Irona 700 – Dave Duncan

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Aqui está um livro que, infelizmente, demorei a pegar. A minha cópia (ARC) não tem capa, razão pela qual estranhei o título – será Irona 700 o nome de um robô? Não. Irona é o nome da personagem principal e a história pouco tem de científico. Enquadrado no género fantástico, é um dos mais recentes lançamentos da Open Road Media e um dos melhores do género que li recentemente, ainda que não esteja, a meu ver, a ter a devida atenção. E sejamos sinceros, a capa também não ajuda, um entardecer de barcos que, ainda que esteja relacionado com a história, pouco reflecte do que realmente interessa.

Ainda que tenha como personagem principal a jovem Irona, tem como principal fio condutor o rumo de um imenso Império corrupto e autoritário, que se vai degradando lentamente aos olhos dos seus habitantes. Apesar de jovem, Irona apercebe-se destas opiniões sussuradas, tendo origem numa das ilhas mais pobres do Império, mas a sua vida dá uma reviravolta com uma ocorrência cliché – entre os milhares de jovens há-de ser a escolhida pela Deusa para integrar o Governo, apesar de não ser rica.

Desconfiada de um erro (uma jovem à sua frente terá desmaiado desfazando a contagem) Irona é levada para iniciar dois anos de formação, durante os quais não poderá contactar com a família. Lentamente, desaparece, nestes dois anos, a vontade de fugir, fortalecendo-se o sonho de trazer a família para aproveitar as riquezas a que agora tem acesso – perspectiva romanceada que irá cair por terra com a notícia da morte do pai, e o afastamento da mãe com a restante família.

De origens pobres, Irona afirma-se pela ausência de jóias e vai-se adaptando lentamente à nova realidade – o governo é, assumidamente, uma teia de favores e cumplicidades onde se ganham e cedem votos de acordo com alianças ténues sob falsos pretextos. Desde cedo a protectora designada de Irona lhe ensina que  nunca deve abertamente demonstrar preferências ou expressar opiniões adversas se quiser, ela própria, construir uma boa carreira com o apoio dos restantes.

Até agora, pouco parece diferir de uma típica história fantástica em torno de uma escolhida, mas é aqui que a história se aproveita do cliché para algo mais – Irona tem efectivamente um percurso carregado de sucessos por conta das suas origens náuticas, mas tudo aquilo em que investe pessoalmente acaba por definhar – os relacionamentos amorosos, os amigos e a família. Tudo aquilo em que acredita (ou em que se deixou iludir) acaba por se desvanecer num círculo frustrante e vicioso.

Vão existindo, ao longo da história, pequenas referências à maleficência, mas, ainda assim, não existe, expressamente, uma luta contra o mal – os governantes corruptos estão demasiado ocupados em acumular funções e honras ou em atingir determinados cargos auspiciosos. Enquanto isso, o Império vai-se deteriorando e a impressão de grandeza vai-se desvanecendo.

Partindo de uma premissa bastante naive e talvez, pouco original, acaba por transcender os lugares comuns do género ao se centrar numa personagem feminina capaz e lutadora, sem a menosprezar num papel de coitadinha, nem a elevar a heroína máxima, salvadora da pátria, mas construindo uma personagem com um percurso de vida irónico apesar da posição que ocupa. Por tudo isto, é uma história de destaque que não está a ter, na minha opinião, a devida atenção no género fantástico.

(cópia cedida pela editora).

Últimas aquisições

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Estes são os mais recentes habitantes das minhas estantes. Os dois primeiros resultaram de uma passagem pelos alfarrabistas, Contos de Maldoror e Introdução à Literatura Fantástica. Eis a sinopse deste segundo:

Tzvetan Todorov faz-nos a introdução ao prazer de reler Potocki, Nerval, Gautier, Villiers de l’isle-Adam, ensinando-nos a construir os limites de um género: na hesitação não resolvida do leitor entre o naturalismo do estranho e o sobrenatural do maravilhoso. Conduz-nos em seguida à referenciação de dois grandes grupos de narrativas fantásticas que são conduzidas pela relação da personagem como o mundo e pela sua relação com outrem: não é num aparato temático mas numa rede subjacente que o fantástico se organiza.

Compreende-se assim que o fantástico seja, muito precisamente, do século XIX.

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Seguem-se dois livros comprados na Bertrand em época de descontos, uma compra meio necessária para ocupar a 1h de espera sem leitura que me salvasse. Mas não foram escolhidos à toa. Aonde o Vento me Levar é do mesmo autor de Uma mentira mil vezes repetida lido na semana passada:

Este livro é uma travessia: entre o autor e as suas personagens, entre a realidade e a ficção e entre os mundos conhecidos e aqueles que se inventam e vivem apenas nos livros. Uma ponte entre todos os romances do mundo e a impossibilidade de escrever um romance. Uma viagem por África sem chegar a sair do sítio – sem lá ter ido ou atravessado as suas fronteiras. Uma homenagem à literatura, portanto, mas também uma reflexão sobre o mundo e as suas contradições. «É um livro, sim, sobre a perdição. Perdição entre outros livros, entre caminhos, colocando romances de outros autores em diálogo. Estão à espera de quê? Leiam.»Francisco José Viegas

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Por sua vez, Concerto Barroco de Alejo Carpentier é uma história curta em torno da concepção de uma ópera que, ainda interessante, não me fascinou particularmente. A ópera baseia-se na descoberta do Novo Mundo e nos primeiros encontros entre índios e espanhóis. Temática polémica para um crioulo, um sul americano, que critica profundamente a forma como os acontecimentos são retratados.

Finalmente, eis alguns dos volumes da colecção Poderosos Heróis Marvel, publicados pela parceria Levoir – Público.

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Resumo de Leituras – Agosto (4)

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105 – Contos sobrenaturais – Carlos Fuentes bom conjunto de histórias com pitadas fantásticas ou até raras de ficção científica,  onde plantas crescem nas nádegas de um homem ou fantasmas permanecem em casas abandonadas. Carregadas de ironia e usando o surreal como ferramenta, a maioria das histórias apresentam-se imaginativas e inteligentes.

106 – Irona 700 – Dave Duncan – eis uma boa surpresa no género fantástico. Num grande império é todos os anos escolhido um cidadão de 16 anos para integrar o governo. Este ano calha a Irona, de origens humildes. Mas se pensam que o seu dia-a-dia vai passar a ser um mar de rosas, enganam-se. A intriga e a falsidade corrompem lentamente o Império e Irona acaba por se deixar envolver na nova vida. Partindo de uma premissa fantástica bastante naive, acaba por revelar um enredo pesado e bastante negativo.

107 – Uma mentira mil vezes repetida – Manuel Jorge Marmelo – a partir de quando é que uma mentira repetida à exaustão passa a ser verdade para quem a conta? Um livro inventado que existe apenas na mente de uma pessoa, é repetidamente descrito em sucessivas viagens de autocarro, acrescentando-se detalhes cada vez mais intrigantes sobre o livro e o autor.

108 – Concerto Barroco – Alejo Carpentier – pequeno livro em torno de uma ópera que tem como tema O Novo Mundo e os primeiros contactos entre os índios e os espanhóis, que é bastante criticada por um crioulo que se encontra agora na Europa.

What dreams may come – Richard Matheson

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Eis uma leitura estranha, um livro bastante diferente de outras histórias mais conhecidas do autor, como I Am Legend, que quase parece querer passar por real, ou por retratar a realidade, mas não aquela que conhecemos no dia-a-dia, antes aquela que nos espera depois da morte.

Como a maioria das histórias que se centram na morte de alguém e na realidade após a morte, esta acompanha um homem que, tendo sofrido um acidente, pensa estar num sonho (ou num pesadelo). Quando finalmente percebe a razão pela qual consegue ver os entes queridos mas não interagir com eles,  consegue ultrapassar a ligação à Terra e ascender a um plano mental superior.

A este novo plano acompanha-o um familiar há muito falecido que lhe explica a nova realidade – um local infinito onde as crenças de cada um se materializam, concedendo a todos o auspiciado espaço. Aqui tudo se constrói com a mente e desaparece apenas se não for usado ou necessário. É um espaço que permite o contínuo aperfeiçoamento mental, uma continuidade da vida terrena que permite, às mentes menos apegadas à sua fechada versão de paraíso, infinitas possibilidades.

Bem, então e a noção de Inferno? Também existe, sendo criado, por exemplo, por pessoas que, não crendo na sua própria morte, não conseguem ascender, afundando-se em si próprias, ou que, tendo sido responsáveis por actos horrendos, perpetuam esses pensamentos criando buracos negros mentais de sofrimento e horrores em níveis superiores de percepção pós-morte.

Como se encaixa a descrição do Inferno no resto da história? Bem, claro que para a nossa personagem principal nem tudo poderia ser simples. A esposa, sua alma gémea, desesperada, suicida-se. Este acto leva-a a um dos mais baixos círculos de percepção, de onde o marido a tentar resgatar.

De escassa história, debruça-se na descrição de todas as nuances da teoria interessante e unificadora de todas as crenças humanas, com uma estranha racionalidade que pretende justificar todas as versões para a vida além da morte. Não sendo esta temática o meu género favorito de leitura, ficou-me a sensação de uma história com passagens interessantes, mas que se alonga demasiado nas descrições, esforçando-se por justificar a racionalidade do que descreve.

Contos Sobrenaturais – Carlos Fuentes

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Contos naturais (opinião mais detalhada) e Contos Sobrenaturais são os livros de contos de Carlos Fuentes que adquiri em conjunto. De aspecto gráfico pastante oposto, reflectem a temática das histórias que contem. Se em Contos naturais a maioria dos contos combina o quotidiano e o mundano, em Contos Sobrenaturais a temática é bastante mais obscura e até fantástica.

O livro começa com Chac Mool, uma história em torno da figura esculpida de um deus indio. Se o cristianismo terá sido tão bem aceite na realidade sul-americano decerto não há-de ter sido pela sua faceta pia e caridosa, mas sim pelos relatos dolorosos e sangrentos, tão semelhantes às cerimónios prestadas aos antigos deuses, caprichosos e malévolos. A aparentemente inocente figura revela-se um deus vivo que se vai apropriando do espaço físico e psicológico do dono da casa, até pouco restar.

Após esta fantástica abertura irónica, seguem.se outros contos que deambulam entre a realidade e a surrealidade, alguns mais evidentes que outros. De destacar O Robô Sacramentado onde a humanidade cria uma nova raça sapiente que Deus se apressa a testar, conferindo-lhes a última característica que os separa de entidades reais – um nome. Interessante na dissertação consequente que realiza em torno das máquinas inteligentes, coloca a divindade num papel burocrático e desenrola-se (novamente) num final irónico.

Mas nenhum outro conto volta a tocar na temática tecnológica. Várias são as histórias de fantasmas, de onde destacaria Aura. De desenrolar algo previsível (o autor vai deixando algumas pistas óbvias), centra-se num jovem que vê, numa oferta de trabalho uma possibilidade de futuro. O anúncio de jornal promete uma boa remuneração a alguém que, tendo capacidades de historiador, fale fluentemente francês. O objectivo? Re-escrever as histórias de um militar há muito defunto, mas ainda recordado pela viúva enferma.

Entre plantas que crescem entre as nádegas de um homem, ou fantasmas que permanecem em casas abandonadas, este conjunto de histórias está carregado de ironia, usando o surreal como ferramenta para desenvolver os intuitos do autor. Ainda que possua algumas histórias bastante simples, na sua maioria são mais interessantes do que as apresentadas em Contos Naturais, por não constituirem retratos mundanos, mas histórias sem limite, imaginativas e inteligentes.

Os Favoritos (parte IV)

(Os Favoritos – Parte I / Parte II / Parte III)

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7 – Neil Gaiman

Confesso que não acho Neil Gaiman o melhor escritor de todos os tempos. Algumas histórias possuem falhas de concretização ou de desenvolvimento e seguem por vezes desenvolvimentos expectáveis e pouco grandiosos. Mas de alguma forma o autor consegue quase sempre cativar-me e envolver-me de tal forma que acabo por ler os livros de uma rajada.

The Ocean at the end of the Lane é um dos exemplos perfeitos deste efeito. Recordo-me que tive de pousar o livro após as primeiras vinte páginas, e de ter estranhado a dificuldade com o que o fiz. O que era estranho era o facto de nada de interessante ter acontecido e de todas as características da personagem terem um enorme potencial para me irritar profundamente – era um típico Maria-vai-com-as-outras, uma personagem que não parecia ter grande vontade própria. E mesmo assim, estava a sentir uma enorme empatia para com a personagem, e curiosidade pelo que iria suceder (alguma coisa haveria de ser).

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O mesmo acontece com Neverwhere, um dos primeiros livros que li de Neil Gaiman. Existem vários sobre fantásticas cidades paralelas que se escondem sob a cidade bem real que conhecemos. Mas Neverwhere conseguiu cativar-me de forma exemplar e foi com alguma decepção que li a interpretação do ambiente na banda desenhada, que tinha imaginado de tendência bastante menos punk.

Mirrormask é uma decepção em termos de história – com uma boa premissa, consegue perder-se nalguns pontos. E ainda assim recordo com fascínio algumas das passagens do filme, com imagens belíssimas de tão estranhas, algumas recordando quadros de Dali, ainda que num espectro de cores mais sombrio.

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Então que dizer de Coraline? Uma estranha história de premissa fantástica e público alvo juvenil que me fez torcer pela personagem principal como se não houvesse amanhã?

Num tom totalmente diferente, achei 1602 uma banda desenhada excelente, tanto pela ideia como pelo desenvolvimento: colocar os heróis da Marvel na época dos descobrimentos e enfrentando a Santa Igreja. Sem a participação de Neil Gaiman a ideia seria aproveitada para lançar mais duas bandas desenhadas, 1602- Fantastic Four e 1602- Spider Man.

Não poderia terminar sem referir as duas mais recentes leituras do autor – Hansel & Gretel e The Sleeper and the Spindle. Se o primeiro foi uma desilusão por pouco acrescentar à história tradicional, o segundo surpreendeu pelos város twists na história, colocando as mulheres em papéis pouco passivos, e contrariando a tendência das princesas ficarem paradas, à espera de ser salvas.

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8 – Guy Gavriel Kay

Foram poucas as obras que tive oportunidade e tempo de ler deste autor. Principalmente porque carecem de bastante atenção para serem lidas – as personagens são mais que muitas e todas com a sua própria história que se vai interligando com as restantes. O autor costuma aproveitar conhecidos cenários históricos para desenvolver histórias fantásticas, tornando as obras ainda mais espectaculares.

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Destaque da semana: Estação Onze – Emily St. John Mandel

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Ora aqui está uma excelente surpresa! Um dos melhores livros de ficção científica que tive possibilidade de ler nos últimos tempos vai ser brevemente lançado pela Editorial Presença! Uma história pós-apocalíptica de premissa comum, mas de desenvolvimento original, que se centra na tentativa de manter a humanidade mesmo quando a civilização colapsa.

“Porque não basta sobreviver” é sem dúvida a frase mais lida ao longo da história, onde uma companhia de teatro ambulante encena as peças de Shakespeare em vários lugarejos. Não faltam, claro, as seitas religiosas em auge por conta da desgraça, nem as memórias soltas do antigamente.  É forte a nostalgia dos mais velhos, mas também o sentimento de sobrevivência nos mais novos que fazem dos estilhaços a sua nova realidade.

Alternando o pré com o pós-apocalipse (e com fragmentos do durante), centra-se num pequeno grupo de personagens que possui ligações inicialmente pouco óbvias, construindo uma história comum interessante e envolvente.

Para os interessados, eis um comentário mais completo da altura em que li o livro, e deixo-vos a sinopse oficial:

Estação Onze conta-nos a cativante história de um grupo de pessoas que arriscam tudo em nome da arte e da sociedade humana após um acontecimento que abalou o mundo. Kirsten Raymonde nunca esqueceu a noite em que teve início uma pandemia de gripe que veio a destruir, quase por completo, a humanidade.

Vinte anos depois, Kirsten é uma atriz de uma pequena trupe que se desloca por entre as comunidades dispersas de sobreviventes. No entanto, tudo irá mudar quando a trupe chega a St. Deborah by the Water. Um romance repleto de suspense e emoção que nos confronta com os estranhos acasos do destino que ligam os seus personagens.

Resumo de Leituras – Agosto (3)

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101 – Deathbird Stories – Harlan Ellison – Histórias pungentes, duras de sentimentos e acontecimentos, algumas interessantes exercícios da imaginação, outras murros no estômago, oscilando entre o horrendo e o belo de forma fascinante. Um conjunto excelente de histórias com destaque constante para deuses feitos homens, e homens feitos deuses, em que são comuns os cenários de horror;

102 – Requim para D. Quixote – Dennis McShade – Mais uma aventura do assassino por encomenda, que se mantém independente da organização. Mas esta independência tem um preço que, neste livro, vem sob a forma de um trabalho suspeito – quer pela sua dimensão, quer por deixar a nossa personagem desprotegida;

103 – Eu Mato Gigantes – Joe Kelly – Do pai sabemos que se encontra ausente, da mãe menos sabemos – algo lhe terá acontecido, algo que a mantém reclusa num quarto da casa, mas que nunca é referido. Assim se mantém os três irmãos, em que a mais velha que já trabalha tenta manter a casa, e a mais nova, a personagem principal, se esconde num mundo de fantasia onde mata gigantes. Uma boa mas pesada história onde a fantasia é o escape para os acontecimentos;

104 – What dreams may come – Richard Matheson – Livro bastante diferente de outras histórias mais conhecidas do autor, principalmente pela pacificidade. Depois de passar pela angústia de achar que está num sonho (ou pesadelo) um homem percebe que realmente faleceu. Depois de percepcionar o seu novo estado passa ao plano superior, moldado às mentes e crenças de cada um, um plano onda nada parece faltar – a não ser a esposa, a alma gémea, com quem o homem precisa de partilhar a nova existência. Sem grande história, debruça.se na descrição de todas as nuances da teoria interessante, conferindo-lhe uma estranha racionalidade. No entanto, alonga-se demasiado nestas descrições – no final ficou a sensação de uma leitura razoável, mas esquecível.

Aquisições digitais (algumas gratuitas)

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Eis um conjunto de livros interessante por preço variável – Pague o que quiser. O género deste conjunto é a ficção científica, mas a que é escrita por mulheres. Ainda que a autoria feminina não seja o factor decisivo para ter adquirido o conjunto, os nomes que o compõem foram decisivos – Cat Rambo, Nancy Kress, Linda Nagata e Catherine Asaro. Do conjunto fazem parte muitos mais livros, mas apenas se pagarmos acima de um determinado limite e, neste caso, todos os que me interessavam, estavam abaixo. No mesmo site (StoryBundle) encontram conjuntos de aventura e banda desenhada.

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O conceito não é novo e StoryBundle não é o único site a utilizá-lo. No VODO podem encontrar outra oferta semelhante que reúne os três primeiros volumes de The Apex Book of World SciFi (colectâneas conhecidas por trazerem histórias de origem diversa) bem como uma subscrição (de um ano) da revista Apex.

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Recentemente descobri o NetGalley, um site que permite às editoras disponibilizar cópias gratuitas a quem deseje escrever críticas ou a quem pertencer a livrarias. Apesar de ser portuguesa, resolvei inscrever-me e a verdade é que me são vários os livros que me foram disponibilizados. Entre eles, o excelente Collected Fiction de Hannu Rajaniemi, o peculiar The Very Best of Kate Elliott, ou o recentemente famoso Uprooted de Naomi Novik. Entre as cópias digitais que ainda tenho por ler encontra-se este Stories for Chip, bem como Falling in Love with Hominids de Nalo Hopkinson, ou The Collected Short Stories of Conrad Aiken.

Clockwork Lives: The Bookseller’s Tale – Kevin J. Anderson

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Apesar de publicado isoladamente, The Bookseller’s Tale é uma das histórias que compõe um volume maior denominado Clockwork Lives, um livro de contos Steampunk ao qual talvez dê oportunidade após ler esta história.

Não sendo a mais bem escrita história lida nos últimos tempos, consegue ser uma das histórias com que mais simpatizei, principalmente pelas personagens descritas – um casal que se conhece por causa do seu gosto pelos livros e que torno os livros o centro da sua vida ao adquirir uma livraria.

Apesar de enorme, a livraria esconde possibilidades infinitas de leitura ao possuir um portal que permite a viagem entre várias realidades paralelas, sendo que, no destino existe sempre uma nova livraria com novos livros, obras que foram perdidas na realidade original e que persistiram, ou livros que apenas nas outras realidades foram publicados.

Claro que o paraíso não é eterno, e é esse mesmo portal que se irá transformar no pesadelo para o casal, transformando o conto fantástico numa história agridoce e melancólica – uma história que, sem ser excepcional, me encantou.

À espera de … (lançamentos internacionais – colectâneas)

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Com participação de Neil Gaiman, John R. Lansdale, Catherynne M. Valente ou Sofia Samatar (entre outros) promete monstros seja por aspecto, seja por comportamento:

We are all of us monsters. We are none of us monsters. Through the work of twenty-six writers, emerging to award-winning and masters of their craft, The Humanity of Monsters plumbs the depths of humane monsters, monstrous humans, and the interstices between. Monstrous heralds of change, the sight of whom only children can survive. Monsters born of the battlefield, in gunfire and frost and blood, clothed in too-familiar flesh. Monsters, human and otherwise, born of fear, and love, and retribution all, wrapped tight and inextricable one from the other: the Fallen outside of time, lovers and monsters in borrowed skin, and creatures from beyond the stars and humans who have travelled to them. Dreams of lost and siren-song depths – of other half-held, half-remembered lives. And the things we have survived, and the things we might yet survive, in the face of greater, eviscerating loss. In stories by turns surreal, sublime, brutal, and haunting, there are no easy answers to be found, no simple nor uncomplicated labels to be had. Only the surety that though there be monsters, you will name them false. And when you meet those who truly are, you will not know them.

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Sendo este um ano decisivo (apesar de pouco noticiado e publicitado) para o desastre ambiental global, eis que surge uma antologia de ficção científica ecológica, com nomes bastante conhecidos no género, como Margaret Atwood ou Paolo Bacigalupi (citando apenas dois dos meus favoritos):

Collected by the editor of the award-winning Lightspeed magazine, the first, definitive anthology of climate fiction-a cutting-edge genre made popular by Margaret Atwood. Is it the end of the world as we know it? Climate Fiction, or Cli-Fi, is exploring the world we live in now-and in the very near future-as the effects of global warming become more evident. Join bestselling, award-winning writers like Margaret Atwood, Paolo Bacigalupi, Kim Stanley Robinson, Seanan McGuire, and many others at the brink of tomorrow. Loosed Upon the World is so believable, it’s frightening.

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Incluindo nome pouco conhecidos (ou apenas recentemente descobertos) como Sofia Samatar ou Nnedi Okorafor, esta antologia promete histórias diferentes e originais, com personagens pouco vulgares no género:

In 1514 Hungary, peasants who rose up against the nobility rise again – from the grave. In 1633 Al-Shouf, a mother keeps demons at bay with the combined power of grief and music. In 1775 Paris, as social tensions come to a boil, a courtesan tries to save the woman she loves. In 1838 Georgia, a pregnant woman’s desperate escape from slavery comes with a terrible price. In 1900 Ilocos Norte, a forest spirit helps a young girl defend her land from American occupiers.

These gripping stories have been passed down through the generations, hidden between the lines of journal entries and love letters. Now 27 of today’s finest authors – including Tananarive Due, Sofia Samatar, Ken Liu, Victor LaValle, Nnedi Okorafor, and Sabrina Vourvoulias – reveal the people whose lives have been pushed to the margins of history.

 

Deathbird Stories – Harlan Ellison

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Eis um excepcional conjunto de contos negros de um autor bastante conhecido, Harlan Ellison. Negros que nem pesadelos e subvertendo a realidade de forma dura, crua e contagiosa, falam de deuses tornados homens e homens tornados deuses de forma pervertida e pungente.

A primeira história é um murro no estômago – The Whimper of Whipped Dogs começa com um brutal assassinato ao qual um bairro inteiro assiste, fascinado, incapaz de afastar o olhar, ou de se mover para chamar a polícia. Beth é uma das pessoas que assiste como que hipnotizada pela simultaneidade grotesca e bela do episódio – uma dança pela vida.

O segundo conto é menos pesado, mas igualmente bom. Along the Scenic Route é um banho de ironia desde a primeira linha, uma história em que o homem sente a sua masculinidade ameaçada pela ultrapassagem de outro carro e decide, num acesso de raiva e frustração, iniciar uma oficial corrida da morte com o outro condutor, apesar de avisado do armamento inferior que possui, e de ter a mulher no banco do lado.

Entre fantasmas eternos e minotauros divinos encontramos Basilisk onde um soldado cai numa emboscada, e acaba, sob tortura, por conceder aos inimigos toda a informação que estes procuram. De regresso a casa, descobre que, por vergonha, a mulher o deixou, os pais abandonaram a cidade, e irmã se esconde algures depois de mudar o nome como forma de obscurecer qualquer ligação familiar com ele.

Em Pretty Maggie Moneyeys um homem descobre um dia de sorte no casino, galardoado com prémio a cada utilização da slot machine onde, em vez de símbolos, vê uns intensos olhos verdes.  Bleeding Stones é outra das melhores histórias do conjunto onde as gárgulas ganham vida, começando por pingar sangue e terminando na chacina da espécie humana – chegou a sua era.

The face of Helene Bournouw revela a história de uma mulher tão bela que consegue tudo o que deseja de qualquer homem, com enorme desprendimento. Mas para que fim manipula tudo e todos? Mas não é a única. Também em Ernest and The Machine God conhecemos uma manipuladora nata, que ao encontrar a primeira adversidade, matou o oponente e foge de carro por estradas inóspitas.

São comuns as realidades paralelas, causadoras das mais conturbadas perseguições ou das mais inexplicáveis mortes, usadas como meio para os acontecimentos mais estranhos e surreais, sinónimo de loucura ou do uso de drogas. É nestas realidades que se encontram os minotauros ou os monstros que se combatem tal como herói nas histórias mais fantásticas – mas o final não é uma donzela como prémio.

É constante a presença da força do mal que vai sendo combatido, na maioria das vezes com pouco sucesso. Seja por insegurança, malvadez ou desistência, os seres humanos, fracos, acabam por cair nos seus próprios defeitos nas melhores oportunidades, e a escuridão, seja física ou psicológica, alastra-se lentamente.

Filhos de deuses ou deuses esquecidos das suas virtudes interagem com os humanos, deuses de dor e escuridão, deuses de coração duro que se transformam em humanos e se imiscuam para acordar vários séculos mais tarde, mas ainda assim, cegos à humanidade e por isso, poderosos.

Histórias pungentes, duras de sentimentos e acontecimentos, algumas interessantes exercícios da imaginação, outras murros no estômago, oscilando, tal como a primeira história entre o horrendo e o belo de forma fascinante. Recorrendo diversas vezes à ironia e ao sarcasmo, raramente os acontecimentos repercutem a favor das personagens, mostrando a sua fragilidade e pouca importância.

On a red station, drifting – Aliette de Bodard

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A Eurocon de Barcelona 2016 ainda está longe de ocorrer, mas perto o suficiente para que me tenha decidido a ler algumas das obras dos convidados. No caso de Aliette de Bodard, comecei por Scatterd Among Strange Worlds, um conjunto de duas histórias que, não me tendo fascinado, apreciei. Entretanto a curiosidade para o último livro da autora também anda a ser bastante estimulada nos últimos tempos mas, enquanto não sai, peguei nesta novela peculiar.

Sim. A capa é estranha. Então se olharem para a da versão de capa dura, assustam-se. Mas vamos ao conteúdo. A história decorre no mesmo Universo que Scatterd Along the Rivers of Heaven – um império intergaláctico de origem asiática em que os seres humanos habitam vários planetas bem como estações espaciais, e usam implantes neuronais com as consciências dos seus sábios antepassados.

A história inicia-se quando Linh, a governadora de um planeta, se vê exilada numa estação espacial por o seu mundo ter sido conquistado por bárbaros. A estação na qual se exilou encontra-se carregada de familiares distantes que a recebem como é seu dever, mas com o ressentimento devido aos que se tornaram importantes fora do núcleo familiar a quem pedem asilo de mãos a abanar.

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Apesar das elevadas capacidades administrativas de Linh, é-lhe concedido um papel irrisório como explicadora das duas jovens raparigas da família que pouco dela precisam. A humilhação dificulta o relacionamento com a chefe da família, a familiar pouco instruída que gere a estação espacial e devagar trilha-se o caminho para a desgraça.

É óbvio que muito me escapou nesta história – as subtilezas de relacionamento de uma sociedade asiática não são fáceis de perceber e decerto outras leituras poderiam ser feitas à história, que será uma versão futurística do clássico A Dream of Red Mansions de Cao Xueqin, que entretanto adicionei à lista de desejos.

Sem grande acção explícita, explora os ressentimentos e conflitos familiares, com uma base tecnológica interessante – a estação espacial é automatizada por um computador que contem a base de uma mente humana (e por esse motivo a capacidade de perceber alguns sentimentos e acontecimentos) e os implantes permitem comunicar com uma versão simplificada dos antepassados que constantemente aconselham e concedem o seu extenso conhecimento – uma herança preciosa.

Apesar de pouco movimentado torna-se uma história interessante e diferente das habituais exactamente pela subtileza das acções e das palavras, que se conjuga com um uso quase tradicional da tecnologia.

Resumo de Leituras – Agosto (2)

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97 – Que esperam os macacos – Yasmina Khadra – Não é Verão sem que se leia algum dos livros mais badalados do momento. Optei por este. Retrato pungente e nauseante de uma sociedade intensamente minada pela corrupção onde persiste a insegurança. Em torno do cadáver de uma jovem rapariga desenvolve-se uma teia de intrigas e influências, onde reina o medo. Tendo como ponto alto a caracterização do país, possui várias cenas quase disconexas e desnecessárias, que se vão sucedendo em parágrafos pouco equilibrados. Uma leitura rápida que por vezes se perde no fio condutor.

98 Da Família – Valério Romão – Excelente conjunto de contos de vários géneros, todos em torno da família que vai sendo refeita a cada história. Encontramos distopia, terror, conto apocalíptico ou simplesmente surreal – a cada nova entrada vamos sendo surpreendidos pela construção sólida de cada história. De destacar o trabalho gráfico (que pode ser visto no comentário mais detalhado – clicar no título).

99 – On a red station, drifting – Aliette de Bodard – Centrando-se num futuro distante onde persistem algumas raízes da cultura oriental, a história retrata uma jovem habituada a uma posição elevada na hierarquia social e que se vê agora desterrada numa estação espacial onde tem alguns familiares distantes. Uma história interessante onde se destacam as diferenças culturais, que a autora utiliza para desenvolver de forma original.

100 – O Enterro da Última Quimera – Ana Cristina Rodrigues – Pequeno conto que peca por se parecer mais com um episódio de uma história maior do que propriamente um conto isolado. Poderá ser mais envolvente se lido num contexto maior, mas como episódio, despertou-me pouco interesse.

Últimas aquisições

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As passagens pela Fyodor Books continuam a fazer estragos! No topo encontram-se dois dos livros mais conhecidos de José Régio, Jogo da Cabra Cega e O Príncipe com Orelhas de Burro. Eis uma sinopse do primeiro, retirada do entrada no Goodreads (já que as que existem a acompanhar o livro na FNAC e afins falam do autor, mas nada do livro):

Obra em prosa, […], corresponde a uma das realizações literárias que melhor situam José Régio na modernidade. Apresenta-nos um narrador dotado de uma «tendência subjetivista» e melancólica que não resiste ao ensimesmamento e a indagar as subtis malhas que compõem o seu comportamento, perdendo-se em «jogos de imaginação» em que um eu se autoanalisa nas suas pequenas hipocrisias, escaninhos obscuros, fingimentos, desdobramentos, inquietações insólitas, decomposição de gestos e expressões. Esta análise de minudências, quase vertígica, dobra-se num barroquismo verbal que acompanha «as aracnídeas arquiteturas da […] imaginação» e a apresentação de pontos de vista divergentes sobre a realidade seguindo cada um quatro dos elementos (o Sombra, Luís Afonso, Pedro Serra e Jaime Franco) que compõem o pequeno cenáculo que protagoniza a narrativa. Assim, por exemplo, da oposição entre Jaime Franco e Luís Afonso, oposição que simbolicamente se eleva a conflito entre sinceridade e fingimento, surte uma conceção antitética de ironia, que pode ser entendida como chave de leitura deste Jogo psicológico da Cabra Cega: para aquele, «a verdadeira ironia brota da visão compreensiva dum conflito perpétuo, da apreensão simultânea de aspetos adversos em atividade… É pelo sentimento, pela paixão que se afirma ou se nega. É pela razão que se nem nega nem afirma. É pela inteligência, a verdadeira, que se aceita sem afirmar nem negar… […] Ele [o ironista] não só diz o contrário do que pensa! Pensa também o contrário do que pensa, e põe-se à margem da vida para a julgar de fora, compreendendo ao mesmo tempo que não pode sair da vida.»

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O Último Desejo de Andrzej Sapkowski e O Último Lobisomem de Glen Duncan são os dois volumes que aproveitei para adquirir numa das  mais recentes promoções da Editorial Presença, com preços bastante reduzidos, dois lançamentos fantásticos em Portugal. Andrzej Sapkowski é um dos autores convidados para a Eurocon de 2016 em Barcelona, tendo ganho o prémio David Gemmell, bem como vários prémios polacos pela sua ficção. Eis a sinopse de O Último Desejo:

Desde a década de 1990 que o bruxo Geralt de Rivia se tornou um dos heróis de culto na Europa de Leste, tendo passado rapidamente do âmbito literário, para o cinema, a televisão e até os jogos electrónicos. Sapkowski, o seu criador, senhor de um humor corrosivo e de uma escrita de características pós-modernas, é um admirável inovador da linguagem. O facto de se ter imposto num mercado onde domina o fantástico anglo-saxónico é por si só uma proeza, mas mais interessante foi ter rompido com os estereótipos do género. Para Spakowski, o norme é serem as princesas a assaltar os caminhos… Um livro que inspirou o jogo de vídeo “The Witcher”.

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Por sua vez, O Último Lobisomem de Glen Duncan, parece enquadrar-se num género que raramente leio, a fantasia urbana:

Jacob Marlowe é um lobisomem solitário, o último da sua espécie. Há duzentos anos que vagueia pelo mundo, escravo dos seus apetites ferinos, que o condenam a devorar um humano a cada nova lua cheia. Mesmo sabendo que irá pôr fim a uma lenda com milhares de anos, Jacob pensa no suicídio. No entanto, em breve Jacob descobre uma razão muito mais forte para querer continuar a viver, quando se apaixona por Tallulah, a última lobisomem. Sangrento, brilhante e sensual, este thriller, que reúne romance e mistério, impõe-se como uma nova e poderosa versão da lenda dos lobisomens.

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Sendo Umberto Eco um dos meus autores favoritos, claro que não poderia deixar escapar o seu mais recente lançamento, Número Zero, apesar de me parecer que esteja na mesma linha das obras que mais gosto do autor (Baudolino, por exemplo):

Um livro empolgante, de um escritor que dispensa apresentações! Este é um romance que não deixa ninguém indiferente à reflexão sobre os jornais e o jornalismo. Como cenário de fundo tem uma redacção de um jornal diário, que se está a constituir de modo apressado e por razões que menos se relacionam com o objectivo de preparar boa informação e mais respeitam à criação de uma «fachada» para servir interesses próprios. Neste caso, não os interesses dos jornalistas, poucos, relativamente mal pagos e com histórias de carreira onde o sucesso não tem tido lugar, mas sim os interesses de quem tem poder, dinheiro ou ambos. Poderá um órgão de comunicação social servir para ter os inimigos na mão e chegar aonde se quer? Um jornal que está a dar os primeiros passos muito tem para decidir. E esta obra de Umberto Eco torna-se, nesta vertente, numa espécie de «manual» de decisões onde a qualidade do produto final está mais arredada das preocupações do que seria desejável. Neste jornal, designado Amanhã, há espaço para criar notícias, reciclar notícias e encobrir notícias. Sendo esta uma obra de ficção, a leitura que pode ser feita do que lá se escreve vai além da boa leitura que a narrativa proporciona. Poder e jornalismo associam-se aqui a teorias da conspiração. Um redactor paranóico que anda pela Milão em que a história se passa, segue atrás de pistas que remontam ao fim da Segunda Guerra Mundial e, somando factos, chega a um complexo resultado que tem tudo para convencer. Começa pelo cadáver de um pseudo-Mussolini e segue pelos meandos da política, envolvendo o Vaticano, a máfia, os juízes e os serviços secretos.

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Wylding Hall – Elizabeth Hand

Wylding Hall

Aqui está uma boa leitura mas, sobre a qual, não me foi fácil começar a escrever. História forte, contada em tom pausado sob a forma de relatos ou entrevistas, centra-se numa banda de folk inglesa que terá tido o seu auge interrompido de forma misteriosa – de tal forma que o último álbum nunca terá sido gravado em estúdio e contem as versões dos ensaios gerais, alguns ao ar livre.

Logo no início percebemos que a banda está a ultrapassar um período difícil, com a morte de um dos elementos, um escândalo abafado pelo manager. Entre o consumo de drogas (usual naquele meio artístico) e o assédio dos fãs, o manager decide-se a alugar uma casa longe da cidade, para a produção do album seguinte, e que haveria de ser, também, o último, com o mesmo nome da mansão alugada.

Como o título indica, a história centra-se no período Wylding Hall da banda, seja em referência à mansão, seja em referência ao próprio álbum, constituindo a casa quase uma personagem por si só. Construída em camadas ao longo dos tempos, a casa tornou-se num extenso labirinto que esconde vários e inquietantes segredos, lembrando por diversas vezes, a casa do famoso livro fantástico Little, Big de John Crowley.

Mas se em Little, Big os habitantes quase faziam parte da casa, aqui são quase todos elementos modernos e estranhos que se enrolam com elementos desconhecidos. Quase todos – o cantor principal da banda é um conhecedor fanático de antigas artes mágicas que, ao explorar a casa se isola cada vez mais dos restantes elementos da banda, aparecendo com complexas músicas já construídas que têm por base os poemas estranhos encontrados na antiquíssima biblioteca.

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Apesar da história ser contada pelos diversos pontos de vista, alguns bastante cépticos em relação aos acontecimentos, cedo se percebem os elementos mágicos dos contos de fadas irlandeses – espaços que fogem à normal relatividade do tempo e do espaço possibilitando a vista de uma enorme extensão de terra a partir de um ponto pouco alto, ou percursos labirínticos e transmutáveis no interior da casa.

Claro que tudo é ficcional – a banda, a casa, os acontecimentos. Mas é a forma lenta e pouco reveladora dos vários relatos que se sucedem que torna a história transtornadora, um misto de realidade com algo não descrito mas de presença marcante onde ganhamos alguma afinidade com o jovem conjunto de músicos que vai caminhando lentamente para uma segunda desgraça.

O ambiente é mágico, mas nem sempre fantástico – uma magia que transborda da paixão da juventude em pleno verão, misturando a alegria da idade com o consumo das drogas e que transforma os actos mais mundanos. Os episódios verdadeiramente surreais são poucos, mas coerentes entre si e fazem antever alguma desgraça. Episódios suportados pela evolução das declarações dos vários elementos da banda, que, referindo-se a acontecimentos anteriores, acabam quase sempre por lançar algum detalhe do que se irá passar mais tarde.

Tendo um bom ponto de partida – casas seculares, de extensos corredores labirínticos e imensos jardins ou florestas sem trilhos – a história aproveita o uso de drogas pelos membros da banda para não ser conclusiva na quantidade de surrealidade que existe nos acontecimentos – uma boa leitura inquietante.

(foi fornecida uma cópia para opinião pelo Netgalley).

Da Família – Valério Romão

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Contos não vendem. Dizem as editoras, diz quem escreve e às vezes, até, quem lê. Porque teoricamente o formato não é tão valorizado, nem capaz de captar os leitores que, à escassez de boas colectâneas, até acabam por não explorar o formato. E verdade seja dita, nem todos os autores sabem escrever bons contos, capazes de condensar em poucas páginas uma história que não aliene o leitor e que, no final, conceda o sentimento de fecho, necessário. Muitos mais parecem episódios de uma história maior, quebrando, no meu entender, totalmente o propósito do conto.

Mas não é o caso em Da Família, uma colectânea de contos que foi apresentada recentemente em conjunto com o livro da Joana Bértholo, na Casa Portuguesa há umas semanas, em conversa moderada por Joana Neves, a responsável pelo Projecto Contos Não Vendem (onde podemos ouvir bons contos, dos mais variados géneros). Da Família contem 11 histórias, quase todas centradas ou partindo da família, cada uma contendo uma sinalética diferente nas suas páginas, num trabalho gráfico bastante interessante e peculiar.

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Quase todas as histórias intercalam pensamentos à principal linha narrativa, diferenciáveis pela indentação, cada novo pensamento nova indentação, à semelhança do que são os pensamentos, mesmo os mais coesos, que se vão derivando e reatando. A primeira, perfeito exemplo desta estrutura, é No Beco da Aorta, uma história muito curta de um taxista que projecta, nas ruas de Lisboa, a anatomia da filha falecida, por um defeito na válvula mitral.

Segue-se À medida que fomos recuperando a mãe, a história traumática de uma família que da farsa reconstruiu a figura feminina. Esgotada nas quimioterapias, terá deixado órfãos os filhos e deprimido o marido, Como forma de trazerem o pai novamente para o convívio familiar os filhos acabando simulando a presença da mãe, sacrificando-se um dos irmãos para a farsa conjunta. Apesar de a premissa ser simples, a sua exploração consegue ser perturbadora, sensação exacerbada pela lentidão com que evolui.

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O Abysmo Também Olha Longamente para Ti demonstra o trauma causado por uma infância enferma carregada pelos medos infantis derivados da errada interpretação do que os adultos dizem, frases tomadas de forma demasiado literal que, num período febril se tornam em obsessões permanentes. O quarto conto, Quando o pai começou a meter ar retrata o afastamento do pai do dia-a-dia familiar, pela bebida que, ao contrário de desenvolver uma cirrose, começa a acumular ar, inchando e voando que nem balão de hélio.

A avó foi sendo esquecida é dos contos mais fortes do conjunto centrando-se no dilema que aflige diversas famílias quando os mais idosos começam a apresentar sinais de senilidade.  Cuidar do idoso, ou entregá-lo para que seja cuidado por terceiros? O que torna o conto forte não é só o tema, mas a forma como um dos netos se afeiçoa à avó e se habitua à sua companhia silenciosa. Sobre a física das partículas e a teoria do multiverso quando o bosão de Higgs apresenta uma massa inesperada de 125 Gev é o longo título da história seguinte que explora a identidade ao apresentar um casal que duplica o filho, deixando de reconhecer qual dos dois será o original.

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Mau tempo no quintal descreve um futuro distópico em que o país foi dividido, qual espólio, entre diversas nacionalidades: os do Norte da Europa comandam todos os grupos económicos, os portugueses ficam com os empregos menores e os do leste formam gangs protectores que não batem em quem lhes paga. O frio propagou-se e quem pode viajou para Sul, em busca de ambiente mais quente. Enquanto isso a nossa personagem principal trabalha num talho. Não que se encontre lá a variedade actual de carnes.

Se este conto pode ser apelidado de distópico, o próximo quase pode ser apocalíptico. Em O meu avô era o único que tinha guelras além de pulmões a chuva alonga-se por dias, semanas – de tal forma que o nível da água sobe o suficiente para que a família seja obrigada a abrigar-se, não no primeiro andar, mas na cave. Felizmente o avõ tem umas guelras fabricadas na China que lhe permitem permanecer debaixo de água e recolher mantimentos. Todo o sustento depende do velhote que, fraco, vai mergulhando até ao dia em que o oxigénio da esposa se esgota.

Quando se pôs o meu irmão fora de casa é um conto peculiar de zanga familiar por divergências de opinião – zanga esta que vai mantendo afastada parte da família, alienada do quotidiano dos restantes, excepto em momentos excepcionais. A colectânea fecha com Para Não ter ver, o conto que foi lido na apresentação e que me levou a adquirir o livro, uma história psicótica que escala lentamente de violência, mas apresentada em tom assustadoramente brando. A história apresenta-se do ponto de vista do narrador, um homem que escreve à esposa, indignado pela incompreensão – enfim, que são umas chapadas justificadas de vez em quando? E porque tenta ela traí-lo, instigando os filhos a abandoná-lo, se se divertem tanto a torturar bichinhos?

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Reconstruindo a cada história a família, o autor espelha diversas facetas através de cenários psicologicamente complexos e perturbadores. São recorrentes as figuras de estilo como forma de conferir surrealidade a episódios que, de outra forma, quase seriam mundanos e que ganham, assim, peso e maior relevância. Um bom conjunto de histórias que não devem ser lidas de enfiada.

Sci-Fi LX – apontamentos e pensamentos de uma palestra

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Daqui a pouco já passou quase um mês, mas, como foi curta a minha passagem no evento, também pouco terei a dizer do evento que não tenha já sido dito (ver comentários em Intergalacticrobot ou em aCalopsia). O que gostei mais? A existência de vários stands de venda de livros (claro) bem como bonecos geek em crochet (EXTERMINATEEE !)

Aproveitei passar no evento no Sábado à tarde e assistir à palestra de Luís Correia (FCUL) com o título The network as an inteligent super-organism.  Com uma pequena história dos computadores, Luís Correia chegou aos computadores mais avançados que já conseguem, através do acesso a grandes volumes de informação, deduzir respostas menos directas, o que constituirá um grande passo no caminho para a inteligência artificial.

Mas será verdadeira inteligência aquilo que vemos nos computadores / robots? Ou será a nossa própria necessidade de interpretar determinadas respostas programadas como derivado de um pensamento autónomo? Luís Correia falou não só de robots bastante rudimentares com uma programação básica (três IF’s) que resultam em interacções bastante complexas, como da resposta empática imediata que alguns colegas tinham aos robots, conferindo-lhes a capacidade de pensamento ao verem um simples compasso de espera numa máquina.

Até que ponto é que será mesmo inteligência? Luís Correia falou também das batalhas entre humanos e máquinas, desde o famoso jogo de xadrez, aos testes de Turing (pensamento meu – onde acredito que muitos humanos não passassem), mostrando uma conversa entre dois bots que se torna cómica e circular.

Um dos aspectos que achei mais interessante na palestra foi a componente dos robots, de onde destacaria o vídeo do Big Dog da Boston Dynamics: