, enquadrando-se esse impacto nos países onde forem publicados. Discussão interessante, apesar deconsiderar também bastante importante o “simples” aspecto lúdico e criativo da banda desenhada.

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No final, houve perguntas! Bastantes, o suficiente para terem de dizer “só mais esta”, o que é raro de ocorrer. E aqui falou-se das novas tecnologias, e da sua utilização (ou não) na criação das pranchas, prosseguindo-se para disponibilização virtual desse trabalho. Apesar do curto tempo que pude assistir é de realçar as boas condições do espaço (com traduções em simultâneo), e o quão composta estava a sala (apesar da fotografia apenas mostrar a parte mais vazia).

Este é o tipo de iniciativas que se querem ver mais por cá, com autores reconhecidos internacionalmente nos vários géneros da literatura, um interesse que tinha sido esquecido há muito pela fundação Gulbenkian. Esperemos que esta seja apenas a primeira de muitas.

Eventos: Relembrando a programação deste fim-de-semana

15 de Maio – Outras Leituras – Painel de Banda desenhada

15 de Maio – Sustos às Sextas

16 de Maio – Outras Leituras – Painéis de policial e Ficção científica

E o fim-de-semana começa com o Painel de Banda Desenhada, a decorrer na sexta na Gulbenkian, que conta com a presença de Anton Kannemeyer (África do Sul), Marcelo D’Salete (Brasil) e Posy Simmonds (Reino Unido). Tenho a confessar que os meus conhecimentos do género não são suficientes para reconhecer os nomes, mas pelo que vi em cada uma das páginas que encontrei, fiquei interessada.

A sexta continua com Sustos às sextas, a última sessão deste ciclo (será que existirá outro?) que conta com a participação de Rogério Ribeiro, um dos organizadores do Fórum Fantástico. Será, ainda, lido o conto vencedor do concurso e está previsto um quizz de Terror.

Depois de uma entrada animada no fim-de-semana, é a vez de continuar no Sábado, com os painéis de Policial e de Ficção Científica. No meu caso interessa-me mais o de FC que conta com a participação de João Barreiros, Fábio Fernandes (Brasil) e Lauren Beukes (África do Sul). De destacar a autora que já foi discretamente publicada em português (As Raparigas Cintilantes).

Collected Fiction – Hannu Rajaniemi

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Iniciar uma nova trilogia de ficção científica não é algo que, de momento, me atraía. É por esse motivo que tenho adiado a leitura de The Fractal Prince, primeiro livro de Hannu Rajaniemi que o destacou nas editoras anglo-saxónicas ao ser nomeado para vários prémios internacionais. Tendo tido a oportunidade de ler uma colectânea de histórias do autor, não hesitei e, mesmo extensa, é excelente, apesar de impregnada de estranha – nem os cenários, nem os contextos são rotineiros, e muito menos o final.

Entre as histórias encontramos algumas que exploram de forma bastante intensa a tecnologia -mundos sem vida criados por servidores que aguardam quem os ocupe (The Server and The Dragon) ou um pequeno mundo criado em torno de uma única jovem continuamente vigiada em Tyche and the Ants. Noutros a tecnologia é uma forma de reclusão como The Jugaad Cathedral ou simplesmente de exploração adolescente de pequenos romances (Shibuya no Love).

Mas se estes excelentes contos se caracterizam por uma intensa exploração do cenário tecnológico sem incentivar a empatia do leitor, o padrão quebra-se com His Master’s Voice (disponível gratuitamente aqui), uma das melhores histórias do conjunto, contada pela perspectiva do cão geneticamente melhorado de um homem que não terá hesitado em criar clones não autorizados de si próprio. Clones que, para os animais de estimação, são confusos, de tão semelhantes fisicamente mas distintos em cheiro.

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Invisible Planets apresenta-nos muitos e diferentes mundos estranhos – civilizações que descobriram o elixir da vida em corpos decompostos, que experimentam a gravidade (e as dimensões) de forma diferente ou que trocam de perspectivas com a capacidade de ver pelos olhos dos outros. Claro que entre todos estes mundos não poderia faltar um feito de livros, num tributo a Cidades Invisíveis de Italo Calvino.

A ligação com os clássicos não termina por aqui. Skywalker of Earth possui fortes reminiscências vernianas, numa excelente e divertida história de rivalidade científica que atravessa várias décadas e galáxias, com cientistas machistas e loucos capturados em fortes ideologias contrárias, clones de mulheres tolas e impossíveis foguetões capazes dos feitos mais impressionáveis.

Nem todas as histórias pertencem ao género de ficção científica. Intercaladas encontramos algumas, como The Haunting of Apollo A7LB que possui elementos fantásticos ou sobrenaturais, ao nos apresentar um fato de astronauta assombrado que obriga, a quem o possui, a visitar uma antiga amante do primeiro dono, a pessoa que terá costurado o fato.

As histórias de fantasmas não se ficam por aqui, com Topsight a explorar o fantasma de uma rapariga que permanece no mundo virtual ou com fantasmas caninos que atormentam um rapaz em Ghost Dogs. Nesta última existem alguns traços de horror, que serão predominantes em Satan’s Typist, um curto e irónico pesadelo, e Fisher of Men, que se centra numa mulher milenar que, em vingança do noivo, enfeitiça homens para que permaneçam a seu lado eternamente.

Estas não são todas as histórias da colectânea – existem muitas mais que exploram a vida na realidade virtual com vírus mentais e animais humanizados através de manipulação genética, maravilhas horrendas da exploração tecnológica que acabam por não contribuir para a evolução do homem que permanece igual a si mesmo – deprimido, emocionalmente isolado e socialmente desajustado.

(cópia fornecida gratuitamente pela editora)

Últimas aquisições

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Com alguns adquiridos em segunda mão, outros em promoção, o conjunto desta semana tem especial destaque para o segundo volume de Saga pela G Floy – finalmente vou poder continuar esta série fantástica e desesperar então pelo terceiro:

Dois soldados de lados opostos de um imenso conflito apaixonam-se, e correm o maior dos riscos: criar uma nova vida, que vai constituir uma ameaça tremenda à narrativa belicista de uma galáxia em guerra. Hazel, a recém-nascida filha de Alana e Marko, já sobreviveu a assassinos a soldo, exércitos em batalha e monstros terríveis, mas, no vácuo gelado do espaço, irá encontrar um desafio bem diferente… os seus avós.

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Vencedor do prémio Nobel de 1961, Ivo Andric é o autor de O Pátio Maldito. Lançado em português pela Cavalo de Ferro, parece uma leitura interessante para os próximos dias:

 Frei Petar, monge bósnio cristão, é preso por engano e encarcerado na prisão de pior reputação duma Istambul, então Constantinopla, capital do Império Otomano: «O pátio maldito». Nesta, cruzam-se assassínos, violadores, assaltantes, conspiradores, mas também inocentes e falsos acusados de todas as classes e religiões, cada qual com um percurso, uma história e várias mentiras.

No «pátio maldito», o frade vai conhecendo as histórias dos seus companheiros de infortunio. A sua voz vai-se diluíndo nos muitos relatos dos outros prisioneiros até desaparecer entre as diversas histórias que ouve, as mentiras que cada um inventa e as diferentes noções de justiça e de realidade… Entre ódios e recordações vão-se misturando presente e passado, realidade e ficção, numa história de histórias.

Uma notável metáfora sobre a harmonia entre os homens em condições adversas. Andric descreve os processos pelos quais a História se entranha na vida dos indivíduos e neles se reflete, num eterno jogo entre o particular e o universal, ao mesmo tempo que põe a nu a raiz dos conflitos que têm assolado os Balcãs ao longo dos séculos.

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Já o da direita, Uma Ilha na Lua, promete não ser uma leitura pacífica:

Texto em prosa, esta farsa inclassificável de Blake, Uma Ilha Na Lua, escarnece da pretensão científica. Uma Ilha Na Lua é uma obra inacabada e incompleta, constituída por um conjunto de diálogos e canções sem um nexo óbvio, a não ser o facto de constituírem paródias da conversação de homens e mulheres burgueses nos serões literários e musicais dos círculos londrinos frequentados por William Blake na penúltima década do século XVIII. Nas conversas e canções afloram temas como a educação da criança,  a ciência moderna, as relações entre sexos, a moda ou a religião. Através de um grupo singular de habitantes da lua, cujos nomes alegóricos tipificam as personagens, são postas em cena, por vezes de forma absurda, um conjunto de práticas artísticas, educativas, religiosas e científicas.

Trata-se, de certo modo, de um talk-show do século XVIII, em que a conversação pública tem lugar nos salões polidos onde a burguesia pratica a troca de ideias. No texto de Blake surgem lado a lado o laboratório químico, o púlpito, a sala de aula e a sala de estar, numa espécie de zapping sobre os tópicos de conversa que faziam a agenda do dia. As personagens incluem filósofos, matemáticos, arqueólogos, cirurgiões, químicos. Fazem-se experiências, especula-se, bebe-se e canta-se.

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E porque um Nobel nunca vem só, eis Estrela Errante de J.M.G.Le Clézio, acompanhado por Bestiário de Julio Córtazar:

Volume composto por oito famosos contos, publicado originalmente em 1951, “Bestiário” de Julio Cortázar é um dos marcos da carreira deste autor e da moderna literatura.

Animais invisíveis, como o tigre do conto que dá título ao volume, que se desloca a seu bel-prazer pelos quartos de uma casa, obrigando a família que ali vive a mil cuidados e precauções a fim de evitar encontros indesejados; animais imaginários, como as “mancúspias” que anunciam as fases da Cefaleia; animais que despontam do nada, como os coelhinhos da “Carta a uma rapariga em Paris”; ou outros ainda subjugados ao poder de feitiçarias arcaicas que ganham novas formas e sentidos em “Circe”, todos eles compõem este bestiário fantástico de Julio Cortázar, no qual a descrição realista de atmosferas familiares faz luz sobre a vida secreta de uma sociedade povoada por tensões misteriosas e irracionais.

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Eis por sua vez, Bestas de Lugar Nenhum de Uzodinma Iweala e Tratado da vida sóbria de Alvise Conaro, o primeiro sobre guerras que envolvem crianças, o segundo uma visão interessante do efeito do meio na saúde. Eis parte da sinopse:

O seu Tratado da Vida Sóbria – uma das mais famosas autobiografias da Renascença – continua a pôr em causa a corporação médica mundial, por esta se ter esquecido da base biológica que rege o corpo humano a partir da escolha dos alimentos, da sua qualidade e, sobretudo, da justa medida de calorias necessárias a cada pessoa, individualmente, pois todos os estudos mais ou menos científicos apontam o excesso (ou a carência) como principal causa de disfunções graves.

Este livro é também anticonsumo, anticapitalista, um hino à alegria de viver com saúde e, acima de tudo, um sério aviso àqueles que se submetem cegamente aos poderes da medicina, depois manipulados e explorados de acordo com os interesses dos consultórios e das multinacionais que fabricam os medicamentos.

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Finalmente, estes dois livros de aspecto sombrio são os dois últimos volumes da colecção Novela Gráfica, lançada pela Levoir com o Público.

 

Sete Minutos depois da meia-noite – Patrick Ness

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Patrick Ness não é um nome desconhecido no cenário juvenil a nível internacional. A trilogia Chaos Walking venceu inúmeros prémios conceituados e os restantes livros da sua autoria têm mantido a fasquia. É assim de estranhar que este Sete minutos depois da meia-noite (ou A Monster Calls), vencedor da Medalha Carnegie para melhor livro juvenil do Reino Unido, seja o primeiro do autor lançado em português.

Mas passando à frente – tudo é fantástico nesta edição que, à semelhança da inglesa, apresenta belíssimas e escuras imagens em papel lustroso, e ainda vem acompanhada por um poster. Tal qualidade faz-se sentir no peso – apesar de pequeno, é um pesado volume. Mas não é só de aspecto que o livro é pesado.

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A história centra-se em Conor, um rapaz que sobreviveu à separação dos pais e que agora cuida da mãe que enfrenta os duros tratamentos da quimioterapia. Na escola o cenário é o esperado – desde que se soube a doença da mãe que é alvo de tareias por um grupo de rapazes, e afastou-se da sua melhor amiga que terá sido a responsável por espalhar as cusquices da doença.

Cada vez mais revoltado, Conor começa a ser assombrado por um estranho monstro, uma árvore milenar, que chega sempre em hora certa. A cada aparição (e conforme a doença da mãe vai progredindo) Conor demonstra cada vez menos medo do monstro que lhe vai contando estranhas histórias em que nem tudo é linear, e onde a linha que separa o bem do mal é difusa, tal e qual como na vida real.

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Se o rótulo de livro juvenil indica, normalmente, um livro de moralidade simplista e narrativa linear, neste caso tal não acontece. Como os melhores livros juvenis a história é dura como a realidade e não poupa o leitor às dificuldades da doença que a mãe de Conor enfrenta, nem às transformações psicológicas que o próprio Conor sofre.

Apesar de juvenil torna-se, assim, um livro pesado em acções e pensamentos, em que o próprio monstro, no meio de todas estas reviravoltas, começa a ser visto como uma das componentes mais pacíficas da história. Ainda que genial, teria dificuldades em o considerar como uma boa leitura para crianças, e mesmo para jovens dependeria da faixa etária.

Resumo de Leituras – Maio (2)

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65 – Eclipse 4: New Science Fiction and Fantasy (comentário mais detalhado 1 | 2)- grande colectânea de histórias de qualidade bastante variável que, ainda assim, possui excelentes contos, entre outros esquecíveis. Alguns dos excelentes encontram-se também disponíveis gratuitamente (no comentário detalhado podem encontrar os links);

66 – Sete Minutos depois da meia-noite – Patrick Ness – livro juvenil com belíssimas ilustrações, centra-se num jovem de pais divorciados que vive com a mãe. A luta da mãe contra o cancro abala o mundo do rapaz que começa a ser atormentado por um monstro. Apesar da classificação como juvenil achei um livro demasiado pesado (comentário mais detalhado seguir-se-á nos próximos dias);

67 – Bestiário – Julio Córtazar – um dos lançamentos mais recentes da Cavalo de Ferro, possui várias histórias do autor – desde Casa Ocupada (que deu lugar recentemente a um pequeno filme de autoria portuguesa, passado no Fórum Fantástico) a Carta a uma Rapariga a Paris, em que coelhos teimam em aparecer pela boca de um homem. Tenho a confessar que gostei mais deste conjunto de contos de Córtazar (comentário mais detalhado seguir-se-á nos próximos dias);

68 – Hannu Rajaniemi: Collected Fiction – o autor filandês de The Quantum Thief é também o responsável por uma série de histórias de ficção científica com uma forte componente tecnológica. Entre mundos criados por servidores e homens que vivem como avatar, descobrimos homens, com expectativas e medos comuns a quaisquer outros. Um excelente e diferente conjunto de histórias (comentário mais detalhado seguir-se-á nos próximos dias);

69 – Squirrel seeks chipmunk – David Sedaris (comentário mais detalhado, com imagens do interior)- com expressivas ilustrações apresenta uma série de histórias centradas em animais, explorando preconceitos ou racismo, e apresentando episódios engraçados. Interessante e divertido, é uma boa sátira humana.

Squirrel Seeks Chipmunk – David Sedaris

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Este delicioso pequeno volume de histórias possui espectaculares episódios em que os animais adoptam comportamentos quase humanos apesar de limitados pela sua natureza. Exploram-se sentimentos e pensamentos, racismos e preconceitos em curtos episódios sempre acompanhados por peculiares ilustrações.

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Em mais do que um trecho se demonstram percepções erróneas da saúde e da ciência, desde cobaias que acreditam que as doenças apenas atingem aqueles que vivem pessimistas ou isolados, a cegonhas que acreditam que os bebés são trazidos por ratos que os depositam nos seus ninhos, passando por um corvo que, aproveitando-se da inocência da mãe, a convence dos benefícios da meditação.

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Entre os episódios que mais se destacam encontra-se o romance entre duas espécies de esquilo que se quebra pelo preconceito depois de um deles referir o gosto por jazz. Afinal o que será isso? Talvez uma palavra sórdida? Noutro uma ursa assiste à morte da mãe e percebe que, chorando aos vizinhos não só lhes ganha a simpatia, como os favores.

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Aproveitando-se das figuras animais, simples de contextualizar, aproveita para satirizar e ridicularizar os comportamentos mais básicos dos seres humanos, em episódios sintéticos com bastante piada e aparente inocência.

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(ver parte 1)

Fields of Gold de Rachel Swirsky é a segunda história deste conjunto que explora a existência para além da morte. Neste caso os fantasmas juntam-se comummente em grandes festas numa realidade de perpétua repetição, encontrando-se velhos amigos e celebridades históricas. Mas existem algumas regras a cumprir. Boa história melancólica, que explora uma premissa interessante, ainda que tenha um final pouco forte.

Thought Experiment de Eileen Gunn é outra das grandes histórias deste conjunto. Ralph Drumm Jr. é um engenheiro que descobre a possibilidade de viajar no tempo e começa a visitar vários locais na história sem qualquer preparação prévia, nem cuidado com o fluxo temporal. Rapidamente estranha que, sempre que retorna a um mercado medieval, os habitantes se vieram contra ele sem qualquer pretexto, tentando matá-lo à pedrada.

Infelizmente, esta esta excelente história marca a passagem para mais umas quantas pouco memoráveis, ou apenas estranhas. The Double of my Double is not my double de Jeffrey Ford explora uma realidade em que as pessoas têm duplos, outros seres fisicamente semelhantes com actividades profissionais precárias que de vez em quando tentam interferir na vida das pessoas das quais são cópias.

Nine Oracles de Emma Bull roda o mundo descrevendo nove pessoas com a capacidade de antever catástrofes. Como qualquer oráculo, a capacidade de previsão não significa que os restantes acreditem nas suas visões. Explorando também a capacidade de antevisão, Dying Young de Peter M. Ball decorre num mundo futuro com seres humanos geneticamente modificados, em que a sociedade regrediu para um género de faroeste. Com passagens interessantes, mas que, no meu entender, precisavam de mais contexto e acção para resultar.

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The Panda Coin de Jo Walton centra-se numa moeda para descrever a vida das várias pessoas pelas quais passa. Pessoas das mais variadas camadas sociais num mundo futuro, socialmente decrépito, onde as máquinas mais básicas tentam esconder a sua inteligência e a segregação social dificulta a evolução de alguns na hierarquia. Uma excelente história, peculiar em desenvolvimento e conclusão.

O conjunto termina com Tourists de James Patrick Kelly, uma boa história que não atinge o patamar do excelente, num mundo futuro em que a humanidade já colonizou alguns planetas, e os seres humanos podem ter clones de si próprios como filhos. É o caso de Mariska, uma jovem clone que tenta fugir da influência da mãe e acorda a bordo de uma nave rumo a uma nova colónia. Sobrevivente de um estranho acidente, desenvolve uma estranha amizade com um marciano, um ser humano capaz de fotossíntese.

Sem ter um título a limitar a escolha das histórias, esta antologia revela excelentes histórias mas contem, também, algumas que, não ultrapassando o patamar do estranho, se tornam irritantes por não explorarem boas premissas. Destacam-se algumas histórias como The Panda Coin (Jo Walton), Thought Experiment (Eileen Gunn), Slow as a Bullet (Andy Duncan), The Man in Grey (Michael Swanwick), Old Habits (Nalo Hopkinson) e The Vicar of Mars (Gwyneth Jones).

Algumas destas histórias encontram-se disponíveis gratuitamente

The Panda Coin – Jo Walton;

Slow as a bullet – Andy Duncan;

The Vicar of Mars – Gwyneth Jones (versão audio).

Últimas aquisições

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Ainda que os dois de Zoran Zivkovic não tenham sido aquisições, mas sim ofertas de um dos meus autores favoritos – Escher’s Loops e The Five Wonders of the Danube. Estes eram dois dos livros que me faltavam na sua bastante extensa obra. Eis a sinopse de Escher’s Loops:

Once again Zivkovic demonstrates the sheer power of storytelling in this complex cycle of interlocking narratives. Like one of Escher’s drawings, the narrative threads lead one through a dizzying labyrinth of recurring themes, images and characters, all of whom are linked with elegant mathematical precision: God and suicide, food and poison, monks, athletes, soldiers and soccer players all take their places in the circle-dance. Absurdity, surreality and humour abound; death is the ultimate destiny, yet always the next story offers infinite ways of escape.

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Bastante maior, The Five Wonder of the Danube é uma edição bastante peculiar, dividido em cinco componentes, cada uma com a sua cor, e carregado de estranhas imagens. Sem dúvida uma das próximas leituras:

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Mau tempo no canal de Vitorino Nemésio tem sido referência quase constante nas sessões de Recordar os Esquecidos, pelo que finalmente me convenceram a adquirir o livro. Eis a sinopse, que na prática é parte do prefácio, da autoria de João Miguel Fernandes Jorge:

Creio que o isolamento de cada ilha açoriana dá lugar à constante presença de um fantástico individual, que percorre de um modo exemplar o romance de Nemésio, desde a personagem mais singela até à de maior complexidade. Fantástico individual que está em luta aberta contra um maravilhoso colectivo. Assistimos a um descer dentro de cada um, como se dentro de si pisassem os degraus da escada em curva – perfeita sucessão de serpentes cegas – que levam, na geografia insular, ao lago subterrâneo da ilha Graciosa; a única das cinco ilhas centrais que as páginas de Mau Tempo no Canal não contemplam.

 

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E por último, eis os dois mais recentes volumes da colecção Novela Gráfica com o Público. Digam lá que não dá vontade de ir a correr ler?

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Destaque da semana: Os Bebés da Água – Charles Kingsley

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Apesar de estar previsto que o volume apenas estará disponível no final do mês em Maio, já se encontra disponível no site da editora. Como a maioria dos volumes desta colecção, parece uma obra interessante:

«Os Bebés da Água» conta a história de Tom, um pequeno limpa‑chaminés. Maltratado e humilhado pelo patrão, Tom foge e adormece junto ao rio, onde as fadas o transformam num ser nunca antes visto: um bebé da água. É o início de uma viagem fantástica e picaresca num mundo subaquático, que condena e subverte os princípios sociais da era vitoriana e da revolução industrial.

O imaginário e a exuberância deste livro colocam-no entre os grandes clássicos da literatura, tendo inspirado várias adaptações cinematográficas, musicais e teatrais. Esta é a primeira edição em português de uma obra-prima que ainda hoje cativa leitores de todas as idades, em todos os lugares do mundo.

 

 

Eclipse 4 (1)

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Esta grande colectânea de ficção científica e fantasia costuma auspiciar grandes leituras fazendo com que as expectativas deste volume fossem elevadas. Apesar de possuir boas histórias, raramente são excepcionais, fazendo com que a colectânea fosse, na sua globalidade, uma desilusão. Mas eis comentários mais detalhados.

O conjunto abre com Slow as a Bullet de Andy Duncan, a história engraçada de como um homem conseguiu ser mais rápido do que uma bala, usando todos os métodos possíveis para, ao invés de correr mais, tornar a bala muito mais lenta – uma tarefa metódica que irá constituir o grande feito da sua vida.

Segue-se uma estranha história onde um buraco negro começa a crescer numa mulher, em Tidal Forces de Caitlin R. Kiernan, e The Beancourter’s Cat, uma história que começa muito bem quando uma rapariga é visitada por um gato modificado geneticamente, capaz de falar inteligentemente, mas perde-se numa ideia demasiado diferente em ambiente e conteúdo do seu início, que quebra rapidamente o interesse do leitor. Story Kit de Kij Johnson parece mais um exercício de escrita do que propriamente uma história.

Finalmente, uma história interessante – The Man in Grey de Michael Swanwick, em que o palco do mundo se revela, e se mostra a existência de algo mais por detrás da vida dos meros humanos, um grupo de seres responsáveis por manter o palco e a farsa constante. Um conto excelente em torno de uma jovem que permanece quase em frente ao comboio, mas sem dar o passo – até que algo fora do sítio no palco a faz percorrer os escassos centímetros. É nesta altura que um ser pára a acção e se revela, corrigindo o erro.

Em Old Habits de Nalo Hopkinson, outro grande conto desta antologia, os mortos revivem o momento final todos os dias à mesma hora. Excepto este reviver diário, têm todo o restante tempo disponível para deambular no centro comercial onde morreram, sem saber se existe algo mais lá fora. História negra e pouco esperançada, um pequeno pesadelo eterno e repetitivo.

Estamos em maré alta – o conto que se segue, The Vicar of Mars de Gwyneth Jones é também excelente, centrando-se num padre alienígena que resolve averiguar uma residente de Marte que vive isolada da civilização. Um conto lovecraftiano em solo marciano de horror não falado, que decorre em constante expectativa.