Resumo de Leituras – Março de 2015 (4)

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41 – Fantasia negras e outras histórias – Joel Puga – pequeno conjunto de histórias fantásticas, todas negras, de autoria portuguesa, publicado em formato digital. Entre as cinco histórias podemos encontrar bons exemplos de fantasia, sem lamechices ou criancices.

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42 – Insonho, Durma bem - Vários autores – neste volume de aspecto impressionante encontramos várias histórias passadas em terras portuguesas onde se destaca o recordar dos seres que ainda habitam a memória colectiva portuguesa. Bastante distintos na forma de explorar o tema, é um conjunto muito interessante com excelentes histórias.

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43 – Para cima e não para Norte – Patrícia Portela – baseado em Flatland de Abbott, descreve as peripécias de um homem plano que se vê confrontado com a ideia de existirem seres tridimensionais. Obcecado por este ideia, acaba preso e sem família, mas nem assim desiste de tentar provar ou de aceder a esse mundo que lhe parece tão distante.

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44 – Insólito – Loustal – excelente conjunto de quarenta e seis histórias, em que cada uma ocupa uma página com, em média seis quadrinhos. Apesar de curtas conseguem expor situações insólitas e cómicas, tornando-se, nalgumas, críticas sociais ou políticas.

Assim foi: Recordar os Esquecidos (2015-03-28)

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Esta terceira sessão terá sido uma das mais animadas, tanto pelas convidadas, mais faladoras, como pela participação do público, conhecedor de livros relacionados, também estes esquecidos ou em perigo de esquecimento. A sessão iniciou-se com recordação, por Irene Pimentel, de A Convidada de Simone de Beauvoir, o primeiro livro da autora que estará no momento quase esgotado.

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Seguiu-se a referência aos livros de Maria Grabriela Llansol, autora que, confesso, nunca ouvi falar. Efectivamente as buscas por alguns dos maiores sites livrescos retornam sem registos, mas tal não é o caso da FNAC (estranhe-se). Eis um que me pareceu curioso, O Livro das Comunidades (não foi este que foi “lembrado”):

«Repare-se que o texto começa como qualquer lenda das que se ouvem na infância dos indivíduos e dos povos – «nesse lugar havia uma mulher…» – mas pouco depois temos cortes na narrativa, risos, frases, inacabadas, a confusão de vozes e tipos de discurso. É suposto que as lendas contenham uma lição clara, mas aqui essa clareza é substituída pela «energia das imagens» que garante a perpetuação do secreto como potência transformadora. É na sua irredutibilidade à decifração que o texto se aproxima por vezes de imagens da tradição – o cavalo Pégaso, um verso de Fernando Pessoa, a alusão ao milagre das rosas ou às cantigas de amigo.» Do Posfácio de Silvina Rodrigues Lopes

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Mas estou apenas no início. Seguiram-se as referências a Voltaire, mais propriamente a O Poema sobre o Desastre de Lisboa, um pequeno livro publicado em edição bilingue e traduzido por Vasco Graça Moura; e a Leibniz com Monodadologia. E eis que se faz uma pausa para ouvir passagens de Cancioneiro Policial da menina Alzira, de Luís Costa e Sousa, um livro em torno de um detective em tom conciso ao qual não falta alguma ironia, uma entrada directa para a lista de próximas aquisições.

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Com a referência a Viagem ao Destino de Alfred Doblin é-nos apresentada a cidade de Lisboa numa outra época, pelos olhos de um estrangeiro fugido à guerra. Segue-se novamente referências a autores que desconhecia totalmente, como Grabato Dias, Rodrigues Migueis ou Clarice Lispector, constatando-se a total ausência de edições disponíveis no mercado.

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Entre intervenções de quem estava na audiência, a sessão terminou relembrando A história começa na Suméria, Diário de Guerra aos Porcos de Adolfo Bioy Casares e As lojas de canela de Bruno Schulz.

Insonho Durma Bem – Vários autores

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Apesar de não existirem exemplares disponíveis à data do Fórum Fantástico, esta pequena antologia foi um dos lançamentos que pudemos assistir no evento. O contexto é simples mas interessante, histórias passadas no interior português, em aldeias ou vilas, em que as lendas transmitidas oralmente ganham consistência em monstros que assombram os pacatos habitantes.

Publicado pela Estronho, passados alguns meses do evento lá chegaram os exemplares, e foi marcado lançamento próprio, também na Biblioteca de Telheiras, com presença de grande parte dos autores. Neste evento foi-nos explicada a origem da antologia, e cada um dos autores presentes falou um pouco do monstro escolhido.

A antologia começa com Ao meio-dia de Carlos Silva, um início auspicioso onde um velhote de capote deambula por entre os terrenos, retirando o fulgor das terras cultivadas, aspirando energia e transformando tudo em que toca em sítio inóspito. As suas razões bem como a sua origem são desvendados nas páginas seguintes, numa história que se enquadra bem no espírito supersticioso do interior.


A segunda história, Duelo de Lendas, é da autoria de Valentina Silva Ferreira, a organizadora da antologia e decorre na Madeira, apresenta-nos não um, mas três monstros que irão confrontar-se para influenciar o dormir de uma jovem doente que tenta dormir: Insonho, João Pestana e Tardo. Até que se decidem a tentar à vez.

Já em Na Escuridão de Víctor Frazão um rapaz citadino segue incauto a rapariga que conheceu há poucos dias para uma Lagoa que se diz povoada por seres inexplicáveis. Basta a promessa de sexo com uma rapariga mais velha para que a siga, cego a temores justificados. Em A Voz de Lisboa de André Pereira uma nova catástrofe se abata sobre a cidade, relembrando o terramoto de 1755.

A quinta história é a de título mais longo, A noite em que o bicho-papão encontrou Kafka no cimo de um telhado. Da autoria de Francisco J.V. Fernandes segue um velhote enfermo que entre o sono da doença relembra a infância marcada pelo medo do bicho-papão, balanceado pelo conforto da lengalenga proferida todas as noites pela avó. Uma história forte e coesa que é uma das melhores do conjunto.

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De Ana Luiz, Sant’Iroto é mais uma história que capta bem o receio do sobrenatural, acompanhando uma menina que, tomando conhecimento de uma história rural, resolve pregar uma partida aos tios, chamando por sarilhos em noite de lua cheia. Por sete encruzilhadas, por sete vilas casteladas de Miguel Raimundo aproveita o mito dos lobisomens ou de outros metamorfos amaldiçoados que ainda se crê habitarem as aldeias.

O penúltimo conto é de Inês Montenegro, Ao sexto dia, e apresenta-nos uma sequência de mortes suspeitas. As vítimas, homens de vida reprovável, acabam mortos numa encruzilhada sem que haja grande explicação. Em Sangue, suor e … unhas de João Rogaciano, são também várias as vítimas que padecem de forma inusitada, exangues e sem unhas, relembrando-se uma velha história na povoação de um ser que precisaria das proteínas existentes em ambos (sangue e unhas) para sobreviver.

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Se há algo que se repara assim que se pega neste livro, é o belíssimo aspecto. A separar cada história encontra-se uma pequena apresentação de cada autor, acompanhada por uma imagem transfigurada do mesmo, no monstro a que se dedicaram. Apenas as páginas separadoras se encontram a negro, as restantes são brancas.

Em relação aos contos, nem todos se enquadram no ambiente rural, como A Voz de Lisboa, uma das histórias que menos me impressionou. Já o conto de Francisco Fernandes é um dos mais coesos e equilibrados, uma história que explora mais o lado humano em torno do temor instigado contra uma terceira figura, destacada do meio familiar, criada apenas para fazer vergar a vontade dos mais novos.

Por sete encruzilhadas, por sete vilas casteladas capta bem o ambiente rural e a lenda dos transmorfos que persiste nos pequenos viralejos, mas tem partes de leitura conturbada pelo intercalar das ladainhas de linguajar antigo, com um discurso mais coloquial – ainda assim é uma história engraçada que retém algum do conhecimento supersticioso.

Ao meio-dia é também um conto coeso e bem composto, apesar de curto, que, sem envolver muitas personagens, consegue transpor o ambiente rural. Já Ao sexto dia relembrou-me uma história de outros tempos em que o diabo anda à solta e as maldições aparecem onde menos se espera. Finalmente, o conto Sangue, suor e … unhas é quase uma história de detective, bem composto e divertida, onde não faltam os pequenos episódios rocambolescos.

Em suma, uma antologia bem composta e bastante aconselhável, onde se revivem as crenças antigas transmitidas oralmente por sussurros, conhecidas por todos os habitantes das aldeias, mas nunca faladas abertamente, por receio de que a simples menção a tais coisas atraía os males que por aí andam.

Últimas aquisições

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E eis as últimas aquisições! Se O Colosso de Maroussi de Henry Miller foi adquirido numa excelente promoção na Bertrand, já O Ano 3000 de J. M. Doménech foi uma descoberta graças a uma amiga, numa visita à Fyodor. Deixo-vos com a sinopse de mais um livro da colecção de Literatura de Viagem da Tinta da China:

Henry Miller dizia que O Colosso de Maroussi era o seu melhor livro. Seduzido pelas descrições da Grécia, Miller parte com o seu amigo Lawrence Durrell à descoberta do interior daquele país. Entre dias ao relento na praia, atropelados por rebanhos de ovelhas, noites em pensões decadentes mas carregadas de história, em aldeias com um único forno para toda a população, e peregrinações à Acrópole de Atenas, Miller descobriu na Grécia o sentido da civilização

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Na mesma altura, uma passagem inesperada pelos alfarrabistas da rua da Anchieta, cruzou mais umas coisitas no meu caminho. O primeiro, O Manancial da Noite chamou-me à atenção pela participação de Miguelanxo Prado e será a história de um detective que procura o Manancial da Noite (podem ler um comentário resumido em Bedeteca Ideal). Já Cães da Pradaria atraiu-me pela capa, onde um cavalo arrasta um caixão, acompanhado pelo homem que  o cavalga e uma criança a pé, paisagem inóspida e vazia de mais detalhes, a não ser uma longa sombra que se arrasta. O terceiro é Gibrat, numa edição publicada pela Asa em conjunto pelo Público.

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Seguem-se dois dos volumes publicados pela Levoir, dos quais tenho apenas um comentário negativo – para alguém que gosta de ter as colecções direitinhas na estante, a diferença de tamanho do último volume é algo desconcertante. Pormenor, eu sei. Desfolhando Beterraba: a vida numa colher deparo-me com a mesma paleta de cores da capa, um estilo fantasmagórico de cores carregadas apelando à imaterialidade. Isto sem conhecer a história é claro. Já Foi assim a guerra nas trincheiras é um grande contraste, uma gama de cinzentos de imagens bem definidas e reais.

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Finalmente, eis três volumes da Série Ouro, adquiridos também em segunda mão, mas através de grupos do facebook.

Eventos: OTHER LITERATURES: the Comic Strip, Science Fiction, the Detective Novel

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A decorrer em Maio (dias 15 e 18) Other Literatures é um ciclo de três sessões, dedicadas à Banda Desenhada, à Ficção Científica e ao Policial, na Gulbenkian (entrada livre). No painel de ficção científica encontramos o autor português João Barreiros (que já dispensa apresentações), Fábio Fernandes (autor e tradutor brasileiro, do qual tive oportunidade de ler Os Dias da Peste) e Lauren Beukes (autora sul africana responsável pelo recentemente publicado As Raparigas Cintilantes). Eis a descrição para esta sessão:

Raparigas cintilantes e gente animalada. Vampiros fruto de engenharia genética. Um contra-ataque aos marcianos, com Júlio Verne e H. G. Wells a desvendar mistérios.

Mas que outra literatura é esta que associa ao progresso tecnológico o thriller policial, o fantástico e o terror? É a Ficção Científica (FC), reinventada por Lauren Beukes, Fábio Fernandes e João Barreiros. Vai ser na Gulbenkian, no dia 15 de maio, no contexto do Programa Próximo Futuro, numa sessão em que nos propomos refletir sobre a cultura contemporânea a partir de mundos imaginados em três continentes. A discussão da natureza e da geografia da FC contemporânea, que passará também pela exibição de curtas-metragens de FC produzidas em África, na América do Sul e na Europa, procurará desvendar não só as potencialidades que o género literário tem hoje para oferecer enquanto arma de crítica social, mas também como instrumento de construção do devir – um futuro que o leitor de FC muitas vezes pressente como estando assustadoramente próximo. 

Ainda que a sessão de ficção científica seja a que mais me interessa, não são de esquecer as restantes sessões. A de banda desenhada conta com Anton Kannemeyer, Marcelo D’Salete e Posy Simmonds; e a sessão de policial conta com Claudia Piñeiro, Florent Couad-Zotti e Raphael Montes.

 

Destaque da Semana: Gente Melancolicamente Louca

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O lançamento mais recente da Tinta da China parece um livro peculiar:

Gente Melancolicamente Louca transporta-nos para um universo psicológico intenso onde o que parece quase nunca é, e onde os desvios contra-intuitivos do enredo desconcertam sistematicamente o leitor. Com uma escrita encantatória, acompanhamos o fluxo de consciência das personagens, cujas vidas se desdobram em episódios cada vez mais inusitados.

 

Eventos: Recordar os Esquecidos – Patrícia Portela e Irene Pimentel

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Está agendada e planeada mais uma sessão de Recordar os Esquecidos,  a decorrer na Livraria Almedina no Atrium Saldanha, com moderação de João Morales. A sessão deste mês conta com a presença de Patrícia Portela, autora que terá participado em ambos os livros da Prado, Microenciclopédia micro-organismos, microcoisas, nanocenas e seus amigos de A a Z e O Caso do Cadáver Esquisito.

Depois da leitura de ambos a curiosidade levou-me mais longe e já cá anda um livro da autora pelas estantes, Para Cima e Não para Norte.  Por completa coincidência comecei a lê-lo este Domingo, e logo nas primeiras páginas se realçam as referências a Flatland.

Resumo de Leituras – Março de 2015 (3)

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37 – The Dark Vol2 - Vários autores – ainda que de menor qualidade que o primeiro volume, apresenta-nos uma excelente história de bruxas na época actual, mais propriamente de uma bruxa bem intencionada que caça as misérias da humanidade. Nos restantes contos conhecemos uma típica história de fadas celtas trazida para a actualidade, uma história metafórica de dor e abuso em que a mulher objecto se começa a transformar e a ganhar liberdade, e finalmente, a história de uma mãe que perdeu todos os filhos para a guerra, mas que os trouxe novamente ao mundo sob forma não humana. E de menor qualidade não quer dizer que seja uma má edição – todos os contos são bons contos, mas o patamar para exigir a excelência é muito elevado.

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38 – A Coisa Perdida - Shaun Tan – este pequeno livro, mais abundante em belíssimas e estranhas imagens do que em texto, traz-nos a busca de um rapaz em encontrar sítio para a coisa perdida que, de tão enorme e tão estranha, não se encaixa em sítio nenhum.

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39 – Tony Chu Vol.1 – John Layman – Centrado numa personagem deprimida pelos seus poderes peculiares, é uma história divertida que pode instigar nojo extremo. Fica o aviso – não comer enquanto se lê. Entre mirabolantes lutas Tony é um detective do FDA que se vê obrigado a ingerir estranhos pedaços de provas em prol da investigação criminal.

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40 – Was – Geoff Ryman – Se o autor é conhecido pelas distopias de ficção científica como The Child Garden ou Air, este livro é a antítese de tudo o que conheço dele. Mas só em temática – é de realçar a presença da mesma sensibilidade que acompanha as suas obras, mas que aqui é usada para transformar O Feiticeiro de Oz numa história muito real e sofrida.

Fantasias Negras e Outras Histórias – Joel Puga

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Sob uma capa simples mas eficaz reunem-se cinco histórias do autor, cujos contos costumam aparecer em antologias do género como Lisboa no Ano 2000, ou Nanozine. A primeira história entitulada O Último pode ser encontrada gratuitamente em várias plataformas (mais detalhes sobre a disponibilização por mão do autor) e ainda que bem escrita, recorda mais um episódio de uma história maior do que uma história por si. Mas um bom episódio que transparece o tom melancólico e negro do conjunto que se nos apresenta.

Em Sasabonsam somos confrontados com uma história de guerra que me recordou, em linha condutora, Graves de Joe Haldeman. Mas se o conto do autor estrangeiro me tinha chateado pela forma pouco conclusiva com que termina, Sasabonsam consegue finalizar coerentemente num incidente irónico, depois de trechos de acção em que o desprendimento e selvajaria inicial dos guerrilheiros se transforma em temor ao confrontarem uma forma que pouco tem de humano.

Já a terceira história, O Castelo, foi a que menos gostei. Inicia-se com a ida à terra de um homem, pelo Natal, a convite do primo do qual tem poucas imagens agradáveis da infância. Mas a solidão em que ia passar este período festivo leva-o a aceitar o convite. À chegada não o espera a alegria da época, mas um pai nervoso e preocupado, que se prepara para pagar o resgate da filha raptada, esperando recuperá-la ilesa. Mantendo o tom negro do restante conjunto, desenrola-se num final expectável.

Susana é a penúltima história que acompanha o fantasma de uma rapariga enquanto esta recorda a sua vida miserável. De face carregada de cicatrizes, foi repudiada pelos pais e até pelo avô. As tentativas de se refugiar nos livros são marcadas pelo asco da bibliotecária. Finalmente, é expulsa de casa e obrigada a arranjar ocupação pouco honesta. Após tanto sofrimento, questiona-se sobre o seu destino eterno. História interessante e sofrida, termina numa reviravolta pesada e satisfatória.

Por último encontra-se o conto Uma demanda literária, que nos faz, também, pensar numa história mais longa do que aquela que se nos apresenta, uma história que gostaria de conhecer. Nesta um homem enfrenta várias provas para conseguir tesouros que lhe permitam adquirir mais uns volumes para a sua colecção, procurando agora o alfarrabista cuja loja se materializa em locais recônditos e isolados.

De tom negro envolvendo finais pouco esperançosos, esta colectãnea apresenta-nos histórias em que se sucedem as figuras demoníacas ou os vampiros tradicionais (e pouco românticos). De qualidade mais do que satisfatória, é um conjunto de histórias fantásticas que nada têm de juvenis, de perspectiva dura e final ainda mais penoso.

Ainda que não tenha gostado de todas as histórias da mesma forma, é bom ver que, no cenário português em que escasseiam os lançamentos de fantasia não juvenil, os autores não esmorecem e continuam a insistir no lançamento das suas obras, optando por formatos mais baratos e fáceis de difundir, como o formato digital. Para os que não se importam de ler neste formato, deixo as indicações do autor de como adquirir esta colectânea.

 

Passatempo – O Exorcista de William Peter Blatty

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Sim, este é o livro que deu origem ao mítico filme de Terror, O Exorcista. Eis a sinopse da edição portuguesa, lançada pela Gailivro:

Publicado pela primeira vez em 1971, O Exorcista tornou-se não só um fenómeno literário como um dos livros mais assustadores e controversos alguma vez escritos. A história centra-se em Regan, a filha de doze anos de Chris MacNeil, uma ocupada actriz que reside em Washington D.C. A criança aparenta estar possuída por um demónio ancestral e cabe a dois padres a dura tarefa de o exorcizar, arriscando a sanidade e a própria vida. O Exorcista transcendeu as páginas escritas e saltou para o grande ecrã, onde se tornou uma referência incontornável do cinema. Mas se pensa que o filme é assustador, leia o livro. Até porque o filme nem chega a aflorar a ponta do iceberg! Propositadamente crua e profana, O Exorcista é uma obra com a capacidade de nos chocar, levando-nos a esquecer que “é apenas uma história”.

Tendo recebido uma cópia há alguns anos da editora, reparei que este é daqueles livros que, não fazendo totalmente o meu género de leitura, não devo ler nos próximos tempos. Eis então um passatempo para que alguém, mais interessado, possa usufruir.

Para ganharem este volume apenas têm de enviar um mail para rascunhos.blog [AT] gmail [DOT] com, indicando nome e morada, com o mesmo título do post “Passatempo – Exorcista“. Como anteriormente não têm de seguir o blog em nenhuma das suas vertentes (se o fizerem é agradável, mas não é obrigatório) – basta enviarem um mail. O passatempo termina a 25 de Abril.

Notas adicionais: Os dados enviados serão usados apenas para o passatempo. Aceitam-se participações em Portugal (continental e ilhas). Para fora de Portugal, apenas se participarem nos portes. Uma particpação por pessoa ou por mail (várias pessoas não podem participar de um mesmo endereço de e-mail e uma mesma pessoa não pode participar de vários endereços diferentes). Participações adicionais serão ignoradas. O único exemplar disponível será sorteado, e o vencedor comunicado neste blog. Irei, também, enviar um e-mail para o vencedor, com o intuito de confirmar os dados antes do envio. Se não me responder em tempo útil (duas semanas) passarei ao segundo contemplado. Porque não trabalho nem moro perto dos correios (nem estes têm um horário compatível com a minha profissão) por vezes demoro um pouco a enviar o exemplar.

Dji. Death Sails

Produzido pelo Simpals Animation Studio centra-se numa “Morte” pouco afortunada e desengonçada que vai perdendo vários clientes em pequenas aventuras mirabolantes, sempre acompanhadas por músicas bastante divertidas. Vi o primeiro vídeo há alguns meses, mas só recentemente tive curiosidade e acabei por me divertir com os restantes. Eis o primeiro, e mais conhecido:

Was – Geoff Ryman

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Se em O Feiticeiro de Oz, de Frank L. Baum, Dorothy é arrebatada do mundo real e na série de Gregory Maguire a história fantástica é transformada pela visão da vilã que não passa de uma jovem mal interpretada pela sociedade, em Was a fantasia é trazida à realidade, com uma Dorothy que me recordou a interpretação de Alan Moore em Lost Girls, ainda que numa perspectiva mais negra.

Semelhanças com a história fantástica? Muitas. Mas de uma forma que faz chocar a história fantástica com a realidade dura e cruel. Em Was Dorothy é uma menina que, tendo perdido a família numa doença, é enviada de comboio com o cão, para os cuidados da tia, pouco habituada a crianças ou animais domésticos. À chegada o choque cultural é forte – habituada aos pais actores é uma menina protegida e mimada que possui belas fatiotas – todas queimadas por receio da doença.

Agora de cabelo curto e roupas andrajosas, não encontra nos tios o carinho e o amor a que estava habituada, tomando o cão como refúgio emocional. Mas por pouco tempo. Numa quinta um cão citadino é pouco útil, ou até um empecilho e finalmente desaparece às mãos da tia. A única amizade que consegue criar é com um rapaz bastante mais velho que acaba por se suicidar, um rapaz que aspirava à liberdade e que assim terá arranjado forma de deixar o mundo que o prende.

tallgrass prairie in autumn, Tallgrass Prairie National Preserve, Kansas

Crescendo cada vez mais isolada, acaba por se revoltar, uma menina obediente em casa que, sofrendo abusos sexuais, se revolta e torna violenta para com os colegas mais novos, aproveitando-se do seu tamanho e força para aterrorizar. Escusado será dizer que numa sociedade tão tradicional quem é abusado é culpado e mal olhado, e pouco mais resta a Dorothy naquela terra que aprendeu a odiar.

Terá sido esta Dorothy que terá inspirado Baum a escrever o famoso livro sobre Oz, e que por sua vez terá influenciado a vida de várias pessoas, algumas das quais vamos conhecendo paralelamente: a da actriz que terá feito o papel de menina, a de um actor gay com traços autistas que terá ficado fascinado com o filme, ou a de um homem que, tendo conhecido uma velhota num lar acaba também por conhecer o livro.

Tendo escrito livros tanto de fantástico como de ficção científica (relembro o excepcional Jardim de Infância publicado na colecção da Clássica organizada pelo João Barreiros, ou o Ar publicado mais recentemente pela Gailivro), esta história é a antitese de tudo o que habitual nos livros do autor, um choque demasiado forte com a realidade, que acaba por transtornar profundamente as personagens.

Uma longa mas excelente história, bastante pesada, coerente com o lado mais negro do autor, revelado nos contos que li recentemente. Provavelmente irei ver o filme pela primeira vez, mais que não seja pela curiosidade de perceber a vertente que terá aterrorizado algumas crianças (sim, confesso, nunca vi o filme).

Últimas aquisições digitais

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Eis uma publicação portuguesa. De capa simples e interessante, esta pequena colectânea reúne cinco autores de Joel Pulga. Eis parte da sinopse disponibilizada pelo autor (podem ler a completa aqui):

O Último – Aterrorizado com a ideia da morte, um homem deixa-se contaminar pelo vampirismo de forma a prolongar a sua vida indefinidamente. Porém, quando as legiões do Céu e do Inferno se enfrentam na derradeira batalha, vê-se como o último ser humano na Terra. Deixar-se-á arrastar pacificamente para um dos reinos do pós-morte?

Sasabonsam – Durante a Guerra da Guiné, um grupo de guerrilheiros guineenses abate um avião português. Ao investigar os destroços, descobrem não só que o piloto sobreviveu, mas também que este não é humano. Intelectual, um dos guerrilheiros, vê-se obrigado a enfrentar o monstro, assim como o tribalismo que infecta as mentes dos seus camaradas.(…)

Uma Demanda Literária – Na sua busca por livros raros, Cirio encontra a ilusiva livraria de Mormont, cuja localização muda regularmente, mas que se diz conter volumes quase impossíveis de achar. Contudo, mesmo depois de tudo o que passou para ali chegar, terá Cirio concluído a sua demanda?

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De seguida, eis um conjunto de livros de viagens no tempo, organizado pelo Story Bundle, um site que promove conjuntos de livros digitais a preço acessível. E qual o preço? O que quiserem por seis dos livros, 14 dólares para terem o conjunto todo. Realço que quem aderir à newsletter recebe alguns grauitamente, de tempos a tempos – esta semana enviaram uma das edições da Lightspeed, revista que costuma vir carregadinha de boas histórias.  Ainda que de menor interesse para mim (mas quem sabe para outros) encontra-se também disponível um conjunto de histórias militares pelas mesmas condições.

As novas estantes

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E chegou a vez das estantes da sala, aquelas que contêm maioritariamente comics e hardcovers. Na prateleira de cima estão as há muito lidas séries The Preacher e Fables. The Preacher é uma história simultaneamente violenta e cómica em que um padre foi possuído por uma criatura sobrenatural que lhe confere autoridade absoluta às suas palavras. Significa que se disser a alguém para contar os grãos de areia da praia, essa pessoa vai literalmente contar todos os grãozinhos (isto para dar um exemplo suave das possibilidades por detrás de tais comandos). Ah! E já disse que o padre tem muito pouco de Santo?

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Já de Fables faz lembrar a série Once Upon a Time, apesar de lhe ser anterior. Aqui as personagens das fábulas viram-se obrigadas a deixar o seu mundo, capturado por forças malignas, e acabaram no nosso mundo, sob forma humana. Os príncipes encantados são afinal homens narcisitas e egoístas que de cavalheiros pouco têm, a Branca de Neve está divorciada e o lobo mau é um detective humano que tenta ganhar a confiança dos outros elementos da sua sociedade. Fábula após fábula, as histórias e as personagens vão mostrando as decepções de vida em que se transformaram os contos, histórias de encantar que não conseguem sobreviver ao quotidiano.

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Outra série que me fascinou foi 1602. Pelo menos o primeiro volume. Neste mundo alternativo ao clássico mundo Marvel, os mesmos poderes surgiram alguns séculos antes, durante os descobrimentos. Depois de uma interessante primeira aventura, a mesma premissa é explorada em 1602 – New World e 1602 – Fantastic Four. Enquanto que em New World conhecemos um homem aranha diferente na colónia Virgínia, em Fantastic Four conhecemos o grupo de heróis numa peça de teatro que tentará salvar Shakespeare.

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E também nestas estantes que residem alguns dos livros de Neil Gaiman, começando por Mirrormask, um livro representativo do filme de mesmo nome, de história estranha, mas bastante estimulante em termos visuais, relembrando por vezes quadros de Dali, ainda que numa faceta mais negra. Se em Mirrormask a história não é o forte, já o mesmo não se pode dizer de Neverwhere. Tendo conhecido a história primeiro em livro e só depois a representação das personagens na banda desenhada, tenho a dizer que o que tinha imaginado não de adequa muito ao estilo apresentado. Ainda assim, é uma história espectacular, uma transformação da cidade cinzenta e opressiva, que ganha espaço e magia no submundo, uma realidade paralela e invisível à maioria dos citadinos, demasiado presos ao seu dia-a-dia.

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Do lado direito encontram-se dois dos livros mais recentes do autor: The Sleeper and the Spindle e Hansel & Gretel. Uma que adorei, outra que nem tanto. Se a primeira transfigura de forma fantástica duas conhecidas fábulas, dando profundidade e novos sentidos à Branca de Neve e à Bela Adormecida, em cenários a três cores (preto, branco e dourado) de tirar o fôlego; já o segundo apresenta-se tão negro quanto a capa contando uma conhecida história sem lhe acrescentar nada de novo, nem às personagens, nem aos acontecimentos.

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E porque faleceu recentemente, aproveito também para destacar um conjunto das obras de Terry Pratchett: três bandas desenhadas baseadas nos seus livros (Eric, The Colour of Magic e The Light Fantastic), Homenzinhos Livres (publicado pela Saída de Emergência) e Hogfather. Para quem não conhece este Universo, e para dar uma noção do nonsense que neles habita, basta descrever o mundo em que decorre, um disco suportado por quatro elefantes, por sua vez sustentados por uma tartaruga gigante. Ainda. A morte é uma personificação originada pela crença dos humanos, tal como outras figuras imaginárias como o Pai Natal. Já os académicos são um bando de lunáticos, demasiado centrados nas suas próprias experiências para se preocuparem com o mundo que os rodeia. E isto são apenas alguns detalhes do extenso mundo, carregado de sátiras em relação aos costumes e hábitos humanos.