Uprooted – Naomi Novik

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Lançado recentemente, Uprooted está a causar algum furor no meio do género fantástico (YA). Até ao momento a autora, Naomi Novik tem sido mais conhecida pela longa saga fantástica, Temeraire (publicada em Portugal pela Editorial Presença), mas com os direitos já reservados para um filme (Warner Bros), Uprooted promete vir a dar que falar.

A premissa é bastante simples. De dez em dez anos as vilas do vale juntam todas as raparigas nascidas num determinado ano para que o Dragão leve uma. Mas o Dragão não é nenhum monstro de escamas, antes o nome pelo qual é conhecido o senhor daquelas terras, um mago simultaneamente jovem e velho que leva uma rapariga para o seu castelo.

Apesar de ser uma zona rural, o vale é uma das regiões mais importantes do reino pela sua assustadora proximidade à Floresta, uma imensidão de árvores malignas de onde saem monstros que atormentam e transformam pessoas e animais, uma corrupção que se tenta alargar consumindo tudo à sua passagem.

Agniezska é uma das jovens que nasceu no fatídico ano, mas não espera ser escolhida. A sua melhor amiga, Kasia, nascida no mesmo ano, será provavelmente levada – é a mais bonita e corajosa de entre todas e decerto que se irá destacar aos olhos do Dragão. Surpreendentemente (para as personagens, não para o leitor), é Agniezska que é levada para o castelo.

Irrequieta e endiabrada, receia ser usada como cortesã. O que realmente a espera é bem diferente. Como forma de controlar a rapariga agitada, o Dragão começa a ensinar-lhe pequenos truque de magia que a esgotam – cedo se percebe que a magia da rapariga é diferente da do mago estudioso, uma magia mais selvagem e próxima da das míticas bruxas.

Este é apenas o início de uma grande aventura – a Floresta continua a tentar expandir-se e para tal continua a atacar as vilas. Num destes ataques tentam pedir ajuda ao Dragão, mas na ausência do mesmo é Agniezska que, com poucos recursos, se decide a ajudar, revelando as suas capacidades mágicas.

De ambiente sombrio, a longa história peca sobretudo pela demasiada centralização em Agniezska, conferindo capacidades sem par em alguém tão jovem e pouco experiente. Esta centralização faz com que as restantes personagens sejam pouco mais que fantoches dos acontecimentos que se sucedem, detalhe que, no entanto, cai bem numa história onde a corrupção da floresta de apodera da mente das pessoas.

Contrastando entre momentos bastante movimentados, e longas descrições de rotinas diárias, consegue entusiasmar o leitor, apesar da extensão da história. Este é outro dos defeitos do livro. A extensão. Julgo que a mesma história poderia ser contada em menos páginas, ganhando maior coesão e magia.

Ainda assim, é uma história com detalhes originais quando desenvolve a origem da floresta, e a forma como esta se tornou corrupta, desvanecendo a noção de mal e bem absolutos. Alguns dos detalhes da magia utilizada são interessantes, principalmente na forma como se interligam os feitiços desenvolvidos por vários mágicos em simultâneo.

(cópia fornecida gratuitamente pela editora)

The Fortuitous Meeting – Christopher Kastensmidt

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Finalista do prémio Nebula em 2010, esta história é a primeira de uma série de aventuras que decorrem no Brasil do século XVI. Neste primeiro volume, The Fortuitous Meeting as duas personagens principais, dois homens, conhecem-se, estando ambos em situações bastante delicadas. Gerard Van Oost é um holandês que até ao momento não se conseguiu juntar a nenhuma expedição, deambulando pela colónia. Por sua vez, Oludara é um guerreiro africano, agora trazido para o Brasil como escravo.

Tendo-se encontrado em circunstâncias especiais, Van Oost logo se apercebe que Oludara será um homem inteligente e desenrascado que o poderá ajudar a desenvolver a sua própria expedição. Dado o elevado preço do escravo Van Oost vê-se num pequeno jogo de gato e rato, onde deverá demonstrar a sua esperteza perante uma personagem conhecida pela sua sagacidade.

Divertida e engenhosa, esta história torna-se numa aventura onde as duas personagens têm oportunidade de demonstrar as suas capacidades, resolvendo difíceis tarefas ou enfrentando bestas enormes. Decorrendo em cenário colorido, leve e divertido, é um início promissor para maiores aventuras.

(cópia fornecida gratuitamente pela editora)

 

Eventos de Verão

Basta abrir este blog para se perceber que a leitura é algo indispensável na minha vida. Mas claro que existe espaço para outras coisas, e estes meses de Verão são a loucura em eventos gratuitos. Esta é a razão principal para a diminuição de posts. Eis alguns eventos que me interessam (os links para os sites oficiais ou com informação mais detalhada encontram-se no título de cada evento).

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Programação (clicar para aumentar)

Festival ao Largo

Este festival gratuito tem trazido várias peças interessantes, existindo uma clara preocupação em apresentar músicas mais popularizadas, principalmente por filmes e musicais. O evento começou ontem e fez encher o largo S. Carlos de uma forma assustadora. Mas se não gostam de confusão, a alternativa é jantar numa das esplanadas que estão suficientemente perto para se ouvir o concerto. O festival prolonga-se até 25 de Julho e espero assistir a todos os concertos que conseguir.

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Festas de Lisboa

Este está no final, mas ao longo do mês foram várias as iniciativas que animaram a cidade. O espectáculo de encerramente começou ontem (dia 03 de Julho) e termina hoje com mais música e fogo de artifício. A ocorrer no Terreiro do Paço, promete uma grande diversidade de músicos portugueses.

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Lisbon Music Fest

A decorrer em vários locais pela zona de Lisboa, estende-se a Cascais, Évora, Figueira da Foz, Peniche e Batalha e tem apenas o inconveniente de decorrer nos mesmos dias que outros espectáculos. De entrada gratuita, tem um programa diversificado, tanto em termos de conteúdo como de localização sendo que as ruínas do convento do Carmo, Quinta da Regaleira, Igreja da Graça ou o Mosteiro da Batalha são apenas alguns dos locais escolhidos.

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Sci-fi Lx

Porque pelo meio tinha de existir algo mais geek, eis a Convenção Internacional de Ficção Científica de Lisboa que irá decorrer nos dias 18 e 19 de Julho, no Instituto Superior Técnico. Estou curiosa quanto a este !

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Cineconchas 2015

Eis uma oportunidade para ver alguns filmes gratuitamente e ao ar livre.

2014-8-22--29--concerto-dos-Timespine-crop-1140x370-12x370Noites de Verão no MNAC

De entrada livre, decorre no Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, mais propriamente nos jardins de Escultura. No link podem consultar a programação completa.

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JiGG

Este é pago (5€) mas parece valer a pena para quem gosta de Jazz. O JiGG (Jazz im Goethe-Garten) é um festival de jazz europeu que decorre entre os dias 01 e 16 de Julho, apresentando oito concertos de bandas de vários países europeus.

OUT JAZZ

MEO OUT JAZZ

Com um extenso programa de Verão, decorre em Lisboa e arredores, até final de Setembro.

Passatempo – As Atribulações de Jacques Bonhomme – Resultado

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De autoria portuguesa, este livro contem várias histórias que quase poderiam acontecer nas nossas ruas, de amigos traídos e boas acções recompensadas com tragédia. Esqueçam o optimismo, isto é a selva da vida real, tudo é negro e poucas vezes a história acaba bem (para os interessados, podem consultar uma opinião mais completa aqui).

Passemos então ao resultado do passatempo! E o sorteado foi:

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The Very best of Kate Elliott

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Representatividade. O género não importa. Ficção científica ou fantasia, o objectivo principal da autora é representar raparigas e mulheres, colocando-as em papéis que distorcem as expectativas tradicionais de serem observadoras passivas e burras. Aqui as mulheres agem. Ou pelo menos tentam, nem que seja de forma anónima.

Se há quem desconsidere as diferenças existentes dos dois géneros profissional ou socialmente, os acontecimentos deste ano decerto não permitem continuar com uma negação tão ingénua. Mas estas questões vão para além do género, passam também pela questão cultural (porque biologicamente não existem diferenças suficientes para considerar as populações humanas como raças distintas) e social (a perspectiva de que dos estratos económicos mais baixos não pode emergir inteligência).

Adiante. A autora, enquanto leitora de ambos os géneros, sentiu necessidade de personagens que a representassem. Mas não pensem que esta necessidade se traduziu em ingenuidade, com intenções escondidas no enredo. Pelo contrário. Mesmo que não se tenha lido a óbvia introdução, a autora refere conscientemente no enredo que não pretende seguir o caminho usual. O resultado é inquietante. De uma forma positiva. Mas inquietante.

Realmente não estamos habituados a ler sobre as necessidades físicas de uma mulher de forma tão directa. E não estou a falar de histórias eróticas, mas de uma personagem consciente de si própria que não está constantemente a tentar perceber o que o outro está a pensar, colocando-se no papel secundário da atracção sexual.

Pelo meio, percebe-se a frustração. As mulheres têm, demasiadas vezes, de recorrer a estratégias dissimuladas para atingir os seus próprios objectivos, recorrendo às expectativas sociais de serem atrapalhadas ou de mentes simples, para devagar continuarem pelo rumo que escolheram.

A maioria das histórias possui momentos memoráveis, ainda que nalgumas pareça que a história que está a ser contada não é assim tão importante quanto o momento mostrado, resultando em finais pouco conclusivos. Entre perspectivas desconfortáveis de contos de cavalaria encontramos divertidas interacções com culturas alienígenas ou transformos maliciosos. No final encontramos ainda alguns textos sobre o papel da mulher na ficção, que ajudam a perceber algumas das escolhas da autora nos seus contos.

Comentários isolados a algumas das histórias:

The memory of peace;

The Gates of Joriun;

Ridding the Shore of The River of Death;

Leaf and Branche;

The Queen’s Garden;

On the Dying Winds of the Old Year and the Birthing Winds of the new.

(cópia fornecida pela editora).

Resumo de leituras – Junho (3)

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81 – Os bebés da água – Charles Kingsley – história fantástica que é simultaneamente uma paródia à recepção das teorias de Charles Darwin e uma crítica social. Para além do excelente texto há que destacar a qualidade da edição ilustrada que é de encher os olhos;

82 – Contos naturais – Carlos Fuentes – várias histórias que decorrem essencialmente na América do Sul que, ainda que não tenham grande ligação entre elas, exploram, na sua maioria, a condição humana em situações irónicas de contraste social, sem necessidade de cair no pior do ser humano;

83 – Sr. Bentley, o Enraba-passarinhos – Ágata Ramos Simões – história peculiar de uma personagem infâme, capaz das piores travessuras e burlices, sem receio de enganar velhinhas e saltar em cima das campas. Também nesta edição é de destacar o excelente aspecto gráfico;

84 – The very best of Kate Elliott – conjunto de várias histórias de fantástico e ficção científica onde se destaca a intenção de representar as mulheres nas histórias, distorcendo os seus papéis habituais. Entre alguns bons contos existem outros que não apreciei tanto, mas o sentimento que fica em quase todos eles é de estranheza, e de ter lido algo diferente e interessante;

 

Sr. Bentley – O enraba passarinhos – Ágata Ramos Simões

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Lembro-me da reacção de estranheza ao ler este título quando o livro foi lançado pela Saída de Emergência, já há nove anos. O tom provocatório do título é exacerbado pela capa, mas a curiosidade foi derrotada pelo preço original de lançamento. Em 2013 o livro foi relembrado mas num contexto bastante diferente. Faria parte de um conjunto de livros a ser oferecido pela CGD em parceria com a editora. Esta iniciativa acabou por ser cancelada por causa do conteúdo erótico e alternativo de algumas das obras escolhidas no lote. Uma das mais faladas terá sido esta, que se destacou pelo título. Este episódio que me fez recordar o livro que não tinha adquirido na altura do lançamento, fez com que muitos o comprassem, curiosos. Acabei por aproveitar o novo preço para o encomendar.

A história é, como seria de esperar, peculiar. Sr. Bentley é o nome da personagem principal, um homem a quem cabem os piores epítetos. Trapaceiro e mal-criado, tem por hábito criar episódios de extremo mau gosto. Assim o conhecemos, numa das habituais visitas ao cemitério, onde escolhe um poiso para fazer o seu teatro maldoso enquanto imagina os corpos em decomposição e se ri da reacção de quem o apanha naqueles preparos.

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Graças ao chapéu, que leva para todo o lado, escapa incólume por diversas vezes, após as graves travessuras que pratica: fingir enfartes para não pagar a conta dos restaurantes caros, aproveitar-se dos poucos amigos para lhe pagarem avultadas contas ou raptar velhinhas a pretexto de as levar aos lugares onde querem.

Sem papas na língua, briguento, fraudulento e grosseiro, o Sr. Bentley representa o pior de todos os homens em quase todas as facetas da sua vida. O pior dos amigos, falso cavalheiro e trapaceiro sem reservas, tem apenas para a mulher um lado mais suave, venerando-a como que a uma Santa, que mal ouve e não fala.

De leitura rápida e divertida, Sr. Bentley possui, entre as dezasseis histórias, alguns episódios bastante cómicos, entre outros capazes de suscitar nojo e apreensão. Sem papas na língua, Sr. Bentley possui uma linguagem vulgar com objectivo ofensivo que se coaduna com a sua personalidade, mas que pode chocar leitores mais sensíveis.

Algo que se destaca neste volume é o aspecto cuidado. De capa rígida e capa a propósito, possui um interior carregado de imagens, numa edição de meter inveja a muito autor português.

Para os interessados, a autora já publicou mais histórias da personagem e disponibilizou alguns episódios no seu blog.

The memory of Peace – Kate Elliott (The Very Best of)

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Nesta pequena história duas cidades estão em guerra sem que consigam delinear exactamente o porquê. O que sabem é que a cidade adversária é implacável, não só com os moradores deste lado, mas também com todos os que apanharem na sua zona que tenham origem mista.

O conto inicia-se com uma rapariga que, procurando algo útil entre os destroços e zonas abandonadas, descobre um belo baralho de cartas num boticário estranhamente intacto. A contragosto a família deixa-a manter o objecto encontrado.

Este pequeno episódio inicial faz-nos perceber que todos os homens em idade fértil foram desviados para a guerra, restantes rapazes, velhotes e mulheres para se sustentar enquanto família. Mas não só. É neste episódio que percebemos também que algo de especial existirá naquela loja, e da vida que levam as pessoas daquela cidade.

História estranha sem um percurso evidente deixa um gosto amargo pelo tom pouco conclusivo do final  sem que tenha percebido afinal qual o objectivo da história. Apesar de ter cenas interessantes, é uma das histórias menos marcantes do conjunto.

Os Favoritos (parte II)

(Os Favoritos – Parte I)

E voltemos à rubrica que está a desarrumar catastroficamente as minhas estantes, dado que ao percorrê-las vou retirando cada vez mais livros. A indecisão reina, mas eis dois autores fantásticos:

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3. China Miéville

Perdido Street Station é um dos poucos livros de que me lembro sempre que me perguntam por aqueles de que gostei mais. Entre investigação científica e criminal, com detalhes de steampunk e estranhas quimeras humanóides, apresenta uma história complexa conta por vários pontos de vista.

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Para além da trilogia de New Crubozon (constituída por Perdido Street Station, The Scar e Iron Council) o autor escreveu muitos mais livros fantásticos. Um dos temas mais inspiradores e fascinantes são decerto as cidades. Dentro desta temática China Miéville escreveu dois livros:  UnLunDun e The City & The City. O primeiro, mais juvenil, apresenta-nos uma cidade numa realidade paralela, um reflexo distorcido da cidade de Londres. Já o segundo centra-se em duas cidades sobrepostas, simultaneamente visíveis e invisíveis entre os habitantes de cada um dos lados, onde ocorre um crime. A investigação leva o polícia a deslocar-se entre as duas cidades numa história que intercala o Suspense com o Fantástico mas que possui também detalhes distópicos.

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4. Umberto Eco

Sim. Tenho a confessar que gostei do livro mais conhecido do autor O Nome da Rosa. Sim, achei que a discussão sobre o riso de Deus se estendeu para além do agradável mas achei que, no conjunto, este era apenas um detalhe. Misturando crime com ficção histórica, possui várias discussões filosóficas interessantes que conferem ao conjunto algo especial.

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Em Baudolino a história torna-se mirabolante, um misto entre ficção histórica e fantástico que se centra num burlão ou mentiroso compulsivo que convence o rei a patrocinar uma expedição até ao Reino de Prestes João a fim de verem pessoalmente as bestas maravilhosas e as riquezas descritas numa suspeita carta. Invenção sobre invenção, tudo parece ir-se encaixando numa ilusão cada vez maior.

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Bastante diferente dos anteriores é A Misteriosa Chama da Rainha Loana, um livro que se debate com a perda da memória depois de um AVC, pelo ponto de vista de um velhote que recorda todas as páginas dos livros que leu, mas nada que se relacione com a sua própria vida. Lentamente estas memórias irão surgir entre as linhas das histórias que leu.

(continua…)

Contos naturais – Carlos Fuentes

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Apesar de sobejamente premiado, existem poucas obras publicadas em português do autor mexicano e as que existem tem um perfil pouco visível. O que me levou a pegar neste volume? Uma promoção de 40% na Bertrand e tempo para me sentar a ler as primeiras páginas onde apreciei o estilo simples mas expressivo da primeira história.

O volume de seis histórias abre com Velha Moralidade, um conto de duas partes, caracterizado inicialmente pela grande movimentação que rodeia o rapaz, personagem principal. Vivendo com o avô numa quinta, trabalha no campo apreciando as cores e os cheiros do dia-a-dia, assim como os elementos simples da vida.

A vida com o avô é, no entanto, bastante criticada, quer pelas tias, quer pelos padres que o conhecem. Se por um lado condenam a ignorância do rapaz que nunca foi à escola, benzem-se à vista da jovem que dorme com o avô, imaginando cenas decadentes de pecado infernal. Conseguem assim colocar o rapaz a cargo de uma tia solteirona, mas o que espera o rapaz é uma complexa e confusa (i)moralidade.

Conto transparente na sua crítica social às beatas simbolicamente carregadas de mofo na postura perante o que é o correcto, apresenta a visão do rapaz que faz contrastar a vivacidade de uma vida mais liberta e movimentada com os interesses pouco assumidos de uma sociedade educadamente hipócrita.

Em As Duas Elenas uma jovem recém casada revela-se progressista para além de qualquer barreira moral, arrastando o marido, já sem forças suficientes para a acompanhar em todas as demandas enquanto encara as duas facetas da mulher com quem casou. História estranha que relembra a boémia aborrecida de quem procura as próximas barreiras morais para ultrapassar, talvez mais por enfado do que por verdadeira rebeldia.

Uma alma pura é uma história que vai reunindo todas as pistas para o desfecho catastrófico. Nada é uma surpresa – é como se as escolhas das personagens não pudessem conduzir a outro destino. A acção é transmitida através de cartas entre dois amigos de longa data, outrora namorados. A jovem vai apresentando a correspondência entre ambos, conjugando-a com as memórias dos tempos passados entre ambos, agora separados fisicamente pelo Oceano e ideologicamente pela vida.

Em Malintzin das Maquillas explora-se o dia-a-dia das trabalhadoras mexicanas nas fábricas. Entre a vivência nas barracas e o longo horário de trabalho estas mulheres, algumas mães solteiras, tentam extrair de pequenos momentos a pouca felicidade que conseguem, apesar de subsistirem num precário e frágil modo de vida. Se por um lado dificilmente irão encontrar melhor emprego ou promoção, não deixam de sonhar com o dia em que serão libertas.

Qual a aldeia que não conheceu um padre com alguma afilhada, criada ou prima? Em A Criada do Padre toda a aldeia comenta a rapariga que serve o homem de batina sem que percebam se a relação dos dois – será uma relação pura de pai-filha, ou algo pecaminoso? Sendo o padre o único membro da igreja num raio de vários quilómetros, mais vale não questionar. A rapariga, essa, aprendeu cedo a calar-se, chegando a ser considerada por muitos como uma idiota.

O quotidiano de ambos é quebrado pela chegada de um estudante lesionado por uma escalada que procura na casa do padre auxílio. Este, após cuidar do rapaz, deixa-os propositadamente sozinhos, com a esperança de provocar o pecado para surgir depois como salvador. Os planos que tece seguirão como pretendido ainda que a longo prazo possam existir consequências imprevistas.

A linha da vida é o conto que fecha o conjunto acompanhando um grupo de prisioneiros que conseguiu escapar da prisão onde as execuções são comuns. Os quatro pretendem separar-se esperando que pelo menos um seja capaz de salvar-se. Infelizmente, o cenário político e militar que os espera não é o pensado.

Ainda que não pareça existir uma relação coesa entre as várias histórias, a maioria explora essencialmente a condição humana em situações irónicas de contraste social, sem necessidade de cair no pior do ser humano. Carlos Fuentes apresenta histórias de conformismo dos que rodeiam estas situações, fazendo simultaneamente um comentário político e social ao se debruçar em episódios comuns e desesperantes do ponto de vista quase banal e corriqueiro.

Promoções: Editorial Presença: Hora H

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É só hoje, mas ainda vão a tempo. A Editorial Presença encontra-se com descontos em todos os livros, com grande maioria a chegar aos 50%. Entre as obras que se encontram abrangidas pelos 50% podem encontrar A Verdadeira Invasão dos Marcianos de João Barreiros, Nome de Código de Portograal de Luís Corredoura, vários livros de Philip K. Dick e Ursula Le Guin, Little Brother de Cory Doctorow, Chocky de Wyndham ou Mais que humano de Theodore Sturgeon.

Livrarias: Leituria

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Palco recente de dois eventos (David Brin Lecture e À volta d’A Guerra dos Tronos) a Leituria revelou-se como um espaço pouco usual onde, para além de livros recentes, se podem encontrar algumas edições mais antigas. Mas neste espaço não existem apenas livros – à entrada estão outros produtos artesanais, pintura e vinho.

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O espaço reservado aos livros encontra-se vagamente dividido em três áreas: uma juvenil, uma com livros ficcionais para graúdos e outra com livros não ficcionais. Para os mais pequenos existe um banco, para os maiores existe um sofá onde nos podemos sentar a folhear os livros.

Outras livrarias peculiares:

Fyodor;

Bivar.

The Gates of Joriun – Kate Elliott (The very best of)

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Depois de várias histórias em que o papel relevante cabe à mulher (ainda que, por diversas vezes, anonimamente) este é um conto difícil de engolir. A história centra-se na irmã do rei que, enquanto jovem e após a morte dos pais, fugiu com o irmão para o proteger do tio que usurpou o trono. Apesar de ter conseguido salvar o rapaz que se torna rei na idade adulta, vive poucos anos de calma.

Como irmã do rei pode viajar livremente no reino e é assim que um dia entra no castelo de férias que teria sido tomado pelo tio e se vê priosioneira por longos anos sem ter notícias fiáveis de nenhum dos que ama, a não ser pela leitura das cartas que possui e com as quais tenta descobrir o presente e o futuro.

Apesar da importância passada da personagem tem agora um papel totalmente passivo, sem fuga possível – uma história em que parecem perdidas todas as esperanças e em que até os poderes mágicos através das cartas têm um sabor amargo e um tom derrotista.

Comentário aos contos anteriores:

1. Ridding the Shore of The River of Death

2. Leaf and Branche

3. The Queen’s Garden

4. On the Dying Winds of the Old Year and the Birthing Winds of the new

(cópia fornecida pela editora)

Últimas aquisições

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Neste conjunto há a destacar dois dos mais recentes lançamentos de G Floy que publicou o volume dois da série Fatale, bem como o primeiro de uma nova série. Se o primeiro volume da Fatale já era de ambiente bastante negro, este parece continuar da mesma forma:

Em 1970, em Los Angeles, Josephine não consegue escapar às forças de Hollywood, dos cultos satânicos, de sinistros filmes de 16mm e dos perversos milionários que os tentam adquirir…

Quando um actor e a sua amiga ferida se cruzam com ela, vamos assistir a uma explosão de acção que ecoará até aos nossos tempos, em que Nicholas Lash continua obcecado por encontrar a imortal Josephine e descobrir os seus segredos… qualquer que seja o preço que tenha de pagar por isso.

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Os dois volumes de contos de Carlos Fuentes, Contos naturais e Contos sobrenaturais derivam de uma ida à Bertrand em que me sentei a ler o primeiro, que estava em promoção. Com histórias bastante realistas que mostram o inusitado da vida real o primeiro volume possui contos bem estruturados e interessantes, que se vão construindo lentamente.

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Lembranças da Terra é uma antologia de contos de ficção científica de autoria galega. Esperemos apenas que o português dentro do livro seja melhor que o do site.

Resumo de Leituras – Junho (2)

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77 – Estamos todos completamente fora de nós – Karen Joy Fowler – sem se enquadrar nos géneros fantástico ou ficção científica, retrata uma jovem cuja infância foi marcada pelo desaparecimento dos irmãos sem que oiça justificação para tal;

78 – Iznogoud vê estrelas – R. Goscinny – segundo volume desta série cómica de Goscinny, possui várias histórias cómicas onde o vizir Iznogoud tece complicados planos para destronar o sultão sem sucesso;

79 – Casulo – André Oliveira – excelente conjunto de pequenas histórias em banda desenhada, cada uma ilustrada por um artista diferente, conferindo a cada história ambiente próprio;

80 – Fatale – Vol1 – Ed Brubaker – de ambiente soturno e acontecimentos pesados a história decorre parte na actualidade, e parte nos anos 50 / 60 lembrando os filmes dessa época. Apesar de parecer, inicialmente, uma história de criminalidade e polícias corruptos, os elementos sobrenaturias transformam os acontecimentos em algo mais.

 

Os bebés da água – Charles Kingsley

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Os Bebés de Água é um daqueles livros que me despertou curiosidade a partir do momento em que soube do seu lançamento pela Tinta da China. E apesar de poder bastar saber que se trata de um lançamento da Tinta da China, tanto a sinopse como as imagens interiores me indicaram de que seria um livro de que iria gostar bastante. Não errei.

Único livro de Charles Kinsgley disponível no mercado português (apesar da extensa obra do autor) é claramente um reflexo da época em que foi escrito, a meio do século XIX, constituindo um exemplo curioso que intercala pensamentos bastante evoluídos com outros simplesmente tacanhos. Se por um lado possui noções preconceituosas para com alguns grupos sociais ou culturais, constitui, também, uma sátira à receptividade da obra de Charles Dickens, A Origem das Espécies, que apoiava publicamente, e uma crítica clara à exploração do trabalho infantil.

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Visando um público mais jovem, é uma boa leitura para adultos com aspectos deliciosos que permitem várias interpretações das aventuras da personagem principal, um limpa-chaminés que se vê perseguido. Chamado de ladrão em consequência da sua condição social, é recolhido pelas fadas que o transformam num bebé de água, quase invisível aos humanos. Pouco habituado à água, terá de se habituar aos novos companheiros, seres aquáticos com quem partilha o dia-a-dia.

Longe do patrão, única pessoa adulta que o acompanhava e explorava, Tom afasta-se finalmente da decadência perpétua que o esperava na condição de limpa-chaminés. Mas nem por isso se torna num rapaz bondoso e altruísta. Habituado a tareias contínuas e maus exemplos do patrão, Tom cede demasiadas vezes ao desejo de fazer partidas aos outros animais, ainda que vá sendo, lentamente, educado pelas fadas.

 

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Aproveitando o meio aquático o autor vai descrevendo algumas das espécies que vivem nos rios, concedendo-lhes sentimentos e classes sociais que desenvolve em pequenos episódios satíricos, misturando destino bem merecido com alguma possibilidade de evolução, mas sem deixar de lado alguns preconceitos próprios da época.

Apesar do seu papel irónico, os elementos fantásticos são bastante interessantes permitindo várias leituras do texto, sem que a narrativa se torne desnecessariamente complexa. Entre os vários episódios carregados de simbolismo destacaria o dos salmões, orgulhosos das suas viagens sazonais, e o da ave que sabe que se irá extinguir.

Em suma, uma obra que, contendo várias camadas interpretativas, possui uma primeira história interessante e aparentemente inocente mas que, analisada revela episódios bastante sarcásticos quer à sociedade, quer à rígida classe académica. Sem dúvida uma das melhores leituras dos últimos tempos.

Os Favoritos (parte I)

Acho que na últimas semanas já me perguntaram umas cinco ou seis vezes pelos meus autores favoritos. Pergunta difícil para quem já leu vários géneros e vários autores – é daquelas perguntas que me param a fala pela quantidade de informação que me enche o cérebro ainda que efectivamente exista uma lista de favoritos. Nunca me dediquei foi a compilá-la por ser uma lista volátil. De certeza que vou ler novos livros e (espero) encontrar novos autores, ou de certeza que noutro dia qualquer me recordo de mais qualquer coisa que li algures no tempo.

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Ray Bradbury

Raramente falo deste autor e nem sempre estou com disposição para ler algo dele. Preciso de estar no ponto para apreciar as loucuras de alguns contos ou as ideias curiosas de outros. Mas sempre que leio fico rendida. Entre contos e versões digitais o que li não há-de chegar a metade. Na verdade nem a um décimo. E ainda assim, é um dos meus autores favoritos, apesar da relação amor-ódio que tenho com algumas das suas histórias.

Para todos os que gostam de livros a premissa de Fahrenheit 451 é arrepiante por se centrar na queima destes objectos, bem como na felicidade de advém da ignorância. Reminiscências desta história podem ser encontras no espectacular Crónicas Marcianas, a última leitura do autor, onde me perdi na sucessão de contos absurdos sobre a colonização humana de Marte em que nunca se sabe o que espera os exploradores. O primeiro teve pelo menos duas edições em português (pela Livros da Brasil e pela Europa-América).

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Mas claro que existe um lugar especial para as histórias de Something Wicked This Way Comes ou I Sing the Body Electric, que roçam a ténue fronteira entre o sonho e o pesadelo, explorando por vezes o lado humano com as reacções face a situações insólitas e inquietantes. O primeiro foi publicado recentemente pela Saída de Emergência como Algo Maligno Vem Aí.

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2. Colleen McCullough

Não estou a falar da Colleen McCullough que trazia o pão à mesa escrevendo tórridos romances baratos e simplistas para entreter donas de casa entediadas, mas sim da sua faceta que escreveu a série O Primeiro Homem de Roma. Sei que já li esta série há demasiados anos e que provavelmente não iria ter hoje a mesma opinião. Mas vejamos o contexto da ficção histórica disponível no mercado português onde se destacam alguns bons autores rodeados de escrita a metro, onde esta série se destacava não só por explorar a componente história (com margem para interpretação e desenvolvimento ficcional) mas sobretudo pela complexidade e densidade das teias políticas na sociedade romana intercaladas com estratégias de guerra – ou não fossem os romanos os pais da burocracia a par com a política e corrupção que haveriam de levar a sua sociedade ao declínio.

 

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Publicada em português pela DIFEL a preços proibitivos, mas por longos anos cobiçada, esta foi uma das séries que me fez começar a encomendar em inglês pela diferença no orçamento. E apesar da densidade da narrativa sobrevivi. Julgo que o interesse que a história me despertou derivou também da minha paixão pelas civilizações antigas em conjugação com o prazer dos jogos de estratégia mas terá sido mantido pela mestria com que a autora caracteriza personagens como Cícero, Gaio Mário ou Sula (para já não falar de César).

(continua…)

Eventos: Teatro das compras

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Do que se trata? De vários pequenos espectáculos que vão decorrendo nalgumas lojas da baixa lisboeta nos dias 18, 19, 20, 25, 26 e 27 deste mês. Este ano as narrativas associadas a cada uma destas lojas mais emblemáticas foram criadas por Afonso Cruz, João Tordo e Joana Bértholo. Deixo-vos o detalhe que se encontra disponível no programa das festas de Lisboa (páginas 48 e 49):

Três autores, 11 histórias, 13 intérpretes em 11 lojas formam a sétima edição do Teatro das Compras, um projecto de criação de espectáculos de pequena dimensão em algumas das lojas mais antigas e emblemáticas da baixa pombalina lisboeta.

Todos os anos, essas lojas são inspiração de autores portugueses que criam, a partir das suas memórias e da sua identidade histórica, cultural e comercial, narrativas para cada uma delas. Actores, bailarinos e músicos dão corpo e voz a esses textos, transformando as lojas tradicionais em pequenos palcos onde se misturam funcionários reais e intérpretes, e histórias reais e fictícias, contadas aos clientes habituais e aos espectadores
fiéis do Teatro das Compras.

Este ano, haverá um jantar-espectáculo interpretado pelas personagens das várias peças, a partir da história criada em conjunto pelos três autores convidados. O passado e o presente juntam-se, contando os últimos 100 anos de vida da baixa pombalina, também ela parte da história da cidade de Lisboa, espreitada e vivida através destas montras.

(detalhe das lojas envolvidas e dos horários, no programa oficial)

On the dying winds of the old Year and the Birthing Winds of the new – Kate Elliott (The Very Best of)

best of kate elliott

Nesta longa história a acção decorre numa cidade estado que sobrevive fora do domínio de um general que, tendo há longos anos trazido a paz à região, espera ainda alongar o território. Nesta cidade-estado vive a mulher que o terá abandonado e sobre a qual o general, agora rei, pretende, também, dominar. É em torno desta mulher que se centram os acontecimentos.

A história começa com algumas mulheres tripulando um barco com o objectivo de falarem isoladamente, justificando a saída com a pesca de alguns peixes. Terá havido um assassinato, sem dúvida por um espião, com vista enfraquecer a cidade. Claro que as suspeitas recaem sobre um novo morador.

De regresso a casa a esposa do general encontra o estrangeiro, arranjando uma justificação para o convidar para um chá. Apesar de o achar atraente pondera que qualquer envolvimento entre ambos irá resultar na morte do homem, pelo que se dedica apenas a tentar perceber se será este o espião, assassínio e ladrão que teria provocado instabilidade na cidade.

Apesar de longa a história parece mais um pedaço de um livro maior do que narrativa fechada e completa, terminando de forma abrupta e deixando muitos factos em aberto. Por outro lado o final é confuso quebrando a linha condutora e deixando uma história com componentes interessantes, mas sem coesão.

Se nos contos mais curtos, anteriores, a caracterização das personagens tinha sido curta mas suficiente para captar o leitor, aqui a caracterização é escassa, centrando-se apenas na mulher e deixando às restantes uma bidimensionalidade desagradável. Mesmo a caracterização da figura principal é dúbia – apesar de detalhar os seus pensamentos e contar alguns acontecimentos passados, estes não me pareceram coerentes.

Ainda assim, a história tem alguns elementos positivos. A cidade descrita parece um local interessante, bem como os acontecimentos por detrás da história, que gostaria de ver melhor explorados.

Comentário aos contos anteriores:

1. Ridding the Shore of The River of Death

2. Leaf and Branche

3. The Queen’s Garden

(cópia fornecida pela editora)