Sci-Fi LX – apontamentos e pensamentos de uma palestra

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Daqui a pouco já passou quase um mês, mas, como foi curta a minha passagem no evento, também pouco terei a dizer do evento que não tenha já sido dito (ver comentários em Intergalacticrobot ou em aCalopsia). O que gostei mais? A existência de vários stands de venda de livros (claro) bem como bonecos geek em crochet (EXTERMINATEEE !)

Aproveitei passar no evento no Sábado à tarde e assistir à palestra de Luís Correia (FCUL) com o título The network as an inteligent super-organism.  Com uma pequena história dos computadores, Luís Correia chegou aos computadores mais avançados que já conseguem, através do acesso a grandes volumes de informação, deduzir respostas menos directas, o que constituirá um grande passo no caminho para a inteligência artificial.

Mas será verdadeira inteligência aquilo que vemos nos computadores / robots? Ou será a nossa própria necessidade de interpretar determinadas respostas programadas como derivado de um pensamento autónomo? Luís Correia falou não só de robots bastante rudimentares com uma programação básica (três IF’s) que resultam em interacções bastante complexas, como da resposta empática imediata que alguns colegas tinham aos robots, conferindo-lhes a capacidade de pensamento ao verem um simples compasso de espera numa máquina.

Até que ponto é que será mesmo inteligência? Luís Correia falou também das batalhas entre humanos e máquinas, desde o famoso jogo de xadrez, aos testes de Turing (pensamento meu – onde acredito que muitos humanos não passassem), mostrando uma conversa entre dois bots que se torna cómica e circular.

Um dos aspectos que achei mais interessante na palestra foi a componente dos robots, de onde destacaria o vídeo do Big Dog da Boston Dynamics:

Outcast Vol.1 – Kirkman & Azaceta

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Outcast é uma das mais recentes criações de Kirkman, conhecido pela série The Walking Dead. Apesar de recente, Outcast já tem os direitos vendidos para a adaptação à televisão.

O ambiente é negro. E com isto estou-me a referir não só ao quão soturnas são as personagens, mas aos vários episódios passados na quase total escuridão. É que os possuídos não suportam muito bem a luz e, os possuídos… parecem estar em todo o lado.

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Traumatizado por vários encontros com demónios, Kyle vive sozinho, num misto de depressão e apreensão, Não de violência. Os vários acontecimentos que lhe marcaram a vida levaram-no a fechar-se e a limitar o contacto com os que o rodeiam. Até porque muitos pensam que terá morto a filha de pancada.

Após retornar à vila onde viveu longos anos e onde todos o conhecem (e murmuram nas suas costas) Kyle apenas deseja alguma paz – algo que será impossível quando o padre conhece o seu poder exorcista e deseja tratar os possuídos, começando por um miúdo que se tornou bastante violento.

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Mas se alguns possuídos ficam curados com o ritual exorcista do padre, ou os poderes de Kyle, outros escondem-se em plena vista, com comportamentos pouco suspeitos, reagindo apenas com dor ao toque de Kyle. Que serão estes possuídos?

Transpirando mistério e inquietação, a acção é neutralizada pela apatia contagiante da personagem principal que anestesia o leitor para os acontecimentos. De tal forma, que, no final do volume, ficamos com a sensação de que pouco aconteceu – o que é estranho, considerando que o volume reúne seis fascículos.

A história que se encontra neste primeiro volume coloca diversas questões, mas não resolve nenhuma, pelo que é suficiente para intrigar, mas talvez não seja o suficiente para cativar e convencer a ler os próximos volumes.

Resumo de Leituras – Agosto

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93 – Wolverine: Origem Vol.1 – Paul Jenkins – Volume introdutório, explora os primeiros momentos da personagem, enquanto criança enferma e doente, numa casa de contrastes emocionais – um avô de antiga mentalidade que instiga à brutalidade e uma mãe distante e nunca vista. No meio deste ambiente decadente, uma outra criança orfã e um pouco mais velha, é trazida para fazer companhia ao rapaz, criança que terá um papel decisivo na transformação da personagem.

94 – Outcast Vol.1 – Robert Kirkman – De ambiente negro, este volume inicia uma história misteriosa e inquietante onde a apatia da personagem principal, traumatizada por vários acontecimentos na infância, contagia o leitor, conferindo um sentimento de anestesia perante a violência de algumas cenas – talvez por ser mais subtil, e termos conhecimento dos acontecimentos sem necessariamente os visualizarmos, a sensação com que ficamos é a de que não acontece muito, sendo suficiente para intrigar mas talvez não para viciar e cativar o leitor para os próximos volumes.

95 – Wylding Hall – Elizabeth Hand – Uma banda folk reúne-se numa casa para produzir o próximo álbum. Com alguns acontecimentos traumatizantes pelo caminho, esperam encontrar na casa a paz que lhes permita continuar o seu percurso artístico, mas a casa antiga, e construída em camadas ao longo dos tempos, é um labirinto infindável e misterioso que esconde algumas surpresas.

96 – Clockwork Lives: The Bookseller’s Tale – Kevin J. Anderson – Fazendo parte de um volume maior de histórias interligadas, esta retrata o sonho de qualquer um que goste de ler livros, mostrando uma livraria que possui um portal onde se pode transitar para outros universos paralelos – e explorar nas livrarias das outras realidades, os livros que lá existem, fornecendo um sem fim de possibilidades de leitura. Mas claro que a história é um pouco mais do que isto, um conto fantástico e apaixonante.

À espera de… (lançamentos internacionais)

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Apesar de serem três das histórias menos faladas do ciclo Hainish (por se encontrarem à sombra de obras mais conhecidas como The Left Hand of Darkness ou The Dispossessed) é com gosto que vejo a reedição destes livros:

From the multi-award-winning author of The Left Hand of Darkness and the Earthsea sequence comes this single-volume omnibus of the first three Hainish novels.

Intergalactic war reaches Fomalhaut II in Rocannon’s World. Born out of season, a precocious young girl visits the alien city of the farborns and the false-men in Planet of Exile.

In City of Illusions a stranger wondering in the forest people’s woods, is found and his health restored; now the fate of two worlds rests in this stranger’s hands . . .

The three novels contained in this volume are the books that launched Ursula K. Le Guin’s glittering career, and are set in the same universe as her Hugo and Nebula Award-winning classics, The Left Hand of Darkness and The Dispossessed.

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Nnedi Okorafor ficou conhecida com o livro Who Fears Death, uma história que cruza fantástico com ficção científica, sendo descrita diversas vezes como realismo mágico, apesar de decorrer no futuro. Binti será o próximo livro da autora:

Her name is Binti, and she is the first of the Himba people ever to be offered a place at Oomza University, the finest institution of higher learning in the galaxy. But to accept the offer will mean giving up her place in her family to travel between the stars among strangers who do not share her ways or respect her customs.

Knowledge comes at a cost, one that Binti is willing to pay, but her journey will not be easy. The world she seeks to enter has long warred with the Meduse, an alien race that has become the stuff of nightmares. Oomza University has wronged the Meduse, and Binti’s stellar travel will bring her within their deadly reach.

If Binti hopes to survive the legacy of a war not of her making, she will need both the the gifts of her people and the wisdom enshrined within the University, itself – but first she has to make it there, alive.

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Li recentemente uma das histórias deste conjunto Steampunk, uma história de realidades paralelas onde a viagem por entre elas se faz através de uma livraria que, existindo em todas elas, permite a exploração interminável de novos livros. Tendo adorado esta história fiquei curiosa em relação às restantes:

In Clockwork Angels, #1 bestselling author Kevin J. Anderson and legendary Rush drummer and lyricist Neil Peart created a fabulous, adventurous steampunk world in a novel to accompany the smash Rush concept album of the same name. It was a world of airships and alchemy, clockwork carnivals, pirates, lost cities, a rigid Watchmaker who controlled every aspect of life, and his nemesis, the ruthless and violent Anarchist who wanted to destroy it all.

Anderson and Peart have returned to their colourful creation to explore the places and the characters that still have a hold on their imagination. Marinda Peake is a woman with a quiet, perfect life in a small village; she long ago gave up on her dreams and ambitions to take care of her ailing father, an alchemist and an inventor. When he dies, he gives Marinda a mysterious inheritance: a blank book that she must fill with other people’s stories – and ultimately her own.

CLOCKWORK LIVES is a steampunk Canterbury Tales, and much more, as Marinda strives to change her life from a mere ‘sentence or two’ to a true epic.

 

 

Últimas aquisições

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Da Família de Valério Romão foi o livro que fiquei com vontade de ler depois de assistir ao lançamento. Tendo-me deslocado ao local por curiosidade em relação ao livro de Joana Bértholo, gostei bastante do conto que o autor leu – uma história negra com uma boa dose de ironia que me pareceu bem construída. Deixo aqui a sinopse:

Um dos mais desafiantes escritores da actualidade regressa com um conjunto de 11 contos, alguns deles anteriormente publicados em revistas como Grantaou Egoísta. Em estilo de grande crueza lírica, expande aqui  o  seu  universo  para  o  tema  omnipresente  da  família,  desenhando  com  inusitada  autenticidade extraordinárias personagens e ambientes apocalípticos.Na capa, um pequeno espelho, que o tempo e o uso riscarão, lembra que ninguém, nenhum dos incautos leitores, consegue escapar do retrato de família, uma qualquer família. «O nascimento do Rogério foi a coisa mais bonita a acontecer-nos enquanto casal, diria mesmo que o foi o momento pelo qual ambos esperávamos como se de um crisma se tratasse e ele viesse de frança, do céu, do bico de uma cegonha, cansada daqueles três quilos e oitocentos confirmar  finalmente  a  nossa  união,  por  não  podermos  nunca  mais,  desde  o  advento  do  cristianismo, sermos só e apenas dois: a unidade é a trindade, repetia-me a Marta, no lusco-fusco, quando esgotados  e satisfeitos de muitas formas distintas caíamos, um em cima do outro, fruta madura num alguidar de linho à espera do consolo da noite e do silêncio.»

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Aventuras de João Sem Medo de José Gomes Ferreira é um dos livros do Plano Nacional de Leitura, contando as aventuras fantásticas de um rapaz que deixa a sua aldeia para viver o mundo. Explorando conscientemente os clichés das lendas e dos contos de fadas, Aventuras de João Sem Medo permite uma dupla leitura das histórias que contem, uma mais inocente onde nos rimos da audácia de João Sem Medo, e uma segunda de crítica social e política, sob as mais variadas formas de estilo. Um livro extraordinário para jovens e graúdos que decerto agradará a muitos.

O próximo livro, Inventário do Pó, é então o mais recente lançamento de Joana Bértholo, autora cujo trabalho conheço apenas das publicações em parceria com outros autores, pela Prado. Baseando-se na obra de René Bértholo, a autora desenvolveu várias histórias ficcionais, dispondo-se o texto de acordo com o seu conteúdo, sempre em letras da cor do pó. Sim, todo o interior, letras ou imagens, possuem a mesma cor que a capa.

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Uma Mentira Mil Vezes Repetida de Manuel Jorge Marmelo é um daqueles livros que ando há anos para comprar, mas não tendo apanhado, até ao momento, uma promoção que tornasse o preço mais aliciante, me tenho inibido de adquirir. Recentemente, a FNAC lançou uma promoção com 30% de desconto em todos os livros. E aproveitei para adquirir. A história parece borgiana, mas apenas saberei quando o puder ler:

Para escapar ao anonimato de uma vida comum, à solidão da escrita e ao esquecimento dos futuros leitores, o narrador de “Uma Mentira Mil Vezes Repetida” inventou uma obra monumental, um autor – um judeu húngaro com uma vida aventurosa – e uma miríade de personagens e de histórias que narra entusiasticamente a quem ao pé dele se senta nos transportes públicos. Assim vai desfiando as andanças literárias de Marcos Sacatepequez e o seu singular destino, a desgraça do Homem-Zebra de Polvorosa, o caos postal de Granada, a maldição do marinheiro Albrecht e as memórias do velho Afonso Cão, amigo de Cassiano Consciência, advogado e proprietário do único exemplar conhecido de Cidade Conquistada, a obra-prima de Oscar Schidinski. Enquanto o autocarro se aproxima de Cedofeita, ou pára na rua do Bolhão, quem o escuta viaja do Belize a Budapeste, passando pelas Honduras, por estâncias alpinas, por Toulon ou por Lisboa. Mas se o nosso narrador não encontrou a glória – senão por breves momentos e na mente alheada de quem cumpre uma rotina – talvez tenha encontrado o amor. Ou será ele também inventado?

Apesar de Há Sempre Tempo Para Mais Nada ser apenas o segundo livro, Filipe Homem Fonseca não é um novato na escrita, sendo mais conhecido mais conhecido para os textos que escreve para a televisão ou para o teatro, escreveu também ficção num formato curto (relembro a participação na Antologia de Ficção Científica Fantasporto. A sinopse (que deixo abaixo) já me tinha despertado a curiosidade, mas acabei por aproveitar a tal promoção da FNAC.

O mundo anda faminto de qualquer coisa que não sabe o que é. Mãos estendidas, estômagos vazios, gente que morre à espera. “Há Sempre Tempo Para Mais Nada” é uma história de perda colectiva e individual, pombos e pilotos suicidas, mosquitos assassinos, macacos raivosos, e rostos sem corpo. A extinção pessoal de um viúvo, embalado numa dança de miséria irresistível que faz da distância um pormenor. Uma viagem de Lisboa a Varanasi, na Índia, terra de morte definitiva num tempo em que nem todas o são, onde o viúvo espera consumar, afundada no rio Ganges, a mais triste das despedidas.

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Do lado esquerdo, o resultado da mais recente parceria da Levoir com o Pùblico, uma colecção de banda desenhada em capa dura e a preço acessível. Do lado direito, um dos lançamentos da Image deste ano, Outcast. De ambiente negro, este volume inicia uma história misteriosa e inquietante onde a apatia da personagem principal, traumatizada por vários acontecimentos na infância, contagia o leitor, conferindo um sentimento de anestesia perante a violência de algumas cenas – talvez por ser mais subtil, e termos conhecimento dos acontecimentos sem necessariamente os visualizarmos, a sensação com que ficamos é a de que este primeiro volume é suficiente para intrigar, mas talvez não para viciar e cativar o leitor para os próximos. Deixo-vos a sinopse:

Kyle Barnes has been plagued by demonic possession all his life and now he needs answers. Unfortunately, what he uncovers along the way could bring about the end of life on Earth as we know it.

Aventuras de João Sem Medo – José Gomes Ferreira

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Enquadrado no Plano Nacional de Leitura, Aventuras de João sem medo é um excelente e surpreendente conjunto de histórias em torno de um rapaz que parte por terras encantadas, esperando todos os habituais clichés das aventuras com fadas e monstros com um espírito crítico que confere à narrativa um interessante aspecto cómico, muitas vezes em tom de comentário social ou político.

João sem medo nasceu na aldeia Chora-Que-Logo-Bebes, um lugar onde todos os habitantes passam os dias a chorar por tudo e por nada. Cansado desta forma de viver, João jurou não ter medo de nada (ou pelo menos não o mostrar) e decide-se a partir em aventura apesar dos receios generalizados em o deixar passar a fronteira.

É proibida a entrada a quem não andar espantado de existir

Com esta frase inicia-se a grande aventura de João que logo tem de fazer uma escolha entre o caminho a seguir: o asfaltado ou o de pedregulhos. O primeiro, caminho de fácil pavimento, conduz à felicidade, mas no final terá de perder a cabeça (literalmente). Já o outro prevê-se difícil, mas ao menos irá manter o cérebro no lugar.

Esta é apenas a primeira de muitas escolhas que João terá de fazer e que o irão conduzir por caminhos inusitados onde terá de demonstrar as suas características bondosas e a coragem – não de forma inocente. João espera todas estas provas, sabendo que fazem parte das grandes aventuras mágicas e vai fazendo pequenas tiradas irónicas ou insolentes:

O descabeçado, de cigarrilha na boca do estômago, expôs-lhe então com paciência burocrática:

– Ninguém pode seguir o caminho asfaltado que leva a Felicidade Completa sem se sujeitar a este programa bem óbvio. Primeiro: consentir que lhe cortem a cabeça para não pensar, não ter opinião nem criar piolhos ou ideias perigosas. Segundo e último: trazer nos pés e as mãos correntes de ouro…

João Sem Medo ouriçou-se numa reacção instintiva:

– Nunca! Bem se vê que não tens a cabeça no seu lugar.

(…)

– Deixá-lo. Prefiro tudo a viver sem cabeça. Nem calculas a falta que ela me faz.

Este episódio inicial demonstra facilmente a dupla leitura que a maioria destas aventuras permite, metáforas de um comentário social e político, muitas deles retratando aspectos do regime Salazarista. Entre príncipes que se julgam demasiado belos para contemplar, cidades viradas do avesso e fadas travestis, João Sem Medo vai resistindo a cada aventura até que se decide voltar a casa – mas só metade!

Assim foi: Recordar os Esquecidos (sessão de 25 de Julho)

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Esta sessão foi marcada pela presença de dois autores bastante conversadores – tão conversadores que dava a sensação de que poderiam alongar-se noite dentro sem deixar de falar dos livros e escritores que os trouxeram a esta sessão. Estou a falar, claro, dos convidados, Fernando Pinto do Amaral e David Soares. Ainda que seja costume a sala estar composta, nesta sessão estava cheia, quase sem lugares suficientes para todos os que queriam assistir. Aqui fica uma listagem das obras referidas, bem como alguns (poucos) apontamentos que fui fazendo ao longo da sessão.

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A conversa começou com Fernando Pinto do Amaral a apresentar Abel Botelho com a obra Barão de Lavos. Simpático e fluído no discurso, Pinto do Amaral terá escolhido esta referência mais pelo autor do que pela obra. Sem edições recentes, será uma das poucas obras da época a fazer alusão à homossexualidade mas como exemplo de degradação da sociedade. Na família do Barão de Lavos, personagem principal, persiste um clima mórbido, de comportamentos desviados e patológicos, resultantes da extensa consanguinidade. Tendo casado com uma burguesa, vai tendo pequenos encontros com um jovem, que traz para o círculo social. Este será um dos cinco volumes de um conjunto que o autor terá denominado de Patologia Social, sendo os restantes O Livro de Alda, Amanhã, Fatal Dilema e Próspero Fortuna.

Esta obra encontra-se disponível gratuitamente em formato digital através da Biblioteca Nacional de Portugal.

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A primeira referência de David Soares foi a A velhice do padre eterno de Guerra Junqueiro. Poeta de esquerda, desvincula-se da primeira república e defende, até ao final, a ideia do regicídio. Este, A Velhice do padre eterno, será uma resposta a uma bula de 1885 que tinha como objectivo manter os estatutos dos estados papais reforçando a posição contra os ideais então revolucionários como a liberdade de expressão e o racionalismo. Ao apresentar mais alguns factos da vida de Guerra Junqueiro David Soares referiu outras das suas obras, como Horas de Luta e Vibrações Líricas.

Esta obra, A velhice do padre eterno, também se encontra disponível gratuitamente em formato digital, tanto na Biblioteca Nacional de Portugal, como no projecto Gutenberg.

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Voltando a Fernando Pinto do Amaral, a próxima referência é O Quarteto de Alexandria de Lawrence Durrell, um conjunto de quatro obras, cada uma com o nome de uma personagem. Com grande densidade psicológica das personagens, apresenta, nos três primeiros volumes, três perspectivas diferentes dos mesmos acontecimentos – mas sem linearidade. Tal como nos nossos pensamentos, apresenta os acontecimentos sem uma sequência cronológica (e nesta fase Fernando Pinto do Amaral refere o efeito de um caleidoscópio – curioso – recentemente ouvi a mesma comparação no lançamento de A Família de Valério Romão).

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Segue-se O Caos e a Noite, de Henry de Montherlant, apresentado por David Soares. O autor terá tido um berço tradicional, conservador como Guerra Junqueiro, mas de ideais à direita. Demasiado satírico, afirma, aquando da terceira república que o país estaria acabado, e passou a dizer mal da república nos jornais. A sua visão elitista é expressa quando a Alemanha conquista a França, afirmando que nada menos seria de esperar de um país enfraquecido pelos ideais que abraçou – posição que o conota de simpatizante com o regime nazi.

Em O Caos e A Noite a personagem principal é Celestino. Um homem rico, de boas famílias, que se juntou aos anarquistas na guerra civil espanhola. Vive na noite, paranoico – característica exacerbada quando lhe comunicam a morte da irmã e se vê obrigado a viajar a Madrid onde começa logo a ver terrores, pensando nos franquistas que estarão por toda a cidade.

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David Soares passou então a A Mulher Pobre de Léon Bloy. Romancista católico, não se enquadra na categoria de romance como alegoria religiosa. A história decorre em torno de uma mulher pobre que serve de modelo para desenho a nu para um pintor. Apresentando-a no círculo de artistas, ficam surpresos pela nobreza de espírito que apresenta, fascinando pelas qualidades apesar de pobre de inculta.

A história em si terá um mistura de luz e treva, de podridão e redenção. Em torno de personagens corrompidas encontram-se outras, mais raras que são fonte de bondade, ainda que não possam ser santos – condição a que aspiraria o próprio autor que tentou levar vida de pobreza (referindo-se Histórias desagradáveis, outro livro do mesmo autor).

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De seguida, Fernando Pinto do Amaral trouxe-nos dois irmãos, os autores Joaquim Paço D’Arcos e Henrique Paço D’Arcos. De família aristocrática, Joaquim Paço d’Arcos não se afasta dessa linha conservadora, mantendo-se à direita. Sem conotação política, retrata a vida da classe média / media alta, como em Crónica da Vida Lisboeta, expressando dilemas morais e existenciais, com muita hipocrisia social e ironia, mas sem pretensiosismo.

E já que se fala em Joaquim Paço D’Arcos, referiu-se também Maria Judite de Carvalho, contista que também apresenta personagens muito apagadas, afeitas ao quotidiano cinzento, sem o discurso habitual de uma condição que almeja a algo mais ou que alimenta a esperança de.

Já o irmão, Anrique Paço D’Arcos terá sido uma personagem mais apagada, com menor visibilidade social, apresentando na sua obra uma certa mística da tristeza e da melancolia (Poesias Completas).

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A próxima referência de David Soares é Diálogos em Roma de Francisco D’Ollanda, livro que causou espanto por parte da assistência, pelas ilustrações. O autor, artista lisboeta, terá sido enviado num périplo mediterrânico pelo rei para estudar as obras clássicas – ainda que se suspeite de um objectivo mais obscuro, estudar os desenvolvimentos bélicos. Durante estas viagens terá sido convidado a conversar com Miguel Ângelo, sendo estes Diálogos em Roma uma transcrição dessas conversas, sem prosa artística, quase jornalística.

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O último autor escolhido para a sessão foi Danilo Kis, por David Soares, com A Enciclopédia dos Mortos (que desconhecia ter sido publicado em Portugal) e Hourglass. O segundo, pesado e soturno, centra-se numa personagem que vai ser enviada para um campo, espelhando várias recordações e memórias, e permitindo ao leitor construir o percurso da personagem. No primeiro, A Enciclopédia dos Mortos, apresentam-se várias histórias partindo de um livro onde se encontram todas as pessoas que morreram desde 1798.

Resumo de Leituras – Julho (2)

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89 – The Wizard and the White House – Mike Maggio – Começando com três interessantes e estranhos episódios, em que o presidente dos EUA fica sem boca, um homem fica com duas, e um terceiro homem ouve a voz de Deus, prossegue por uma ladainha de queixas de todas as partes envolvidas, sem avançar com o enredo. O final até consegue ser interessante, mas depois de fechar a história o autor continua desnecessariamente com vários episódios que amortecem o efeito final. O que falta na história? Cortar uma série de episódios que estão a mais e dar mais espaço ao feiticeiro que provocou os três “milagres”.

90 – Aventuras de João Sem Medo – José Gomes Ferreira – Irónico, hilariante e bem construído. Este livro faz parte do Plano Nacional de Leitura e é uma maravilha de leitura. João sem medo é o nome da personagem que nasceu numa aldeia onde todos choram desalmadamente. O único da aldeia sem medo, resolve partir em aventuras fantásticas onde se exploram, conscientemente os lugares comuns dos contos e das lendas. Comentário mais detalhado para breve.

91 – O Diabo Coxo – José Viela Moutinho – Compilação de entradas várias onde o diabo anda à solta. Algumas são pequenas histórias, outras pensamentos ou comentários, algumas bastante interessantes, outras passaram-me ao lado. Algumas são esquecíveis, outras são sublimes pela carga irónica.

92 – Contos de Gin-Tonic – Mário-Henrique Leiria – Esta compilação de histórias possui de tudo um pouco, laivos de ficção científica ou fantástico e poemas. Comentário mais detalhado para breve.

O Diabo Coxo – José Viale Moutinho

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Esta colecção Fantástica da Colares Editora tinha-me passado totalmente ao lado até a ter visto na Leituria, por ocasião do evento À volta d’A Guerra dos Tronos. Todos de capa vermelha e imagem escassa na capa, possuem alguns títulos bastante conhecidos entre outros que não me recordo de alguma vez ter visto referências. Assim, entre o Fantasma de Canterville de Oscar Wilde e O Covil de Franz Kafka encontramos este O Diabo Coxo de José Viale Moutinho ou Os canibais de Álvaro do Carvalhal.

Assim, foi com grande curiosidade que peguei em O Diabo Coxo, percebendo que o livro contem várias entradas, algumas interligadas, outras soltas, que oscilam entre o cariz popular dos contos rurais e o espírito mundano da realidade que nos circunda no dia-a-dia. Algumas entradas contêm histórias inteiras constituindo pequenos contos, enquanto outras, mais curtas são pedaços de ironia pura ou apenas pensamentos para levar a algo mais.

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O sonho daquele escaravelho da batata de Barroso era transformar-se em escaravelho da batata-doce da ilha da Madeira. É que os escaravelhos também têm sonhos assim e confiam-nos a quem menos se espera, quando vou ao mercado com a tia Elvira.

Livro curioso e saltitante, pode ser lido de entrada em entrada, existindo poucas ligações entre cada uma. Tenho a dizer que nem todas as entradas agradaram, seja por conterem pensamentos que não me levaram a lado algum, seja por serem demasiado simples. Ainda assim, outras passagens são simplesmente sublimes pela carga irónica e pelas memórias que evocam.

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Eventos: Ciclo ‘Hammer Horror’ no Clara Clara

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A decorrer nos meses de Agosto e Setembro em Lisboa, mais propriamente no Campo de Santa Clara, este ciclo gratuito de cinema traz, a cada quarta-feira, pelas 22h, vários clássicos de horror. Atenção que os filmes terão legendas em inglês. Eis a descrição oficial do evento:

Nos anos 30, os estúdios da Universal definiram os grandes monstros do cinema de terror, do Drácula ao Frankenstein, o Lobisomem, o Fantasma da Ópera e o Homem Invisível, criando uma linguagem e iconografia que ainda hoje marcam e assombram o imaginário cinematográfico.

Vinte anos depois, em 1958, a britânica Hammer Film Productions lança a sua primeira adaptação da história de Frankenstein, “The Curse of Frankenstein” e, ao pegarem no legado da Universal, transformam todo aquele mundo de horrores de fortes contrastes a preto-e-branco em contos visualmente sumptuosos de cores expressivas e arrebatamento sensual. O filme foi um sucesso, dando origem a duas décadas de sequelas e variações sobre todo o tipo de personagens horríficas, mas com Frankenstein e Dracula como “heróis” mais visitados. Este pequeno ciclo pretende mostrar os inícios desta fase mítica na história do estúdio, e também alguns títulos essenciais produzidos nos anos seguintes.

E aqui fazemos também a nossa sincera homenagem a Christopher Lee, um dos maiores actores de todo o sempre, que nos deixou há poucas semanas. Ele foi o icónico Drácula da Hammer, mas também o monstro de Frankenstein e a Múmia (entre tantos e variadíssimos papéis numa carreira com mais de 280 papéis), filmes que vamos poder ver aqui no Clara Clara.

E o programa

19 Agosto
THE CURSE OF FRANKENSTEIN
de Terence Fisher, com Peter Cushing, Christopher Lee, Hazel Court
1957, UK, 82 minutos

26 Agosto
HORROR OF DRACULA
de Terence Fisher, com Peter Cushing, Christopher Lee, Michael Gough
1958, UK, 82 minutos

2 Setembro
THE MUMMY
de Terence Fisher, com Peter Cushing, Christopher Lee, Yvonne Furneaux
1959, UK, 86 minutos

9 Setembro
THE CURSE OF THE WEREWOLF
de Terence Fisher, com Clifford Evans, Oliver Reed, Yvonne Romain
1961, UK, 82 minutos

16 Setembro
DRACULA HAS RISEN FROM THE GRAVE
de Freddie Francis, com Chrstopher Lee, Rupert Davies, Veronica Carlson
1968, UK, 92 minutos)

23 Setembro
FRANKENSTEIN MUST BE DESTROYED
de Terence Fisher, com Peter Cushing, Veroniac Carlson, Freddie Jones
1969, UK, 98 minutos

Destaque da semana: Colecção Poderosos Heróis da MARVEL do jornal Público e da Levoir

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Depois da colecção de Novelas Gráficas, a parceria da Levoir com a Público traz-nos uma colecção de heróis da Marvel que será iniciada hoje, dia 23 de Julho. Eis uma listagem dos títulos previstos e respectivas datas, de acordo com a informação publicada pela própria Levoir na sua página de facebook:

– 23 de Julho – Vingadores: Era de Ultron Vol.1 – Argumento de Brian Michael Bendis, Desenhos de Bryan Hitch e Paul Neary

– 30 de Julho – Vingadores: Era de Ultron Vol.2 – Argumento de Brian Michael Bendis, Desenhos de Bryan Hitch, Brandon Peterson e Carlos Pacheco

– 06 de Agosto – Homem de Ferro: Semente de Dragão – Argumento de John Byrne, Desenhos de Paul Ryan e Mark Bright

– 13 de Agosto – Viúva Negra: O Manto da Viúva – Argumento de Devin Grayson e Greg Rucks, Desenhos de J.G. Jones e Igor Kordey

– 20 de Agosto – Homem-Aranha: Tormento – Argumento e desenhos de Todd McFarlane

– 27 de Agosto – Justiceiro: A Ressurreição de Ma Gnucci – Argumento de Garth Ennis, Desenhos de Steve Dillion e Jimmy Palmiotti

– 03 de Setembro – X-Men: Caixa Fantasma – Argumento de Warren Ellis, Desenhos de Simone Bianchi

– 10 de Setembro – Homem-Formiga: Um mundo pequeno – Argumento de Stan Lee e David Michelinie, Desenhos de Jack Kirby, John Byrne e Tim Seeley

– 17 de Setembro – Capitão América: Sonhadores de Americanos – Argumento de Ed Brubaker, Desenhos de Steve McNiven e Giuseppe Camuncoli

– 24 de Setembro – Wolverine: Ilha da Morte – Argumento e desenhos de Frank Cho

– 01 de Outubro – Demolidor: Partes de um todo – Argumento de David Mack, Desenhos de Joe Quesada, David Ross e Jimmy Palmiotti

– 08 de Outubro – Thor: Coração do Mundo – Argumento de Mati Fraction, Desenhos de Olivier Colpel

– 15 de Outubro – Gavião Arqueiro: Quem pelo arco vive – Argumento de Mati Fraction, Desenhos de David Aja

– 22 de Outubro – Hulk: Futuro Imperfeito – Argumento de Peter David, Desenhos de George Peréz e Dale Keown

– 29 de Outubro – Marvels: Através da Objectiva – Argumento de Kurk Buslek, Desenhos de Jay Anacleto

(espero não ter perdido letras pelo caminho – a listagem apenas se encontrava disponível sob a forma de artigo digitalizado sem resolução suficiente para discernir algumas das palavras)

The Wizard and the White House – Mike Maggio

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A história começa com três pequenos milagres: um homem perde a boca, enquanto outro ganha uma, e um terceiro homem ouve a voz de Deus. O que têm todos estes homens em comum para além de viverem nos Estados Unidos? Todos estes milagres fazem parte do plano maquiavélico de um feiticeiro paquistanês que pretende governar o mundo. Como é que estas transformações encaixam no plano? Nunca saberemos, nem que leiamos a história até ao final.

Com uma introdução intrigante e divertida, bem como algumas boas personagens, a história falha redondamente em nos entregar o bom desenvolvimento prometido. Depois de descrever os milagres o enredo enrola-se em episódios repetitivos onde ouvimos constantemente queixas e lamentos. Lemos os pensamentos do coitadinho do presidente que perdeu a boca, ouvimos os comentários descontentes da esposa egoísta bem como as vozes do homem de duas bocas, e as preces da família do homem que ouviu Deus. Pelo meio assistimos às feitiçarias no Paquistão e vemos a confiança que o feiticeiro detém no aprendiz – um rapaz bem menos burro do que parece.

Todos estes episódios são repetidos ao infinito, com diminuto desenvolvimento da história. Os bons momentos, raros, são engolidos no meio de tantas acções repetidas. No entanto, quando o fim finalmente chega, ficamos com a sensação de que a história até não era assim tão má. Talvez seja apenas alívio, mas até que achei piada à forma como a história terminou. Ou não terminou. Depois de fechar as pontas, o autor continua com vários episódios anti-climax que quase fazem esquecer as componentes positivas da história.

The Wizard and the White House não é totalmente mau. Aproveitam-se algumas personagens bem como o humor irónico de poucos episódios. Pena que o autor repita algumas cenas até à exaustão. No final fiquei com a sensação de que até poderia ter-se tornado interessante se tivesse levado uns bons cortes que o tornassem menos cansativo.

 

Últimas aquisições

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Conclusão. Estar de férias faz mal aos bolsos! Os dois primeiros são dois volumes de Clive Barker que adquiri numa passagem pela Livraria Bivar por me interessarem estas edições – ainda que goste de algumas obras do autor, já tinha o Weaveworld noutra edição mais moderna e o The Great and Secret Snow tenho em banda desenhada.

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Se passar na Bivar já era de prever a desgraça, passar no Sci-Fi LX já foi tentar o destino. Acabei por comprar dois livros de António de Macedo que há algum tempo queria, bem como um volume da Trema que me tinha escapado há uns anitos.

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Este volume da Trema possui textos de Luís Filipe Silva, Artur Coelho, João Campos e Rogério Ribeiro, entre outros. Do lado esquerdo encontra-se um dos volumes da colecção Fantástica da Colares Editora, onde encontramos obras como O Covil de Kafka, O Fantasma de Canterville de Oscar Wilde, ou O Magnetizador de E.T.A Hoffman.

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Do lado direito, O Veneno de Ofiúsa de Francisco Dionísio é uma aquisição em segunda mão de um dos volumes da breve colecção TEEN da Saída de Emergência. Há algum tempo que procuro os lançamentos TEEN de autoria portuguesa em preços mais em conta e acabei por aproveitar para adquirir este:

Numa luta entre deuses e homens, só os verdadeiros heróis poderão fazer a diferença. Chegou o tempo há muito anunciado em que os deuses deverão partir e deixar o destino da Terra entregue aos homens. Mas nem todos os deuses aceitam fazê-lo, e um terrível conf lito entre homens e divindades é inevitável. É neste cenário que dois jovens guerreiros, Anio e Camal, percorrem a Lusitânia em busca do guardião da joia da Deusa-mãe – uma pedra capaz de aniquilar as próprias divindades. Inspirado nos povos pré-romanos da Península Ibérica, “O Veneno de Ofiúsa” é uma viagem para um tempo mágico há muito esquecido. Estás preparado para a guerra com os deuses?

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Por último, The Water Knife é um dos últimos lançamentos de um dos meus escritores favoritos de ficção científica, Paolo Bacigalupi:

The American Southwest has been decimated by drought, Nevada and Arizona skirmish over dwindling shares of the Colorado River, while California watches. When rumors of a game-changing water source surface in Phoenix, Las Vegas water knife Angel Velasquez is sent to investigate.

With a wallet full of identities and a tricked-out Tesla, Angel arrows south, hunting for answers that seem to evaporate as the heat index soars and the landscape becomes more and more oppressive. There, Angel encounters Lucy Monroe, a hardened journalist who knows far more about Phoenix’s water secrets than she admits, and Maria Villarosa, a young Texas migrant who dreams of escaping north to those places where water still falls from the sky.

As bodies begin to pile up and bullets start flying, the three find themselves pawns in a game far bigger, more corrupt, and dirtier than any of them could have imagined. With Phoenix teetering on the verge of collapse and time running out, their only hope for survival rests in one another’s hands. But when water is more valuable than gold, alliances shift like sand, and the only truth in the desert is that someone will have to bleed if anyone hopes to drink.

Tony Chu Detective Canibal Vol. 2 – Sabor Internacional

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Felizmente não decorreu muito tempo desde a leitura do primeiro volume de Tony Chu (Ao Gosto do Freguês) para que o segundo ficasse disponível – Sabor Internacional. Mantendo a qualidade de publicação do primeiro, este volume traz-nos um Tony Chu que apresenta já uma maior maturidade e desenvoltura, contornando regras e tecendo planos para que alguns acontecimentos corram conforme desejado.

Relembro que, no volume anterior, Tony Chu tinha incorporado a FDA graças à estranha capacidade de captar as memórias dos animais e vegetais que come. Neste, Tony Chu consegue convencer o seu odiável de que é um inimigo quase mortal do seu antigo parceiro. Vendo uma oportunidade de o martirizar, o chefe junta-os numa equipa perfeita – é que o antigo parceiro já não é um comum mortal e durante a sua recuperação tornaram-se grandes amigos.

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Ainda assim, parece-me que ainda não é desta que veremos a total potencialidade desta nova parceria – encontrando uma estranha fruta com sabor a frango Tony Chu viaja sozinho para um dos estados federados da Micronésia onde se encontram outras personagens já conhecidas: o irmão, conhecido chefe que fecha os olhos a pequenas ilegalidades; e Amelia, a jovem crítica com poder de conseguir reproduzir, em quem lhe lê as críticas, o sabor da refeição.

Também não é desta que percebemos alguns dos acontecimentos pendentes do primeiro volume, apesar de serem descobertas algumas pistas. Esta história, carregada de pontos hilariantes afasta-se um pouco dessa componente da história, explorando a confiança recém-adquirida de Tony Chu enquanto detective e fazendo crescer a personagem.

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As características da história introduzidas  no primeiro volume já não são novidade – as capacidades de Tony Chu levam-no a provar os pedaços orgânicos mais estranhos e nojentos. Estas provas continuam em Sabor Internacional, ainda que, com menor impacto. Os episódios violentos em que as personagens descarregam as suas frustrações, também continuam, ainda que, pareceu-me, agora mais centrados no próprio Tony Chu.

Entre as explosões de violência e as provas nojentas de comida o nosso herói começa a criar a base para prosseguir os vilões das galinhas. Ainda que se perca o sabor da novidade com o perpetuar dos elementos já conhecidos, a história aguenta-se, criando dinamismo nas personagens e abrindo caminho para os próximos volumes. Sem dúvida, uma séries para continuar a ler.

Assim foi: Lançamento Da Família e Inventário do Pó

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Confesso que não estava a pensar aparecer, mas após um passeio em família vi-me disponível e sem vontade de  ir para casa. Foi quando me recordei do lançamento dos livros com conversa moderada por Joana Neves, mais conhecida pelo projecto Contos não vendem (a frase que supostamente se ouve de editores quando se fala em publicar antologias).

Comecemos pelo espaço, uma loja d’A Vida Portuguesa bastante mais agradável, quer em disposição quer em luminosidade, do que a loja mais conhecida na Rua da Anchieta. À entrada estava a decorrer uma degustação de refrescos mesmo a calhar com o calor que se fazia sentir depois de uma caminhada. No interior tive a surpresa de encontrar um espaço mais bem concebido para apresentações do que em muitas livrarias.

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E hoje é dia de confissões. O que fez aparecer foi o nome de Joana Bértholo, participante nos projectos da Prado (O caso do cadáver esquisito e Microenciclopédia micro-organismos, microcoisas, nanocenas e seus amigos de A a Z) desconhecendo totalmente o autor do outro livro, Valério Romão. No final, apesar de ter vontade de ler o da Joana Bértholo, fiquei mais curiosa com o livro Da Família de Valério Romão.

Após uma curta introdução começa-se por ler um conto de Valério Romão, onde se apresenta uma história psicótica que escala lentamente de violência, mas sempre num tom brando. Aliás a história apresenta-se do ponto de vista do narrador, um homem que escreve à esposa expressando indignação por se julgar incompreendido – que são umas chapadas bem dadas de vez em quando? E porque tenta ela traí-lo instigando os filhos a abandoná-lo quando se divertem tanto a torturar bichinhos?

Entre os vários contos os nomes das personagens serão repetidos, como um caleidoscópio em que várias partes resultam em combinações infinitas (comparação do próprio autor).

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Entre questões sobre processos de escrita, ideias por detrás dos livros e formatos preferidos (romance ou conto), Joana Bértholo leu um dos seus contos, onde a humanidade, farta de produzir tecnologia, inventa máquinas de produzir natureza iniciando-se a próxima moda – ter mais naturezas do que aquelas que se conseguem consumir.

Este conjunto de histórias terá um contexto comum, inspirando-se num familiar distante – não pretendem retratar episódios reais, mas terão tido origem na produção artística de René Bértholo e constituirão uma antologia coesa e lógica, com elementos surreais, quase fantásticos.

Colecção Bang! – Saída de Emergência

Há uns anitos não era só a colecção 1001 Mundos da Gailivro que lançava obras de fantasia e ficção científica. Pela Saída de Emergência tinhamos a Bang! que ainda persiste, embora com menor volume de lançamentos, e no seguimento da qual vários autores do género vieram a Portugal. Agora, por ocasião do lançamento do número 18 da revista de mesmo nome, alguns elementos da colecção encontram-se em promoção pela FNAC. Ainda assim, convém recordar que os volumes mais antigos da colecção se encontram a um preço excepcional no site da própria editora. Eis destaque para alguns dos livros que podem encontrar a preços que não ultrpassam os 7€.

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Na componente de ficção científica encontramos, entre outros, os clássicos Pavana de Keith Roberts, O Senhor da Guerra dos Céus de Michael Moorcock ou O Homem do Castelo Alto de Philip K. Dick. O lançamento do primeiro, Pavana, foi pouco comentado apesar de pertencer à colecção Sci-fi Masterworks. Apresenta-nos uma realidade alternativa através de várias histórias interligadas, onde a Inglaterra caiu sob as mãos dos espanhóis, mantendo-se a Inquisição durante longos séculos (opinião mais detalhada). Sendo, entre os publicados “recentemente”, um dos melhores do género, encontra-se agora a 5€.

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Entre os diversos volumes publicados nesta colecção destaca-se sem dúvida, para mim, o Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditadas. Encontrado por diversas vezes na secção de medicina das livrarias, é uma obra 100% ficcional onde diversos autores discorrem sobre doenças inventadas, relatando sintomas, causas e curas fantásticas. Para além do tipo de obra (um almanaque / dicionário inventado) destaca-se pela conjugação de participações estrangeiras e portuguesas – o volume não contem apenas as histórias da versão original, mas também algumas de autores portugueses que se juntaram com os seus relatos, finalizando um extenso volume. Mas as participações portuguesas nesta colecção não se ficam pela participação em antologias. David Soares é um dos nomes portugueses que mais encontramos, com obras como A Conspiração dos Antepassados, Batalha ou Lisboa Triunfante.

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De interior bastante ilustrado e cuidado, A Sombra Sobre Lisboa é uma antologia de contos lovecraftianos que possuem como cenário a capital portuguesa. As participações são maioritariamente portuguesas destacando-se as de João Barreiros, António de Macedo e David Soares. Grendel de John Gardner é outro dos lançamentos esquecidos desta colecção. Aqui a história é contada pelo ponto de vista do monstro que apenas pretende aproximar-se dos humanos mas é sempre mal percepcionado por conta do aspecto.

 

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Tendo esta entrada como intuito destacar os volumes da colecção que se encontram bastante acessíveis à carteira, não gostaria de deixar passar a oportunidade de referir brevemente, outros grandes lançamentos (e decerto esquecerei alguns). Autores de ficção científica como Richard Morgan (Forças do MercadoCarbono Alterado), Robert Charles Wilson (Darwinia) ou Paul McAuley (Anjos Pistoleiros e A Invenção de Leonardo) dificilmente teriam sido publicados em português noutras colecções portuguesas e no género de fantasia há que lembrar as séries Gormenghast de Mervyn Peake, Tigana de Guy Gavriel Kay ou Locke Lamora de Scott Lynch.